O marketing do escândalo

A lição de Confúcio não prescreve. Ainda mais nos dias atuais. Ele escreveu: "Se puderes resgatar as penas de dez travesseiros abertos no alto de uma colina em uma noite de tempestade, poderá resgatar a honra de uma pessoa caluniada".

Inúmeros são os casos em que a imprensa tem se arrogado o papel da Justiça. Assumir funções típicas da Justiça é recorrente na atividade jornalística. Há certa compreensão de que jornal é fórum, repórter é magistrado, editor é ministro de tribunal superior. E quando este é o quadro resta-nos apenas ver o desvirtuamento da informação fidedigna em atos de autoridade prepotente.

Em 1993 escrevia Joaquim Falcão em artigo publicado na imprensa carioca e que permanece tão atual quando à época de sua publicação: "Não raramente hoje, alguns jornais, ao divulgarem a denúncia alheia, acusam sem apurar, processam sem ouvir, colocam réu sem defesa na prisão da opinião pública; enfim, condenam sem julgar". E quando isto ocorre vemos justiçamento e não justiça. É imensa a distância separando um conceito do outro.

Verdade contrabandeada

Estas percepções surgem quando cotejo a cobertura das quatro revistas semanais de informação e as capas dos principais jornais diários nestes últimos três meses. Existem tiros demais, vítimas demais. E também verdade de menos, isenção de menos, muito menos. Isso me faz lembrar afirmação do jornalista inglês Paul Johnson quando em meados dos anos de 1990 em um artigo afirmava que "a mídia é uma arma carregada quando dirigida com intenção hostil contra um indivíduo". E há muita intenção hostil no noticiário, daí que estamos sempre há bem poucos metros do pelotão de fuzilamento instituído pela mídia.

Cláudio Abramo personificava sua própria máxima ao dizer que o jornalismo era "o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter". É que não havia distância entre intenção e gesto no caso do autor da frase. Ele sabia muito bem a regra do jogo (sem trocadilho com o famoso livro).

É bem desagradável o sentimento que temos quando vemos campanha lançada por jornal defendendo ou acusando esta ou aquela ideologia, este ou aquele pensamento político, filosófico, religioso. Parece faltar inteligência ou a quem criou a campanha ou ao distinto público-alvo da mesma. E faltou coragem de dizer com todas as letras quem está por trás da tal campanha.

Para ser coerente com a definição de Abramo somente aceitando que estamos diante de qualquer coisa, mas não de jornalismo. Quando revista semanal se transforma em porta-voz de partido político algo de muito errado está acontecendo. Da mesma forma quando rede de televisão se notabiliza na defesa intransigente de ponto de vista eminentemente religioso, logo somos alcançados pelo mau odor exalado pelo preconceito e o fanatismo.

E só não há erro se o veículo de comunicação atua com transparência deixando o público saber a serviço de que agremiação se encontra. É aqui que mora o perigo: não temos tradição de nossos jornais e revistas cerrarem fileiras com esta ou aquela corrente política. É sempre por debaixo do pano que a verdade é contrabandeada – e a credibilidade do veículo de comunicação começa a decair quando seu público reconhece por si mesmo que há um marketing por trás dessa ou daquela capa, dessa ou daquela cobertura.

Passagem do tempo

É o marketing do escândalo. As vítimas serão sempre aquelas que se atrevem a discordar da opinião, da crença defendida pelo canal de televisão, jornal, revista, emissora de rádio, portal na internet. O procedimento padrão aplicado é minimizar ao máximo o contraditório, garantia mínima que é para o Estado democrático, deixar passar ao longo da cobertura qualquer pluralidade de pensamento, qualquer fato novo investigado que tenha força suficiente para frustrar o resultado desejado. Procedimento que maximiza as opiniões que fortalecem a linha editorial pretendida, que lhe concede repercussão indevida como forma de atender a interesses outros que não aqueles defendidos pelos que praticam o bom jornalismo.

A lógica do marketing do escândalo inclui, sim, a possibilidade de retificação do erro cometido, do excesso havido, mas sempre o fará de maneira frágil, envergonhada, vulnerável e inteiramente desproporcional ao impacto ou conseqüências do mal protagonizado.

Penso haver tão-somente um antídoto a essa forma enviesada do fazer jornalismo no Brasil. E seria um choque de ética nas relações dos jornalistas com suas matérias, com suas fontes, com os fatos, com a idéia do contraditório, com a já esquecida prática de, antes da publicação, ter buscado, honestamente, ouvir o outro lado. Quando penso em ética não penso em consciência amordaçada. E nem penso em notícias em constante descompasso com a passagem do tempo. Penso, apenas, no direito que todos temos de ter acesso a notícia com maior qualidade, mais apurada, texto correto e preciso. Será pedir muito?

Reino inferior

Séculos atrás Luis de Camões escreveu esses belos versos: "Mudam-se os tempos,/ Mudam-se as vontades/ Muda-se o ser, muda-se a confiança/ Todo o ser é feito de mudança/ Assumindo sempre novas qualidades."

Bem conhecida a frase da escritora estadunidense Lilian Hellman (1905-1984): "As pessoas mudam, mas esquecem de comunicá-lo". O mesmo acontece com os meios de comunicação. Nascem com uma proposta editorial clara e aos poucos, ao longo do caminho, vão se desfazendo daquele espírito impulsor que lhe dava substância. Esquecem, também, de comunicar a mudança aos leitores, ouvintes, telespectadores.

Nada contra a mudança, afinal já faz parte da filosofia dos caminhões: "A única coisa que não muda é a mudança". O problema com os meios de comunicação é que eles mudam e nada fazem para assumir as conseqüências da mudança. Faz-nos recordar aquela famosa atriz que, em busca do tempo perdido, decide fazer plástica no rosto. Uma vez feita, esta lhe altera os traços fisionômicos, reduz significativamente os sulcos que o arado do tempo fez, mas, a atriz, mesmo diante da contraprova ante o espelho, ainda assim não se dá por vencida e volta a jurar, uma e mil vezes, que jamais passou perto de um bisturi. Dá para acreditar?

A prisão da opinião pública – com sua atual superlotação – tem como alicerce os escombros de uma ética jornalística profundamente abalada. Este entulho é representado pelo desabrido jogo político conspurcando o livre trânsito da informação e o desenfreado balcão de negócios em que esta mesma informação é moeda corrente.

A opinião pública, quando trancafiada nos cárceres do mau jornalismo, fere de morte um direito humano básico, fundamental. Refiro-me ao direito que trata da liberdade de pensamento, de opinião, de crença. E se esse direito é subtraído ao patrimônio de humanidade que carregamos assim como o corpo carrega sua sombra, então renunciamos à nossa humanidade e passamos a integrar um reino inferior, qual mineral, qual vegetal, qual animal irracional.

* Washington Araújo é mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo.

Internet pela tomada está liberada no país

Depois de adiar duas vezes a votação, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) finalmente aprovou nesta terça-feira (25) as regras para o uso da internet via rede elétrica no Brasil e também para transmissão de vídeo e voz, viabilizando os serviços de TV por assinatura. Conhecida mundialmente pelo nome de BPL (Broadband over Power Lines) ou PLC (Power Line Communications), o novo sistema também já recebeu o aval da Anatel.

Como mais de 90% da população brasileira tem acesso à eletricidade, a internet via tomada promete democratizar o uso da web,. Comunidades em áreas rurais e de baixa renda, por exemplo, poderão usufruir o sistema. Além disso, a novidade vai estimular a competição em um mercado dominado pelas empresas de telefonia fixa. Hoje, o serviço de banda larga é restrito a 11 milhões de assinantes.

Para se conectar, basta adquirir um modem compatível e plugar na tomada. A velocidade de conexão poderá chegar a 200Mps — o que é considerado um número relativamente alto. As datas para implementação e o preço do novo sistema ainda não foram definidos.

Antônio Rosa, superintendente comercial da Rede TV! e autor do livro Atração Global — A Convergência de Mídia e Tecnologia, acredita que a internet via rede elétrica tem tudo para vingar no Brasil. “Com certeza dará muito certo. A Cemig, de Minas Gerais está a frente das demais operadoras, pois testa o sistema a mais de cinco anos. A Eletropaulo, em São Paulo e a Light no Rio de Janeiro, também já solicitaram para Aneel liberação para comercialização do produto.”

Como funciona

O PLC é uma tecnologia utilizada há muito tempo e em diversos países como explica Rosa. “Tudo começou em 1991 em Manchester, na Inglaterra quando foi testada pela primeira vez.”

A implementação do projeto não deve ser complexa. Toda a transmissão de dados será feita pela estrutura já existente de distribuição de energia elétrica. As companhias telefônicas terão que disponibilizar a utilização de suas redes para os interessados em explorar o serviço de transmissão de dados ou poderão abrir empresas subsidiárias.

Além disso, 90% da receita auferida por ela com o aluguel da rede serão encaminhados para a modicidade da tarifa de energia elétrica, ou seja torná-la acessível, e os outros 10% ficarão para acionistas. O valor do aluguel será negociado entre as partes.

A demora da Aneel para aprovar as regras do PLC pode ser atribuída ao conflito de interesses entre as companhias de telefonia, TV por assinatura e provedores de internet. “As empresas do setor poderiam operar o chamado e desejado Triplo Play, que é o envio de: Dados, Telefonia e Televisão. Então a Aneel teve que consultar a Anatel, que e a agência reguladora do setor de comunicação e isto está gerando um enorme estresse, pois esta modalidade concorreria diretamente com as operadoras de telefonia, TV por assinatura e provedores de internet”, afirma Rosa.

Problemas

Há ainda outros empecilhos que colocam em dúvida a eficácia da internet via tomada. Teme-se que os fios de cobre com que a frequência interferira em alguns equipamentos eletro-eletrônicos, por fazer com que os dados gerem ruído no espectro eletromagnético.

Também existe a possibilidade de que o sinal de rádios e outros interfiram na conexão. Mas, a solução do problema pode ser simples, basta as concessionárias de energia instalarem uma grande quantidade de repetidores e roteadores junto aos transformadores, para amplificar o sinal de dados e evitar as oscilações nos pontos de segmentação da rede elétrica.

Cultura estreia dois canais da multiprogramação

A TV Cultura começou a explorar o universo da TV digital com a estréia de dois canais no espaço da multiprogramação: o Univesp TV e o MultiCultura. Eles podem ser sintonizados por meio de um conversor digital nos canais 24.2 e 24.3. A cerimônia de inauguração aconteceu nesta quarta-feira (26/08).

Para o presidente da Fundação Padre Anchieta, Paulo Markun, a iniciativa inaugura a TV digital no Brasil.

“Tudo aquilo que nós vimos ou ouvimos dizer sobre televisão digital era apenas um instrumento para apresentar a mesma coisa com mais qualidade. A TV Digital que a TV Cultura exibe a partir de hoje acrescenta conteúdo, dando a oportunidade de educação de qualidade gratuita para milhões de pessoas no estado de São Paulo e talvez, no momento seguinte, no Brasil inteiro”, explica Markun.

MultiCultura

O MultiCultura exibirá programas do acervo da TV Cultura produzidos  nos últimos 40 anos, incluindo especiais, como o Roda Viva presidenciáveis, e entrevistas raras, como João Cabral de Mello Neto no Primeiro Plano, exibido em 1974.

A Univesp TV será dedicada exclusivamente ao programa Universidade Virtual do Estado de São Paulo, que amplia o acesso da população paulista ao ensino superior público de qualidade. A partir de 2010, além de três horas de programação inédita por dia, terá programas ao vivo no horário das atividades presenciais, que servirão como ponto de partida para as discussões das atividades em aula.

UnivespTV

Geraldo Alckmin, secretário de desenvolvimento de São Paulo, informa que o primeiro curso será o de graduação em Pedagogia, que começa em março de 2010. O curso terá 70% das aulas à distância e 30%, presenciais com tutores. Mais de três mil alunos de 40 cidades serão beneficiados.

Além do curso da Fatec, o UnivespTV oferecerá  cursos gratuitos de línguas para cerca de 10 mil alunos, sendo 7,5 mil de inglês e 2,5 mil de espanhol.

A Univesp TV é um canal com estrutura própria, apesar de partilhar algumas áreas operacionais com a TV Cultura. A equipe de criação é totalmente independete, formada por 30 profissionais. A programação do primeiro mês está definida.

“Vamos colocar no ar neste primeiro mês, além dos Cientistas do Brasil, o programa Escola Chinesas. É uma série de cinco episódios produzida pela BBC, que mostra o cotidiano de três escolas chinesas em uma pequena província do país”, explica Mônica Teixeira, coordenadora da Univesp TV.

Johnny Saad pede para setor rever a participação na Confecom

Johnny Saad, presidente da Abra, associação de radiodifusores encabeçada pelo Grupo Bandeirantes e pela RedeTV!, fez na abertura do Congresso da SET, nesta quarta, 26, um apelo às empresas para que revejam suas posições em relação à Confecom. Segundo Saad, a conferência é uma oportunidade de fazer uma revisão do setor de mídia e que deveria ser um momento de união. "Se formos (à conferência) divididos, vamos enfraquecer o setor", disse. Segundo ele, é preciso discutir a possibilidade de se fazer multiprogramação na televisão e, sobretudo, qual será o modelo de negócios permitido. "Não brigamos pelo sistema mais avançado, que permite mobilidade, multiprogramação e HD? E agora não vamos discutir o modelo de negócios? Esse setor tem problema, a ficará pior se não discutirmos o modelo", disse. A multiprogramação, em sua opinião, seria uma forma de garantir o aumento da oferta de conteúdo ao telespectador. "Nós temos visto a criação de novos canais brasileiros? Eu não vi!", disse no congresso dos engenheiros de televisão. Vale lembrar, a Abra entrou com um pedido de liminar para suspender a proibição da transmissão em multiprogramação nos canais digitais. O julgamento de mérito deve levar algum tempo, já que o tribunal responsável pela análise pediu para ouvir o Ministério Público antes de tomar uma decisão.

"Nós precisamos produzir mais e produzir no Brasil. Para isso, precisamos desentupir vários canos", continuou o presidente da Abra. Segundo Saad, se alguém criar hoje um novo canal, "pode ser o melhor do mundo", não vai conseguir distribuição. "Precisamos de um mínimo de 50% de produção nacional na televisão", disse, levando a discussão para a TV por assinatura.

Presente na abertura, o presidente da Abert, Daniel Pimentel Slaviero, evitou a polêmica. "Estamos vivendo em um ambiente complexo. As questões colocadas pelo presidente da Abra precisam ser discutidas", disse. Seu discurso, no entanto, foi no sentido de valorizar o modelo existente. Ele lembrou o papel da radiodifusão para levar cultura, informação e entretenimento à população e garantiu que a TV e rádio continuarão sendo as mídias mais importantes no futuro.

Confecom vira tema de audiências na Câmara dos Deputados

Faltando praticamente apenas dois meses para a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), o evento passou a concentrar boa parte das atenções dos deputados que cotidianamente tratam de assuntos envolvendo a comunicação. Nesta quarta-feira, 26, os deputados da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) aprovaram um requerimento da deputada Cida Diogo (PT/RJ) para a realização de uma audiência pública sobre a situação em que se encontra os trabalhos de condução da Confecom.

Cida Diogo é presidente da subcomissão constituída neste ano especialmente para acompanhar a conferência. A data da audiência ainda não foi definida, assim como quem será convidado para o debate.

Enquanto a CCTCI organiza-se para discutir a Confecom, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) antecipou-se e fez hoje uma audiência sobre o tema. Participaram do debate a deputada Luiza Erundina (PSB/SP), representante da Câmara na comissão organizadora do evento; Jonas Valente, representante do coletivo Intervozes; e Roseli Goffman, representante do FNDC. Os parlamentares presentes no encontro lamentaram a ausência de um representante do governo na discussão. As empresas também não mandaram representantes.

Nas apresentações, os participantes fizeram um resumo dos últimos acontecimentos que encheram de polêmica a comissão organizadora da Confecom. A saída de seis das oito associações representativas das empresas foi criticada pelos presentes e a deputada Luiza Erundina lamentou o esforço que teve que ser feito para manter as duas entidades restantes. "Nós avaliamos que, apesar de as concessões terem sido grandes demais, nós conseguimos pelo menos duas associações de empresas na discussão", avaliou. As duas entidades empresariais que permanecem na organização são a Abra (radiodifusores) e Telebrasil (telecomunicações).

Quórum

O acerto feito ontem de um quórum qualificado para a votação de assuntos considerados sensíveis também foi objeto de ressalvas na audiência pública. Para a deputada, a escolha feita de estipular um mínimo de 60% dos votos, com participação de todos os três segmentos representados – empresas, movimentos sociais e governo – mantém a idéia de "veto", repudiada pelas entidades civis. "A maioria das entidades queria 50% mais um, que é o quórum de qualquer democracia", criticou.

As entidades que participaram da audiência ressaltaram que não cederam por temer que a Confecom acontecesse. "O governo convocou a conferência. Então não vimos a possibilidade de ela não acontecer", sublinhou Jonas Valente. A preocupação teria sido mais política do que prática, com o risco de que a sociedade se visse "acossada", nas palavras da psicóloga Roseli Goffman, caso se opusesse à proposta. "Não era o nosso plano A, não era o nosso plano B, nem o nosso plano C. Era o plano possível", afirmou Roseli sobre o quórum acertado.

A preocupação agora é que a regra dos 60% de votos para a aprovação de pautas polêmicas não acabe esterilizando o debate na Confecom. "É sabido que nenhum dos três blocos é homogêneo", afirmou Valente, referindo-se aos segmentos representados na comissão organizadora. "O problema é que se criou um quórum para a aprovação de matérias polêmicas que é muito difícil de ser atingido", complementou.