Liberdade de expressão: um ato para a história

O Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo viveu um dos seus melhores dias nesta quinta-feira à noite.

Eram 18h15 quando este blogueiro chegou ao local e mais de cinquenta pessoas já se aglomeravam no auditório Wladimir Herzog, que tem capacidade para 100 pessoas sentadas.

O ato começaria às 19h, registre-se.

Entramos numa das salas da diretoria da entidade pra discutir os encaminhamentos do evento e quando saimos, umas 18h45, o auditório já está lotado.

Antes de continua preciso fazer um registro, todas as fotos que você ve aqui são do blogue Falando Sozinho, do Ivan Trindade, que me autorizou a publicação e onde você vai encontrar outras boas imagens.

O ato começou às 19h20. Éramos umas 300 pessoas no auditório e uma fila de mais de 100 tentando entrar.

Ao fim, os mais pessimistas falavam em 600 presentes. E os otimistas em mais de 1 mil. Este blogueiro arrisca dizer que de 700 a 800 pessoas estiveram no Sindicato dos Jornalistas nesta quinta à noite.

Havia gente no corredor, no saguão do prédio e na rua. Algo impressionante.

E gente de diversos lugares. Um número considerável de pessoas de outras cidades e até de outros estados.

Além da presença de muitos veículos da mídia independente e livre, o que surpreendeu foi a presença maciça de órgãos da mídia tradicional. Provavelmente esses veículos esperavam que algo fosse dar errado. Ou imaginavam que a gente repetiria o fiasco do ato que ajudaram a promover na tarde de ontem na Faculdade do Largo São Francisco. E que não juntou nem 100 pessoas.

De qualquer forma é importante que se registre aqui que a relação com a imprensa comercial foi absolutamente respeitosa. Nenhum jornalista teve qualquer dificuldade pra realizar o seu trabalho.
Posso assegurar, porque fiz essa mediação, que todos foram tratados de forma democrática e respeitosa.

Havia gente do Globo, do Estadão, da Folha, da Record, da Veja etc.

Da mesa do participaram representantes da CUT, CTB, CGTB, Nova Central Sindical, MST, Altercom, Barão de Itararé, Sindicato dos Jornalistas, PDT, PCdoB e PSB.

Pelo PSB falou a deputada federal Luiza Erundina. Ela encerrou o encontro e foi a mais aplaudida da noite.

Segue a carta lida pelo Altamiro Borges, em nome do Centro de Estudos Barão de Itararé.

É importante que ela seja divulgada para todos os cantos possíveis.

Pela ampla liberdade de expressão no Brasil

O ato “contra o golpismo midiático e em defesa da democracia”, proposto e organizado pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, adquiriu uma dimensão inesperada. Alguns veículos da chamada grande imprensa atacaram esta iniciativa de maneira caluniosa e agressiva. Afirmaram que o protesto é “chapa branca”, promovido pelos “partidos governistas” e por centrais sindicais e movimentos sociais “financiados pelo governo Lula”. De maneira torpe e desonesta, estamparam em suas manchetes que o ato é “contra a imprensa”.

Diante destas distorções, que mais uma vez mancham a história da imprensa brasileira, é preciso muita calma e serenidade. Não vamos fazer o jogo daqueles que querem tumultuar as eleições e deslegitimar o voto popular, que querem usar imagens da mídia na campanha de um determinado candidato. Esta eleição define o futuro do país e deveria ser pautada pelo debate dos grandes temas nacionais, pela busca de soluções para os graves problemas sociais. Este não é momento de baixarias e extremismos. Para evitar manipulações, alguns esclarecimentos são necessários:

1. A proposta de fazer o ato no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo teve uma razão simbólica. Neste auditório que homenageia o jornalista Vladimir Herzog, que lutou contra a censura e foi assassinado pela ditadura militar, estão muitos que sempre lutaram pela verdadeira liberdade de expressão, enquanto alguns veículos da “grande imprensa” clamaram pelo golpe, apoiaram a ditadura – que torturou, matou, perseguiu e censurou jornalistas e patriotas – e criaram impérios durante o regime militar. Os inimigos da democracia não estão no auditório Vladimir Herzog. Aqui cabe um elogio e um agradecimento à diretoria do sindicato, que procura manter este local como um espaço democrático, dos que lutam pela verdadeira liberdade de expressão no Brasil.

2. O ato, como já foi dito e repetido – mas, infelizmente, não foi registrado por certos veículos e colunistas –, foi proposto e organizado pelo Centro de Estudos Barão de Itararé, entidade criada em maio passado, que reúne na sua direção, ampla e plural, jornalistas, blogueiros, acadêmicos, veículos progressistas e movimentos sociais que lutam pela democratização da comunicação. Antes mesmo do presidente Lula, no seu legítimo direito, criticar a imprensa “partidarizada” nos comícios de Juiz de Fora e Campinas, o protesto contra o golpismo midiático já estava marcado. Afirmar o contrário, insinuando que o ato foi “orquestrado”, é puro engodo. Tentar partidarizar um protesto dos que discordam da cobertura da imprensa é tentar, isto sim, censurar e negar o direito à livre manifestação, o que fere a própria Constituição. É um gesto autoritário dos que gostam de criticar, mas não aceitam críticas – que se acham acima do Estado de Direito.

3. Esta visão autoritária, contrária aos próprios princípios liberais, fica explícita quando se tenta desqualificar a participação no ato das centrais sindicais e dos movimentos sociais, acusando-os de serem “ligados ao governo”. Ou será que alguns estão com saudades dos tempos da ditadura, quando os lutadores sociais eram perseguidos e proibidos de se manifestar? O movimento social brasileiro tem elevado sua consciência sobre o papel estratégico da mídia. Ele é vítima constante de ataques, que visam criminalizar e satanizar suas lutas. Greves, passeatas, ocupações de terra e outras formas democráticas de pressão são tratadas como “caso de polícia”, relembrando a Velha República. Nada mais justo que critiquem os setores golpistas e antipopulares da velha mídia. Ou será que alguns veículos e até candidatos, que repetem o surrado bordão da “república sindical”, querem o retorno da chamada “ditabranda”, com censura, mortos e desaparecidos? O movimento social sabe que a democracia é vital para o avanço de suas lutas e para conquista de seus direitos. Por isso, está aqui! Ele não se intimida mais diante do terrorismo midiático.

4. Por último, é um absurdo total afirmar que este ato é “contra a imprensa” e visa “silenciar” as denúncias de irregularidades nos governos. Só os ingênuos acreditam nestas mentiras. Muitos de nós somos jornalistas e sempre lutamos contra qualquer tipo de censura (do Estado ou dos donos da mídia), sempre defendemos uma imprensa livre (inclusive da truculência de certas redações). Quem defende golpes e ditaduras, até em tempos recentes, são alguns empresários retrógrados do setor. Quem demite, persegue e censura jornalistas são os mesmos que agora se dizem defensores da “liberdade de imprensa”. Somos contra qualquer tipo de corrupção, que onera os cidadãos, e exigimos apuração rigorosa e punição exemplar dos corruptos e dos corruptores. Mas não somos ingênuos para aceitar um falso moralismo, típico udenismo, que é unilateral no denuncismo, que trata os “amigos da mídia” como santos, que descontextualiza denúncias, que destrói reputações, que desrespeita a própria Constituição, ao insistir na “presunção da culpa”. Não é só o filho da ex-ministra Erenice Guerra que está sob suspeição; outros filhos e filhas, como provou a revista CartaCapital, também mereceriam uma apuração rigorosa e uma cobertura isenta da mídia.

5- Neste ato, não queremos apenas desmascarar o golpismo midiático, o jogo sujo e pesado de um setor da imprensa brasileira. Queremos também contribuir na luta em defesa da democracia. Esta passa, mais do que nunca, pela democratização dos meios de comunicação. Não dá mais para aceitar uma mídia altamente concentrada e perigosamente manipuladora. Ela coloca em risco a própria a democracia. Vários países, inclusive os EUA, adotam medidas para o setor. Não propomos um “controle da mídia”, termo que já foi estigmatizado pelos impérios midiáticos, mas sim que a sociedade possa participar democraticamente na construção de uma comunicação mais democrática e pluralista. Neste sentido, este ato propõe algumas ações concretas:

– Desencadear de imediato uma campanha de solidariedade à revista CartaCapital, que está sendo alvo de investida recente de intimidação. É preciso fortalecer os veículos alternativos no país, que sofrem de inúmeras dificuldades para expressar suas idéias, enquanto os monopólios midiáticos abocanham quase todo o recurso publicitário. Como forma de solidariedade, sugerimos que todos assinemos publicações comprometidas com a democracia e os movimentos sociais, como a Carta Capital, Revista Fórum, Caros Amigos, Retrato do Brasil, Jornal Brasil de Fato, Revista do Brasil, Hora do Povo entre outros; sugerimos também que os movimentos sociais divulguem em seus veículos campanhas massivas de assinaturas destas publicações impressas;

– Solicitar, através de pedidos individuais e coletivos, que a vice-procuradora regional eleitoral, Dra. Sandra Cureau, peça a abertura dos contratos e contas de publicidade de outras empresas de comunicação – Editora Abril, Grupo Folha, Estadão e Organizações Globo –, a exemplo do que fez recentemente com a revista CartaCapital. É urgente uma operação “ficha limpa” na mídia brasileira. Sempre tão preocupadas com o erário público, estas empresas monopolistas não farão qualquer objeção a um pedido da Dra. Sandra Cureau.

– Deflagrar uma campanha nacional em apoio à banda larga, que vise universalizar este direito e melhorar o PNBL recentemente apresentado pelo governo federal. A internet de alta velocidade é um instrumento poderoso de democratização da comunicação, de estimulo à maior diversidade e pluralidade informativas. Ela expressa a verdadeira luta pela “liberdade de expressão” nos dias atuais. Há forte resistência à banda larga para todos, por motivos políticos e econômicos óbvios. Só a pressão social, planejada e intensa, poderá garantir a universalização deste direito humano.

– Apoiar a proposta do jurista Fábio Konder Comparato, encampada pelas entidades do setor e as centrais sindicais, do ingresso de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) por omissão do parlamento na regulamentação dos artigos da Constituição que versam sobre comunicação. Esta é uma justa forma de pressão para exigir que preceitos constitucionais, como o que proíbe o monopólio no setor ou o que estimula a produção independente e regional, deixem de ser letra morta e sejam colocados em prática. Este é um dos caminhos para democratizar a comunicação.

– Redigir um documento, assinado por jornalistas, blogueiros e entidades da sociedade civil, que ajude a esclarecer o que está em jogo nas eleições brasileiras e que o papel da chamada grande imprensa tem jogado neste processo decisivo para o país. Ele deverá ser amplamente divulgado em nossos veículos e será encaminhado à imprensa internacional.

Governo argentino já distribuiu mais de 120 mil set-top boxes

Reproduzido do TelaViva News

 

Segundo o noticiário argentino NexTV Latam, o governo da Argentina já distribuiu gratuitamente mais de 121 mil caixas receptoras de sinais de TV digital terrestre. Osvaldo Nemirovsci, coordenador geral do Sistema Argentino de TV Digital, afirmou ao noticiário que uma média de 1,5 mil caixas são despachadas diariamente pelo correio do país. A distribuição de equipamentos deve ser ampliada a diferentes áreas do país acompanhando a instalação dos transmissores.

Nos próximos 60 dias devem começar a operar os transmissores de Campana, Baradero e Luján, localizados na província de Buenos Aires. Até o fim do ano, La Plata, Resistencia (na província de Chaco) e San Miguel de Tucumán (na província de Tucumán) também contarão com transmissores digitais.

A expectativa do governo argentino é que até 2012 cerca de 100 transmissores devem estar irradiando sinais digitais, cobrindo 95% do território nacional. O restante da população deve ser atendido por satélite. Há planos de instalação de antenas e set-top boxes para recepção satelital em 8,1 mil escolas rurais está marcada. Até março de 2011, cerca de 2 mil já estarão equipadas. (Da Redação)

França começa a “caçar” internautas que realizam downloads ilegais

A lei anti-downloads francesa começa a entrar em funcionamento, com o governo daquele país iniciando a “caça” aos internautas que realizam downloads ilegais. Segundo o jornal espanhol El País, os provedores (ISP’s) locais já receberam a primeira lista de endereços IPs e agora eles têm a missão de identificar os titulares, suspeitos de baixar músicas e filmes ilegalmente.

Os ISP’s agora terão oito dias para identificar seus titulares e retornar as informações para as autoridades governamentais. Estas, por sua vez, de posse dos dados, enviarão uma primeira advertência por escrito aos internautas identificados, avisando que downloads ilegais foram detectados em seu computador e exigindo que ele interrompa a prática. Caso mais downloads sejam detectados, o titular receberá uma segunda notificação. Na terceira, ele será multado e sua conexão, cortada.

A primeira lista de IPs contém centenas de direções. Os provedores de acesso são obrigados a fornecer a identidade e o endereço do titular. A empresa que não o fizer será multada em 1500 euros para cada IP não identificado.

As sociedades de gestão, um dos setores responsáveis pela execução da lei, podem enviar às autoridades francesas até 150 mil IPs por dia. A partir daí, há uma seleção de endereços IPs, que são enviados aos provedores de acesso. Por enquanto, estima-se que 10 mil IPs foram filtrados apenas no caso de downloads musicais.

Um dos problemas enfrentados pelos provedores está nos custos adicionais gerados pelo rastreamento e identificação destes IPs, uma despesa que as empresas do setor não querem arcar.

Outra polêmica que envolve a lei anti-downloads francesa é que ela prevê punições tanto ao autor do download ilegal quanto aquele que é o titular da conexão, que não teria tomado as devidas precauções para impedir a prática por parte de terceiros.

“Os veículos deveriam se posicionar em relação a candidatos ou partidos”

[Título original: Vivência surge como forte influência na opinião pública]

 

Não existe política sem visibilidade, nem mídia sem a pauta política. Uma e outra são absolutamente dependentes. A novidade que se observa, no contexto atual da política e a opinião pública, é a questão da vivência. Porque ocorre uma mudança geral do País, as pessoas que usufruem dos benefícios das ações políticas do governo hoje opinam favoravelmente sem nem mesmo circular na internet ou ter acesso aos meios de comunicação. Esses aspectos, de acordo com a professora e pesquisadora em Comunicação e Política Maria Helena Weber*, são significativos para formar a opinião do eleitor e por isso vimos que o modo como a grande mídia aborda a política não vem se refletindo nas pesquisas de intenção de voto. Leia a seguir.

A abordagem da mídia brasileira sobre a política não tem se refletido nas pesquisas de intenção de voto para as eleições de outubro. Quem e como está formando a opinião do eleitor?

Acho que pelo menos na Universidade e nos centros de pesquisa que trabalham com Comunicação e Política já se ultrapassou essa ideia de dominação, ou seja, de opinião pública formada pelos jornais, pelas revistas, pela televisão. Isto estaria dentro de uma teoria chamada hipodérmica, na qual as pessoas estão sujeitas a tudo aquilo que a poderosa mídia disser, sem pensamento, sem opiniões, sem vivências.

Dito isso, se pode verificar no Brasil alguns aspectos. Num deles, que faz parte de minha pesquisa, estão as complexas, grandes e qualificadas estruturas de comunicação que os poderes – o Executivo, especialmente – montaram em função de fazer sua própria comunicação. Isso é legítimo, e há uma enorme produção de informações, notícias, de propaganda, de prestação de serviços, de produção de eventos. A quantidade de informações que circula nessa mega rede, com profissionais qualificados, com equipamentos, alta tecnologia, compete diretamente com a produção de informações da mídia. Tem uma audiência, um acesso permitido à comunicação gerada pelo governo.

O outro aspecto é que a internet possibilita a circulação, as informações de larga escala e de modo incontrolável de grupos, digamos, em torno de determinado candidato, de determinadas ações do governo, ou do Legislativo, do Judiciário. Então, é outro status de circulação de opinião.

Acho que especialmente as pesquisas de aprovação do presidente [Lula] é o que chamamos a questão da vivência. Então, temos uma mudança geral do País – e não sou eu a dizer isso, estão aí as estatísticas nacionais, internacionais, de que há uma mudança de padrão de comportamento, de consumo, de vida, de padrão econômico, no plano da Educação. São muitos projetos políticos, como o Bolsa Família, o Prouni, aumento dos investimentos em pesquisas, casa própria e assim por diante. É uma longa lista.

Essas ações políticas são vivenciadas, ou seja, as pessoas que usufruem dos benefícios destas ações políticas vão opinar favoravelmente. Então, elas não precisam nem circular na internet, nem ter acesso aos meios de comunicação, nem mesmo ler aquilo que o governo faz. Acho que esses três aspectos são significativos para formar uma opinião.

A mídia seria um quarto ponto – sendo que nenhum deles é maior que o outro – e tem a ver com a informação que circula pelos veículos, que atinge determinados líderes de opinião.

Nesta campanha, a mídia vem atuando como partido político?

Eu não gosto e não uso essa classificação. Primeiro, porque para ser um partido político tem que ter um projeto político, um projeto de governabilidade, uma ideologia de representação. O que eu acho que a mídia está fazendo – fora alguns veículos que se posicionaram formalmente às eleições, como a [revista] Carta Capital, por exemplo – é não defender o candidato que eles gostariam, mas desqualificar e desconstituir o outro. Esta tem sido uma estratégia que eu nunca vi, antes, de modo tão ostensivo.

Quando a gente diz que a mídia se comporta como um partido político, podemos estar simplificando uma questão que eu acho muito complexa. A mídia defende determinados interesses políticos, defende o seu próprio negócio, ou não se agrada de um projeto político, mas não propõe outro, apenas o desqualifica.

Por outro lado, acho que a mídia continua cumprindo o seu papel de vigilância, de denúncia, acompanhamento, etc. Como ela faz isso, como ela associa determinadas denúncias aos candidatos, bom, aí é onde a gente pode verificar esta estratégia de desqualificar um candidato em prol de outro.

Mas eu não acho que os meios de comunicação estejam, agora, agindo como partido político, porque aí nós teríamos que pensar em muitos partidos, o partido da [Rede] Bandeirantes, o partido da [Editora] Abril, o partido da Folha de São Paulo, o partido do O Estado de São Paulo. Acho que isso seria simplificar a questão que é bem mais complexa em função da centralidade que os meios de comunicação têm, de dar oportunidade de visibilidade – a quem eles permitem -, apesar da legislação.

Os veículos de comunicação brasileiros deveriam se posicionar claramente sobre suas posições políticas (esquerda/centro/direita) ao invés de se autointitularem "imparciais"?

Há o mito da imparcialidade da imprensa. É claro que para alguns não existe. Acho que os veículos deveriam se posicionar em relação a determinados candidatos ou partidos – se posicionar à esquerda ou à direita é complicado, por não identificarmos esses limites – e assim não precisariam desconstituir o outro. Mas nós não temos a tradição de uma imprensa posicionada.

Se olharmos a Carta Capital, que já declarou seu voto, por exemplo, veremos que mesmo tendo aberto voto ela não está fazendo a defesa do governo.

Existe equilíbrio no relacionamento entre política e mídia, ou uma se beneficia em detrimento da outra?

Acho que elas são mutuamente dependentes. Não existe, hoje, política sem visibilidade. A política tem que fazer a prestação de contas, os poderes têm que fazer a promoção de projetos políticos. Essa mega estrutura que eu falava, de comunicação, é uma prova disso. Então, não tem como as fazer existirem sem que haja essa ligação.

Por outro lado, só o governo falar sobre si será suspeito, por mais correta que seja a informação. A mídia vai servir sempre como um balizador, por mais que ela faça aquilo que o governo ou os partidos não gostem. Na mídia, existe a possibilidade do contraditório, que a informação do governo não permite.

Mas a mídia é absolutamente dependente do político. Dos investimentos do governo, das verbas para propaganda e da própria matéria política. Imagine um jornal ou uma TV sem essa pauta. Não existe. Assim como a política está profundamente entrelaçada com a nossa vida, ela está também com o funcionamento da mídia. Elas são dependentes, não há possibilidade de ser diferente. Num regime autoritário, por exemplo, a primeira coisa que se faz é calar a mídia, por mais que ela tenha sido consorciada em algum momento. Então, a dependência é absoluta de um e de outro.

A convergência das mídias impõe a criação de um novo marco regulatório para as comunicações. Que regras poderiam ser criadas para equilibrar a relação entre mídia e política? Ou essa relação não deve ser regrada?

Acho que tanto as associações como os sindicatos, quanto a Conferência Nacional de Comunicação [Confecom] buscam regras, formas de observação da produção de comunicação e daquilo que é o comportamento da mídia. O que alteraria essa situação, primeiro, é termos um maior número de mídias com mais espaço para circulação de outro tipo de opinião, outras propostas editoriais. Mais mídias.

Por outro lado, existe a busca por uma legislação que possa de alguma maneira controlar os abusos de um lado e de outro. Assim como não podemos permitir que a política e os governos dominem os meios de comunicação, não podemos permitir que esses meios, por exemplo, mintam sobre os governos. Temos que privilegiar que ambos exerçam o seu papel.

Um exemplo é a quantidade de pesquisas, teses e dissertações que nós [meio acadêmico] temos sobre meios de comunicação e os domínios, comportamento, fazendo vistorias sobre a mídia, sobre o jornalismo, a política, a propaganda. Essa produção toda de pesquisa está disponível, mas é algo que não aparece, não interessa nem aos meios de comunicação, nem à própria política. Acho que um acerto seria uma relação mais particular, mais consequente entre a produção de pesquisa acadêmica sobre os meios de comunicação e aqueles que a usam.

Penso que tem de haver mecanismos de privilegiamento da ética, de controle do investimento – a questão econômica, por exemplo -, de quem detém o poder da mídia.

Quais as principais semelhanças e diferenças do comportamento da grande mídia no período de processo eleitoral atual e no anterior? A entrada da internet como meio de campanha, no Brasil, já define mudanças significativas no comportamento do eleitor?

Eu só poderia fazer essa avaliação de modo mais assertivo depois, visto que as eleições ainda estão em andamento. Mas acho que sim, a internet altera a relação com os candidatos, o processo eleitoral, a partir do momento que ela começa a criar novos grupos, via blogs, via twitter, enfim.

Em todas as mídias sociais, novos grupos de debates e críticas foram sendo fortalecidos. Isso quer dizer que há outra dimensão de informação e de opinião – eu me fortaleço no grupo que eu circulo, que é diferente do cara que lê o jornal e comenta com o cara de outro grupo.

Acho que nessas eleições, uma mudança é a questão das redes sociais e também o uso que os partidos e os candidatos estão fazendo desse status. É possível ter acesso à campanha via internet, atividades, agenda, de maneira bem mais qualificada do que era antes. A grande mídia, de maneira geral, mostra um pouco de desconforto, digamos, diante da possibilidade de continuidade deste projeto político do governo atual.

 

 

*Maria Helena Weber, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), possui mestrado em Sociologia e doutorado em Comunicação. É coordenadora do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Informação da Ufrgs. Secretária da Asssociação de Pesquisadores em Comunicação e Política – COMPOLITICA. Pelo CNPq, desenvolve o projeto de pesquisa “Sistemas e Estratégias de Comunicação do Estado Brasileiro, Entre a Visibilidade e o Interesse Público”. Autora do livro "Comunicação e Espetáculos da Política" (2000) e co-organizadora dos livros "Estratégias e Culturas da Comunicação" (2002), "Tensões e Objetos da Pesquisa em Comunicação" (2002) e "Livro da XI Compós estudos da comunicação" (2003). Escritora.

 

 

As senhoras de Santana da imprensa

Em 1980, surgiu em São Paulo um grupo de mulheres preocupadas com a “imoralidade” que tomava conta da televisão. Sobretudo com os programas que surgiam naquela década falando abertamente de sexo, como o da hoje candidata a senadora Marta Suplicy no TV Mulher. Apelidadas de “senhoras de Santana”, por serem moradoras do bairro com este nome, elas marcaram época e viraram sinônimo do atraso e do conservadorismo nos costumes.

Trinta anos depois, surge uma nova geração de “senhoras de Santana”. Desta vez, não descobertas por jornalistas: são jornalistas. Instaladas em número cada vez mais volumoso nas redações, premiadas com cargos de chefia e ascensão meteórica, as senhoras de Santana do jornalismo são o exato oposto da figura mítica do repórter talentoso, espirituoso, culto e algo anarquista: têm um texto ruim de doer e nunca leram nada a não ser seu próprio veículo, mas cumprem rigorosamente as tarefas que lhes são dadas. Seu maior ídolo é o patrão.

Esqueça a imagem do jornalista concentrado, batucando com rapidez sua reportagem com um cigarro pendurado no bico. As novas senhoras de Santana do jornalismo não fumam. Aliás, deduram quem estiver fumando em ambiente fechado, como reza a lei imposta por aquele político que seus patrões adoram e que eles, obedientemente, passaram a bajular. Fumar baseado, então, nem pensar. Os repórteres de Santana são contra a descriminação de todas as drogas, até da menos nociva delas. Se as senhoras de Santana do jornalismo soubessem que andam por aí fumando orégano, fariam matérias pela proibição do uso, mesmo na pizza.

As novas senhoras de Santana do jornalismo não questionam o poder ou os dogmas da Igreja católica. Pelo contrário, fazem questão de ir à missa todos os domingos. Pior: simpatizam com a Opus Dei, a ala mais conservadora do catolicismo. São contrários à liberação do aborto e defensores do papa sob quaisquer circunstâncias, inclusive quando o suposto representante de Deus na Terra é acusado de acobertar a pedofilia.

Ao contrário do que ocorreu no passado, quando os jornalistas tiveram papel importante na luta contra a ditadura, as novas senhoras de Santana do jornalismo se especializaram em denegrir a imagem daqueles que optaram pela ação armada para combater o poderio militar. Vilipendiam os guerrilheiros com fichas falsas e biografias inventadas. O repórter Vladimir Herzog morreu enforcado nos porões do regime. Não viveu para ver a triste transformação dos “coleguinhas” em senhoras de Santana. Quando Herzog morreu, a grande maioria dos jornalistas se dizia de esquerda. As novas senhoras de Santana do jornalismo adoram pontificar que não existe mais esquerda e direita, mas são de direita.

Nem pense nos papos animados após o fechamento dos velhos homens de imprensa, varando madrugadas pelos bares da vida. As novas senhoras de Santana não bebem, vão direto para casa depois de trabalharem mais de dez horas por dia – sem carteira assinada. E ainda patrulham a birita alheia, como se fossem fiscais de trânsito 24 horas a postos com seus bafômetros virtuais. “O presidente bebe cachaça”, torcem o nariz as jornalistas de Santana. “A candidata do presidente torceu o pé. Deve ser porque encheu a cara”, acusam.

Toda vez que as novas senhoras de Santana da imprensa encontrarem aquele ator famoso que andou se desintoxicando do vício de cocaína e por isso perdeu papéis em novelas, vão torturá-lo com as mesmas perguntas: “Você parou mesmo de cheirar?” “O tratamento funcionou ou não?” Sim, os jornalistas de Santana não saem para beber porque preferem ficar em casa vendo novela. Se duvidar, as novas senhoras de Santana do jornalismo nem fazem sexo. Talvez de vez em quando, vai. Mas só papai-e-mamãe. E heterossexual, claro.

No futuro, as escolas de jornalismo serão monastérios, de onde sairão mais e mais senhoras de Santana habilitadas não só a escrever reportagens como a rezar a missa.

 

 

* Cynara Menezes é jornalista. Atuou no extinto "Jornal da Bahia", em Salvador, onde morava. Em 1989, de Brasília, atuava para diversos órgãos da imprensa. Morou dois anos na Espanha e outros dez em São Paulo, quando colaborou para a "Folha de S. Paulo", "Estadão", "Veja" e para a revista "VIP". Está de volta a Brasília há dois anos e meio, de onde escreve para a CartaCapital.