USP: TV reproduz versões e se exime de apurar

A cobertura televisiva da mobilização na USP – em especial, do ataque da Polícia Militar a estudantes, funcionários e professores ocorrido na terça-feira (9) – é exemplo de uma prática jornalística que se resume à reprodução de "aspas", em que os jornalistas abdicam de apurar e ser testemunhas mesmo havendo estado lá.

Essa tendência não é exclusiva da mídia eletrônica. Verifica-se um fenômeno semelhante na imprensa. Porém, na televisão, em que as imagens cumprem um papel central, a ausência de apuração causa uma espécie de curto-circuito: os apresentadores e repórteres não são capazes de dar conta das cenas transmitidas em seus próprios programas. Satisfazem-se em veicular "versões" (muitas vezes de um só dos "lados"), mesmo quando essas são desmentidas pelo que se vê.

Abdicando de informar

Em depoimento ao SPTV 2ª edição (9/6), da Rede Globo (ver aqui ), o comandante da operação da PM, Cláudio Longo, afirma: "Existe uma ordem pra prender alguns lideres que estão incitando essa greve".

A frase chama a atenção por dois motivos. Por um lado, indica que a ação da PM foi premeditada. Por outro, revela que não se visava garantir o propalado direito de ir e vir ou o cumprimento de mandato de reintegração de posse, como sustentam, em uníssono, a reitora e o governador do estado. Tratou-se, sim, de repressão ao direito constitucional à greve. O repórter, contudo, não compartilha do assombro; Longo não é interpelado a respeito do que dissera e a declaração não recebe o devido destaque. Posteriormente, a Globo passa a aceitar outras versões da PM, em clara contradição com essa. Apurar para quê?

Nos programas veiculados nas diferentes emissoras da TV aberta, há confusão generalizada sobre o grau de adesão à greve, as datas em que cada categoria ou unidade aderiu à mobilização e, especialmente, em relação à pauta. A edição do Jornal Nacional de segunda-feira (15/6) se esforça por apresentar de modo "didático" as reivindicações, que, segundo o telejornal, "incluem até o fim do ensino à distância". Ora, ao que saibamos, a Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) sequer começou a funcionar.

O tratamento conferido pela mídia a essa pauta específica torna evidente a abdicação do papel de informar. Os veículos afirmam, em coro, que os estudantes são contra "a criação de cursos à distância pela universidade".

Essa simplificação torna a informação incorreta. Os estudantes não são contra o ensino à distância em todas as suas manifestações, mas sim contra um projeto específico, com características específicas. O projeto que os estudantes colocam em questão, porém, foi escondido, pelas emissoras, do telespectador. O termo Univesp sequer é citado.

Tal expediente abre espaço para estigmatizar o movimento estudantil como elitista e contrário a ampliação de vagas da universidade, ao mesmo tempo em que poupa os veículos de apresentarem ao público as críticas concretas formuladas pelos estudantes ao projeto do governo do estado de São Paulo.

Ao mesmo tempo, proliferam erros pontuais: no SPTV 2ª edição, o comandante Cláudio Longo vira Cláudio Lobo; no Em cima da hora, também da Rede Globo, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas se transforma em Instituto de Filosofia e Ciências Humanas… Para evitar o enfado, nos furtamos de elencar um a um.

YouTube x televisão

Nenhum canal de televisão foi capaz de mostrar ao telespectador uma das cenas mais importantes dos acontecimentos da terça-feira (9/6): o momento exato em que teve início a repressão policial contra os estudantes. Só tiveram acesso a essas imagens aqueles que assistiram, no YouTube ou em outros espaços semelhantes na internet, aos vídeos produzidos pelos próprios estudantes.

Os cinegrafistas das emissoras de TV que estavam no local não captaram esse momento? Se esse tiver sido o caso, não era possível reproduzir as imagens independentes? Ao não fazê-lo, as emissoras deixaram de transmitir uma informação relevante a sua audiência.

As imagens mostram com clareza que o início do "confronto" foi, na verdade, uma ação unilateral da força policial. No momento em que a polícia jogou a primeira granada contra os manifestantes (como registrado aqui), não havia policiais cercados ou sob ameaça – e, muito menos, qualquer agressão dos estudantes contra eles.

Na falta de imagens, os veículos da grande imprensa abdicaram da busca pelos fatos, optando por apresentar como possíveis as diferentes versões sobre o início – ainda que algumas delas, como a apresentada por Longo, pudessem ser postas abaixo pelas imagens que a televisão deixou de exibir.

Para militantes e apoiadores do movimento grevista, a veiculação de vídeos pela internet converteu-se em valioso instrumento informativo e de disputa da opinião. Celulares, câmeras fotográficas e de vídeo foram amplamente utilizados. As imagens, que se proliferaram rapidamente, constituem um registro muito mais abrangente e diversificado que o veiculado pela televisão comercial (a não ser, é claro, pelas imagens aéreas, uma exclusividade da grande mídia).

A televisão parece perder o bonde em meio a tal efervescência. Crescem os acessos aos vídeos de imagens por vezes desfocadas, trêmulas, reveladoras. Que formalmente trazem as marcas de sua fatura: imagens feitas entre golpes. Quando a câmera repentinamente aponta para o chão é o cinegrafista-estudante a apanhar da polícia. "Ô, louco, pra que isso irmão?! Cobertura [jonalística]!"

"A verdade é que, ao que parece…, né?"

Cabe especial atenção à cobertura dada aos acontecimentos pelo programa Brasil Urgente, da Rede Bandeirantes, conduzido por José Luiz Datena (disponível no site da Bandeirantes).

O apresentador reservou mais de 20 minutos de seu programa (9/6) para cobrir, ao vivo, a ação policial na USP, e contou para tanto com um helicóptero, que sobrevoava o campus Butantã, e uma equipe de reportagem no solo. O aparato permitia uma visão privilegiada da movimentação no campus, possibilitando um acompanhamento dinâmico e detalhado da situação. Ainda assim, Datena foi incapaz de transmitir aos espectadores as informações básicas sobre o ocorrido.

O que se revela é a completa dissociação entre a rua e o estúdio; o comentário do apresentador e as imagens colhidas ao vivo não se concatenam. Enquanto as imagens aéreas mostram as fileiras da Força Tática posicionadas na Cidade Universitária, em um longo e repetitivo monólogo Datena vaza suas opiniões pessoais, alternando momentos exaltados ("o pau vai comer", "vai ter porrada" etc.), com aconselhamentos conciliatórios, em tom paternalista, aos estudantes.

Ao lembrar a ocupação da reitoria da USP ocorrida em 2007, Datena comenta: "Da outra vez até que o governador Serra demorou demais pra intervir". Para ele, Serra "teve até paciência extrema", foi "condescendente demais". Com a linguagem que lhe é peculiar, Datena afirma que, violado o direito de ir e vir, os "princípios democráticos são arranhados" e "o couro come".

A falação é interrompida apenas quando novas imagens surgem na tela, captadas pela equipe no solo. Um homem caído. Por quê? Datena especula: teria ele desmaiado, nervoso com o clima de tensão? Em uma passagem símbolo da extrema dissociação entre os fatos e o comentário, vemos uma mulher que, ao lado do homem caído, gesticula e grita diante da câmera. Uma imagem muda. Em lugar de suas palavras, que poderiam trazer elementos sobre as circunstâncias nas quais o homem passou mal, ouvimos o falar de Datena, que segue aventando hipóteses.

Ora, o homem era uma vítima visível de spray de pimenta. Contudo, até esse momento, Datena não se dera conta de que a ação da polícia já acontecera. A cobertura tivera início quanto o "confronto" já estava em sua fase final, isso é, quando estudantes e funcionários estavam refugiados no prédio da História e Geografia, depois de terem sido perseguidos pela polícia por mais de 1 quilômetro.

"Parece que a PM até agora não agiu", diz Datena. Ele fala em "desobstruir ruas", quando o que se vê é um grande vazio. Por mais surreal que possa parecer, Datena – apresentador de um telejornal, ou seja, aquele na posição de informar – simplesmente desconhece o que acabara de ocorrer.

Quando, em seguida, surge a imagem de um estudante com a perna ferida por uma bala de borracha, Datena se dá conta, no ar, de que a polícia já agira. Aos 8 minutos de reportagem, conclui: "A verdade é que, ao que parece, o local já foi desobstruído, né?". A altura da coluna de fumaça focalizada na sequência apenas reafirma o atraso da cobertura.

Uma vez constatado que a operação já ocorrera, vão ao ar imagens frias, de horas antes, que Datena identifica como "o momento em que o pau quebrou". As imagens, contudo, se referem ao início do ato pacífico diante do portão da USP, que ocorrera mais de uma hora antes do "confronto". Em meio a esses tropeços, amplo espaço para a versão da PM, uma ode ao "Estado de direito" e o encampar irrestrito da tese de que a polícia só agiu porque foi provocada com pedras.

Bruno Mandelli e Daniela Alarcon são jornalistas formados pela ECA-USP.

Evento discute futuro da mídia impressa desregulamentada

Em 30 de abril, o Supremo Tribunal Federal (STF) revogou integralmente a Lei de Imprensa (5.250, de 1967) sob a alegação de que seus artigos afrontavam os princípios previstos na Constituição Federal. A decisão foi um marco não apenas pelo papel assumido pelo Judiciário na regulação das atividades de comunicaçao, mas principalmente pela defesa fortemente liberal que motivou a sentença, evidenciando afinidades entre os argumentos dos ministros do tribunal e as posições do empresariado de comunicação.

Pouco mais de um mês depois, o tema voltou à pauta em outro endereço da Praça dos Três Poderes, em Brasília, mas com os mesmos atores. Na última semana, o Congresso Nacional promoveu a IV Conferência Legislativa sobre Liberdade de Imprensa. Dessa vez, além dos ministros do STF e de representantes da grande mídia comercial, parlamentares também engrossaram o coro pela liberdade de imprensa. Não por acaso, os debates foram mediados por um dos expoentes da mídia comercial, o apresentador do Jornal da Globo William Waack.

O presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (PMDB-SP), destacou o interesse do legislativo em defender e promover a liberdade expressão. A posição foi reforçada pelo presidente do Supremo Tribunal de Federal (STF), Gilmar Mendes. “A atual luta pela liberdade de imprensa é para que se tenha o direito de falar e o governo de ouvir”, defendeu o ministro, que recentemente foi alvo de polêmica por ter mandado retirar do site da TV Câmara entrevista com o jornalista Leandro Fortes em razão críticas feitas às suas posturas.

Outro ministro do Supremo, o relator do processo que resultou na derrubada da Lei de Imprensa, Carlos Ayres Britto, reafirmou a inadequação de mecanismos como os existentes na norma em relação à prática dos jornalistas. “Na Constituição a censura é vedada e a liberdade de expressão jornalística já está considerada. Para mim, esta última já é o mesmo que liberdade de imprensa”, avaliou.

Futuro desregulado

Ao mesmo tempo em que defendeu a decisão do Supremo, Ayres Brito questionou como os veículos irão se comportar neste novo cenário desregulado: “será que os jornalistas vivem agora a insustentável leveza da imprensa?”. Para Eurípedes Alcântara, diretor de redação da revista Veja, a responsabilidade jornalística não depende da existência de uma regulamentação. “Desde que não haja má fé e malícia, pode haver a busca pela informação”, respondeu, negando a existência de “insustentável leveza”.

Havendo ou não dificuldades práticas em atuar sem a Lei, para alguns jornalistas a ausência de normas coloca desafios ao setor. “Sem a regulação há um espaço para construção de uma nova ordem com a sociedade, que ainda não sabemos como vai ser”, disse a jornalista do jornal O Globo Miriam Leitão. “Não sei se é necessário ou não uma nova lei, mas tenho dúvidas de que uma nova lei vá alterar a prática. Penso que falta uma cultura de, na prática, ser a favor da liberdade”, opinou Fernando Rodrigues, do jornal Folha de São Paulo.

O cenário de desregulamentação, quando aliado à incerteza da concorrência com novas mídias e fontes de informação, foi tratado com receio pelos presentes. Para Miriam Leitão, uma das defensoras da revogação da Lei de Imprensa, este cenário coloca o desafio da imprensa tradicional se posicionar em relação às novas mídias, como a Internet. “Em outros países os jornais estão fechando e assim a nova tecnologia nos desafia a ter um novo formato de jornalismo. Como vamos nos organizar sem Lei e com os novos desafios?”, questionou a jornalista.

O deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), que representou o seu partido na apresentação da ação que levou à supressão da Lei de Imprensa, criticou a permanência de um resquício da Ditadura Militar que dá às autoridades a sensação de imunidade a críticas. Lembrou que, apesar da Lei de Imprensa contemplar elementos como o direito dos cidadãos de responderem a mídia e se defenderem contra difamação e calúnia, ela protegia de forma exacerbada o presidente da República, do Senado Federal, da Câmara dos Deputados, ministros do STF e chefes de Estado ou de governo estrangeiro.

Nos casos em que alguma dessas autoridades acusassem os jornalistas de calúnia ou difamação, a justiça não considerava a prova de defesa que os profissionais pudessem apresentar, e tinham então que responder pela acusação. Para Teixeira, o fim de tal privilégio é importante, mas não é suficiente para que haja um controle efetivo sobre as ações do poder público. "Só se a fiscalização for plena (incluindo aí a tarefa da imprensa) a sociedade vai acreditar na democracia”, disse o deputado. Ele defendeu, ainda, que “o direito de resposta deve ser melhor entendido e utilizado pelos jornalistas, já que é um direito do cidadão”.

Publicidade

O clima de leve apreensão esquentou na segunda mesa, que tratou da regulação da publicidade. Os representantes do empresariado estenderam a noção de liberdade de imprensa às mensagens publicitárias e voltaram a fazer críticas às propostas de limitação a anúncios em tramitação no Congresso Nacional.

“Há uma tentativa de cerceamento da publicidade. Mas é justamente a livre iniciativa que fomenta o mercado publicitário, e é ele que sustenta os veículos de comunicação”, pontuou Daniel Slaviero, presidente da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e TV (Abert). Para Judith Brito, presidente da Associação Nacional De Jornais (ANJ), “o conflito sobre o grau de intervenção na informação publicitária diz respeito ao direito à informação”.

Ottoni Fernandes Júnior, sub-chefe executivo da Secretaria de Comunicação (SECOM) ponderou que a importância de evitar o excesso de restrições não pode eliminar a necessidade de regulação para coibir abusos. “Acho que a sociedade pode sim se auto-regulamentar e não pode se fazer uma patrulha, mas um mínimo de regulação deve existir”, defendeu.

Conferência de Comunicação expõe conflitos do governo Lula

Enquanto o ministro das Comunicações, Hélio Costa, entende que os meios são democráticos e manda a juventude se ‘despendurar’ da internet, o Ministério da Cultura quer mais democracia nos meios e entende como fundamentais a democratização sobre radiodifusão comunitária, produção independente e regionalização da programação. 

Quando Gilberto Gil assumiu o Ministério da Cultura em 2003, o entendimento de políticas culturais foi ampliado para um sentido antropológico. Atual ministro, o sociólogo Juca Ferreira, define que “cultura é todo campo simbólico, toda atividade que ultrapasse o limite funcional, que tenha uma carga simbólica e contribua para a subjetividade”. Assim, políticas culturais envolvem um conceito muito mais amplo do que políticas públicas para a cultura. Elas são transversais a outras políticas e direitos.

Um dos principais entraves para descobrirmos a democracia cultural é formular políticas que promovam e protejam a diversidade das expressões artísticas e culturais nos meios de comunicação e que alarguem os gargalos de concentração de poder da informação. Teóricos entendem que é impossível dissociar comunicação de cultura. O próprio Ministério da Cultura já propôs algumas políticas que obtiveram sucesso – como o debate de Cultura Digital do Cultura Viva, a ratificação da Convenção da Unesco e os Pontos de Mídia Livre – e outros projetos que acabaram massacrados pelas grandes empresas midiáticas – no caso a tentativa de regulação do setor audiovisual com o anteprojeto de criação da Ancinav.

Assim, participação de artistas e pensadores do assunto é fundamental na 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) que se aproxima. Além das incertezas sobre os temas que estarão em pauta e como acontecerão as etapas locais e estaduais (que antecederão o grande encontro em Brasília, nos dia 1, 2 e 3 dezembro), a sociedade civil não empresarial preocupa-se em criar uma arena de debates sem tabus e com a presença dos mais diferentes segmentos sociais. A intenção é que o processo seja marcado não apenas como uma discussão de técnicas e tecnologias, mas que seja uma ampla reflexão sobre democracia e a sociedade que queremos.

A Conferência é reivindicada desde 2006 por entidades como o coletivo Intervozes, Conselho Federal de Psicologia e Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária que formaram em 2007 a Comissão Nacional Pró-Conferência de Comunicação, estabelecendo diálogo com governo. culminou no anúncio do presidente Lula durante o Fórum Social Mundial, em Belém do Pará, afirmando a convocação da Conferência ainda para este ano. Em 16 de abril, o decreto de convocação da Confecom foi publicado e a as entidades que compõem a comissão organizadora foram estabelecidas pelo Ministério das Comunicações (MiniCom), responsável pela organização.

Para acompanhar os passos do ministro das Comunicações, Hélio Costa, Lula convocou os ministros Luiz Dulci e Franklin Martins (secretarias Geral da Presidência e Comunicação Social, respectivamente). Durante coletiva de imprensa por ocasião da criação da comissão organizadora, Dulci afirmou que não existem temas tabus a serem conferidos. Entre os interesses que estarão em pauta nos dia 1, 2 e 3 de dezembro em Brasília, o ministro da Cultura quer afirmar as rádios comunitárias e possibilitar a experiência de TVs comunitárias, a regionalização do acesso a exibição e veiculação dos conteúdos e democratizar os meios de comunicação para que a produção independente tenha acesso aos meios de difusão.

“O Brasil é muito resistente em mudar a legislação. Até hoje, não conseguimos regulamentar o capítulo da comunicação na Constituição, como está previsto. Os interesses são muito grandes e poderos. Mas o povo brasileiro vai conseguir fazer isso”, acredita o ministro Juca Ferreira. O Ministro da Cultura refere-se aos artigos 221 a 224 da Constituição que afirma, entre outros pontos, que “os meios de comunicação não podem ser objeto de monopólio ou oligopólio” e que a programação de radiodifusores deve atender princípios como preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente.

Porém a boa vontade governamental para por aí. Aliás, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, é defensor dos interesses das empresas de radiodifusão e fez de tudo para que a Confecom não acontecesse. Depois de convocada, Hélio Costa já afirmou que os meios de comunicação já são democráticos, portanto não é necessário debater políticas de democratização da comunicação. Além disso, o ministro quer que a Conferência olhe para as novas tecnologias e no Congresso da Abert (associação dos donos de Rádios e TVs), realizado em maio, Hélio Costa afirmou que “a juventude precisa se despendurar da internet e voltar a ver TV”.

Não bastasse a má vontade, o orçamento do MiniCom destinado para a realização da Confecom era inicialmente de R$ 8,9 milhões, mas o governo já anunciou um corte que deixa pouco menos de R$ 1,6 milhão. A criação da comissão organizadora, sem nenhuma consulta, também expõe contradições. Conforme o jornalista Vilson Vieira Jr. denunciou em seu blog, quatro parlamentares que representam o Congresso têm propriedade sobre concessões públicas de rádio e TV. A primeira reunião da comissão aconteceu no dia 1º de junho e o próximo encontro será dia 19 de junho.

Diversidade Cultural

Na abertura do Quinto Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura promovido na UFBA (V Enecut), o presidente da Fundação Cultural Palmares, Zulu Araújo, afirmou que os grandes veículos de comunciação estão promovendo um verdadeiro cerco às políticas de reparação racial a partir das cotas em universidades. “É articulado e anti democrático. A democratização da comunicação é fundamental para repararmos a concentração”, pontuou.

Para o cineasta e pesquisador mineiro Joel Zito Araújo, que também participou do V Enecult, existe um tabu que começou agora a ter uma perspectiva interessante no debate de Tv Pública, a partir dos Fóruns. Ele lembra de uma pesquisa que constatou que no ano passado o número de apresentadores de telejornais brancos era de 93% do total em todo o país. O número de programas que falavam um pouco sobre cultura negra não chegavam a 8% da programação.

“Se nós não estabelecermos uma política para implementar o orgulho da diversidade, a incorporação de forma positiva do índio e do negro, nós não mudamos. Nós estamos presos a uma mentalidade ainda do branco como a melhor representação do humano. Portanto, essa Conferência tem que incorporar esse tipo de mudança. Se a gente não começar debater essa questão nas escolas e entre os profissionais de comunicação, não avançaremos”, acredita Joel Zito Araújo.

Dinheiro do governo ignora baixaria na TV

O governo está ignorando recomendação do Ministério Público Federal para que deixe de anunciar em programas considerados de baixo nível. A recomendação foi expedida em 31 de março por Gilda Pereira de Carvalho, subprocuradora-geral da República, e encaminhada ao ministro Franklin Martins, da Secom.

A subprocuradora pediu que Martins expedisse "ordem expressa" a ministérios e estatais "para que se abstenham de patrocinar programas considerados ofensivos aos direitos fundamentais da pessoa humana ou que desrespeitem os princípios constitucionais relativos à programação das emissoras", ou seja, os listados na campanha "Quem Financia a Baixaria é contra a Cidadania", da Câmara dos Deputados.

A Secom informa que não tem competência legal para interferir na escolha dos programas por estatais e ministérios. "A escolha dos meios, veículos e programas é realizada pelos órgãos e entidades com base em critérios técnicos", diz a assessoria de Franklin Martins.

Nem a própria Secom, que gasta R$ 155 milhões em publicidade por ano, cumpre a recomendação, porque não reconhece "norma que delimite o que são programas ofensivos a direitos fundamentais". O ranking da baixaria é visto com reservas. O último é de setembro e traz o "Terceiro Tempo" no topo, por causa de reclamações de torcedores do Grêmio.

Governo eletrônico tem poucos serviços para o cidadão

A estagnação do governo eletrônico no Brasil foi um dos principais temas debatidos durante o 15º Conip – Congresso de Informática e Inovação na Gestão Pública, que se realiza esta semana em São Paulo e reúne representantes das diversas esferas do setor público. "O governo eletrônico se tornou apenas um canal a mais de comunicação", apontou Vagner Diniz, organizador do evento, levantando uma polêmica: "O governo eletrônico no Brasil morreu ou está apenas em crise?". Diniz destacou que dos 132 trabalhos inscritos nesta edição do Conip pelos gestores públicos, mais de 50% são ações para a gestão pública. "Os trabalhos voltados para o cidadão não chegam a 30% dos projetos apresentados", informou.

Na avaliação de Diniz, "o serviço de informação do governo, hoje, fala para si mesmo", enquanto a sociedade vai criando seus canais, por meio das redes sociais. "Os serviços de governo eletrônico no Brasil evoluíram muito voltado para dentro, e não para o cidadão", acrescentou Alexandre Barbosa, do Cetic.br (Centro de Estudos sobre as TICs). O secretário adjunto de Gestão Pública do governo de São Paulo, Marcos Monteiro, admitiu que os portais são, de modo geral, focados na arredação de impostos e que os governos precisam enfrentar o desafio de inserir no e-gov os direitos dos cidadãos.

O presidente da Abep, a entidade que reúne as empresas estaduais de TI, Joaquim Costa, admitiu que há um descompasso entre a necessidade da população e o que o governo oferece em serviço. Ele, no entanto, discorda "um pouco" da visão de Diniz, quando apresenta como negativo os números relativos a projetos da gestão da interna. "Como foi dito pelo João Batista (diretor da SLTI, do Ministério do Planejamento) esta estruturação interna do governo é absolutamente necessária para prestar serviços de qualidade". De acordo com Costa, se não existir uma gestão interna eficiente, não há como prestar, de forma eletrônica, um bom serviço.

Outro dado que levou os congressistas a discutirem a crise no governo eletrônico veio da pesquisa TIC Domicílios, do Comitê Gestor da Internet (CGI.br). De acordo com a mostra,  em 2008, 34% da população tinham acesso à internet; no entanto, entre os mais de 50 milhões de usuários da web, apenas 25% acessaram um portal de e-gov nos últimos 12 meses. Entre os 75% que não acessaram nenhum serviço de e-gov, 53% responderam que preferem o atendimento presencial, 20% se preocupam com a segurança de dados e 17% consideram os portais muito complicados.