CUT exige revisão dos cortes para a I Confecom

Central Única dos Trabalhadores (CUT) cobra do Ministério do Planejamento a manutenção dos recursos para a realização da I Conferência Nacional de Comunicação (I Confecom). Houve corte de 80% na verba que seria destinada ao evento.

A central sindical enviou carta ao ministro do planejamento, Paulo Bernardo, pedindo a recomposição do orçamento que foi reduzido de R$ 8,2 milhões para R$ 1,6 milhão.

Para a CUT o corte “vai na contramão do compromisso assumido pelo presidente Lula de realizar um amplo debate nacional sobre o tema.” Isso porque a redução gera esvaziamento no debate e mais dificuldades de mobilização – como já alertou Antônio Marques, da comissão estadual do Pará, à Agência Pulsar.

Segundo os cálculos da CUT, com o corte não é garantida, sequer, a participação dos suplentes da sociedade civil não-empresarial na Comissão Organizadora da Confecom. A comissão é responsável por coordenar, supervisionar, elaborar o regimento interno e realizar a Conferência Nacional de Comunicação.

O documento chama atenção para o “duro embate em curso” entre “os interesses da sociedade” e do “setor mercantil” e encerra: “Se há dois pólos em disputa e a Conferência é o primeiro grande passo nesta caminhada [pela democratização da mídia], a manutenção dos cortes seria mais do que uma pedra em favor dos inimigos da democracia e do país”.

A CUT faz parte da Comissão Organizadora, designada pelo Ministério das Comunicações. E também da Comissão Pró-Conferência Nacional de Comunicação, que reúne diversas entidades da sociedade civil não-empresarial.

Outros atores da sociedade civil e mesmo do Ministério das Comunicações vem apelando para a revisão dos cortes desde que a decisão foi anunciada, há cerca de um mês.

Comissão irá propor estágio obrigatório para jornalismo

Reproduzido do Folha Online

A comissão de especialistas que analisa mudanças no curso de jornalismo irá propor um estágio obrigatório para quem quiser obter o diploma. A ideia será levada na semana que vem ao ministro Fernando Haddad (Educação) pelos oito professores universitários que ele convocou para analisar o currículo do jornalismo.

A comissão quer também ampliar a carga horária do curso de 2.700 horas para 3.200, já com 200 horas do estágio obrigatório.

Também será recomendado às universidades que abram mais mestrados profissionais (com mais ênfase na prática) após o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. Serão propostas diretrizes curriculares específicas para o curso de jornalismo, hoje tratado apenas como uma habilitação da área de comunicação social.

 

Minicom não cumpre recomendação do MPF sobre Maísa

Na última sexta-feira (26), o Ministério Público Federal em São Paulo (MPF-SP), através da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, recomendou que o Ministério das Comunicações instaurasse um procedimento administrativo para apurar a exposição de Maisa Silva no "Programa Silvio Santos", exibido pelo SBT, nos dias 10 e 17 de maio desse ano.

Nas duas ocasiões, Maisa passou por situações de "pranto convulsivo e aparente estado de desespero, enquanto o apresentador e animador de auditório Senor Abravanel aparentava extrema tranquilidade e alegria com o desenrolar dos fatos", segundo a Assessoria de Comunicação Procuradoria da República no Estado de S. Paulo.

No dia 10, Maisa foi trancada em uma mala e se assustou. Depois, entrou em aparente desespero com a exibição de um menino mascarado. Depois, a criança ficou nervosa ao ser provocada pelo apresentador, desesperou-se e chorou ao bater a cabeça em uma câmera.

O Ministério, no entanto, se recusou a instaurar o procedimento, alegando que não há na legislação de Serviços de Radiodifusão atual nada que o obrigue a atuar no caso. O Procurador Regional dos Direitos do Cidadão, Jefferson Aparecido Dias, discordou, afirmando que "o artigo 114 do Regimento Interno do Ministério das Comunicações coloca como obrigação do órgão promover instauração de procedimento administrativo visando apurar infrações de qualquer natureza referentes aos serviços de radiodifusão".

Para o MPF, caso o órgão não apure a exposição de Maísa no SBT, pode cometer improbidade administrativa por omissão. "A omissão dos representantes do Ministério das Comunicações no presente caso poderá acarretar, em tese, a configuração de ato de improbidade administrativa e o MPF adotará as medidas cabíveis caso isso ocorra", declarou Dias.

Caso o Ministério das Comunicações acate a recomendação, o MPF pede que órgão envie, a cada 30 dias, as medidas que estão sendo adotadas dentro do procedimento administrativo instaurado.

Conferência reivindica políticas de comunicação

Mesmo sem ter oficialmente entre seus eixos temáticos a questão da “comunicação”, a 2ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Conapir) debateu a urgência de políticas públicas de corte racial para o setor. A ausência de um espaço oficial  na Conappir – sentida pelos participantes e cobrada da organização do evento – não impediu que jornalistas, comunicadores, ativistas e movimentos sociais negros conseguissem pautar o tema na Conferência.

Em reunião com o ministro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Edson Santos, eles defenderam a criação de um grupo de trabalho para formular ações governamentais sobre comunicação e igualdade racial. Diante das propostas apresentadas, Santos se comprometeu a avaliar a possibilidade de implantar uma instância com o papel de trabalhar questões relacionadas à comunicação.

A inexistência de cobertura da grande mídia comercial sobre os quatro dias de debates e os recentes editoriais contrários às políticas de cotas causaram indignação nos presentes e levantaram no evento a reflexão sobre a invisibilidade característica do tratamento dado à população negra nos meios de comunicação.

Convidado para a programação cultural da conferência, o rapper Mano Brown, do grupo Racionais MC´s, protestou contra o discurso da imprensa sobre as cotas nas universidades. “O estudante da cota não deve ser visto como um beneficiado. Tem que ser visto como um cara que trabalhou muito e não foi indenizado pelos direitos. Não como quem vai receber esmola do patrão”, defendeu Brown.

No painel temático sobre saúde, a jornalista Kelly Quirino, de Bauru (SP), chamou a atenção para a falta de cobertura jornalística a respeito da saúde da população negra. “O movimento negro tem um trabalho de longa data na questão de saúde e isso não é pautado nos jornais. Não encontro matérias sobre doenças prevalentes na população negra, como anemina falciforme e mioma uterino”, destacou Kelly, que faz mestrado em Comunicação Midiática na Universidade Estadual Paulista (UNESP).

A presidente do Geledés – Instituto da Mulher Negra, Nilza Iraci, lembrou que o Brasil não cumpre recomendações internacionais (como a Declaração e o Plano de Ação de Durban) no sentido de incorporar os meios de comunicação nas políticas de combate ao racismo: “temos feito pesquisas sobre isso e constatamos que a mídia brasileira invisibiliza a mulher negra e adota um discurso que contribui para a persistência do racismo e da intolerância religiosa”, disse.

Enegrecer a Confecom

Frente a este quadro, ativistas envolvidos com a temática defenderam a participação dos movimentos e entidades negros e da Seppir no processo de organização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), cuja etapa nacional está marcada para dezembro deste ano em Brasília.

A atuação da secretaria neste processo foi um dos principais pleitos na moção apresentada pelas Comissões de Jornalistas pela Igualdade racial (Cojiras) ao plenário do evento. De acordo com o coordenador da Cojira-DF, Sionei Leão, o objetivo principal é garantir espaço para o debate de temas como: racismo, homofobia e intolerância religiosa nos meios de comunicação e regularização de rádios comunitárias quilombolas, negras, indígenas e ciganas, além da aplicação nos cursos de comunicação da lei 11.645/08 (Lei de Inclusão da História e Cultura Afro-brasileira, Africana e Indígena nos Currículos Escolares).

“Já foram autorizadas 60 rádios comunitárias em áreas quilombolas, mas temos dificuldade em garantir o funcionamento delas. É necessária uma política de apoio a essas rádios, que têm um papel fundamental na divulgação de informações de utilidade pública nas comunidades”, ressaltou Josué Franco Lopes, comunicador negro, representante da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço) e integrante da Comissão Organizadora Nacional da Confecom.

O jornalista Dojival Vieira, editor da Afropress (Agência de Informação Multiétnica), chamou a atenção para a necessidade de investimento público na imprensa alternativa que prioriza o tema igualdade racial. “O governo federal tem aumentado a distribuição de recursos para a mídia regional e, ainda assim, esses recursos não chegam para nós. A mídia étnica anti-racista deve ser priorizada dentro de uma política pública de combate ao racismo. A Seppir precisa se envolver nisso”, reclamou Dojival.

Para “enegrecer” a Confecom, a presidente do Sindicato de Jornalistas de Alagoas e integrante da Cojira-AL, Valdice Gomes, defendeu que os comunicadores e movimentos sociais negros se mobilizem para garantir a participação, como delegados, nas etapas estaduais e nacional. “Precisamos chegar com força nas estaduais, pautar o debate e exigir que ele seja feito, ainda que de maneira transversal, na Conferência Nacional”, afirmou Valdice.

Apoio governamental

Na abertura da 2ª Conapir, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Luiz Dulci, ressaltou a importância da Conferência Nacional de Comunicação e reconheceu que ela se tornou realidade a partir da “contribuição de vários setores do movimento negro”.

O ministro da Seppir, Edson Santos, em coletiva à imprensa, disse que tem dialogado com o Ministério das Comunicações no sentido de garantir a regularização de rádios comunitárias em áreas quilombolas. Santos também revelou ter se reunido recentemente com a Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abert) para reivindicar uma cobertura mais parcial da política de cotas. “É fundamental que essa cobertura permita à sociedade brasileira formar sua própria avaliação sobre essa política”, defendeu o ministro.

Participe

Para fazer parte da mobilização em defesa de uma política pública de comunicação para a igualdade racial, envie seus contatos para o e-mail cojiras@gmail.com. Comunicadores, ativistas e entidades negras interessadas em subescrever a moção dos participantes da 2ª Conapir devem acessar www.abaixoassinado.org/abaixoassinados/4592. O texto será apreciado pelo Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR), em agosto.

Seminário traça aspectos e desafios de uma mídia em transição

Até mesmo nos debates sobre convergência digital, as grandes lutas na área de comunicação são manifestações reais da luta de classes. Esse consenso marcou a abertura, no sábado (27), do seminário “As propostas para a democratização da comunicação”, promovido pelo Vermelho, em São Paulo.

A primeira mesa do encontro, sobre “O papel da mídia na atualidade”, reuniu os professores Venício de Lima (UNB) e Marcos Dantas (PUC-RJ), além do jornalista Altamiro Borges (Vermelho). Entre eles, outra concordância: seja por desmobilização, desconhecimento ou desestímulo, a sociedade vem perdendo as batalhas travadas nesse campo em 2009 — ano da Conferência Nacional de Comunicação.

Dantas, de cara, revelou contrariedade com a expressão “convergência tecnológica”. Segundo ele, trata-se de um “rótulo determinístico” sem precisão. “A tecnologia é uma construção social. É a luta de classes que organiza a tecnologia, e não o contrário”. De acordo com o professor, “a divisão da indústria em telecomunicações e radiofusão também obedece a um modelo político-econômico, e não tecnológico. Os movimentos populares e democráticos têm de se apropriar das novas tecnologias”.

O primeiro regime brasileiro para as comunicações, constituído entre as décadas de 1910 e 1930, começou a cair nos anos 80. O que vingou foi um ambiente regulatório liberal, sem intervenção popular e a serviço do capital. “Um ethos — um certo princípio público — foi desmontado nos últimos 20 anos”, explica Dantas. “Há um ambiente novo, um novo regime em formação, gostemos ou não gostemos disso.”

A mudança é explicada sobretudo pela convergência. Neste novo cenário, a “cadeia produtiva da comunicação” divide-se em quatro etapas: produção de conteúdos (estúdios), programação (servidores), transmissão (operadores de rede) e recepção (consumidores). “Muitas vezes, esses atores se confundem, são os mesmos em diferentes funções, o que é um risco”, alerta Dantas. “Quanto mais verticalizada for a cadeia, mais ela será monopolizada”, agrega o professor.

Exemplo das novas possibilidades da comunicação é o telefone celular, que já pode ser encarado, segundo Dantas, “como um terminal móvel, com múltiplas funções e variedade de conteúdo”. Da mesma forma, “empresas como TIM e Claro já não são mais meras operadoras de telecomunicações”. Na TV, a audiência migra vigorosamente das emissoras abertas para os canais pagos. Japão e Holanda são exemplos de países onde não existem mais casas com acesso apenas à TV aberta.

Com isso, a tendência à concentração e à monopolização aumenta. Dos dez maiores conglomerados midiáticos, oitos são americanos. “Se todas as emissoras brasileiras fossem de um grupo só e tivessem seus faturamentos somados, esse grupo seria apenas o 12ª maior do mundo”, diz Dantas.

Na opinião do professor, a sociedade não pode deixar esse debate nas mãos do capital e deve cobrar uma política para cada setor, separando conteúdo (comercial, estatal e não-comercial) de rede (regime privado e regime público). Tampouco a defesa da cultura brasileira e da língua nacional devem ficar restritas apenas às emissoras da TV aberta, “por que somente estas sete, e não as 200 do cabo?”, questiona Dantas.

Um polêmico STF

Declarando-se também “preocupado” diante de “tendências com as quais talvez tenhamos de lidar por longo tempo”, Venício Lima dedicou a maior parte de sua exposição a falar do “novo papel do Judiciário” e seus impactos na comunicação. O professor da UnB acusou uma “distorção histórica” especialmente na atuação do Supremo Tribunal Federal (STF).

“Não sei se por omissão ou por conveniência do Legislativo ou do Executivo — ou dos dois —, mas o Judiciário passou a acumular muitos poderes que não lhe cabem. Vejo uma influência muito grande de organismos multilaterais e cortes supranacionais sobre decisões da Corte brasileira”, disse Venício. Exemplos dessa extrapolação foram os julgamentos que levaram ao fim, em abril, da Lei da Imprensa e, em junho, da obrigatoriedade do diploma para a prática do jornalismo. Nos dois debates, segundo o professor, houve “conclusões ilógicas e ultrapassadas”.

Supostamente em nome da “liberdade da imprensa”, os defensores da desregulamentação costumam evocar o artigo 19 da Declaração dos Direitos dos Homens. “Mas esse texto não fala em ‘liberdade de imprensa’. Fala, sim, que ‘todos têm o direito de ter liberdade de opinião e expressão’”, afirma Venício, que emenda: “Perdeu-se a noção de liberdade individual — que é garantida a proprietários e gerentes dos grandes grupos, nãos aos cidadãos”.

Para Venício, há no STF um desconhecimento do debate do que é a mídia hoje, a tal ponto que “o principal jornalista mencionado é Machado de Assis”. Outra lacuna envolve a noção do papel do Estado. “Ao se manifestarem contra qualquer tipo de cerceamento da imprensa, os ministros do Supremo brasileiro citam a Constituição americana. Mas, mesmo nos Estados Unidos, a Corte reconhece a necessidade da intervenção do Estado para garantir a liberdade de expressão.”

Cadê os movimentos?

Já Altamiro Borges, o Miro, destacou três grandes desafios na área de comunicação. O primeiro é fazer a denúncia da grande mídia — sua inalterável posição de classe, seus desmandos, etc. “Eu concordo com o (jornalista e diretor editorial do Le Monde Diplomatique) Ignacio Ramonet: precisamos criar observatórios de análises e monitoramento da mídia, nas cidades, nas escolas, em todos os lugares.”

Em segundo lugar, o jornalista do Vermelho propôs a valorização dos “nossos instrumentos” para democratizar a mídia e travar a batalha das ideias. “Na área sindical, ainda se vê comunicação como gasto — não como investimento estratégico”, lamentou Miro. Minutos antes, ele já havia cobrado mais empenho das entidades: “Infelizmente este não é um debate que foi incorporado pelos movimentos — que parecem não ver a comunicação como um direito do trabalhador”.

O terceiro desafio, de acordo com Miro, é a preparação para a Conferência Nacional de Comunicação, que acontece de 1º a 3 de dezembro. “A gente não pode se iludir nem se omitir. A conferência é pouco massiva, mas extremamente radicalizada”, resume. “Será o principal centro para a discussão sobre políticas públicas, e nós devemos lutar para conseguir brechas, para ter pequenos avanços — contribuir para as grandes transformações.”

Tais desafios estão postos num momento em que Miro frisa “duas tendências perigosas”: o controle das mudanças tecnológicas (“não está dado onde essas mudanças vão dar, mas elas estão sob o domínio do capital”) e a desregulamentação (“com um agravante: a concentração se dá em prejuízo às nações periféricas do sistema”).