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Estudantes reagem à presença de empresas no curso de jornalismo

Para alguns, um curso de jornalismo moderno e que contempla a pluralidade. Para outros, um currículo abandonado às necessidades do mercado, sem linha pedagógica e que põe em risco a autonomia da universidade pública. Uma realidade confusa que só corrobora com a visão de que a universidade brasileira vive uma grave crise. Financeira, administrativa e, sobretudo, de identidade.

Esse é o caso do curso de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP). Há alguns anos, o Departamento de Jornalismo da faculdade promoveu sua primeira parceria com um grande conglomerado de mídia, a Folha de S. Paulo. Desde então, as parcerias se estenderam a outras empresas – Editora Abril e, a partir deste ano, as Organizações Globo – e também à organizações não-governamentais como a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), onde participam de disciplinas chamadas optativas livres, cuja escolha fica a critério do aluno, mas sem a obrigação em cursá-la.

O modelo, apesar de parecer consolidado, ainda gera polêmicas e questionamentos no ambiente universitário. Um sinal de que as disciplinas co-patrocinadas ainda não foram totalmente digeridas na universidade é a iniciativa recente do Centro Acadêmico Lupe Cotrim (Calc), dos alunos da ECA, em promover, por conta própria, um curso “anti-Globo”. Em resposta ao modelo adotado, o Calc pretende traçar um histórico da emissora da família Marinho e, a partir disso, questionar as prioridades da universidade. Incongruentes, a seu ver, com o caráter público e a crítica que devem estar presentes no curso.

“Se os coordenadores do curso avaliam que ele tem deficiências, a opção é pelas parcerias”, afirma Tatiane Klein, do centro acadêmico. “Quando um professor especialista em alguma área deixa a disciplina, não há quem o substitua”, continua. O que levaria a crer que, se não há parceria, não há substituto. Um exemplo é a disciplina “Jornalismo Sindical”, que não existe desde 2003, quando faleceu o professor e jornalista Jair Borin.

Para o professor José Coelho Sobrinho, coordenador do curso de jornalismo da ECA e responsável pela implantação das parcerias, o modelo adotado pelo curso é positivo porque possibilita aos alunos tomar contato com as experiências da grande imprensa. Mas ressalta que ninguém é obrigado a cursá-las. “As parcerias são feitas de acordo com a necessidade de formação do aluno e contemplam a pluralidade que o curso deve ter”, afirma Coelho.

Em formato de “estudos de caso”, a Folha patrocina uma disciplina sobre imprensa diária, enquanto a Abril se dedica a ensinar “edição de texto em revista”. Já a Globo começará, depois de cinco anos de negociação, com um curso sobre “jornalismo em televisão”.

Responsabilidade de quem?

A Rede Globo tem um departamento específico para promover o intercâmbio com as universidades, o “Globo e Universidade”. Segundo a Central Globo de Comunicação, a idéia é promover “uma troca permanente de experiências e idéias com as universidades” e que o projeto “contribui para a geração de conhecimento sobre televisão no país e com a formação de futuros profissionais”.

Para o professor Hamilton Octavio de Souza, chefe do Departamento de Jornalismo da PUC-SP,  “A Globo tem procurado estabelecer boas relações com as universidades, cumprindo seu papel de relações públicas. O problema é a instituição aceitar isso, é a desmoralização da universidade. Se ela acha que uma empresa privada pode fazer melhor, então fecha”. De fato, o que se questiona não é o interesse das corporações, mas sim a opção da universidade.

Segundo o professor da PUC paulistana, é importante que os alunos tenham contato tanto com a grande imprensa quanto com veículos independentes, mas rechaça qualquer tipo de parceria como as que são feitas na ECA-USP. “Abrimos espaço para conhecer as empresas, não só as grandes. Mas não abrimos a grade do curso para esse tipo de coisa”.

As disciplinas feitas em parceria têm uma descrição e um programa previamente definidos, acessível a qualquer um, no sistema eletrônico de graduação da USP. Além disso, contam também com um professor responsável, assim como qualquer outra. Mas dentre as várias acusações feitas pelo centro acadêmico está a de que, na prática, quem determina o programa é a empresa e quem conduz o curso são os seus profissionais.

O professor Coelho garante que a universidade, através do seu Departamento de Jornalismo, não abdica de decidir a respeito do curso. “As disciplinas têm professores encarregados, que podem vir a convidar os profissionais das empresas. A universidade não abre mão de definir seu currículo”. Já para a Globo, a disciplina é ministrada por “ambos”. Mas é ao consultar os alunos que cursaram as disciplinas co-patrocinadas que se tem uma visão mais objetiva da questão. E não só isso. É possível também obter um pequeno retrato da universidade hoje.

Estudo de caso

Marjorie Rodrigues, aluna do 3º ano de jornalismo da ECA, revela que pretende trabalhar com jornalismo diário no futuro, desejo mais do que recorrente entre os alunos do curso. Resolveu cursar a disciplina “Estudo de caso – Imprensa diária”, sem saber que ela seria coordenada pela Folha de S. Paulo. Marjorie gostou do curso, mas, com razão, achava que era outra coisa. Afinal, quem organizou o curso foi o próprio programa de treinamento do jornal. “No Júpiter [o sistema de matrículas da USP] pareceu que iríamos analisar vários jornais impressos. Só no primeiro dia eu soube que seria uma série de palestras com editores e repórteres da Folha. Mas, no fim, foi uma disciplina legal, eu gostei de fazê-la”.

A futura jornalista conta com detalhes a respeito da experiência na disciplina da Folha. “No trabalho final, tínhamos de analisar a cobertura que eles fizeram de um determinado evento e ressaltar seus pontos negativos e positivos. Para esse trabalho, era imprescindível que falássemos pessoalmente com pelo menos um dos jornalistas que participaram da cobertura”. O professor “responsável” pela disciplina era justamente José Coelho Sobrinho. “Não sei o quanto ele se envolvia ‘nos bastidores’, mas me parecia que a Ana [Estela de Souza Pinto, coordenadora do trainee da Folha] decidia as coisas no curso”, conta Marjorie.

Assim como no caso da Folha, o programa da disciplina “Edição de texto em revista” coordenada pela Editora Abril, também não seria facilmente identificável antes da primeira aula. É o que conta Rodrigo Barros Martins, aluno do 3º ano. “O programa da disciplina não correspondia ao do sistema Júpiter. Na verdade, o programa era pautado pelos jornalistas ‘responsáveis’ pela aula, já que a disciplina era uma espécie de workshop com um jornalista diferente por semana falando sobre temas genéricos do jornalismo e relacionando-os com sua experiência profissional”. A avaliação era feita por repórteres recém-saídos do Curso Abril de Jornalismo.

Com uma boa dose de naturalidade, Marjorie faz ainda um comentário que revela um sentimento cada vez mais comum dos estudantes em relação a seus cursos. “Acho que, em termos práticos, foi melhor do que algumas disciplinas ‘laboratório’ que a gente teve”. Seria o caso, então, a partir do que defendeu então o chefe de departamento da PUC, de fechar o curso de jornalismo na USP?

Onde mora o problema?

É inegável que as universidades, sobretudo as públicas, não devem misturar seus objetivos aos do mercado. Afinal, se a educação não é uma mercadoria (mesmo que alguns insistam no contrário), ela deve ser crítica, inclusive, do próprio mercado. Exatamente por isso, sem juízo do mérito, o que acontece na USP e em outras universidades brasileiras naturalmente deve ser questionado.

Para o professor Coelho, não há necessariamente incongruência nesta complicada relação entre público e privado. “Crítica não quer dizer condenação. É louvável que eles venham até aqui discutir o seu projeto”, diz, se referindo às empresas e às organizações não-governamentais. Quando perguntado por que outras mídias, alternativas, não têm o mesmo espaço, ele responde: “Só precisa haver oportunidade. O curso é pluralista e está aberto para quem se interessar”, diz Coelho. Já Hamilton, da PUC, acha estranho que uma universidade pública entregue para as empresas a função de ensinar. “As empresas têm sua forma de atuação pelas regras do mercado e a universidade tem que buscar conhecimento independente e crítico, inclusive da grande imprensa”.

Assim pensa também o estudante Rodrigo. Apesar de achar que as parcerias não ferem a autonomia da universidade, ele entende que as empresas não podem ditar as regras. “Acho que a participação das empresas nos cursos pode ser organizada de outra forma. Talvez em palestras, seminários e debates, ou até possuindo uma disciplina que tenha a supervisão rígida do professor responsável. A estrutura da disciplina deve condizer com o perfil do profissional que a universidade quer formar”, conclui.

“Queremos que o departamento diga qual é o critério que mostra a necessidade da parceria. Não somos contra ninguém, mas contra o fato das parcerias servirem para tapar buracos do curso”, afirma Tatiane, do centro acadêmico dos alunos da ECA. O que acontece na USP, entretanto, não é um caso isolado. Mas não se trata apenas de um problema financeiro. Falta também à universidade encontrar seu lugar no mundo contemporâneo e descobrir para quê forma seus estudantes.

Ministério da Justiça inicia pesquisa de opinião sobre hábitos de consumo de TV

O Ministério da Justiça deu início a uma pesquisa nacional para avaliar como os pais ou responsáveis percebem a influência de programas de televisão no comportamento dos filhos. A iniciativa é da Secretaria Nacional de Justiça, realizada por meio do Departamento de Classificação, Títulos e Qualificação (Dejus).

A pesquisa “Radiodifusão de Conteúdo Inadequado, a Classificação Indicativa e os Direitos Humanos” também pretende avaliar vários outros pontos importantes, como a percepção das crianças sobre cenas de sexo, drogas e violência; quanto tempo elas passam em frente à TV; e os programas preferidos.

Serão entrevistadas duas mil crianças e adolescentes, e dois mil adultos em todo o país. Nas 11 regiões metropolitanas contempladas pelo Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci) será possível verificar se a exposição constante a conteúdos audiovisuais inadequados pode, de fato, provocar um comportamento agressivo no telespectador.

O instituto responsável pela aplicação e tabulação do estudo é a Microbank, vencedora do pregão realizado em dezembro de 2007. Nas próximas seis semanas, a empresa vai efetuar a pesquisa de campo e entregar um relatório final ao Ministério da Justiça. O resultado final deve ser divulgado em abril.

Ministério da Justiça quer atendimento ao cliente 24 horas por dia

Medida pretendida pelo Ministério atingirá em cheio as TVs por assinatura, os provedores de internet e as empresas de telefonia fixa e móvel

O Ministério da Justiça começou a debater nesta quarta-feira, 27, novas regras para o serviço de atendimento ao consumidor. A medida atingirá em cheio as TVs por assinatura, os provedores de internet e as empresas de telefonia fixa e móvel – campeãs de reclamações dos consumidores. Esses setores, juntamente com as instituições bancárias e empresas aéreas, estão no foco da ação iniciada pelo Ministério. A nova regulamentação deve ficar pronta em julho deste ano, mas até lá será realizada uma série de debates.

A proposta do governo federal prevê que todos os serviços de atendimentos passem a ser gratuitos e funcionem 24 horas por dia durante os sete dias da semana. A idéia é que a primeira opção de atendimento já encaminhe o consumidor para um atendente, o que deverá ocorrer em, no máximo, 20 segundos. Além de maior agilidade no atendimento aos clientes, as normas deverão exigir maior capacitação técnica dos atendentes de telemarketing e assim evitar que o consumidor seja transferido de um atendente para outro,  repetindo suas reclamações sucessivamente.

"O consumidor não é 'peteca', não pode ser jogado de um atendente para outro", afirmou Ricardo Morishita, diretor do Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC) do Ministério da Justiça.

O projeto ainda prevê regras de acessibilidade, garantindo atendimento especializado aos portadores de deficiência. O Ministério quer assegurar ainda que os reclamantes possam acompanhar suas demandas através de um número de atendimento, inclusive pela internet. Outra exigência que será feita às empresas diz respeito ao cancelamento de serviços: eles terão que ser suspensos imediatamente após a solicitação do cliente quando o serviço for ofertado sem o consentimento do consumidor.

As novas regras serão aplicadas para fiscalização do serviço e também dos contratos entre a prestadora e as empresas de call center. As empresas prestadoras do serviço deverão ainda criar ouvidorias.

Mariana Tavares, secretária da Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça, informou que ainda não está certo se nova regulamentação será realizada por meio de portaria, decreto, auto-regulamentação e ou Projeto de Lei. Mariana explicou que as novas normas levarão em conta as experiências que já estão sendo realizadas neste sentido, porém destacou que essas regras valerão para todos os setores econômicos e irão se sobrepor aos regulamentos setoriais.

Acionistas tentam chegar a consenso para fechar operação

Quem observa os passos mais recentes da Brasil Telecom (BrT) pode até ficar com a impressão de que não se trata de uma empresa cujo controle está à venda. Com a estréia de um novo posicionamento institucional e o anúncio de um novo passo na reestruturação de seu negócio de internet, a operadora dá ares de normalidade à sua rotina. 

Enquanto isso, os acionistas continuam tentando aparar as arestas e chegar a um consenso para fechar a operação da qual faz parte a venda da BrT à Oi (ex-Telemar). As negociações prosseguem, mas os controladores das duas companhias – que chegaram a apostar no fechamento da transação antes do Carnaval – agora já evitam falar em prazo. 

O discurso de interlocutores das duas partes mudou. De fator de dificuldade, o Opportunity passou a ser apontado como fator crucial para a concretização da venda. Até há poucos dias, fontes ligadas aos acionistas da BrT diziam que vender a empresa dependeria exclusivamente da vontade dos fundos de pensão e do Citigroup e que Daniel Dantas poderia até dificultar a transação, mas não impedi-la. 

Agora, alguns sócios já começam a dizer que, se o Opportunity quiser, pode até levar a um adiamento do negócio – assim como postergou sua saída do comando da BrT com ações judiciais. 

Em meio a um cenário como esse, a administração da Brasil Telecom procura mostrar que a rotina permanece inalterada. 

Anteontem à noite, a empresa colocou no ar uma nova campanha publicitária, que marca a reformulação de sua imagem institucional. "Queremos nos posicionar mais como uma empresa que oferece tudo aquilo de que os consumidores precisam em termos de telecomunicações", disse ontem ao Valor o diretor de marketing da operadora, Dalton Hayakawa. 

A campanha, feita pela agência de publicidade Leo Burnet, é protagonizada por clientes da própria BrT e enfatiza serviços, em, vez de preços. Os assinantes dão testemunhos sobre o papel dos serviços de telefonia em suas vidas e, numa fase seguinte, divulgarão pacotes de produtos que a operadora lançará. 

Segundo Haykawa, a competição imposta pelas empresas de TV por assinatura na oferta de telefonia e banda larga e a proximidade da implantação da portabilidade – regra que permitirá que um cliente mude de operadora carregando com ele o número de telefone – são fatores que estão por trás dessa mudança de foco. 

Em paralelo, o conselho de administração da Brasil Telecom aprovou nesta semana a reestruturação societária de seus negócios de internet, dando prosseguimento a uma estratégia que teve início há mais de dois anos. As empresas iG, IBest e BrTurbo serão unificadas, após a criação do Internet Group do Brasil. A marca e a administração dos portais já haviam sido integrados. Agora, trata-se de formalizar as mudanças do ponto de vista legal, disse o vice-presidente financeiro da BrT, Paulo Narcélio. 

Esse passo deverá encerrar a reorganização da área de internet. Segundo o executivo, daqui para a frente os objetivos da operadora serão melhorar custos e atrair mais receitas publicitárias para o portal. 

Alguma relação entre essa reestruturação e as conversas com a Oi? De acordo com Narcélio, não. "A orientação do conselho de administração é tocar a companhia normalmente", afirmou o executivo. "Além do mais, não existe nada formalizado nem decidido." 

O projeto de unir Oi e BrT é antigo. Porém, as conversas esquentaram no início deste ano. O estopim foi uma proposta de pulverização de seu controle acionário que a Brasil Telecom estava pronta para lançar no mercado. Se a operação fosse bem-sucedida, tornaria muito difícil, para a Oi, adquirir a empresa. Com isso, os controladores da antiga Telemar propuseram adquirir o controle da BrT por algo entre R$ 4,5 bilhões e R$ 5,2 bilhões. A oferta foi bem-recebida e a expectativa era de que bastariam algumas semanas para que um memorando de entendimentos fosse assinado. 

Entretanto, o dia-a-dia das negociações revelou-se muito mais complexo. Vencidos diversos obstáculos, a questão dos litígios que opõem Citigroup e fundos de pensão ao Opportunity tornou-se um dos pontos mais sensíveis nas últimas semanas. Retirá-los poderia despertar questionamentos legais de acionistas e cotistas. O Citi não está disposto a desistir da ação que move contra Dantas em Nova York, onde pede indenização de US$ 300 milhões. As fundações também têm processos pendentes na Justiça brasileira e a própria BrT quer um ressarcimento de R$ 521 milhões por supostos prejuízos que teriam sido causados à operadora sob a gestão de Dantas. 

Outro motivo é o tamanho da perda fiscal que os controladores da BrT teriam se o negócio fosse fechado à revelia do Opportunity – na casa de R$ 1 bilhão. Além disso, o negócio emperra no fato de a complexa cadeia societária da BrT ter acordo de acionistas em praticamente todos os níveis. O Opportunity é parte desses acordos e ainda não há um entendimento definitivo da Justiça sobre o poder de Dantas, por conta de um contrato que obrigava os demais controladores a acompanhar seu voto em decisões da empresa.

Sob críticas, lei de rádios comunitárias completa 10 anos

Os 10 anos da lei 9.612, que regulamenta a radiodifusão comunitária no Brasil, foram lembrados no dia 19, na Cinelândia, de maneira crítica e reabriu espaço para velhas reivindicações do setor. "Na época, fizemos uma pesquisa no Congresso Nacional e constatamos que 70% dos parlamentares ou eram donos diretos ou representavam os interesses de donos de rádio e TV comercial. Por isso, sabíamos que seria uma lei que não atenderia as necessidades de uma rádio comunitária", disse o coordenador da Rede Viva Rio de Rádios Comunitárias, Tião Santos.

As organizações ligadas às rádios comunitárias consideram a atual lei antidemocrática e exigem mudanças. "As rádios comerciais têm todos os direitos do mundo: sua potência é praticamente ilimitada e são isentas de impostos. Já as rádios comunitárias têm que atuar com apenas um canal, o alcance determinado é de 25 watts, enquanto as comerciais têm até mil watts. Nós só podemos atuar em um raio de mil metros e não temos direito ao comercial e à proteção se houver algum tipo de interferência. A essência da lei é positiva, talvez seja o que há mais de concreto em nível de regulação de comunicação pública. No entanto, em questões técnicas é extremamente restritiva, colocando as rádios comunitárias como algo pequeno e insignificante", afirmou Tião Santos.

Segundo Tião Santos, foram criados dois grupos de trabalho no governo Lula para agilizar e dar transparência aos processos que modificariam a lei, mas os relatórios produzidos com a participação popular foram engavetados. "Queremos que o presidente encaminhe imediatamente ao Congresso Nacional, assim como fez com a soja transgênica para beneficiar os empresários, uma Medida Provisória ou um Projeto de Lei que prevê a descriminalização das rádios comunitárias. Não é possível que um país democrático trate a rádio comunitária como algo criminoso. É um absurdo, isso não cabe no Brasil de hoje".

Conselhos de Comunicação Social

De acordo com o coordenador administrativo da Central de Desenvolvimento de Rádio Difusão Comunitária do Grande Rio, Ângelo José Ignácio, o movimento reivindica ações a nível municipal, estadual e federal. A idéia é criar Conselhos de Comunicação Social e destinar 1% da verba destinadas ao município, estado e federação para esta cadeira.

"Estamos organizando frentes parlamentares em favor das rádios comunitárias. No nível estadual as coisas já estão mais adiantadas. O Carlos Minc já fez a lei que prevê a criação do Conselho Estadual de Comunicação Social, mas precisa ser regulamentada e aprovada pelo governador. No nível federal, o Crivela propôs a municipalização das rádios. A Constituição diz que o que está dentro do município é de responsabilidade do executivo municipal e a freqüência da rádio não passa dos limites do município. Mas o prefeito não nos atendeu", disse.

Criminalização

Segundo Tião Santos, o governo de Lula fechou mais rádios comunitárias do que o governo de Fernando Henrique. "O governo federal é quem mais manda campanhas educativas de saúde e segurança pública para as rádios atuarem com esses programas nas comunidades, mas não há contrapartida. A única contrapartida que temos é a repressão, prisões de companheiros e seqüestros de equipamentos", afirmou.

A rádio Pop-Goiaba, que funcionava com outorga há seis anos no campus da UFF, convive com constantes invasões da Polícia Federal. Em 2006, segundo um dos integrantes da Pop-Goiaba, Daniel Vidal, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) fechou a rádio de maneira arbitrária. "A Anatel alegou que não tínhamos especificado o nosso funcionamento no protocolo, corremos atrás com um advogado e reavemos a rádio. A nossa penalidade foi fazer spots para entidades comunitárias, falamos para o juiz que seria uma satisfação. Eles levaram vários equipamentos para serem periciados. Já estamos há seis meses no ar, mas funcionamos há quase três quilômetros da UFF, no Largo da Batalha".

Daniel aproveita para esclarecer que as rádios comunitárias não derrubam aviões, como têm dito os meios de comunicação da burguesia. "Com 25 watts a nossa freqüência não consegue ultrapassar um morro pequeno, o alcance é limitado. Queremos democratizar a comunicação, potencializar a voz da comunidade, colocar o artista local para cantar e fortalecer a cultura nacional".