Arquivo da categoria: Notícias

Novela das teles deve ter capítulos decisivos

Esta tem tudo para ser mais uma semana de capítulos decisivos na longa novela de reestruturação do setor de telefonia brasileiro. Está marcado para amanhã o leilão de compra das ações preferenciais (PN, sem voto) da Tele Norte Leste Participações (TNLP) e da Telemar Norte Leste (TMAR). Isso, é claro, se não houver nenhum revés nessa história, hipótese longe de ser descartada. Inclusive porque há um descompasso entre as regras do leilão no Brasil e nos EUA. Aqui, o investidor terá 15 minutos para decidir se vende as ações caso haja mudança de preços.

Já pela Securities and Exchange Comission (SEC, a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA), se o preço for alterado, o estrangeiro precisa ter dez dias para se decidir. Se a divergência não se resolver, o leilão nem acontece.

Caso tudo dê certo e o leilão aconteça, o entrave seguinte é o preço. Os controladores oferecem R$ 35,09 por açãoPN da Telemar Participações (a TNLP) e R$ 52,39 para cada PN da Telemar (a TMAR). No entanto, os papéis estão valendo bem mais no mercado, o que reduz o interesse dos investidores. Na sexta-feira, a TMAR fechou a R$ 58,40 e a TNLP a R$ 39,01.

Apesar de a empresa ter a prerrogativa de aumentar os valores, os analistas acreditam que a operação ficará cara demais se ela aceitar pagar o que os investidores aceitariam. Roger Oey, analista do Banif Investment Banking, acredita que é razoável supor que, no caso da Telemar Participações, os minoritários estariam dispostos avender a partir de R$ 45. Se a empresa conseguir comprar todas as PNs a R$ 45, gastará cerca de R$ 17 bilhões, enquanto que na oferta original, de R$ 35,09, o desembolso seria de R$ 13,400 bilhões. 'A Telemar assumiria uma dívida R$ 4 bilhões maior, algo bastante salgado, que deve inviabilizara operação', acredita Oey.

Novos passos da Brasil Telecom

Não é apenas na Telemar que os investidores estão assistindo mudanças importantes nas últimas semanas. No caso da Brasil Telecom (BrT), no fim da semana passada, os fundos de pensão e o Citigroup acertarama compra da participação da Telecom Itália, por US$ 515 milhões.

Para Oey, faz todo sentido cogitar que este é mais um passo para uma futura fusão entre BrT e a Telemar. 'Todo esse processo de mudança nas duas companhias desemboca em um único objetivo, a fusão delas', diz o analista. É interessante lembrar que, além da compra da parte da Telecom Itália, que é um sinal importante de que a briga entre os sócios da BrT pode estar próxima do fim, há a expectativa também de que a BrT fará uma reestruturação societária, trocando PNs por ONs para listar a empresa no Novo Mercado. Tudo isso para estar com a casa arrumada para juntar os trapos com a Telemar. Com tantos personagens e acontecimentos nessa grande novela chamada telefonia brasileira, a dúvida do investidor é o que fazer. Para Oey, o setor caminha para um futuro promissor. No entanto, será preciso sangue-friopara agüentar grandes volatilidades no curto prazo. Entre os papéis das duas gigantes de telefonia fixa, Oey recomenda a compra das ações da Telemar, uma vez que elas subiram bem menos que as da BrT.

Active Image Valor Econômico

Rádios fazem ato de repúdio à política ‘diferenciada’ do governo federal

Rio de Janeiro – As rádios comunitárias, lideradas pela Rede Viva Rio de Radiodifusão Comunitária (Revira), expressaram hoje (22), em manifestação realizada na praia de Copacabana, nesta capital, seu repúdio ao que consideram uma política diferenciada do governo Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao setor.

O coordenador da Revira, Tião Santos,  disse à Agência Brasil que “há uma certa indignação  do movimento das rádios comunitárias no Brasil, por conta de uma disparidade enorme. Quinze mil  entidades  no Brasil inteiro pediram autorização de rádio comunitária. E no processo todo, desde 1998, apenas três mil foram autorizadas. Em contrapartida, nós tivemos cerca de nove mil rádios fechadas, sendo mais de seis mil só no governo Lula”, denunciou Santos.

O coordenador da Revira considerou um absurdo  que o governo federal, "apesar de ter um discurso popular, democrático, tem uma ação arbitrária ao extremo de fechar mais de seis mil rádios em cinco anos de governo". O movimento deste domingo visou repudiar a atitude do presidente da República, que “não dá valor àquilo que ele mesmo usa para fazer suas campanhas de ação social”.

A Revira está pedindo audiência ao ministro da Justiça, Tarso Genro, para tratar do assunto, uma vez que acusa o  ministro das Comunicações, Hélio Costa, de ter um  posicionamento naturalmente  contrário às rádios comunitárias. A idéia é levar o caso ao próprio presidente Lula, uma vez que não haveria condições de diálogo com o ministro da pasta.

Santos afirmou que, ao mesmo tempo, o segmento constata que os três níveis de  governo  usam as rádios para fazer campanhas com os objetivos mais diversos, de saúde, educação, meio ambiente. O Revira não é contra isso. “Eles (os governos) devem usar. Nós achamos que o papel da rádio é justamente esse, de prestar serviço à sociedade”. O que a entidade não concorda é com o fechamento das rádios comunitárias.

Os processos pedindo autorização para funcionamento estão arquivados, apontou Tião Santos. Segundo ele, não há nenhuma boa vontade do ministro Hélio Costa em autorizar as rádios. “Para culminar com toda essa coisa, as rádios comerciais fazem uma campanha vergonhosa, mentirosa, de que rádio comunitária derruba avião, que é um mal para a sociedade. Isso tudo nos deixa indignados  e levou a fazer essa manifestação em Copacabana”, expôs o coordenador da Revira.

Tião Santos negou que as rádios comunitárias sejam rádios piratas. Ele assegurou que se trata de entidades constituídas, que possuem endereço, Cadastro Nacional de Pessoal Jurídica (CNPJ), diretoria e conselhos comunitários, e são geradoras de emprego e renda. “O que acontece é que o governo não libera a autorização que elas pediram há muitos anos. Tem rádio que tem oito anos esperando para ser autorizada, com burocracia impedindo, com questões políticas inviabilizando”.

Santos denunciou, por outro lado,  o fato de rádios comerciais  conseguirem autorização de funcionamento em até três meses, devido à influência política de parlamentares. Muitas rádios comunitárias funcionam através de liminar judicial porque, frisou Tião Santos, “o Estado não cumpre o seu papel”.

A estimativa da Revira é que, atualmente, cerca de 15 mil rádios comunitárias estão em operação em todo o país, das quais 600 no Estado do Rio de Janeiro, sendo 300 no Grande Rio. Tião Santos observou, porém, que na capital fluminense somente duas rádios foram autorizadas. “É um absurdo isso em dez anos de lei aprovada”, citou.

Active Image

Ministro e TVs discutem regras e modelo para formação de nova rede pública

Brasília – A transição para um modelo de gestão no processo de criação da rede pública de TV é algo crucial, na visão do ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação Social. Ele participou hoje (20) de reunião com representantes da Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec).

“Devemos aproveitar esse caldeirão de discussão para impor nos estados uma mudança no modelo de gestão. Se nós conseguirmos avançar, teremos mais elementos para resistir a pressões políticas locais”, disse o ministro.

A construção de uma rede nacional por essas TVs foi defendida pelo ministro Franklin Martins. Segundo ele, existe no Brasil uma cultura de transmissão em rede. “Se nós não tivermos uma rede nacional simultânea, nós não teremos escala para sermos apreciados ou criticados nacionalmente”, argumentou.

Franklin Martins também defendeu a abertura de espaço para a programação local, com no mínimo quatro horas dedicadas a ela. “Isso não é um luxo, é parte do projeto”, disse o ministro.

O ministro reconheceu que o governo tem que ter uma postura mais clara em relação às emissoras de televisão e rádios comunitárias. “No caso das rádios comunitárias, a situação atual é de um absoluto faroeste. O governo tem que fazer um mutirão e organizar para ver quem tem ou não direito”, disse.

O ministro ressaltou que a nova TV pública irá auxiliar as TVs comunitárias, que poderão aproveitar a programação produzida.

Também foi debatida, durante o evento, a possibilidade de criar faixas temáticas de programação, que deverão ser seguidas pelas emissoras associadas. Assim, mesmo que as emissoras não transmitam o mesmo programa, deverão respeitar, de acordo com o horário, o tipo de programação que será exibido.

Para Marco Antônio Coelho, representante da TV Cultura, de São Paulo, o debate com o ministro mostra a disposição do governo federal em dialogar com todas as emissoras públicas já existentes na constituição de algo novo.

“Esse diálogo reforça que o governo está de acordo com os princípios estabelecidos no Fórum Nacional de TVs Públicas”, disse, em referência ao evento que aconteceu em maio e de onde saiu uma carta com os princípios defendidos pelo conjunto das TVs públicas do país para que seja formada a nova rede.

Active Image

ACM: morre um ícone do coronelismo eletrônico brasileiro

A morte do senador baiano Antônio Carlos Magalhães, na última sexta-feira, pode ser considerada um acontecimento simbólico na esfera política nacional por muitas razões, mas, em particular, para o setor da comunicação social, pelo desaparecimento de um ícone da prática do coronelismo eletrônico, que representou para o Brasil – como diria Daniel Herz – “as vontades que se opõem à democratização da comunicação”.

A trajetória de Antônio Carlos Magalhães (ACM) na política brasileira foi extensa. No momento de sua morte, na última sexta-feira, ocupava mandado de Senador da República pela segunda vez. Do ponto de vista da comunicação social, a carreira do baiano – nascido em Salvador há 79 anos – foi especialmente ousada. “Estreando no Ministério das Comunicações um estilo que marcou suas passagens por governos e órgãos públicos, Antônio Carlos Magalhães iniciou muito cedo uma luta implacável contra seus inimigos políticos”, escreveu Daniel Herz no livro A história secreta da Rede Globo (Ed. Ortiz). Representante no governo do setor econômico da radiodifusão, ACM teve, segundo seus críticos, uma atuação exemplar em interesse próprio – ele também era radiodifusor.

Porém, antes de assumir o Ministério das Comunicações – do qual foi o titular entre 1985 e 1990, no governo Sarney (Nova República) – Magalhães foi um grande aliado da ditadura militar que governava o país. “ACM foi uma figura que nasceu na ditadura, foi construído na ditadura, como uma grande fatia de políticos dessa geração. Só que a diferença dele para a maioria desses políticos, é que ele teve essa capacidade de se manter no poder praticamente até agora, até sua derrota na política na Bahia”, destaca o professor Antônio Albino Canelas Rubim, da Universidade Federal da Bahia, lembrando que ACM passou de um mando autoritário e colado aos militares (o poder dele emanava da sua relação com os militares) para um outro tipo de mando, “que tinha características autoritárias, mas que era feito no regime democrático”, assinala.

Esse novo mando, em boa medida, segundo Rubim, dependeu do controle que ACM tinha sobre os meios de comunicação da Bahia. “Assim, ele foi capaz de se reciclar, passar para um governo democrático e permanecer no poder, quando a maioria dos políticos da ditadura entrou em colapso. Ele teve uma sobrevida impressionante, considerando sua relação com a ditadura”, observa.

Atuação na Constituinte

Venício Lima, pesquisador e professor da Universidade de Brasília (UnB), lembra das manobras de ACM, na época da Assembléia Constituinte (1987/1988), quando o então ministro comandou uma bancada específica para garantir que os interesses dos radiodifusores fossem contemplados no capítulo da Comunicação Social da nova Carta. Venício acompanhou as discussões da Comunicação e os acontecimentos, tanto na Comissão Temática quanto na subcomissão da Ciência, Tecnologia e da Comunicação, e Informática, Educação, cuja relatora era a deputada Cristina Tavares (PMDB-PE). “Houve uma ação coordenada, tanto na subcomissão, quanto na comissão, que ficou conhecida como a ‘bancada da comunicação’, que representava os interesses dos radiodifusores, e era coordenada de fora pelo então ministro Antônio Carlos Magalhães. O irmão dele fazia parte da subcomissão e da comissão”, lembra o professor.

Às iniciativas dos radiodifusores enfrentaram – e venceram – as propostas democratizadoras apresentadas pela Frente Nacioal de Lutas por uma Comunicação Democrática. Integrada por partidos de esquerda, organizações dos trabalhadores, representantes da academia organizações classistas e movimentos sociais, a Frente originou o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC). A história do capítulo da Comunicação na Constituinte foi escrita por Venício Lima para o Centro de Estudos e Acompanhamento da Constituinte, da UnB, publicado em caderno especial. A análise do capítulo pode ser lida clicando aqui.

Da trajetória de Antônio Carlos Magalhães nas comunicações, Venício destaca a sua gestão no governo de José Sarney, a qual ele chama de “período áureo”. Nesta fase, na opinião do professor, foi quando houve a forma mais direta e evidente do uso da mídia eletrônica como moeda política (um tipo de negócio batizado de “coronelismo eletrônico”), da qual o exemplo de ACM é o mais expressivo no país. “Ele (ACM) foi, com certeza, o ministro das Comunicações que mais se utilizou desse tipo de negócio. Foi o indivíduo que conseguiu usar seu poder político de forma mais intensa, formando um império próprio de comunicação”, aponta. O uso como moeda política das concessões de rádio e televisão foi largamente apontado pelo FNDC, cujos comitês, organizados em vários estados, disseminaram informações sobre a comunicação brasileira até então restritas aos gabinetes de Brasília e a alguns setores da academia.

Império forjado no governo

ACM possuía uma rede de retransmissoras sem paralelos no país. Suzy dos Santos, professora do programa de pós-graduação e da escola de comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), descreve em seu artigo Coronelismo, radiodifusão e voto: a nova face de um velho conceito, as propriedades que Magalhães mantinha, junto com sua família e alguns aliados: Era proprietário da Rede Bahia, que domina todos os segmentos de comunicações no estado, seis geradoras de TV aberta e 311 retransmissoras – todas afiliadas à Rede Globo; uma emissora de TV UHF; parte de operadora de TV a cabo da capital, com outorga também em Feira de Santana; parte de uma operadora de MMDS com outorgas na capital, em três cidades do interior da Bahia e em Petrolina-PE, afiliadas à franquia Net Brasil, também da Rede Globo; duas emissoras e uma rede de rádio FM; um selo fonográfico; uma editora musical; um jornal diário; uma gráfica; e uma empresa de conteúdo e entretenimento.

O Instituto de Estudos e Pesquisas em Comunicação (Epcom) realizou e publicou a pesquisa denominada "Donos da Mídia", que pode ser vista aqui. Embora esteja parcialmente desatualizada (nova pesquisa está em andamento para a atualização), ela ilustra adequadamente como se estruturou o "coronelismo eletrônico" no país, cujos alicerces assentam-se no domínio das emissoras de televisão. Regionalmente, o poder de ACM ergue-se especialmente pelo controle dos MCMs e, destes, a televisão. Ascendendo ao Minicom, ACM obtém o direito de retransimitir o sinal da TV Globo.

Segundo o Ministério das Comunicações e o Diário Oficial da União, no período de 1985 a 1988 (Governo Sarney), quando ACM era o titular do Ministério das Comunicações, foram outorgadas 632 rádios FM; 314 rádios OM; 82 TVs. Ao total, foram 1.028 concessões e permissões.

Feito um cartório

ACM beneficiou-se com uma prática que expandiu nacionalmente. Representante de um importante setor econômico, o da radiodifusão, ACM atuava em interesse próprio, reafirma o jornalista Sérgio Murillo, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). “O ACM ajudou a formar a imagem do ministério como um cartório de grupos de rádio e TV do país. Ele era o agente político desses grupos que controlam a mídia no país. E foi um dos mais competentes neste sentido, nessa tradição de misturar interesses públicos com interesses privados”, avalia Murillo.

Suzy dos Santos considera que Antônio Carlos Magalhães teve um papel crucial no fortalecimento da rede clientelista que configura o mercado de radiodifusão brasileiro nos últimos 20 anos. “O coronelismo eletrônico não começa com a dupla ACM/Sarney. Começa ainda na ditadura militar. Mas o auge desse sistema é, de fato, a atuação de ACM no Ministério”, avalia Suzy. Junto com Sarney, ACM optou por reforçar ainda mais o clientelismo que já existia no governo militar. “Era como se os militares se afastassem do poder deixando a mídia com pessoas próximas de suas idéias, divulgadas pelo rádio e pela televisão”, segundo Suzy.

Coronelismo ameaçado?

“Não acho que a morte de ACM, nem a derrota política dele e de Sarney nas últimas eleições, marquem o fim do coronelismo eletrônico. O sistema de barganha política entre esfera federal e elites oligárquicas locais é mais complexo e arraigado”, diz Suzy. Venício Lima aponta para o surgimento de um “coronelismo eletrônico de novo tipo”, por meio do qual as rádios comunitárias se transformaram em instrumento de barganha política, (leia aqui).

O professor Canelas Rubim pensa que a morte de Magalhães não é tão significativa para acabar com o coronelismo eletrônico. “Acho que o controle anti-democrático dos meios de comunicação, hoje, passa por mecanismos mais sutis e talvez até piores, porque mais truculentos, não tão abertamente antidemocráticos, dissimulados”, diz, afirmando que as novas estruturas têm tramas muito mais complexas, mais difíceis de desmontar.

A Rede Bahia é uma das regionais da Globo que dá maior lucro e as maiores audiências até hoje, “é uma rede empresarialmente muito competente”, destaca Rubim. Segundo o professor, porém, pela primeira vez no ‘Carlismo’, ACM e seus aliados não têm nenhum peso no governo federal, nenhum peso no governo estadual e nenhum peso no governo municipal. “Nunca, na história do Carlismo, eles estiveram alijados simultaneamente dessas três linhas de poder. Talvez isso afete mais do que ao grupo político, mas também, financeiramente, as empresas dele, que recebiam recursos muito grandes do governo federal, estadual e municipal em outros momentos”, analisa.

Sérgio Murillo também acredita que não houve ainda uma superação dessa era. “O país tem ainda muitos coronéis eletrônicos. A estrutura do sistema de comunicação no Brasil não se altera. E a novidade, nos últimos, é a participação cada vez maior dos grupos religiosos nos meios de comunicação”, aponta. Simbolicamente, conforme Murillo, sai de cena um dos artífices dessa estrutura. “Darão continuidade os filhos e netos do doutor Antônio Carlos Magalhães, assim como os filhos do jornalista Roberto Marinho. São empresas que, embora sejam cada vez mais profissionalizadas, mantêm ainda a presença da administração familiar muito marcante, e que deve honrar a administração anterior”, analisa.

Caminhos opostos

Para os que lutam pela democratização dos meios de comunicação no Brasil, Antônio Carlos Magalhães representou a extrema oposição. Conforme o artigo de Suzy dos Santos E-Sucupira: o Coronelismo Eletrônico como herança do Coronelismo nas comunicações brasileiras, (leia aqui) publicado pela Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação – Compós, em 2006, “A dominação pelos coronéis dos principais meios de comunicação nas esferas locais e regionais configura uma barreira à prática de cidadania no país”, isto porque a compreensão das referências que elaboram a construção de sentidos na sociedade está intimamente relacionada à compreensão das forças que ligam os indivíduos em relações sociais simétricas ou assimétricas. “Neste viés, o domínio dos espaços de debate público mostra-se uma das mais relevantes ferramentas de persuasão social”, escreve Suzy dos Santos.

Em momento algum, em sua vida política e de empresário da mídia, ACM atuou para que o espaço da comunicação fosse “mais oxigenado, mais plural, mais representativo da diversidade social, política e econômica do país”, destaca o jornalista Sérgio Murillo.

 

Active Image publicação, desde que citada a fonte original (Redação FNDC / e-FÓRUM)

Projetos no Rio, SP e RS trabalham a educação pela comunicação

Se você é um produtor de TV trabalhando numa escola, não é difícil imaginar que um dia a comunicação vai cruzar o seu caminho. “Sou produtor de TV, fui sócio de uma produtora”, conta Carlos Eduardo Dias Lopes, o Cadu, fundador e coordenador do Centro de Produção de TV e Vídeo do Colégio Marista São José, no Rio de Janeiro. “O surgimento do núcleo me permitiu levar esse conhecimento à escola e compartilhá-lo com os alunos.”

Mas o que leva, por exemplo, uma assistente social ou uma professora dedicada ao estudo da sociologia a tomar a mesma direção? “Tenho mais de trinta anos de vida profissional, sou da época da máquina de escrever”, diverte-se a assistente social Rosane Ferreira Faria, diretora de projetos da Fundação Hélio Augusto de Souza (FUNDHAS), de São José dos Campos (SP). “A chamada educomunicação é uma busca nova para mim, uma oportunidade de crescimento pessoal.”

“O principal aparelho de comunicação nas escolas ainda é o quadro negro, e os professores ainda são muito voltados para o livro didático”, constata Magna Regina Tessaro Barp, professora de uma escola pública de Ensino Médio em Barracão (RS).

Hoje, Cadu, Rosane e Regina são mestres que ajudam a dar novos rumos à educação. E as mudanças que eles experimentaram na vida pessoal começam a contagiar quem está à volta deles. A começar pelos próprios alunos. “Já temos um bom número de ex-integrantes do Centro seguindo carreira no mundo da comunicação”, conta Cadu, que no começo do projeto tinha como repórter Rodrigo Rodrigues, hoje apresentador do programa Vitrine, da TV Cultura.

– Nossa instituição tem experimentado um despertar do protagonismo juvenil – diz Rosane. – Hoje, não há jovem que não tenha celular ou não saiba usar o computador. Os que aprendem com o auxílio dessa linguagem mudam a postura, o interesse e até se colocam melhor no mercado de trabalho. Outros professores também já começaram a se interessar pelos resultados de quem trabalha com educomunicação. “Não tenho mais sossego”, brinca Magna Regina. “Muitos professores e diretores da escola querem saber mais sobre o que faço, mas querem, principalmente, ajudar.”

Tela fértil

O termo mídia-educação, preferido por Cadu, começou a ser ouvido nos corredores do Colégio Marista São José, no Rio de Janeiro, em 1995. Nessa época, o colégio foi convidado a participar do primeiro programa da emissora católica Rede Vida voltado para o público jovem. A semente caiu em solo fértil. Carlos Eduardo Dias Lopes, o Cadu, funcionário do colégio, aproveitou sua experiência como produtor de TV para comandar a equipe que assumiu a responsabilidade pelo programa, batizado de Convocação Geral.

“Compramos um equipamento moderno, de Super-VHS, que era bom o suficiente para produzir o programa e ainda nos dava capacidade para investir em outras iniciativas”, diz Cadu. E essa capacidade foi logo utilizada. No ano seguinte, o Centro de Produção de TV e Vídeo já estava funcionando e produzindo um telejornal diário, que provocou o surgimento de outro jornal, em papel, com periodicidade bimestral. Era a primeira de uma série de iniciativas que ajudariam a manter o Centro em atividade, mesmo depois do fim da contribuição com o Convocação Geral. No começo, a maior dificuldade era explicar aos diretores do colégio que o ritmo de uma produtora de TV é bastante diferente da rotina de uma escola. “Muitas vezes, eu virava a noite editando um programa e ninguém entendia como eu podia passar tanto do horário”, diz Cadu.

Dentro dos limites do colégio, o Centro também foi ganhando espaço, envolvendo até as crianças. Em 2001, o projeto Descobridores Mirins reuniu as áreas de Ciências, História e Artes na produção de um videodocumentário, que levou à inédita construção de um sítio arqueológico simulado. No ano seguinte, a proposta, em termos de comunicação, foi ainda mais ousada: um talk show , ou programa de entrevistas, sobre química.

A integração entre mídias continuou em 2006, com a transformação de “Neuronial”, uma coluna do jornal impresso, em documentário. O tema foram as serestas de Conservatória, cidade do interior do Rio, na visão dos jovens. E o resultado é talvez o maior orgulho de Cadu: “Fomos selecionados para um festival no Chile. Éramos a única escola brasileira representada na seleção final, ao lado de produções da TV Globo, por exemplo”.

Os projetos mais recentes ganharam espaço na TV pública: o “De olho no futuro”, com a visão dos jovens sobre profissões como mídia-educação, gastronomia e relações internacionais, contou com o apoio da Associação de Pais e Mestres do Colégio para ganhar meia hora por semana na TV Comunitária do Rio. O “Por quê?”, mostrando a visão de crianças de 8 a 13 anos sobre a AIDS, foi exibido pela TVE no Dia Internacional da Criança na Mídia. E se depender do entusiasmo de Cadu, vem muito mais por aí. 

Mãos na massa

A primeira tentativa de fugir do convencional foi por meio da arte. Logo depois de assumir como diretora técnica da Fundação Hélio Augusto de Souza (Fundhas), com sede em São José dos Campos, em 1997, a assistente social Rosane Ferreira Faria começou a procurar formas mais eficientes de atingir os alunos atendidos pela fundação, que atua especialmente na área de reforço escolar. “Fazemos reforço de aprendizagem, com a reprodução do período escolar”, explica Rosane. “Não poderíamos apenas oferecer aos alunos o que eles já recebiam na escola.”

A arte-educação, com iniciativas de música e teatro, deu resultados que estimularam Rosane e sua equipe a procurarem uma referência nacional em novas iniciativas de ensino. A fundação recebeu a visita de assessorias para refletir sobre a capacitação dos funcionários e, em 2005, decidiu desenvolver a educomunicação.

O primeiro passo foi o investimento em informática, com a criação de laboratórios e o estímulo à pesquisa na internet. Hoje, já são mais de 20 programas usando recursos de rádio e TV como proposta pedagógica, todas reunidas no portal web da fundação (www.fundhas.org.br). O nome da seção que reúne os sites desenvolvidos pelos alunos é bem significativo: Canteiro de Projetos. “Tudo é mantido pelos próprios alunos, que passam a trabalhar com os sites quando se formam no nosso curso de webdesign”.

No portal, é possível saber, por exemplo, como andam os trabalhos no curso de horta caseira da Unidade Jardim São José; ver as fotos da apresentação dos trabalhos de finalização do curso do Programa Aprendiz; acompanhar o processo de formação de educomunicadores; e até ler as edições on-line de jornais como o Fundhazinho e o Jornal do Adolescente do Jardim Paulista.

E as iniciativas da fundação e de seus alunos não se restringiram ao mundo virtual. O sucesso das primeiras iniciativas levou à criação de um núcleo de rádio, artes e expressão. Hoje, alunos da Fundhas têm um programa de rádio voltado para a comunidade da cidade vizinha de São Francisco Xavier. “São iniciativas que fazem com que o jovem participe, que ele queira estar presente”, diz Rosane.

Outros projetos, como Nossas Lendas, Contos que Encantam, Misturando Contos, Narrativas Literárias – Causos, Histórias da Minha Terra e Se eu Fosse… acabaram transformados em livros. São histórias contadas pelos próprios alunos em alguns projetos da fundação. Na introdução de Nossas Lendas, a professora Maria das Graças Miacci escreve: “Espero que gostem do nosso livreco de lendas”. Está tudo lá, on-line – numa história que não é lenda e vem rendendo muito mais do que um livreco.

Visão sociológica

Quando organizou um seminário sobre a proposta de legalização do aborto, há dois anos, a professora de escola pública Magna Regina Tessaro Barp pensava apenas em levar a público um de seus temas de estudo de Sociologia, disciplina recentemente tornada obrigatória nos cursos de ensino médio. Mas a repercussão foi grande e alcançou cobertura na rádio local de Barracão, cidade onde ela vive e leciona, no norte do Rio Grande do Sul. E acabou abrindo um caminho novo para a educação no Colégio Estadual Jesus Menino.

– Os alunos pesquisaram o tema, deram entrevistas à rádio – relembra Magna Regina. – Tenho certeza de que não esqueceram o que aprenderam, mas provavelmente já não se lembrariam do assunto no dia seguinte, se eu tivesse apenas falado sobre ele em sala de aula.

Hoje, os alunos de Sociologia do terceiro ano estão divididos em dois grupos de estudo: um deles, sobre a maioridade penal; o outro, sobre a influência da mídia na formação e na educação do adolescente. Que este último se transformasse em seminário foi um caminho quase natural, e assim surgiu o projeto Leitura Crítica dos Meios de Comunicação.

Um estudante de Comunicação auxilia na pesquisas dos alunos, que procuram fazer uma leitura crítica da comunicação. Ele também participa da mesa de debates, ao lado de um pedagogo, um psicólogo e um ou dois pais. A cobertura na rádio local já está garantida, e o Departamento de Mar-keting da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), onde Magna Regina também leciona, vai ajudar na divulgação. “Tudo isso faz com que a comunidade se envolva no debate, e torna a participação dos alunos ainda mais significativa”, diz a professora.

O relacionamento com a comunicação ainda é incipiente, mas ela já percebeu que esse é o caminho a seguir. E o próximo passo já está planejado: um projeto com alunos do segundo ano envolve a pesquisa e a análise de notícias relacionadas à sexualidade, o principal tema de estudo de Magna Regina na área da Sociologia. Os resultados devem ser publicados em livro. “O impacto é positivo, sem sombra de dúvida. Afinal, vivemos na era da comunicação”, lembra a socióloga. 


* publicação autorizada, desde que citada a fonte original.