Cotas e fomento à produção serão apreciados em votação dos destaques

[Título original: Destaques do PL 29/2007 serão votados na próxima semana]

Enfim, o PL 29/2007 foi aprovado na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) em uma rápida votação, unânime, nesta quarta-feira, 2. A votação pode ter sido rápida, mas a sessão durou mais de dez horas, com duas suspensões por conta da Ordem do Dia do Plenário da Câmara dos Deputados. Apesar da vitória de hoje, comemora com muitos aplausos de todos os presentes na comissão, a batalha para a aprovação do PL 29 ainda não terminou.

O segundo capítulo da votação será na próxima sessão da CCTCI, agendada para a quarta-feira, 9, quando serão votados os destaques mantidos pelos deputados mesmo após as negociações que se alongaram durante o dia de hoje. Cinco assuntos serão votados em separado. Dois deles já eram esperados: cotas e contribuição de fomento para a produção de conteúdos nacionais.

As duas emendas destacadas pelo deputado Paulo Bornhausen (DEM/SC), autor do projeto, pedem a exclusão completa dos capítulos que tratam desses temas (capítulos V e VI). Esses tópicos são os mais polêmicos do lote de destaques.

Outro tema com votação separada está em um destaque de autoria do deputado Jorginho Maluly (DEM/SP), que pretende ampliar o conceito de espaço qualificado, incluindo programas jornalísticos, esportivos, religiosos, de auditório e debates no rol para da classificação do conteúdo. Alguns segmentos acreditam que este destaque já foi contemplado em parte pelo relator, deputado Paulo Henrique Lustosa (PMDB/CE), em seu complemento de voto e que a alteração não precisa mais ser feita.

Lustosa incluíu no rol de programas que compõe o "conteúdo qualificado" programas de variedades, que antes estavam no lote de exclusões. Com essa mudança, diversos programas já veiculados hoje e que não eram considerados "qualificados" passam a ter essa classificação já com o texto-base aprovado.

Uma proposta surpreendente que também passará por votação em destaque foi feita pelo deputado Sandes Júnior (PP/GO). O parlamentar sugere que o Estado arque com os custos do must carry. O assunto não foi apaziguado nas negociações e será debatido na próxima quarta.

Por fim, o deputado Júlio Semeghini (PSDB/SP) apresentou destaque sugerindo que o mesmo período de transição para o cumprimento das cotas de veiculação de conteúdo seja concedido aos novos entrantes no mercado. Pelo texto aprovado hoje, a transição, de dois anos, vale apenas para quem já está atuando no mercado de TV paga e mude sua licença para o Serviço de Acesso Condicionado (SAC). Caso o destaque seja aprovado, a política de cotas só passaria a valer plenamente em 2011 para todos as empresas de TV por assinatura, sendo elas já atuantes no mercado ou novas autorizadas.

Durante a sessão, o projeto chegou a receber 23 destaques, mas as negociações conduzidas pelo presidente da CCTCI, deputado Eduardo Gomes (PSDB/TO) e por Lustosa asseguraram a redução para apenas cinco, facilitando os trabalhos na próxima reunião. Mesmo segmentos reticentes ao projeto agora defendem que nenhum destaque deve ser aprovado, nem mesmo o que põe fim às cotas de programação. Assim, é bastante provável que a CCTCI consiga concluir ainda neste ano a votação do PL 29, com a análise e deliberação dos destaques na próxima semana, contrariando boa parte das apostas de que o projeto só sairia da comissão em 2010.

CCTCI aprova PL-29 e vota destaques na próxima semana

[Título original: PL 29/2007 é aprovado na CCTCI; destaques ficam para a próxima semana]

A Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados aprovou na noite desta quarta, dia 2 de dezembro, o substitutivo do deputado Paulo Henrique Lustosa (PMDB/CE) do PL 29/2007. O projeto estabelece novas regras para o setor de TV por assinatura e do audiovisual. A aprovação é um marco para o projeto, que tramita desde fevereiro de 2007 e já passou por outras duas comissões. Com isso, ficam pendentes apenas a votação dos destaques na semana que vem e a votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para que ele seja encaminhado ao Senado. Mas a aprovação na CCTCI foi a etapa mais importante de todas, pois era a comissão de mérito.

O deputado relator apresentou antes da votação uma complementação de relatório , com algumas mudanças no substitutivo. Elas estão disponíveis na homepage do site TELETIME, juntamente com o substitutivo aprovado . Basicamente, a complementação do deputado ajusta algumas questões que haviam ficado pendentes, como a harmonização da manutenção de parte da Lei do Cabo com a possibilidade de entrada das teles no mercado de TV paga; modifica algumas atribuições da Ancine e, principalmente, retira o vínculo a empresas de radiodifusão como impeditivo para que uma programadora seja considerada independente.

Cotas continuam

Por ora, o projeto aprovado mantém o regime de cotas para a veiculação de conteúdo nacional nas TVs pagas. O sistema, no entanto, sofreu alguns ajustes importantes, especialmente no que toca às cotas de programação dos canais. Inicialmente, o projeto continha uma cota de fomento aos programadores independentes combinada com uma regra de restrição aos programadores relacionados, de alguma maneira, com as empresas distribuidoras dos pacotes. Essas regras acabavam forçando a existência de um mínimo de três (e em muitos casos, de quatro) programadores para que o sistema de organização dos canais previsto na nova lei fosse respeitado.

Isso porque, a regra definia que um terço dos canais nacionais previstos para veiculação via cota deveria ser programado por programadora independente. Além disso, estipulava que nenhuma programadora poderia ser responsável por mais de um terço dos canais desse bloco.

Após muitas negociações, o relator entendeu que a cota, como estava, era muito restritiva e decidiu mudá-la. A restrição à programação de mais de um terço dos canais nacionais por uma mesma programadora foi retirada antes da votação.

Outra mudança relevante com relação à programação de canais tem a ver com o próprio conceito de programadora independente. Até hoje, nenhuma empresa ligada a operadoras de TV por assinatura ou a concessionárias de radiodifusão era considerada "independente". A ressalva com relação à radiodifusão foi retirada, garantindo assim que as emissoras de televisão possam programar canais nacionais desde que estes não sejam comercializados na ponta por operadoras do mesmo grupo.

Com essa mudança, o relator fez uma última alteração no sistema de cotas para assegurar um espaço aos "independentes totais", que nada mais são do que as empresas que não têm qualquer relação com as empresas de radiodifusão: Lustosa também reinseriu no texto a cota já existente hoje na Lei do Cabo, de veiculação obrigatória de um canal nacional com veiculação de, no mínimo, 12 horas de produção independente. Além disso, essa cota foi ampliada para dois canais. O benefício aos programadores totalmente independentes é que caberá a eles, obrigatoriamente, a programação de um desses dois canais nacionais.

Cepal defende banda larga pública não gratuita

A Secretária Executiva da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) da Organização das Nações Unidas (ONU), Alícia Bárcena, propôs que o acesso à internet em alta velocidade “deve ser um bem público global não gratuito, garantido pelo Estado”. Segundo Alicia, ao garantirem acesso à internet em banda larga para a população, os países também estarão fomentando a inovação em suas economias.

Em sua intervenção na 19ª Cúpula Iberoamericana de Chefes de Estado, realizada na cidade portuguesa de Estoril, a secretária da Cepal afirmou que a promoção da banda larga é peça-chave para reduzir a brecha digital verificada na América Latina e na Península Ibérica. (Com informações do site da Cepal)

A agenda popular e democrática da Confecom

No último dia 22, chegou ao fim a maratona de realização das etapas estaduais da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que envolveu eventos em todas as 27 Unidades da Federação. Como não puderam votar propostas – limite imposto pela Resolução Nº 8 da Comissão Organizadora Nacional –, estes eventos ficaram limitados à eleição de delegados. Escolhidos os representantes dos três segmentos à etapa nacional, marcada para os dias 14 a 17 de dezembro em Brasília, as atenções voltam-se agora à discussão sobre o conteúdo das resoluções que sairão deste evento.

O processo da Conferência não foi fácil. Desde o seu início, ele foi limitado e restringido por sucessivos regramentos definidos a partir dos condicionantes e ameaças impostos pelo empresariado do setor. Isso resultou num privilégio desmedido a este segmento, sustentado não apenas pelo governo federal mas como por parte das entidades da sociedade civil integrantes da Comissão Organizadora Nacional.

A justificativa destas últimas para tal posicionamento se apoiava na avaliação que, sem a presença dos três setores, a Confecom corria riscos de não ser realizada ou fracassaria. Em uma conclusão nossa a partir deste raciocínio, feitas as concessões necessárias para que a Confecom fosse assegurada, não haveria mais a necessidade de limitar a estratégia de construção de uma agenda democrática e popular para as políticas de comunicação do país.

Independente das avaliações sobre os caminhos traçados até agora, já debatidas exaustivamente pelos vários atores envolvidos no processo, há de se reforçar a importância de uma estratégia no sentido do apontado no parágrafo anterior. A etapa nacional, depois de um difícil desenrolar, pode colocar a Confecom como ponto de virada na história das comunicações brasileiras caso consiga aprovar uma agenda democrática e popular para o setor.

O alcance deste objetivo demanda um grande esforço por parte das entidades da sociedade civil e dos movimentos sociais. Em primeiro lugar, para conseguir consensuar uma plataforma comum a partir do rico conjunto de propostas apresentado por grupos como o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), o Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, a Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o Conselho Federal de Psicologia (CFP), o Partido Comunista do Brasil e a Associação Brasileira de Canais Comunitários (Abccom), além do movimento negro e de mulheres.

Pelos debates realizados nas conferências estaduais, tal empreitada se mostra viável. É possível arriscar que há possibilidades de acordo em torno de um novo marco regulatório calcado em pontos como: (1) a constituição de órgãos reguladores abertos à participação da sociedade, (2) a forte limitação da concentração de propriedade dos meios de comunicação, (3) a ampliação da transparência e da participação da população na concessão e renovação de outorgas, (4) o fortalecimento da mídia pública e comunitária, (5) a proteção do contéudo nacional e a instituição de cotas para estimular a produção regional e independente, (6) a democratização das verbas oficiais de publicidade, (7) a implantação de mecanismos para coibir a representação distorcida e desequilibradas de segmentos minorizados e oprimidos, bem como para ampliar o espaço destes na mídia, e (8) a promoção, pelo Estado, de uma política que assegure o acesso dos brasileiros à internet em banda larga.

É preciso ainda ajustar, entre os diversos atores, as formas concretas que cada uma destas diretrizes assume. Há ainda idéias diversas sobre a composição dos órgãos reguladores, a caracterização dos sistemas público, privado e estatal, a competência de municípios para outorgar autorizações de radiodifusão comunitária, percentuais e destinatários alternativos da publicidade governamental, fontes de receita para os mecanismos de financiamento e forma da universalização do acesso à banda larga. Estes desacordos, contudo, se mostram mais pontuais do que estruturais, o que abre caminho para uma extensa e qualificada pauta conjunta. Associa-se ao desafio do processo de síntese programática a necessidade de assegurar posturas de construção coletiva e respeito entre o conjunto deste segmento para que tal empreitada seja bem sucedida.

Indo além dos muros da sociedade civil, faz-se necessário estabelecer uma interlocução com os representantes do poder público, em especial com o governo federal, cujos delegados serão o “fiel da balança”. A tomar pela divulgação das propostas do Executivo Federal, há brechas importantes para viabilizar tal movimento. Em diversos pontos, as elaborações do promotor da Confecom se aproximam desta possível plataforma comum dos movimentos sociais.

No entanto, para que esta expectativa se concretize, deve haver disposição tanto por parte dos movimentos sociais quanto pelo governo federal para enfrentar as já conhecidas resistências do setor empresarial, que não abre mão dos privilégios constituídos ao longo da Ditadura Militar e das duas gestões de Fernando Henrique Cardoso. Não haverá democratização da comunicação no país sem mexer nas estruturas já consolidadas do setor. Terão, a sociedade e os dirigentes do Executivo Federal, a oportunidade de iniciar a realização de uma das principais tarefas históricas ainda não assumidas por este governo.

* Jonas Valente é jornalista e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, entidade que representa na Comissão Organizadora da 1ª Conferência Nacional de Comunicação. Twitter: @jonasvalente

“Banda larga pública é a pauta do futuro”

Durante o 11º Simpósio do ObservaNordeste, realizado no Recife de 25 a 27 de novembro, que tratou dentre outras coisas de mídia, poder e democracia frente os desafios da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), o editor da Revista Fórum e também ativista da comunicação livre Renato Rovai concedeu entrevista exclusiva ao Observatório do Direito à Comunicação.

Rovai, que como tantos outros atores que encamparam a disputa da comunicação como um direito está completamente envolvido na realização da 1ª Confecom, fala sobre o que ele acredita ser os principais desafios para garantir que as políticas de comunicação no Brasil trilhem o caminho da democratização depois dessa conferência.

As vésperas da realização do II Fórum de Mídia Livre, evento que também recebe intensa contribuição de Rovai, o jornalista fala das principais bandeiras de luta para os “midialivristas”, defende a banda larga pública, a internet livre, a taxação da publicidade e a redefinição dos critérios de concessões. Propõe, ainda, repensar a lógica e o modelo de negócio que envolve a informação para superar o que ele chama de “velha mídia”.

Você falou durante a sua exposição no ObservaNordeste de uma velha mídia que está em crise. Como você caracteriza essa velha mídia e como você caracteriza essa crise? E quais soluções possíveis?
Essa velha mídia que está em crise, ao meu ver, é a mídia que se organiza na lógica dos antigos meios de comunicação – como TV, jornal, revista –, mas não é isso que as torna velha mídia. O que torna essas mídias velhas é porque elas estão fundadas, alicerçadas num modelo que para mim está em crise, que é o modelo da lógica comercial, das organizações verticais, dos grandes conglomerados, de tratar a informação como mercadoria. Isto é que torna esses veículos de comunicação parte de uma velha mídia. Existe uma nova mídia em construção. Uma mídia que tem se revelado muito mais ampla e democrática, que se constrói a partir da diversidade, a partir do compartilhamento, na lógica da gratuidade, inclusive da solidariedade, da contribuição, do diálogo e da troca. Isso é o que caracteriza grande mídia. Pode até haver um protagonista principal, mas não é esse protagonista principal que o tempo todo pauta o debate. Em muitos momentos, na prática do bloguismo, um comentário gera uma pauta. No diálogo, na troca que caracteriza a nova mídia, há participantes também que acabam se tornando blogueiros naquele processo. A nova mídia é uma mídia na qual aquela velha lógica formal do emissor-receptor está condenada a ser esvaziada. Não é que não vai existir pessoas que se destacam. Isso vai existir, mas já é um modelo diferente. Os jornalista considerados grandes comentaristas políticos ou então especializados dos chamados jornalões, dos veículos tradicionais, essas pessoas não conseguiram, não foi imediatoelas montarem seu bolg e passarem a estarem em portais. Muitos deles sumiram, tentaram marchar nessa área, viram que não tinham condições de fazê-lo porque estão acostumados com o palanque nos quais eles falam sozinhos.

Qual a saída para esta nova mídia superar a velha mídia?
A saída é impedir que a internet ou os novos veículos de comunicação sejam controlado. Isso vale para todas as novas tecnologias – o celular, por exemplo, que vai se tornar mais convergente do que o computador –, mas falo a internet porque ela é a forma pela qual a informação chega ao celular. Temos que garantir que esse espaço se mantenha plural, que não seja interditado, que não exista controle. Por um lado é isso, e por outro lado é garantir que esse acesso chegue à casa do maior número de pessoas, na casa de todos os cidadãos e que eles possam dispor da comunicação como dispõem e tem acesso à água, à alimentação, á saúde – ou como deveriam ter. É aí, eu acho, que se realiza o direito humano à comunicação. No momento em que essa pessoa tem isso ao dispor, não só para ser receptor, mas para ser produtor de comunicação. Você vai ter linguagens que nunca tiveram espaço para reverberar podendo ter sua oportunidade. É um espaço muito maior, que não tem restrição. Daí vai ter o blog do menino da favela, da cozinheira, da pessoa que trabalha com a construção civil e fazendo suas coisas, mostrando suas estórias. De certa forma, a gente já vê isso no YouTube. Não necessariamente o vídeo que está na imprensa é o vídeo mais acessado do YouTube. As vezes é até o contrário: a mídia tradicional é que vai dar destaque a vídeos que estão no YouTube.

Então, nessa lógica, você não veria como problemática, por exemplo, a medida que vem tomando grandes grupos como o News Corp., do magnata Rupert Murdoch, de restringir informações em sites de busca como o Google, medida esta que está sendo seguida por outros grupos, inclusive aqui no Brasil…
Olha, eu posso estar enganado, você me cobre daqui um ano, mas eu acho que não vai dar em nada. É impossível restringir esse tipo de acesso. Isso me parece uma reação muito semelhante à reação do mercado fonográfico, que quis impedir a distribuição de músicas. Ninguém respeita isso. As pessoas pegam e já baixam da internet e hoje ninguém mais compra CD. Tá uma crise no mercado porque eles trabalham com o direito do autor, que é uma lógica também do velho mundo. O que é mais engraçado é que você vê gente de esquerda defendendo esses valores que são da orbita do capitalismo. Eles não estão se dando conta de que estão defendendo o que há de mais essencial da dinâmica capitalista, da lógica da informação como mercadoria. Se você quer exigir o cumprimento do direito autoral você está defendendo a lógica capitalista da informação como mercadoria. Quando se diz “isso aqui não pode ser compartilhado e deve ser vendido”, reforça-se também essa lógica. Eu entendo completamente a lógica do Murdoch, ele está querendo defender o seu negócio, mas em geral isso não deu certo até hoje na internet. Pode até dançar o Google, como dançaram com alguns outros buscadores de música. Mas o pessoal inventa outros dez no mesmo dia e resolve a questão. Eles vão usar outros buscadores que não estão impedidos de fazer aquilo e pronto. Eu duvido que dê certo. Eles vão ter que procurar outra estratégia, porque está óbvio que não é assim que vão resolver esse problema.

Para quem acompanha a área da comunicação, está posto que a blogosfera trouxe mudança no acesso à informação. Contudo o acesso à internet ainda é muito limitado. Mas será que dá para falar de democracia com essa nova onda da blogosfera tendo a realidade indo pouco mais além da classe média?
Uma pesquisa recente, fetica em um universo de mais de duas mil pessoas, quase uma pesquisa presidencial, mostra que, ainda sendo pequeno o acesso, os blogs e sites de informação já são a segunda maneira que as pessoas usam prioritariamente para se informar. Mesmo com restrição ao acesso. Eu não estou dizendo que não é restrito, mas hoje, por exemplo, a minha mãe que tem 70 anos fica mais tempo na frente da internet do que da televisão. Ela foi conquistada pela possibilidade de trocar. Ela descobriu que na relação com o computador ela não é só passiva. Mesmo no âmbito das redes sociais… Tem uma coisa que as pessoas desprezam completamente que a necessidade das pessoas contarem suas estórias pessoais. Algumas pessoas acham que tem que proibir o Orkut. Qual o problema de as pessoas estarem no Orkut? As pessoas estão no Orkut e estão criando suas redes. Para minha mãe é importante, por exemplo, falar da história da família dela e ela fica ali fazendo seu álbum de família para deixar para o netos. O que também era feito um tempo atrás, mas sem esse mecanismo das redes sociais, das fotos digitais. Os jovens usam para construir sua rede de relacionamento, para deixar recados, falar de suas vidas, para contar o que aconteceu ontem no barzinho, na festa. Até as redes sociais tem uma importância muito grande da necessidade que as pessoas têm e falar sobre elas mesmas. Se a pessoa é jovem, depois dos 20, se ela não tem acesso em casa, ela tem no trabalho. Se não tem no trabalho, tem na lanhouse no bairro, na escola, na faculdade. Em algum lugar, ela tem um lugar onde pode acessar informação, fazer seu currículo.

Com relação à democratização do acesso à internet, a banda larga pública seria a solução?
Não tenho dúvida que seria. Hoje, você tem banda larga em apenas 6% no Brasil. Não é quase nada. Precisa ampliar. As próprias teles (empresas de telecomunicações) colocam como um desafio ter 75% das famílias com acesso à internet até 2014. Eles elencam uma série de necessidades que teriam para executar esse plano. Eles mesmos reconhecem que é um número ridículo de pessoas no Brasil que têm esse acesso à internet rápida. Sem falar que a banda larga no Brasil não é banda larga, é bandinha larga… Ela tem uma quantidade/velocidade muito pequena com relação a outros países. Acho que tem que garantir que isso seja encarado como um direito para que haja também a necessidade de o Estado garantir a essa pessoas a dimensão total desses direitos.

O Fórum de Mídia Livre está para realizar a sua segunda edição no próximo fim de semana (4 a 6 de dezembro, em Vitória). O que vocês pretendem discutir e quais as principais pautas do FML para defender na Conferência?
Tem muitas pautas. Eu tenho muita dificuldade de pensar as coisas assim elencadas, porque cada comunidade, cada espaço tem as suas prioridades. Cada comunidade tem suas especificidades. Eu acredito que a gente tem que criar algumas propostas-chave e eu tenho defendido que seja a banda larga para todos, porque a banda larga para todos serve para a luta de todos, serve ao movimento de gênero, à questão racial, às rádios comunitárias. Já dei exemplo de como as rádios comunitárias podem usar isso para sair do isolamento como, por exemplo, ter um site para todas as rádios comunitárias do Brasil. Na qual as pessoas possam acessar e conhecer as rádios comunitárias das suas cidades. Para as TVs comunitárias idem. A banda larga define essa dimensão do “para todos”. Acho que é a única bandeira que deve ser encampada por todos. Acho que ela tem esse potencial.

A multiplicação das demandas e das pautas não pode ser um problema?
Com relação a isso, eu acho que o formato do Fórum Social Mundial é interessante. Porque todas as pautas são validadas, todas as lutas são validades, todos os processos são validados, mas alguns ganham, naturalmente, protagonismo maior. Se a gente tentar fazer consenso em uma só pauta, vai dar um pau danado e não vai se chegar a lugar nenhum. Algumas pautas já estão tendo protagonismo, como por exemplo, a pauta das concessões. Deve-se discutir como que o uso do espaço que é de todos seja mais público e menos privado. Quando se fala de regulação dos espaços de concessões é para garantir que esses espaços façam uma comunicação de interesse público maior. Essa já é uma pauta que tem seu protagonismo. Tem pautas que vão ter uma enorme solidariedade das pessoas da sociedade civil, que são as questões relacionadas às rádios comunitárias, por exemplo. Eu costumo dizer que eles são o movimento sem terra da sociedade civil da comunicação. Eles que estão na ponta, lutando, batalhando e levando porrada. Hoje mesmo (a entrevista foi realizada em 26/11), o companheiro Jerry das rádios comunitárias de São Paulo está sendo preso e Hortolândia. Tem um movimento na internet para soltar o Jerry. (Jerry Alexandre é coordenador da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias em São Paulo e foi preso naquele dia com outros comunicadores comunitários pela Polícia Civil, que inclusive não tem prerrogativas para fazer este tipo de ação.)

Mas o que você acredita ser possível ser construído um consenso e sair do papel depois dessa Confecom?
É possível criar uma agenda positiva. Talvez o termo não seja o melhor. Com agenda positiva, eu só consigo pensar em algo com a participação de todos os segmentos. O que dá para “colar” com esses segmentos que estão na mesa? O que dá para ser consenso e sair como um discurso de todos? Porque o que sair assim o governo vai ser obrigado a encaminhar. Banda larga pública e gratuita não vai dar para ser um consenso, tem que ser uma pauta nossa de resistência, de luta. Eu fiz um debate com os empresários em São Paulo, durante a etapa estadual da Confecom lá, e eles topam a instalação e ampliação, por exemplo, do Conselho de Comunicação Social em todos os níveis. Eu acho que isso tem ser um consenso e sair quem sabe como grito de guerra dessa conferência. Se é consenso que o conselho tem que funcionar, o governo deve estar lá e garantir a instalação do conselho para daqui a três semanas. Esses empresários que estão ai são a favor da quebra do monopólio, por exemplo, das tevês pagas, que é capitaneada pela TV Globo. Eles não vêem problema nenhum, ao contrário, vêem até com bons olhos a quebra do monopólio da distribuição de periódicos no Brasil por parte da Editora Abril ou a democratização das verbas da publicidade. Essa foi uma das pautas que a gente colocou na mesa e a Band já falou que quer fazer esse debate e as teles são solidárias. Você imagina que você usa o espaço público concessionado pelo Estado e pela sociedade para fins comerciais sem pagar nada para a democratização e diversificação das comunicações do seu país! Não te parece uma coisa meio estranha? Eu estou tirando proveito de algo que não é meu, que é um serviço público e não estou dando nada em troca. É preciso discutir isso também. Tem várias formas. Na Alemanha, por exemplo, parece que anualmente você tem que entregar um planejamento de como o teu canal vai funcionar no ano seguinte para que seja liberada a exploração daquele serviço. Isso é discutido dentro de um conselho e tal. Mas eu sei que nisso, por exemplo, também não vai haver consenso. Tem muitas pautas. Eu acho difícil a gente grifar algumas e tentar trabalhar só com elas.