Para pequenas operadoras, crédito e postes são fundamentais para competição

Os pequenos operadores de TV por assinatura querem novas outorgas do serviço, mas entendem que isso não é suficiente para garantir plenas condições de expansão dos serviços nem aumento da competição. Para eles, é necessário que a Anatel garanta o compartilhamento da infraestrutura e acesso a financiamento. Essas foram as mensagens deixadas em debate realizado no último dia da ABTA 2010, realizada esta semana em São Paulo. Para Alberto Umhof, operador que desde 1990 explora TV a cabo no Brasil e hoje dirige a operação em São João da Boa Vista/SP, o compartilhamento de rede e infraestrutura é fundamental. "Não adianta apenas me dar uma concessão de R$ 9 mil para operar porque eu precisarei construir a rede, e para isso preciso de dinheiro e de acesso aos postes. Se alguém chegar antes e fechar o acordo com a empresa de energia, eu não tenho como entrar", disse o executivo. Ele também se queixou das linhas de crédito que o BNDES oferece a pequenos operadores. "Se você é um grande grupo, é fácil levantar dinheiro no BNDES. Mas se você é um operador pequeno, um empreendedor, a única opção do BNDES é o cartão de crédito, e isso não garante a construção da infraestrutura em uma cidade", disse Umhof, lembrando a apresentação feita pelo próprio BNDES durante o congresso da ABTA para expor as alternativas. Ele também disse que mesmo em pequenas cidades, investimentos em digitalização e banda larga são fundamentais e precisam ser feitos, mas isso demanda recursos que não estão disponíveis facilmente a pequenos grupos.

Impactos do PLC 116

Segundo ele, pequenos operadores estão muito preocupados com os impactos do PLC 116/2010 (antigo PL 29/2007), pois temem que as condições de negociação de programação, já muito difíceis a pequenos empresários, fiquem ainda mais complicadas. "Tudo indica que teremos aumentos de custos no curto prazo", diz. "Acho que da mesma forma que pequenos produtores estão sendo estimulados e terão recursos com o PLC 116, os pequenos operadores de cabo, empresas de distribuição, também deveriam contar com incentivos".

Para Aldo Roberto Silva, gerente geral da operadora Cabo Natal, a questão dos postes é das mais críticas para pequenos operadores. "Eu fiz um pedido de outorga para a cidade de Parnamirim, vizinha a Natal, em 2000. Reiterei o pedido em 2004, tive quatro reuniões com a agência, e me disseram que a licitação sairia até 2007. Eu construí a rede, coloquei banda larga com uma licença de SCM e estou até hoje pagando os postes, mas a concessão de cabo ainda não saiu", disse, ressaltando que deseja, sim, que a Anatel libere o quanto antes as outorgas do serviço. A Cabo Natal, apesar de pequena, é uma operadora que está totalmente digitalizada, oferece o serviço de banda larga e recentemente começou a oferecer serviço de telefonia.

Banda larga

Os pequenos operadores mostram certa divergência sobre o papel da Telebrás em ajudá-los a se tornarem mais competitivos no mercado de banda larga.

Para Aldo Roberto Silva, da Cabo Natal, a estatal será muito bem vinda se oferecer link a custos menores. "Hoje estamos competindo com as mesmas empresas que são as nossas provedoras de link", diz.

Mas para Alberto Umhof, o problema não é tão simples. "Hoje, o link é apenas 12% dos meus custos. Para criar competição, o governo tem que ter um olhar holístico, tem que olhar a questão tributária, permitir que a gente construa infraestrutura e que tenha crédito para trabalhar", disse.

Infraestrutura, conteúdo e financiamentos são as prioridades do governo para a TV digital em 2010

Brasília – Até o final do ano, o governo federal pretende avançar em três pontos relativos à TV digital. O assessor especial da Presidência da República para a área de políticas públicas em Comunicação, André Barbosa, destaca como prioridades criar um mecanismo de financiamento dos conversores externos para a TV digital – os set top boxes – tanto para fabricantes como para consumidores, via Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); licitar a construção de 256 torres de transmissão para os canais públicos em todo o país; e adaptar conteúdos dos órgãos públicos, para que o Estado comece a fornecer serviços por meio da TV digital.

“Teremos uma reunião entre membros do governo, marcada para o próximo dia 20, na qual pretendemos avançar no programa do set top box integrado. Queremos que, a um custo máximo de R$ 200,00 e com prestações de no máximo R$ 17,00 o consumidor possa comprar um conversor de alta definição contendo um mpeg 4 (um padrão de compressão de dados digitais de áudio e vídeo)”, explicou Barbosa à Agência Brasil. O financiamento, disse, ficará a cargo do BNDES.

Para estimular ainda mais a compra dos conversores externos, Barbosa já havia acenado com a possibilidade de renúncia fiscal, por meio da redução das alíquotas do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) e da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins). A meta do governo é fazer com que 15 milhões de set top boxes sejam vendidos nos próximos três anos, já que em 2013 todas as transmissões terão de ser via digital e, em 2016, se encerrarão as transmissões por sinal analógico.

A segunda prioridade envolve a infraestrutura da TV pública digital. “Estamos patrocinando a licitação para construir 256 torres únicas para os canais de TV digital públicas. Apesar de serem construídas para as públicas, essas torres também poderão ser utilizadas pelas emissoras privadas que optarem por não construir torres e se dispuserem a pagar”.

“O projeto das 256 torres já está com o TCU [Tribunal de Contas da União]. Acredito que em outubro tudo estará resolvido, para que, em novembro ou dezembro, conheçamos o consórcio vencedor”.

A terceira prioridade apontada pelo assessor é a de adaptar conteúdo de órgãos públicos, como ministérios, tribunais, secretarias e previdência, à TV digital. “Nosso objetivo é fazer com que o Estado comece a fornecer seus serviços por meio dessa ferramenta”.

Edição: Rivadavia Severo

Modelo de TV digital brasileiro será convergente e complementar à internet

Brasília – O assessor especial da Presidência da República para a área de políticas públicas em Comunicação, André Barbosa, disse que a TV digital não concorrerá com a internet no Brasil, ao contrário do que está ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos. Segundo ele, no Brasil essas tecnologias serão convergentes e complementares.

“O Brasil adotou uma posição diferente da que vem sendo praticada em países europeus e nos Estados Unidos, que é a de dar fim à comunicação aberta e de estimular as TVs pagas”, disse Barbosa à Agência Brasil. “Eles vêm, ainda que aos poucos, caminhando no sentido de pôr fim à comunicação aberta e gratuita. E acreditam que, no futuro, internet e televisão se fundirão até se tornarem a mesma coisa. Nós não pensamos assim”.

“Broadcasting [TV] e banda larga [internet] não são a mesma coisa. Uma coisa é você fazer uma conexão que parte de um ponto específico e vai para todos os demais pontos. Outra coisa é você conectar um ponto a outro. Essas tecnologias podem até assimilar recursos uma da outra, mas não têm como se tornarem a mesma coisa, até porque a internet não vai substituir a produção audiovisual das TVs, que tem por base o cinema”.

Barbosa disse que a tecnologia nova não vai substituir a antiga porque elas podem ser convergentes e complementares. “Ao ser integrada à banda larga [na forma como o padrão adotado pelo Brasil], as TVs digitais passarão a ser também uma ferramenta de inclusão digital bastante eficiente por já estarem presentes em diversos lares”.

Edição: Rivadavia Severo

Sociedade civil quer contribuir com GT do marco regulatório

Já há um prazo estabelecido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que o Grupo de Trabalho Interministerial criado para elaborar propostas de revisão do marco regulatório nacional apresente sua proposta: dezembro deste ano. No entanto, ainda não se sabe o tipo de produto final que será elaborado pelo grupo nem os conteúdos que serão analisados. O GT fez sua primeira reunião na terça-feira (10), mesmo dia em que Lula reuniu seus ministros para traçar os planos de fim de governo, incluindo a questão da comunicação.

Além do prazo presidencial, sabe-se que haverá um seminário em meados de setembro para trocar experiências sobre regulação de mídia (radiodifusão e telecomunicação) com outros países. E as declarações do governo tem sido de que as diretrizes aprovadas na 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) serão levadas em conta no processo de elaboração da proposta.

Não há informações sobre como e se o GT receberá contribuições externas ao governo e quem poderá participar deste processo de debate, embora haja a previsão no decreto que cria o Grupo de que “entidades privadas” possam participar de reuniões temáticas. Esta indefinição desagradou as organizações e movimentos que participaram ativamente do processo da Confecom como representantes da sociedade civil não-empresarial.

Ainda não está definido se o GT vai propor um projeto único de lei geral para o setor ou se vai sugerir que os temas sejam encaminhados separadamente. É provável que assuntos referentes à banda larga e ao marco civil da internet não sejam contemplados pela comissão, pois o debate em torno deles já está acontecendo por outros caminhos. No entanto, devido à quantidade de assuntos tratados na Confecom e ao pouco tempo que o grupo terá para trabalhar é certo que haverá priorização de alguns temas. As informações são da assessoria da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom).

A sociedade civil, por sua vez, realizou um seminário em Brasília, em 1º de julho, onde escolheu cerca de 70 resoluções entre as mais de 600 aprovadas na Confecom que consideram prioridade para o setor. Este documento da Comissão Nacional Pró-Conferência ainda não foi divulgado, mas tem sido recorrentes declarações de diversas entidades a favor da criação do Conselho Nacional de Comunicação. No entanto, este não deve mesmo ser instalado neste governo, segundo já declarou o ministro-chefe da Secom, Franklin Martins.

O GT criado pelo presidente Lula é bem enxuto. Coordenado pela Casa Civil, ainda conta com o Ministério das Comunicações, com a Advocacia-Geral da União e a Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Dentro da comissão, deverão ser criados grupos técnicos para auxiliar o trabalho. Outros ministérios do governo devem formá-los. Também poderão ser convidados para participar de reuniões representantes de órgãos e entidades da administração federal, estadual e municipal, e de entidades privadas.

Discussão interna

A opção por uma comissão interministerial deixa claro que, nesse momento, a ideia é que o governo defina internamente como encaminhar o debate sobre o novo marco regulatório. Apesar de avaliarem positivamente a criação do GT, organizações e movimentos sociais que participaram mais ativamente do processo da Confecom acreditam que a sociedade civil também deveria atuar junto com o grupo do governo.

“Nós temos que fazer um esforço de reunir toda a sociedade civil e o próprio FNDC (Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação) para cobrar novo edital para que convoque a sociedade civil. É de fundamental importância que tenhamos espaço na comissão”, reivindica o coordenador da Federação dos Radialistas, Nascimento Silva.

A posição da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço) é a de que é necessária a criação de um marco legal, porque atualmente o que existe é um “emaranhado de regras que mais confunde que orienta”. O coordenador geral da entidade, José Sóter, evidencia a importância da regulamentação do artigo 223 da Constituição, que define a complementaridade dos sistemas público, privado e estatal de comunicação.

Um consenso sobre a questão é que a atualização das leis que regem a comunicação é necessária. O Código Brasileiro de Telecomunicação é de 1962 e, na parte de telefonia e outros serviços – como a internet –, uma atualização se deu em 1997, no governo Fernando Henrique Cardoso, com a Lei Geral das Telecomunicações. No entanto, isso não significa dizer que a modernização só tem um caminho.

“Tem que ter um marco só, onde todas as regulamentações ficariam contidas dentro dessa lei. É necessário porque se não vamos continuar à mercê de quem tem mais poder naquele momento de negociação. Quem não tem força fica renegado, como as rádios comunitárias”, avalia Sóter.

“A revisão do marco regulatório não pode ser resumida a um arranjo de mercado que defina quem vai lucrar com o quê. Ela tem que servir para corrigir um modelo excessivamente comercial, oligopolizado, internacionalizado e excludente”, opina Jonas Valente, integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

Ele considera fundamental que esses princípios sejam levados em conta, principalmente em um momento em que há uma redução do debate público às disputas entre os radiodifusores e as grandes empresas de telecomunicações. “A radiodifusão emprega uma política de resistência, para continuar existindo, da forma que consegue”, diz Valente, avaliando o cenário desta disputa. “As empresas de telecomunicações seguem movimentos distintos: aquelas controladas por grupos internacionais tentam avançar sobre o mercado brasileiro, configurando uma briga de gigantes entre Telefónica e Telmex. Tudo isso debaixo dos olhos dos legisladores brasileiros, que deixaram o capital estrangeiro dominar a TV por satélite, a telefonia celular e a TV a cabo, com participação ativa da Rede Globo”, sintetiza.

Religião em emissoras da EBC é tema de consulta pública

A presença das diferentes religiões na programação das emissoras de rádio e TV da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) está em discussão. O Conselho Curador da EBC abriu consulta pública com objetivo de construir novos parâmetros para a forma como a religiosidade é tratada pelos veículos de natureza pública. Os conselheiros aprovaram, ainda, um parecer que identificou privilégio e proselitismo religioso na programação.

Hoje, a TV Brasil exibe três programas, cuja produção e exibição deveria ser suspensa, de acordo com o parecer do Conselho Curador: Reecontro, exibido aos sábados, vinculado a uma vertente evangélica; e os católicos A Santa Missa e Palavras da Vida que vão ao ar todos os domingos. A missa católica é, inclusive, gravada nas dependências da EBC no Rio de Janeiro. Na Rádio Nacional de Brasília, é transmitida uma missa católica aos domingos, que também deve ser retirada do ar, segundo a proposta dos conselheiros.

A decisão sobre a continuidade ou não dos programas, bem como as diretrizes para que os veículos da EBC tratem o tema da religiosidade serão decididos pelo Conselho Curador após apreciarem as contribuições da Consulta Pública. O edital da consulta foi publicado no dia 7 de agosto e prevê um prazo de 60 dias para que entidades e pessoas físicas apresentem suas contribuições (saiba como participar).

O parecer que serve como base para a consulta foi formulado pela Câmara de Cultura, Educação, Ciência e Meio Ambiente do Conselho Curador a partir de uma provocação da Ouvidoria da EBC. O texto – disponível aqui – diz que a presença dos programas mencionados configuram “um injustificado tratamento a religiões particulares, por mais importantes que sejam, por maior respeito que mereçam”.

Daniel Aarão, conselheiro da EBC e um dos membros da câmara responsável pelo parecer, diz que a percepção do Conselhou sobre o tema é de que a programação das emissoras públicas deve refletir a pluralidade. Para o conselheiro, que também é historiador e professor da Universidade Federal Fluminense, é inviável abrir espaço na programação para todos os grupos religiosos e o modo atual de privilegiar dois grupos num meio público não é “razoável”.

Na avaliação do conselheiro, a religiosidade é uma característica marcante dos brasileiros e deve continuar a ser abordada pelos veículos da EBC, seja retratando vivências, leituras acadêmicas do fenômeno ou a discussão sobre temas que envolvam conceitos religiosos diversos. “Não é, portanto, uma perspectiva antirreligiosa”, ressalta Aarão.

“Estamos muito preocupados que os programas sejam sempre muito plurais, por isso começamos a discutir a necessidade de fazer um balanço de todos os programas pra ver como eles exprimem a pluralidade étnica e religiosa no país”, comentou. A tendência, segundo ele, é o conselho manter os programas religiosos nas TVs e rádios, “mas sem que uma ou outra religião monopolizem o espaço disponível”.

Entre as propostas apresentadas pelos conselheiros, está o estabelecimento de um prazo para que as confissões religiosas presentes na grade de programação encontrem outro espaço para a apresentação dos conteúdos. Enquanto os programas estiverem no ar, o Conselho Curador sugere que seja realizado um processo de seleção de propostas para programas que tratem do tema religião. Estes programas não podem, ainda de acordo com o parecer, realizar nenhum tipo de proselitismo e buscar representar ao máximo a diversidade religiosa do país.

Todas estas propostas serão reavaliadas após o término do prazo da consulta pública.