A velha imprensa

Entre as tantas denominações que a imprensa atual tem merecido – PIG, imprensa mercantil, monopolista, oligárquica, entre outras -, creio que aquela escolhida pelo Rodrigo Viana – velha imprensa – é a mais adequada.

Não porque o novo seja necessariamente bom e o velho, ruim. Mas, neste caso, velho remete a algo ultrapassado por modalidades muito mais amplas, democráticas, pluralistas. Velho remete ao Brasil velho, antigo, tradicional, aquele construído pelas mãos das elites, como o país mais desigual do mundo. Um país com um sistema político democrático, conforme os cânones do liberalismo, mas que mal podia disfarçar de ser uma imensa ditadura econômica, social e cultural, em que uma pequena elite usufruía e transmitia a seus descendentes, a maioria esmagadora dos bens existentes.

A concentração dos meios de comunicação nas mãos de algumas poucas famílias, que fazem uma gestão totalitária do seu uso, a favor das suas opções políticas e necessidades econômicas, é parte indispensável da concentração de riquezas no Brasil. A imprensa foi parte do poder oligárquico ao longo de toda a historia do país, fazendo e desfazendo presidentes, participando da preparação de golpes – como o de 1964 – e apoiando regimes e governos ditatoriais – como o regime militar – e de direita – como os governos de Collor, de Itamar e de FHC.

Definia as pautas de discussão no país, escondendo, por sua vez, os problemas estruturais do Brasil, a favor dos interesses dos seus anunciantes, situados entre a elite minoritária, que se enriqueceu sempre à sombra dos governos – da ditadura às privatizações de FHC, passando pelas maracutaias do Collor.

Uma imprensa em que o povo não tem lugar, o povo e seus problemas, suas opiniões. Por isso seus leitores são, cada vez mais, reduzidos ao estreito círculo da burguesia e da classe média alta das grandes cidades. Por isso foi perdendo poder de influência, chegando hoje ao ridículo de conseguir apenas 4% de rejeição do governo, atacado por ela todos os dias, nos jornais, rádios e televisões. Arma as campanhas mais gigantescas, mas não altera a opinião dos eleitores, alimenta uma direita raivosa, mas isolada do povo.

O quer dizer que não siga causando muitos danos ao país. O Brasil não será um país realmente democrático, sem uma profunda democratização das formas de construção da opinião pública, dando espaço e tempo para todas as vozes que hoje se pronunciam amplamente na direção oposta da orientação dessa velha imprensa.

Nestas eleições, essa velha imprensa é uma das grandes derrotadas. Fica mais claro do que nunca que se constituíram em partido e são derrotados amplamente. Abre-se espaço para consolidar e estender os espaços da nova imprensa, com suas múltiplas formas de manifestação. Renovar e dar outra consistência à TV Brasil e a toda a rede de rádios e TVs estatais e publicas. Fomentar todas as formas alternativas de mídia – internet, rádios comunitárias, jornais locais, grátis e pagos.

Que floresçam todas as vozes do Brasil, um país em claro processo de democratização social, que precisa estender essa democratização derrotando de forma clara a velha imprensa, expressão de um país oligárquico e ditatorial e abrindo caminho também para uma democracia cultural, que tem na mídia uma de suas principais manifestações.

Sai aviso de habilitação para novas rádios comunitárias

O Ministério das Comunicações publicou na sexta-feira, 3 de setembro, no Diário Oficial da União, aviso de habilitação para que 249 localidades do país possam receber rádios comunitárias. O prazo de inscrição vai até 17 de outubro. Nesse intervalo, as associações comunitárias interessadas em prestar o serviço deverão se inscrever e encaminhar os documentos à Secretaria de Serviços de Comunicação Eletrônica.

Podem se habilitar associações e fundações comunitárias legalmente constituídas, com sede na região onde pretendem prestar o serviço. As entidades também devem efetuar o pagamento de uma taxa de cadastramento de R$ 20,00. Os formulários necessários para o cadastro estão no site www.mc.gov.br, no item “Rádio Comunitária”.

A Coordenadora de Serviços de Radiodifusão Comunitária do ministério, Sibela Portella, explica que pode ser aprovada mais de uma rádio para uma determinada região, desde que haja a distância de 4 km entre as antenas. Quando houver concorrência, o ministério pode propor uma associação entre as interessadas ou avaliar as manifestações de apoio apresentadas pelas comunidades, caso não se tenha um acordo”, afirma.

As rádios comunitárias somente podem ir ao ar após aprovação do Congresso Nacional. As portarias, depois da autorização do MC, vão ao Legislativo. No entanto, se depois de 90 dias o Congresso não deliberar sobre o tema, o ministério pode emitir uma licença de funcionamento provisória.

A rádio comunitária é uma emissora FM de baixa potência e cobertura restrita ao raio de 1 km a partir da antena transmissora. As rádios devem possuir uma programação diversificada aberta à expressão dos moradores da região atendida, sem nenhum tipo de censura.

Veja a lista das localidades abrangidas pelo aviso de habilitação:

 

UF     Localidade      Canal

AL    Jequiá da Praia    285

AL    Olho D'Água das Flores    285

AL    Olho D'Água do Casado    285

AL    Palmeira dos Índios – Vila Caldeirões de Cima    285

AL    Pariconha    285

AL    Piranhas – Distrito de Piau    285

AL    Piranhas – Vila Entremontes    285

AL    Poço das Trincheiras – Distrito de Guandu    200

AL    Rio Largo    200

AM    Amaturá    200

AM    Atalaia do Norte    285

AM    Canutama    200

AM    Iranduba    285

AM    Novo Aripuanã    200

AM    Santo Antônio do Iça    200

BA    Abaíra – Vila Catolés    200

BA    Angical    200

BA    Antônio Cardoso    200

BA    Glória    285

BA    Macaúbas    285

BA    Malhada    200

BA    Nordestina    200

BA    Nova Viçosa    285

BA    Paulo Afonso – Bairro Cleriston Andrade    285

BA    Salvador    200

BA    Wenceslau Guimarães    200

CE    Acopiara – Distrito de Trussu    290

CE    Arneiroz    200

CE    Barreira    285

CE    Barroquinha    253

CE    Brejo Santo    285

CE    Catarina – Distrito de Olho D'Água    200

CE    Catarina – Distrito de Olho São Gonçalo    200

CE    Guaraciaba do Norte    200

CE    Icó    285

CE    Ipú    254

CE    Itatira    285

CE    Milhã    200

CE    Piquet Carneiro    200

CE    Quixeramobim    285

CE    Saboeiro – Distrito Flamengo    285

CE    Te j u ç u o c a    254

CE    Uruoca    254

DF    Cidade Estrutural    251

DF    Brasília – Setor de Diversões Sul    251

GO    Cidade Ocidental    251

GO    Goiânia – Setor Morada do Sol    200

GO    Goiânia – Setor Santos Dumont    200

GO    Goiânia – Vila Alto da Glória    200

GO    Mambaí    200

GO    Novo Planalto    200

GO    Pires do Rio    200

GO    Portelândia    200

GO    Sitio D'Abadia    200

MA    Afonso Cunha    200

MA    Água Doce do Maranhão    200

MA    Alto Parnaíba    200

MA    Balsas    292

MA    Itinga do Maranhão    200

MA    Milagres do Maranhão    292

MA    Mirador    200

MA    Primeira Cruz    200

MG    Abre Campo – Distrito Granada    200

MG    Aguanil    285

MG    Alagoa    285

MG    Araguari    300

MG    Bandeira    200

MG    Belmiro Braga    200

MG    Brasília de Minas    200

MG    Brumadinho    200

MG    Cachoeira de Pajeú    200

MG    Capitão Andrade    290

MG    Carangola    200

MG    Caratinga    200

MG    Claro dos Poções – Vila Vista Alegre    285

MG    Diamantina – Vila Guinda    285

MG    Divino    200

MG    Dom Cavati    285

MG    Esmeraldas    200

MG    Espinosa    285

MG    Estrela Do Sul    285

MG    Itabirito    200

MG    Ituiutaba    200

MG    Jacinto – Vila Avaí do Jacinto    200

MG    Januária    285

MG    Japonvar – Vila Nova Minda    285

MG    L u i s b u rg o    200

MG    Luislândia    200

MG    Montes Claros – Vila Nova Esperança    285

MG    Nova Módica    285

MG    Pimenta    200

MG    Santa Efigênia de Minas    285

MG    Santana do Garambéu    285

MG    São Gonçalo do Abaeté    200

MG    Teófilo Otoni    200

MG    Ubá    285

MG    Uberaba – Vila Arquelau    200

MG    Va r z e l â n d i a    285

MS    Água Clara    200

MS    Laguna Carapã    285

MT    Aripuanã    200

MT    Cáceres    285

MT    Cuiabá    290

MT    Nova Canaã do Norte    200

MT    Novo Mundo    285

MT    Porto dos Gaúchos    200

MT    Salto do Céu    200

MT    Santo Antônio do Leste    200

MT    Santo Antônio do Leverger    200

MT    Tabaporã – Distrito de Nova    200

PA    Água Azul do Norte    200

PA    Augusto Corrêa    285

PA    Bagre    285

PA    Bannach    285

PA    Brejo Grande do Araguaia    200

PA    Breu Branco    285

PA    Bujaru    285

PA    Chaves    200

PA    Cumaru do Norte    200

PA    Curionópolis    200

PA    Curuá    285

PA    Faro    285

PA    Inhangapi    285

PA    Jacareacanga    200

PA    Juruti    200

PA    Moju    200

PA    Nova Ipixuna    200

PA    Nova Timboteua    285

PA    Novo Repartimento    200

PA    Palestina do Pará    200

PA    Paragominas    200

PA    Peixe-Boi    285

PA    Piçarra    200

PA    Quatipuru    285

PA    Santa Cruz do Arari    200

PA    Santarém Novo    290

PA    São Caetano de Odivelas    200

PA    São Domingos do Araguaia    285

PA    São João da Ponta    200

PA    São João do Araguaia    285

PA    Senador José Porfírio    200

PA    Soure    200

PA    Terra Alta    285

PA    Tr a c u a t e u a    285

PA    Tr a i r ã o    285

PB    Camalaú    285

PB    Mamanguape – Distrito de Pitanga    285

PB    Mataraca    285

PB    Santa Cecília    200

PB    São Bento    200

PB    São João do Cariri    200

PB    São João do Tigre- Distrito de Cacimbinha    285

PB    Vista Serrana    285

PE    Águas Belas    200

PE    Betânia    200

PE    Brejo da Madre de Deus    285

PE    Recife    253

PE    Sertânia    285

PI    Assunção do Piauí    200

PI    Bertolínia    200

PI    Caraúbas do Piauí    200

PI    Dom Inocêncio    200

PI    Flores do Piauí    200

PI    Jaicós    285

PI    José de Freitas    200

PI    Lagoa do Piauí    200

PI    Luís Correia    200

PI    Madeiro    285

PI    Milton Brandão    200

PI    Monte Alegre do Piauí    285

PI    Murici dos Portelas    285

PI    Nossa Senhora de Nazaré    200

PI    Nossa Senhora dos Remédios    200

PI    São João do Arraial    285

PI    São José do Divino    285

PI    Simplício Mendes – Vila Morro dos Cavalos    200

PI    Socorro do Piauí    200

PI    Te r e s i n a    200

PR    Almirante Tamandaré    252

PR    Alto Paraíso    200

PR    Alvorada do Sul    200

PR    Antonio Olinto    200

PR    Apucarana    220

PR    Boa Esperança do Iguaçu    285

PR    Curitiba    252

PR    Paranavaí    300

PR    Quatro Barras    252

PR    Ve n t a n i a    200

RJ    Angra dos Reis    200

RJ    Barra Mansa    198

RJ    Itaocara – 2º Distrito de Laranjais    200

RJ    Macaé    200

RJ    Mesquita    254

RJ    Paracambi    254

RJ    Piraí    254

RJ    São Gonçalo    254

RJ    São José do Vale do Rio Preto    199

RJ    São Sebastião do Alto    200

RN    Coronel Ezequiel    200

RN    Encanto    285

RN    Ipanguaçu    285

RN    José da Penha    285

RN    Lajes Pintadas    200

RN    Macau    200

RN    Natal    200

RN    Passagem    200

RN    Pedra Preta    200

RN    Tibau do Sul – Comunidade Bela Vista    200

RN    Triunfo Potiguar    285

RN    Várzea    200

RS    Araricá    198

RS    Candelária    285

RS    Eldorado do Sul    200

RS    Gravataí    200

RS    Itati    251

RS    Mato Queimado    254

RS    Monte Belo do Sul    198

RS    Novo Cabrais    285

RS    Palmares do Sul    251

RS    Saldanha Marinho    285

RS    São Francisco de Assis    285

RS    São Luíz Gonzaga    254

RS    São Pedro da Serra    198

RS    São Vendelino    198

RS    Sapucaia do Sul    200

RS    Ta p e s    198

RS    Ta q u a r a    199

RS    Vale do Sol    285

SC    Abelardo Luz    285

SC    Agronômica    198

SC    Formosa do Sul    285

SC    Nova Trento    200

SC    Penha    253

SC    Vidal Ramos    200

SP    Angatuba    290

SP    Arandu    200

SP    Ibirarema    290

SP    Itabera    200

SP    Itapeva – Vila Guarizinho    200

SP    Jacareí    200

SP    Pederneiras    290

SP    Pindamonhangaba    285

SP    Ribeirão Grande    200

SP    Salesópolis    198

SP    Severínia    254

SP    São Bento do Sapucaí    285

SP    Ta p i r a í    200

TO    Bandeirantes do Tocantins    200

TO    Dueré    285

 

Argentina regulamenta comercialização de jornais e revistas

Reproduzido do Jornalismo nas Américas

 

Em uma audiência com jornaleiros, a presidente Cristina Kirchner regulamentou um decreto que devolve a esses trabalhadores a exclusividade da comercialização dessas publicações nas ruas e pequenas bancas, informou a imprensa local.

Com isso, fica proibida a venda de jornais e revistas em supermercados, postos de gasolina e lojas de conveniência, explica La Nación, e os jornaleiros – ou "canillitas", na Argentina – passam a ter seus direitos regulamentados, acrescenta a Télam. Um registro nacional determinará zonas de influência e distribuição.

Segundo o Página 12, a Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas criticou a medida, que também cria um feriado para esses comerciantes no dia 7 de novembro.

O titular do Sindicato de Vendedores de Jornais e Revistas, Osmar Plaini, afirmou que 25 mil trabalhadores defendem esse modelo, diz o Clarín. Segundo o jornal, Plaini (que também é deputado) criticou os maiores diários do país – Clarín e La Nación – e pediu a criação de uma comissão para discutir o percentual que os jornaleiros recebem pelo preço de capa e por inserções nos jornais (como suplementos, brindes e revistas publicitárias). (Maira Magro)

Ministério da Cultura divulga balanço de consulta pública da Lei de Direitos Autorais

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O ministro da Cultura, Juca Ferreira, concedeu coletiva à imprensa, na manhã desta quinta-feira, 9 de setembro, em Brasília, para apresentar os resultados da Consulta Pública realizada pelo Ministério, sobre a modernização da Lei de Direito Autoral.

Ele apontou a necessidade de transparência no sistema de arrecadação e a criação de uma unidade administrativa para mediação de conflitos, como sendo as principais modificações aprovadas pela sociedade civil, durante a Consulta. Foram destacadas, também, solicitações de aperfeiçoamento nos itens que tratam sobre o uso das obras intelectuais para fins educacionais e como recurso criativo, além da necessidade de aprimoramento das propostas da legislação autoral para a área da rede mundial de computadores.

Ao todo, foram recebidas 8 mil 431 manifestações durante a Consulta Pública, sendo que 7 mil 863 via Internet e outras 568 por meio de documentos impressos ou emails. Deste montante, 58% foram de contribuições para o aperfeiçoamento do texto e 42% apenas de posicionamentos sobre dispositivos apresentados no anteprojeto, sem propostas concretas.

Também foram detectadas repetições de centenas de participações com um mesmo padrão de conteúdo, a partir de poucos endereços IP. “Essa é uma situação que o ambiente virtual permite e que nós identificamos como spans, dentro do processo de avaliação dos resultados”, comentou o ministro.

Juca Ferreira disse que a equipe técnica do Ministério da Cultura continuará fazendo a análise das contribuições, com vistas à produção de um relatório técnico, que deverá passar por avaliações dentro do governo, antes de ser encaminhado ao Congresso Nacional, ainda este ano.

Enfatizou, ainda, a necessidade de harmonização do direito do autor com o crescimento do acesso do público às obras, como sendo condição fundamental ao desenvolvimento de uma economia da Cultura no País e à consequente melhora na remuneração dos criadores.

“A primeira pesquisa feita com a nova classe média que está surgindo no Brasil (cerca de 30 milhões de indivíduos), aponta o desejo destas pessoas de terem um lazer de melhor qualidade”, comentou. “Este é um combustível importante para o consumo dos bens culturais e para a inclusão da boa parte da população brasileira”, complementou.

Segundo o ministro, a atual legislação traz algumas ilegitimidades que precisam ser superadas, tais como a regulamentação das cópias de material didático e dos downloads da Web, sob pena do País ter que passar os próximos anos correndo atrás de alunos que fazem cópias de livros ou de jovens que baixam músicas na Internet.

Novo edital

Acompanharam o ministro Juca Ferreira na coletiva, o diretor de Direitos Intelectuais do MinC, Marcos Alves de Souza, e o secretário de Políticas Culturais (SPC/MinC), José Luiz Herencia. Respondendo a uma pergunta da imprensa sobre cópia reprográfica, Marcos disse que as empresas operadoras das máquinas de reprodução têm obrigação de remunerar os titulares das obras e que estes devem se organizar em associações coletivas de gestão dos direitos autorais, para fiscalizarem o processo.

O secretário José Luiz Herencia afirmou que o MinC está em processo final de elaboração de um edital de fortalecimento da gestão coletiva. O apoio será dado tanto na forma de informações técnicas como na destinação de recursos para a formação destas entidades, principalmente para segmentos de criadores que ainda não estão organizados.

Rádios comunitárias legalizadas lutam pela sobrevivência

Existem 34 rádios comunitárias reconhecidas na cidade de São Paulo, segundo lista do Ministério das Comunicações datada de julho deste ano. Desse total, 16 já receberam sua licença provisória – caso da Associação Cantareira -, 11 aguardam deliberação do Congresso Nacional para receberem licença e começarem a funcionar legalizadas e, dentre outras situações, apenas a União das Associações e Sociedade de Heliópolis e São João Clímaco (Rádio Heliópolis) possui a autorização definitiva assinada pelo ministro das Comunicações .

As 34 reconhecidas pelo poder público estão contabilizadas dentro das 41 possíveis rádios comunitárias de São Paulo, de acordo com mapa do Ministério das Comunicações para a cidade feito em edital de chamada para as emissoras em 2006. Dentre centenas de pedidos feitos à época, as 41 que conseguiram um canal foram as associações que conseguiram o maior número de apoios formais de outras entidades. No entanto, de lá para cá sete ficaram pelo caminho por não conseguirem cumprir a burocracia necessária para efetivar suas licenças.

Em 2008, quase na conclusão do processo de licitação, oito organizações que assinaram o Compromisso de Honra em defesa das rádios comunitárias (como Intervozes, Oboré, Associação Brasileira de Imprensa) fizeram um balanço do processo, e chegaram à conclusão de que o mapa não atendeu à demanda, por ter permitido poucos canais para esse tipo de veículo. Além do resultado insuficiente, as organizações criticaram os critérios, considerados imprecisos e injustos. Segundo essas organizações, as 41 rádios permitidas geograficamente no mapa de São Paulo, está muito aquém da demanda da cidade. A maior parte dos moradores da cidade está na “sombra”, isto é, no vácuo entre uma rádio legalizada e outra – o mapa não levou em consideração rádios não legalizadas, ainda que sejam comunitárias.

A maioria das rádios comunitárias hoje reconhecidas tem uma longa história de luta pela implementação do seu próprio veículo de comunicação. Como a Nova Paraisópolis, inaugurada mês passado após 11 anos de tentativas, ou ainda a Rádio Cantareira, que tenta sua legalização desde 98, ano da Lei 9.612, que criou condições para a legalização desses meios comunitários.

 

Mas depois da árdua tarefa de conseguir uma autorização do governo federal, vem outros grandes desafios para manter a emissora funcionando de forma plena. “Dizer que a rádio é regulamentada pesa bastante. O pessoal procura para fazer anúncio, todo dia tem gente para fazer apoio, e antes eles ficavam meio preocupados. Mas hoje temos muito mais limitações, ficou super engessada, com pouca liberdade de ação. Não pode fazer comercial, por exemplo. Como vai manter a rádio?”, questiona Juçara Zotti, da Associação Cantareira.

Ela conta também que antes da autorização, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) estava sempre em contato com a rádio, no caso para perseguir. Porém, após a licença de operação veio o abandono: apesar de no entorno da Cantareira existirem três rádios na mesma freqüência (em Pirituba e em Perus), a Agência não faz nada. “Tem uma rádio AM e FM do Bom Retiro, 87.5, da Assembleia de Deus, que se desligarmos nosso transmissor, ela pega tudo”, denuncia.

A freqüência que o Ministério das Comunicações destinou às rádios comunitárias da cidade (87.5 FM) é outro problema que as emissoras enfrentam, mesmo após todo o processo burocrático que tiveram que cumprir ao longo de anos. Em 2004, a Anatel designou o canal 198 (equivalente à freqüência 87.5 MHz) que, segundo balanço das entidades pró rádios comunitárias de 2008, fica localizado no extremo do dial e em alguns aparelhos simplesmente não pode ser sincronizado. Entre as propostas das organizações, sugeriam a definição de novas diretrizes técnicas – flexíveis e adaptáveis de acordo com as particularidades de cada localidade -, e a revisão dos problemáticos critérios de composição e de desempate entre as rádios, incapazes de apontar qual entidade é de fato a mais representativa.


Legalizados

“Estamos felizes com nossa outorga, mas vamos continuar na luta para legalizar outras”, disse João Miranda na segunda visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à comunidade de Heliópolis, quando receberam a autorização definitiva em 2008. Na época, João era presidente da rádio. Ele chegou a ser preso em 2006, no segundo fechamento da emissora pela Anatel. Geronino Barbosa, que foi diretor da rádio em época anterior à legalização, conta a história: “não éramos legalizados na burocracia, mas éramos uma rádio pública, ética e comunitária.”

A comunidade de Heliópolis, região sudeste de São Paulo, tem cerca de 125 mil habitantes, 35 mil famílias que a UNAS (União de Núcleos Associação e Sociedades dos Moradores de Heliópolis e São João Climaco) tenta alcançar. A rádio é seu principal meio de comunicação, e surgiu como instrumento político para facilitar a organização comunitária – responsável por maioria da infraestrutura que a região conquistou. “Ela [rádio] surgiu para ajudar na organização do bairro. No começo só nos dias que tinha reunião que ela funcionava, para lembrar as pessoas de comparecerem”, conta Genésia Miranda, diretora da UNAS e líder comunitária.

Quando surgiu em 92, a rádio consistia em duas cornetas funcionando em dois pontos da favela, sendo chamada de Rádio Popular de Heliópolis. “Ela passou a ser FM por sugestão de padres italianos, que vieram em 93 e mandaram verba”, conta Rogério José da Silva, locutor do programa “Mistura Fina”. Começaram a transmitir em FM em 97. Também obtiveram equipamentos do Ministério da Cultura, ao se tornarem Ponto de Cultura, na gestão de Gilberto Gil. Segundo Rogério, o público ouvinte atual está por volta dos 60 mil, 40 mil dos arredores de Heliópolis, e os outros 20 mil são de São Caetano, Vila Prudente.

Durante o processo de legalização, a Anatel sempre alegou falta de canal para a associação, mesmo que sempre houvesse permissão para funcionamento de novas emissoras comerciais. “Qualquer rádio comercial pode bater em nós, atrapalhar nosso sinal. Agora, se somos nós que batemos em alguém, segundo a lei temos que interromper imediatamente o sinal”, critica Geronino Barbosa.

A favela da Cantareira, diferentemente de Heliópolis, não tem uma associação de moradores ou um centro organizador das políticas comunitárias locais. O grupo de comunicadores que iniciou a rádio em 95 era muito ligado à Igreja Católica e durante anos fizeram parte da Associação das Rádios Comunitárias Católicas, juntamente com outros movimentos que lutavam pela regularização. “A partir de 96 começou repressão bem forte em cima das rádios comunitárias”, conta Juçara Zotti. Esse processo desencadeou a Lei 9612/98 e nesse mesmo ano a Rádio Cantareira já entrou com pedido junto ao Minicom.

O pedido ficou esquecido até 2006, quando saiu o primeiro aviso de habilitação da capital. Conseguiram a licença definitiva este ano e reinauguraram a rádio em 18 de julho. “Nós funcionamos dez anos sem autorização do Ministério. A gente nunca foi julgado porque a gente mantinha nosso projeto comunitário”, diz a mobilizadora Juçara. Durante esse período, a rádio da Cantareira não chegou a ser invadida pela Polícia Federal.

Construída em 1995, a rádio nasceu da percepção da necessidade de ter meio de comunicação na Brasilândia. “A comunidade não tinha lugar pra compartilhar as coisas. E até mesmo o tipo de comunicação que chegava não atendia a demanda de falar do local”. Chamar reunião de bairro, divulgar tudo que as entidades faziam na região, questões de saúde e saneamento, eram temas que faziam parte do cotidiano da rádio. “A época do governo era bem difícil, havia a implantação do Paz na Cidade, plano de atendimento básico da saúde, que na verdade era privatização”, recorda Juçara.

Vida após a legalização

Financiamento é um tema espinhoso, que tem sido tratado com atenção pelos comunicadores da Cantareira. “Você vai fazer divulgação de um mercado e chamar de apoio cultural. É um colaborador que está ajudando, estamos chamando colaboração de apoio”. Juçara discorda que merchandising é apoio cultural – apoio que procuram fazer em parcerias com espaços culturais e pessoas que trabalham com arte e divulgam seus projetos na rádio, pagando ou não. Mesmo com a imprecisão do nome, essa tem sido a saída para a manutenção da maioria das rádios comunitárias.

“Os apoios culturais podem ser coisas como o Zé da Padaria que paga para falar o nome do estabelecimento algumas vezes por dia”, explica Rogério, da Heliópolis. Para eles, a lei que a Anatel fez é para impedir que as rádios sobrevivam. Além do sistema de fome, outra limitação que veio com a legalização, foi a proibição de se fazer “links”, para transmissão ao vivo de eventos como shows – “só se usarmos um cabo de 500m do evento até aqui”.

O caso da Nova Paraisópolis, recém legalizada, é similar. Só podem conseguir recursos pelo método do “apoio cultural”, mas é o que podem fazer por ora, mesmo que discordem da legislação. “Ficamos mais de onze anos brigando para conseguir a rádio. Nossa luta agora é pra criar meios de subsistência”, afirmou o diretor de comunicação Joildo dos Santos. Sem o risco de serem invadidos pela Polícia Federal, como já ocorreu.