“Você não é só mais um, é um a mais!”

“O ano de 2011 foi magnífico em todo o mundo. Protestos, marchas, manifestações, invasões de sites, ocupações… O céu foi o limite! Mas ainda temos muito o que fazer!” Essa foi a mensagem que o grupo Anonymous enviou ao público, com um convite para 2012: “Aqui, no Brasil, ainda tem muita gente de olhos fechados para toda a realidade. Somos tratados como peões nesse imenso tabuleiro de poderosos, mas somos tantos que conseguimos ser mais fortes! Mas precisamos nos unir para isso. Precisamos achar nossos pontos comuns e somar forças. Você não é só mais um, é um a mais!”

A entrevista surgiu com uma troca de mensagens por Twitter, seguida por e-mail e agendada pelo Skype. Phoenix, Bode e Fá são três anônimos, com diferentes sotaques brasileiros. No país, o grupo combate crimes ambientais e sociais, como no caso do massacre na Ocupação de Pinheirinho (SP), da construção da Usina de Belo Monte (PA) e do Setor Noroeste (DF). Puxou manifestações em defesa do Ficha Limpa, derrubou sites importantes como o da Secretaria de Cultura do DF, invadiu contas bancárias e puxou boicotes direcionados a empresas contra a liberdade de expressão e acesso à informação. Nessa entrevista, conhecemos um pouco mais sobre ideais, ações e objetivos do movimento que usa o mundo virtual para criticar – e transformar – a realidade.

Observatório do Direito à Comunicação: Como surgiu o movimento Anonymous?
Phoenix: Desde 2003. Foi onde começou a ideia basicamente.
Bode: Mas já tinha experiências bem antes, né?
Phoenix: É, isso foi em 1999. Teve o protesto em Copenhague, com a máscara de ópera, ainda não era a do Guy Fawkes, que usamos hoje. Nesse protesto, tinham pessoas na internet que faziam viralizar as imagens, as ideias e as informações transmitidas. Até que alguém teve a perspicácia de dizer “somos anônimos, não esquecemos, não perdoamos, espere por nós” e o meme acabou virando moda.  Um meme se trata disso: ideias e informações que viralizam. A partir de então, foi se criando a ideia de uma legião, que somos todos nós, que lutamos contra a opressão e pelos nossos direitos de liberdade de informação. Essa ideia cresceu muito com as operações que começaram a ser feitas. A primeira foi contra a Cientologia, uma Igreja que perseguia seus opositores…

Quando que foi isso?
Phoenix: Foi em 2004. Aí que surgiram os Anonymous que utilizavam a máscara do Guy Fawkes e trabalhavam com uma noção de pessoas anônimas lutando contra a opressão.

Por que a máscara do Guy Fawkes?
Bode: Você viu o filme V de vingança ou o gibi? É mais ou menos o que ele explica, de se sentir como alguém sem face, todos numa única voz. O Guy Fawkes é uma espécie de Tiradentes inglês, que morreu mantendo um ideal. Ele era católico e na época eles não tinham direitos políticos plenos, porque a Inglaterra era anglicana, então ele queria destruir o parlamento. E ainda que o ideal dele não seja o mesmo que o da gente, nossa ideia também tem a ver com direitos políticos. O V era anarquista, mas nós não temos uma concepção política fixa, não somos anarquistas, capitalistas ou comunistas.

E então a partir de 2004 é que vocês se tornaram mais ou menos o que são hoje em dia?
Phoenix: É, após as ações contra a Cientologia veio a ideia também de hackear e derrubar sites que agiam contra a liberdade de expressão. Um exemplo foi o ataque à Mastercard e à Visa, no ano passado, depois de eles boicotarem o Wikileaks. Foi aí que o movimento passou a ganhar forças: quando se uniu por outras causas, porque até então era só contra essa Igreja. Nossa tática é ocupar espaços da rede. Há várias formas de se manifestar, você pode fazer uma greve, uma marcha, ou esses ataques. São táticas diferentes.

Há quanto tempo vocês, nesse coletivo, atuam juntos?
Phoenix: Desde 2011. Eu já participava de outro movimento, onde levantava informações para conscientizar as pessoas. Isso me ajudou muito a coletar informações e, quando surgiu o Anonymous, eu vi a possibilidade de compartilhar aquilo que eu sabia.

E por que tirar um site do ar? O que isso representa?
Bode: Tem determinadas operações que têm necessidade de fazer um ataque desses para chamar atenção. Mas tem operações que destoam desse sentido.
Phoenix: É relativo. Acho que funciona como uma ação real, mas nunca como consequência e danos ao cidadão. Você pode boicotar uma empresa que polua, ou que queira restringir o acesso à informação, por exemplo.
Bode: Nesse sentido, tem aquela operação da Amazônia (#OPAmazonia <link http://opamazonia.blogspot.com/>), sobre a divisão do Pará e a construção de Belo Monte. E quando você derruba um site, chama a atenção da população quando as pessoas acessam o link de um político corrupto, ou de uma empresa, e vê que caiu e tem uma mensagem explicando o porquê daquela operação. As pessoas começam a ir atrás de outras informações.
Phoenix: Sem contar que não é só derrubar site, existem outras formas de fazer isso, como no caso de um policial que batia nos estudantes. O Anonymous foi atrás e divulgou a identidade dele, para obrigá-lo a responder pelos seus atos. Foi um trabalho hacker, de invasão, não de derrubada de site.

Vocês dizem que têm uma proposta de não direcionar os ataques para cidadãs e cidadãos em geral, mas recentemente foram criticados inclusive pelo Sérgio Amadeu, na Campus Party, por atacar contas bancárias de gente comum e não de grandes empresários. Por que essa ação foi tomada?
Bode:
É complicado falar disso, por que essa ação não foi pensada pela gente. Foi feita por um grupo fechado, que organiza suas próprias ações, sem um coletivo real, só pra chamar a atenção.
Phoenix: Não dá pra agir assim, porque Anonymous não é só ação, você tem que construir um conceito, um sentido, que se possa viralizar e chegar na população, para que ninguém tenha dúvidas do que você está fazendo.

Vocês acham que existe um limite para a ação do hacker? O que não seria interessante para um grupo como o Anonymous fazer?
Bode: Não tem algo que não se possa fazer. Dar limites vai contra o que a gente fala, causa um paradoxo. O que a gente espera é que a população veja as ações e diga: “oh, isso aqui não tá de acordo com o que eles reivindicam, com as causas que eles defendem, talvez não seja uma ação do grupo” e critique. As pessoas têm que se sentir na mesma causa também.

A ideia é que a população seja um termômetro do que é justo?
Bode: É um pouco o que a gente espera, né? Que a população também acorde com as nossas ações e passem a agir. A gente quer pelo menos dar um toque.

Além do trabalho hacker, o Anonymous também tem puxado alguns boicotes contra grandes empresas. O caso mais recente foi o da Sony. Essa tática tem se mostrado efetiva?
Phoenix:
Na verdade, tudo tem sentido de boicote, desde o ataque aos sites até essas ações no mundo real. No caso da Sony, foi pelo apoio da empresa aos projetos de lei SOPA e PIPA nos Estados Unidos. Isso faz parte do nosso objetivo de conscientizar a população de todas as formas, viralizando as ideias. Principalmente pela internet, que é um meio da realidade que a gente deseja mudar, mas também nas ruas. Inclusive tem muitos artistas que já fazem isso naturalmente. Tudo é importante: espalhar abraços grátis, fazer palestras, teatro de rua, ações que deixem clara alguma informação. E a máscara faz com que todos façam isso sem nenhuma identidade. A identidade acaba virando a causa de todos, sem nenhum questionamento.

Fá entra na conversa.

O que projetos de lei como o Stop Online Piracy Act e o Preventing Real Online Threats to Economic Creativity and Theft of Intellectual Property Acat, também conhecidos como SOPA e PIPA, além do AI 5 Digital e outras iniciativas com o intuito de controlar o espaço cibernético, representam na nossa sociedade?
Bode: É um reflexo do que já ocorreu no passado, no mundo real, quando as pessoas eram proibidas de se reunir em público, por exemplo. É uma iniciativa comum, que só mudou de plataforma. Durante esses intensos distúrbios econômicos e políticos pela Europa e a Ásia, o principal ponto de encontro das pessoas era a internet, então começaram a tentar controlar ao máximo esse espaço para impedir as manifestações e rebeliões.
Phoenix: Essa lógica da indústria cultural também limita a nossa criatividade, a construção, a criação. Tudo se trata de uma combinação de informações, imagens, músicas. E o Anonymous luta por uma sociedade livre, onde a gente não tenha que se limitar para prevalecer um sistema econômico monopolizante, principalmente na questão criativa.

Como fica a questão do direito autoral, nisso tudo?
Bode: Na verdade, é uma questão de direito comercial e direito intelectual. O comercial diz que você ao produzir e tem direito sobre a venda daquilo. No intelectual, você produz uma ideia e de alguma forma isso significa que você quis expor aquela ideia. Então é contraditório você limitar o acesso aquele produto, se era para espalhar a criação. Ou seja, a partir do momento em que você limita do ponto de vista comercial, você também limita intelectualmente.
Fá: Além do que, o direito autoral surge com uma ideia de proteger o autor que a gente sabe que é irreal: hoje as produtoras concentram a maior parte do dinheiro das vendas. Sem contar que também comporta uma noção de originalidade é inviável. Não se pode falar hoje em algo completamente original. O tempo todo você lê livros, vê filmes, ouve músicas, adquire referências e vai se formando. Esse modelo acaba sendo um modelo de cultura elitista ultrapassado. Para isso você tem outras iniciativas como Copy Left e Creative Commons, que protegem o autor de certa forma, mas não impedem o compartilhamento pelo público interessado.

Isso tudo está relacionado com uma luta de vocês pelo acesso à comunicação, né?
Fá: Claro, mas tenho certeza de que você também faz isso. Você baixa músicas, filmes, faz xérox. Não vejo a gente como guardiões de nada, é um processo acontecendo. Tem várias esferas sociais que estão cuidando e participando dessa questão também, não se restringe a uma bandeira Anonymous. É uma questão mais ampla. Você tem o pessoal da Mídia Independente trabalhando com isso há muito tempo, contra o monopólio, pela livre informação. Você tem aí também a I Confecom (Conferência Nacional de Comunicação, realizada em 2009). São várias áreas de atuação. Existe uma determinada atividade feita aqui, mas que está se conjugando com outras atuações da sociedade civil organizada também.

Ainda com relação à internet, um dos argumentos mais utilizados para aumentar o controle cibernético é o combate a crimes como pedofilia. Mas muitas vezes é apenas uma desculpa para cercear a liberdade de expressão. Como vocês veem isso?
Fá:
Os governos já têm a capacidade de rastrear e investigar crimes hediondos com a lei atual. Hoje já é possível rastrear criminosos. Positivamente, para transformar a lei, acho que existem outras formas de se atuar, direcionadas diretamente para criminosos e não para usuários em geral, mas não é esse o objetivo desses projetos de lei. Acho falaciosas essas justificativas, da forma como são colocadas. É complicada a relação que se cria, dizendo que com essas leis você vai acabar com a pedofilia, com os golpes, com os crimes. Esse tipo de coisa tá aí, desde sempre, na humanidade. Não vai acabar de um dia para o outro, com uma lei. Hoje a Polícia já tem a capacidade de tirar o site de um pedófilo do ar, mas porque não tira? Porque a lei também preserva o direito do consumidor, tem os acordos internacionais, a lei é complicada né. Mas é estranho que depois de todas essas manifestações populares surjam essas iniciativas para tentar controlar a internet, com a desculpa de proteger a população. Parece mais é que tem uma elite que perdeu o poder da informação com a internet, e quer recuperá-lo.

Vocês realmente acham que a elite perdeu o poder da informação?
Fá: Eu acho que ela perdeu muito poder. Não é mais a única que pode se comunicar, que tem o veículo. Porque 20 anos atrás você até podia ter uma câmera e fazer o seu filme, mas tinha a dificuldade da distribuição. Só que essa dificuldade tá minada com a internet. Hoje você pode distribuir de casa, o que era impossível antes. Como o caso do pessoal da Rede Globo, que foi expulso na manifestação. Lógico, eles ainda têm o controle da televisão, mas na internet eles não têm mais a prioridade.

Mas hoje em dia o acesso à internet ainda é muito restrito. Vocês veem mesmo esse potencial nela para mudar a lógica da comunicação no mundo?
Fá:
Não acho que tenha potencial, acho que já mudou. A lógica já é outra. A prova são essas leis. Lógico que tem esse problema: não temos acesso universal à internet, isso é um fato. Mas existe um projeto para universalizar a banda larga. Assim como outro para universalizar os tablets, por exemplo. Ou seja, essa possibilidade vai aumentar cada vez mais, se não for interrompida por essas leis. Mas a lógica de pensar já mudou, mesmo que uma boa parcela da sociedade ainda não esteja familiarizada com essas novas ferramentas, como o computador, cada vez mais essa nova lógica fica evidente. Hoje as pessoas não sabem direito onde colher informações, o que é correto, em que confiar: é muita novidade. Mas com certeza a lógica já mudou, tanto que existe um investimento pesadíssimo em marketing na internet.

Durante as manifestações no Irã e no Egito, entre outras, muita gente começou a falar que “a revolução vai ser tuitada”. Vocês acham que a relação entre as manifestações do mundo virtual e real é direta?
Fá:
Não, acho que tem uma diferença aí, mas ao mesmo tempo a internet é uma ferramenta. Existe uma diferença entre quem só organiza movimentos virtuais e quem vai pra rua também. Um exemplo disso foi o que aconteceu no Brasil no 7 de setembro passado: foi algo que começou na internet e deu um monte de gente na rua. Mas não necessariamente as duas coisas estão interligadas, apesar de que a tendência é que cada vez mais as pessoas se organizem também via internet.

Uma dificuldade dos movimentos é saber transformar a indignação virtual em atos mais concretos. Vocês são um grupo mais virtual, mas têm uma boa integração com outros movimentos. Como se dá essa relação?
Fá:
Depende muito. A ação em defesa do Santuário dos Pajés, no Distrito Federal, quando derrubamos o site da Secretaria de Cultura do governo foi por conta própria. Mas a gente também tem pessoas atuando em movimentos pra além do Anonymous, que fazem essa ponte.
Bode: No DF mesmo, tem gente no Santuário, na Marcha das Vadias. Em São Paulo, no Pinheirinho, nas ocupações, em Wall Street. Nosso objetivo é mesmo fazer essas ações com outros movimentos, como foi o caso com os Bombeiros no Rio de Janeiro, com os professores em Goiás. Nós somos na verdade uma reunião de pessoas que estão indignadas com alguma coisa.

E vocês planejam essas ações coletivamente?
Fá: A natureza Anonymous é muito mais anárquica do que democrática. As pessoas têm uma ilusão do consenso, que tem que ser superada. É bem legal também ficar claro que não somos um grupo fechado, que temos diversos interesses. Fiquem atentos. Não achem que tudo que sai é em nome do grupo todo. Como é uma ideia, é como um livro, cada um interpreta a história de um jeito. Existe a ideia lá, as pessoas se indignam, mas cada um vai pensar de um jeito: democraticamente, de maneira anárquica, comunista, socialista. Não existe unidade em uma formação ideológica. Há uma ação, porque a gente percebe que certas ações precisam ser tratadas, às vezes de maneira local, nacional ou global, como no caso dessas leis de restrição.
Bode: E é interessante notar que, apesar de algumas pessoas criticarem o fato de construirmos localmente, esse é um elemento importante para a descentralização.
Fá: É, a coisa é completamente descentralizada. Quando a gente fala que não tem hierarquia, não tem hierarquia. Não tem ninguém a quem você tenha que se dirigir para pedir permissão. Não existe isso. O que eu percebo é que vão se formando grupos de trabalho, de interesse, que vão agindo juntos para combater as injustiças no mundo. As formas de fazer isso é que mudam muito. Mas nosso objetivo é também que as pessoas tenham um lugar para compartilhar e acessar informações, tanto por e-mail, como pelo twitter, facebook. A gente quer que todo mundo possa contribuir com uma visão mais conceitual sobre tudo isso que está acontecendo.

Conheça mais sobre o Anonymous:
No twitter:
@planoanonbr
@AnonIRC
@YourAnonNews

No site:
anonbrasil.org (em manutenção)

Anatel escolha entidade aferidora da qualidade da Internet

Redação – Observatório do Direito à Comunicação

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) divulgou a empresa que será responsável pela aferição dos indicadores de qualidade do serviço de internet fixa e móvel. A empresa PricewaterhouseCoopers Corporate Finance Recovery Ltda foi escolhida como Entidade Aferidora de Qualidade (EAQ).

As prestadoras de serviço de banda larga fixa e móvel contratarão a empresa para o desenvolvimento de software específico de medição da velocidade. A seleção da PricewaterhouseCoopers foi realizada pelas próprias empresas de telecomunicações sob a coordenação da Anatel.

O Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) havia protocolado uma uma Ação Civil Pública  pedindo a exclusão da ABR Telecom do seleção da EAQ. Segundo o Idec, a ABR Telecom é composta pelas operadoras de serviços de telecomunicações e não teria autonomia para exercer uma fiscalização sobre o serviço. Também participaram do processo o Núcleo de Informação e Coordenação (NIC.Br)e a ISPM Serviço de Informática.

Artigo 19 lança Observatório de Comunicação Comunitária

Redação – Observatório do Direito á Comunicação*

A Artigo 19 lançou neste mês uma plataforma online que pretende dar visibilidade aos desafios dos veículos comunitários brasileiros. Por enquanto, o Observatório de Comunicação Comunitária (http://obscomcom.org/apresentacao) vai tratar apenas das rádios, mas, de acordo com a ONG, mais adiante os outros meios de comunicação também serão avaliados.

No site, já é possível consultar um módulo completo sobre rádios comunitárias, dividido em seis partes: mapa, outorgas, fechamento, jurisprudência, sustentabilidade e experiências.

Os próximos módulos previstos são TVs, provedores, jornais e blogs comunitários. A Artigo 19 ainda busca apoios e parceiros, mas espera estar com tudo pronto até o fim do ano, de modo a esclarecer a opinião pública sobre a real situação da comunicação comunitária no país.

*Com informações do blog Jornalismo das Américas

Crítica à crítica (e aos críticos) da mídia

O professor Gilberto Maringoni, em artigo recente amplamente divulgado pela blogosfera que compõe a chamada “mídia alternativa”, lembrou aos maiores críticos da “grande mídia” que esta era em grande parte financiada pelo governo federal, por meio de cotas de patrocínio que, apenas para a Veja, rendiam perto de 1,5 milhão de reais por semana. Sua intenção era a de criticar os contumazes críticos da mídia que, mais ou menos alinhados com o governo federal e com o PT, gastavam horas de seus dias a enxovalhar a mídia, seja chamando-a de PIG (Partido da Imprensa Golpista) ou, agora, de PUM (Partido Único da Mídia – com direito a trocadilho proposital).

O primeiro termo, popularizado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, soa ainda mais irônico se contarmos que este trabalha para um notório membro do… PIG: a Rede Record, do bispo Edir Macedo. O segundo termo vem sendo usado pelo insuspeito professor Laurindo Lalo Leal Filho e, ao menos de sua parte, há consistência no uso do termo.

Não se trata de debater a validade dos termos ou mesmo o caráter da grande mídia, mas talvez de se entender quais interesses estão por trás da crítica. Não posso colocar em dúvida a idoneidade e honestidade do professor Lalo, mas começo a suspeitar de jornalistas alinhados à grande mídia e mesmo que recebem – por um meio ou por outro – financiamento estatal (caso, por exemplo, do sempre presente e atuante Luis Nassif, funcionário da TV Brasil) e que gastam boa parte de seu tempo e de seu espaço em seus respectivos blogs/portais para criticar veículos “inimigos” e políticos não-alinhados com o atual governo.

É sintomático o desaparecimento de certas críticas a políticos que passam para o lado governista e é notável o tom brando empregado contra o governo quando de atuações semelhantes ou mesmo mais acintosas que as do governo anterior, ou mesmo totalmente diversas daquelas prometidas em campanha.

Timidez patológica

Há, por parte de um crescente contingente daqueles defensores da “mídia livre”, um alinhamento automático com o governo federal que mascara erros, que abranda problemas e realiza uma defesa intransigente e inconsciente de todas ou da maior parte das atitudes governamentais, sem matizes ou ponderações. Há, dentre muitos governistas que continuam a reclamar da necessidade de uma democratização das comunicações, profundo silêncio sobre o emprego de nossos impostos em revistas da Editora Abril, mas ao mesmo tempo esses mesmos indivíduos que silenciam neste assunto reclamam e bradam contra as compras e contratos feitos entre o governo de São Paulo (do PSDB) e a mesma editora.

Está claro que, em ambos os casos, há o que se investigar e reclamar, mesmo repudiar, mas apenas um dos casos, ou um dos lados, acaba veementemente criticado.

Fala-se muito que as redes de TV, concessões públicas, têm um lado. Alguns afirmam claramente que Globo, Band e outras apoiaram claramente o candidato derrotado tucano José Serra nas eleições passadas, mas quando são perguntados sobre por que o governo federal não se move para rever as regras para concessões públicas, calam-se – dão desculpas pouco críveis ou simplesmente apelam para o velho chavão da “governabilidade”. Termo este, aliás, usado para explicar toda derrapada ou desastre patrocinado pelo governo federal. Se faz algo, merece aplausos, se errou, faz-se silêncio ou tira-se da cartola a palavrinha mágica que tudo explica.

Há, dentre os vários críticos da mídia, uma falta patológica de autocrítica e um excesso de subserviência e mesmo de umbiguismo. Chego até a considerar um certo duplipensar. Para mudar a mídia, é preciso constante pressão, mas o que vemos é uma timidez patológica quando o assunto vira um problema para seu próprio lado. Podemos avançar apenas até o ponto em que os interesses de um ou outro grupo – e são cada vez mais grupos – passam a ser a “vítima”. Sempre, claro, que o grupo se coloca ao lado do governo.

Enquanto os críticos da mídia forem apenas isso – críticos daquilo que não gostam, do outro lado – e não críticos de todo um conjunto de instituições, indivíduos, partidos e indústria, não haverá qualquer mudança significativa no caminho da democratização das comunicações no país.

Raphael Tsavkko Garcia é jornalista, blogueiro e mestrando em Comunicação

Telespectador poderá marcar consulta no SUS pela TV digital

O governo está concluindo a primeira leva oficial de conteúdo interativo para o modelo brasileiro de TV digital.

O CPQD (Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações) prepara para março a oferta dos aplicativos, com os resultados de teste-piloto feito em localidades do Estado de São Paulo.

Será um primeiro passo do governo no campo da programação interativa para TV, um dos pontos fracos do processo de implantação da tecnologia no país.

Os programas serão inicialmente veiculados na EBC (Empresa Brasil de Comunicação), o canal do governo, mas serão abertos e disponíveis para qualquer emissora.

Alguns desses aplicativos terão viés social, como um que permite a marcação de consulta médica no SUS.

Outro fornecerá uma lista de vagas de emprego, permitindo ao interessado fazer consultas por cidade e área.

Um dos propósitos dessa leva de conteúdo é criar e mostrar os parâmetros de programação tanto para os canais públicos como para os comerciais.

O governo, a princípio, não pretende adotar uma regulação obrigando essas emissoras a ter projetos de desenvolvimento de aplicativos.

Há a expectativa de que, com a portaria que obriga a indústria a incluir a tecnologia da interatividade nas TVs e o consequente aumento do parque de televisores com o recurso, as próprias emissoras terão a iniciativa de produzir o conteúdo interativo.

Depois de anos de negociações com a indústria, o governo fechou, na semana passada, a portaria que obriga a presença do software de interatividade, o Ginga, em 75% das TVs fabricadas no país a partir de 2013.

Além do Ginga, o CPQD desenvolve o sistema informatizado a ser usado por prefeituras, serviços de emprego, emissoras e demais responsáveis no projeto.

Não há data certa para o início de alguns serviços na TV digital, como agendamento de consulta médica, pois a programação interativa depende da organização das prefeituras e das outras entidades envolvidas.

Os primeiros programas interativos no ar deverão ser de notícias, previsão do tempo e jogos.