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Abepec buscará realização do II Fórum Nacional de TVs Públicas

Terminou na última sexta-feira, em Belém, o XXVII Encontro Nacional da Abepec que reuniu dirigentes de 20 emissoras públicas do Brasil e aprovou a definição de que a entidade irá se movimentar para produzir o II Fórum Nacional de TVs Públicas. A entidade aprovou também a produção de moções de apoio à realização da Conferência Nacional de Comunicações e a manutenção do secretário executivo do Ministério da Cultura, Juca Ferreira como ministro da Cultura.

A entidade discutirá a produção de um novo grande fórum de discussão do campo público da televisão brasileira, principalmente na questão da regulamentação das emissoras e dos novos conteúdos a serem produzidos diante da realidade da digitalização das transmissões.

Foi marcante também no evento a manifestação de apoio à gestão do ministro Gilberto Gil, que deixou o ministério nesta semana.

Para Antônio Achilis, presidente da Abepec, o evento significou “a estruturação de soluções de abertura de frentes para a consolidação da TV pública brasileira que aprofundam seus compromissos com a sociedade e justificam as razões da sua existência”.

Durante o evento foi apresentado o projeto de criação de um instituto do pensamento da TV pública, ainda sem nome definido, a ser criado como centro de excelência na produção de conhecimento sobre televisão pública e que pretende produzir uma publicação periódica. O projeto foi apresentado por Jorge da Cunha Lima, presidente do Conselho Curador da TV Cultura de São Paulo. Segundo ele, o instituto será uma espécie de marco civilizatório para as emissoras brasileiras. "A criação de um instituto de pesquisa é importante para que exista um respaldo teórico permanente para socorrer os ideais, a tecnologia e a renovação da TV pública. Tivemos um fórum, que deu o princípio teórico, mas precisamos ter uma memória de acervo, de decisões e uma constante pesquisa sobre a questão", explica.

Na reunião, a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura apresentou uma série de projetos a serem desenvolvidos em parceria com as emissoras públicas, entre eles o Anima TV, que fomentará a produção de filmes de animação a serem exibidos nestas emissoras.

A TV Brasil esteve representada no evento com a presidente da empresa (EBC), Tereza Cruvinel, que anunciou a retomada das reuniões para as definições da rede nacional de emissoras que deve transmitir programação simultânea em todo o país.

A TV Cultura apresentou no evento uma nova proposta de relacionamento com as emissoras associadas da Abepec se colocando como uma produtora de conteúdo e não como uma “cabeça de rede”. Segundo Paulo Markun, presidente da Fundação Padre Anchieta, com a entrada da TV Brasil no mercado, foi necessário rever a posição da TV Cultura. “A TV Brasil tem em sua missão montar uma rede nacional e a TV Cultura é uma emissora de abrangência estadual com interesse em se relacionar em parcerias de co-produção, troca de conteúdos e novos projetos que sejam bons para ambas as partes”, disse ele.

No evento foi apresentado também um projeto de cooperação e aliança da Abepec com a Ancine e a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura para a exibição de filmes brasileiros de longa-metragem nas emissoras públicas do país.

O encontro terminou com o lançamento do novo transmissor da TV Cultura do Pará (Funtelpa) que tem 44 quilowatts de potência, atingirá toda a região metropolitana de Belém e teve um investimento de cerca de R$ 5 milhões. O evento teve a presença da governadora Ana Júlia Carepa e um show da cantora Lia Sophia, transmitido ao vivo pela TV, rádio e Portal Cultura. A TV Cultura do Pará iniciou uma grande expansão de seu sinal e já inaugurou 21 novos retransmissores no Estado.

O próximo encontro da entidade deve acontecer em novembro, em Santa Catarina.

Entidades pedem contrapartidas à criação da ‘supertele’

Se o governo e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mantiverem as atuais propostas de alteração dos planos Geral de Outorga (PGO) e de Atualização dos Regulamentos de Telecomunicações (PGR), viabilizando a compra da Brasil Telecom pela Oi, precisam ao menos introduzir medidas que garantam algum benefício ao cidadão no novo quadro de concentração. Esta foi a mensagem dos representantes de usuários e de entidades de defesa do direito do consumidor na última reunião do Conselho Consultivo da Anatel, realizada na última sexta-feira (2/7).

O encontro foi o segundo de uma série de debates que o órgão vem promovendo sobre a atualização do PGO e do PGR e contou com a participação de representantes das concessionárias de telefonia fixa (Abrafix), de médias e pequenas operadoras de telecomunicações (Telcomp), do Procon-SP e do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec). Na reunião, os conselheiros passaram dos costumeiros questionamentos sobre a motivação empresarial da revisão dos planos pela Anatel a comentários que dão como certa a aprovação das propostas e a conseqüente legalização da fusão BrT-Oi. Diante desta constatação, partiram para a discussão sobre quais contrapartidas a agência deve garantir nas normas em discussão.

"A situação está posta e vamos engolir goela abaixo, como aconteceu – e este governo criticou – na privatização. Diante do rolo compressor, queremos condicionantes", reivindicou a advogada Flávia Lefévre, da Associação Brasileira de Defesa do Consumidor. "É o que nos resta querer. Embora o jogo do PGO tenha resultado já conhecido, a política pública tem que ter como resultado o atendimento das necessidades da sociedade."

O diretor do Procom de São Paulo, Roberto Pfeiffer, reforçou a posição. Pediu, admitida a concentração resultante das iniciativas, "medidas compensatórias" para que as políticas do setor atendam minimamente o interesse do cidadão.

Desagregação de rede

A contrapartida mais mencionada pelos presentes foi uma efetiva desagregação de rede. "Ao que tudo indica, se este processo de fusão vai acontecer, deve haver regras para dividir benefícios com o consumidor e é fundamental que haja série de medidas de desagregação de rede, que se force a competição para que haja ganho da sociedade brasileira em torno deste processo", defendeu a representante do Idec, Daniela Trettel.

Embora a desagregação de rede esteja na legislação do setor de telecomunicações como uma medida a ser promovida pela Anatel, ela nunca foi implantada de maneira efetiva. Atualmente, pratica-se uma separação contábil, na qual a detentora da rede precisa discriminar o custo de venda da capacidade de tráfego de dados à agência. "A separação contábil permite subsídio cruzado", criticou Luiz Cuza, da Telcomp. Este sistema, acrescentou, permite que concessionárias cobrem um valor alto pelo uso da rede, o que inviabiliza a presença de novos operadores dividindo a mesma infra-estrutura.

A redação atual do PGO traz, segundo o diretor Pedro Jaime Ziller, uma separação por regime: o grupo detentor de concessão deveria manter uma pessoa jurídica para a exploração do serviço de telefonia fixa (e, por conseqüência, da rede) e outra para a prestação de qualquer serviço que utilizasse a infra-estrutura, especialmente provedores de Internet em banda larga. É importante considerar que a explicação do dirigente da Anatel não está, necessariamente, de acordo com o texto do PGO apresentado pelo Conselho Consultivo, cuja ambiguidade já foi reconhecida por outros dirigentes da agência.

Os presentes à reunião defenderam uma desagregação mais profunda. "Precisa haver efetiva separação entre rede e serviço", defendeu Roberto Pfeiffer. O advogado citou como exemplo o modelo inglês, onde os agentes que administram a rede e os que prestam o serviço são diferentes. "A experiência inglesa desmente o fato de que a detenção da rede pelo prestador do serviço de telecomunicação é caminho inexorável a seguir", avaliou.

Luiz Cuza, da Telcomp, defendeu o que chamou de "separação funcional". "Separando a rede pública dos serviços vai ajudar que ela seja um instrumento de garantia da concorrência. A Anatel pode facilmente fiscalizar isso e os diferentes coligados ou concorrenctes podem trabalhar com os mesmos preços para o consumidor. Quebra o monopólio, porque rede vai se valorizar e ter mais investimentos, segue o caminho da convergência, evita práticas não isonômicas e dá mais transparência", propôs.

Luiz Fernando Pauletti, da Associação Brasileira das Concessionárias de Serviço de Telefonia Fixa Comutado (Abrafix), rebateu as propostas afirmando que a desagregação já existe, porém os operadores não aceitam pagar o preço cobrado pela infra-estrutura pelas concessionárias. Na sua opinião, o objetivo do governo de expansão da banda larga só será alcançado com competição entre redes múltiplas (como a de telefonia, a de TV à Cabo e as móveis como o Wimax). A regulação, concluiu, não deve mais ser tratada por tecnologia, mas possibilitar que as prestadoras escolham os meios técnicos mais adequados em cada momento para a prestação de um serviço.

Para o conselheiro Valter Faiad, ocupante de uma das cadeiras de representação dos usuários, o raciocínio de que a escala garantida pela concentração seria a forma de viabilizar uma expansão da oferta de banda larga não pode ser considerada a sério "nem teórica, nem retoricamente". Em outros mercados, como nos planos de saúde, as fusões acarretaram o aumento dos preços do produto. "Não existe instrumento concreto que garante que haverá divisão de ganhos com o consumidor", alertou.

Modelo de custos

O argumento do representante da Abrafix de que a desagregação não é praticada pelo fato de os pequenos operadores não aceitarem pagar o preço cobrado pelo uso da rede foi questionado pelos presentes. A ausência de um modelo de custos por parte da Anatel inviabiliza que o órgão regulador possa fiscalizar de maneira eficaz a negociação de capacidade de tráfego de dados, possibilitando que as concessionárias pratiquem preços discrminatórios.

Na opinião de Flávia Lefévre, a aprovação do PGO sem este mecanismo, previsto no PGR para ser implantado em dois anos, evidencia o contra-senso de se definir as duas normas ao mesmo tempo quando, na verdade, a segunda deveria vir antes da primeira. Mais do que o atropelo, o fato da Anatel não ter elaborado o modelo até hoje, mesmo sendo esta uma obrigação prevista na Lei Geral de Telecomunicações, gera uma forte dúvida sobre se a Agência irá mesmo fazê-lo daqui a dois anos.

Diante do "rolo compreessor", restou aos conselheiros rebaixarem o patamar das reivindicações para que o atropelo e a ausência da Anatel verificada até hoje não se repitam com os já precários instrumentos existentes no PGO e no PGR. "Já que tudo isso está dado, seria necessário que minimamente algumas coisas que estão previstas nesta proposta sejam implementadas pelo menos antes de 2011, quando haverá revisão de contratos de concessão", sugeriu Flávia Lefévre.

Após 10 anos, usuário sofre com tarifas muito altas

Construído desde o início do primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, o modelo da telefonia brasileira marcado pela privatização da Telebrás em julho de 1998 completou 10 anos cercado de críticas. No lugar do que se alegava ser um sistema estatal atrasado, incapaz de atender a demanda reprimida por expansão deste serviço e melhoria tecnológica e infra-estrutural, os artíficies da nova política anunciaram um novo ambiente calcado na universalização, competição e acesso via tarifas baixas. As promessas, no entanto, não se concretizaram e estão longe de se tornar realidade, sendo uma herança cujo entendimento se faz crucial no momento em que se discute uma nova reorganização do setor.

Já na sua posse, em janeiro de 1995, o primeiro ministro das Comunicações de FHC, Sérgio Motta, expôs a disposição de mudar o modelo de telecomunicações do país. Em fevereiro daquele ano, dentro de um pacote de reformas, foi enviada ao Congresso a Proposta de Emenda Constitucional que viabilizou legalmente a exploração dos serviços de telecomunicação por empresas privadas. Em 1997, foi aprovada a Lei Geral de Telecomunicações (9.472), que estabeleceu o novo ordenamento legal da área, criou a Agência Nacional de Telecomunicações e autorizou o Poder Executivo a privatizar a Telebrás.

Em 29 de julho de 1998,o governo realizou o leilão da estatal vendendo sua estrutura e o direito de exploração em uma divisão que compreendia quatro áreas. A primeira compreendia parte do Sudeste (Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais), todo o Nordeste e uma parte do Norte (Pará, Amapá, Amazonas e Roraima) e foi vencida pelo grupo Telemar. A segunda abrangia as regiões Sul, Centro-Oeste e a parte restante da Norte (Tocantins, Rondônia e Acre) e foi obtida pelo grupo que hoje está à frente da operadora Brasil Telecom, formado sobretudo por fundos de pensão. A terceira estava limitada ao estado de São Paulo e foi ganha pelo grupo espanhol Telefónica em associação com a empresa Portugal Telecom. As pequenas operadoras Sercomtel e CTBC continuaram podendo explorar o serviço nos municípios que já atendiam, em regiões no interior do Paraná e de São Paulo. A quarta área era o território nacional para prestação de chamadas de longa distância e ficou com a Embratel, que passou a ser controlada pelo grupo estadunidense MCI.

Com a separação em áreas diferentes, criaram-se monopólios regionais, à exemplo da opção adotada nos Estados Unidos. “Só que a posição dos EUA no sistema global das telecomunicações era e continua sendo única e hegemônica e a do Brasli era e é extremamente subordinada neste processo”, compara o professor da Universidade de Brasília César Bolaño. A competição viria então de duas formas: a autorização para atuação de empresas na mesma área das concessionárias (empresas-espelho) e a liberação, a partir de 2002, da possibilidade de uma concessionária atuar na área das demais.

O leilão das empresas-espelho teve poucos interessados, resultando apenas na entrada da Intelig na área das ligações de longa distância para concorrer com a Embratel e com venda da operação na região II (Sul, Centro-Oeste e parte do Norte) para a GVT. Segundo Luiz Cuza, da Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (Telcomp), o principal limite à expansão das espelhos foi a dificuldade de competir com as concessionárias seja com infra-estrutura própria, cujos custos iniviabilizariam o negócio, seja na rede das concorrentes, o que também veio a se tornar algo muito difícil pela falta de portabilidade numérica e desagregação de rede (unbundling). A única opção destas operadoras foi a disputa do mercado corporativo em áreas rentáveis, alternativa que vem sendo bem explorada pela GVT.

Já a expectativa de que as concessionárias entrassem na área umas das outras não se concretizou. “Nosso estudo reconhece que os interesses financeiros de concessionárias levam a um tipo de acordo que prevê que uma empresa não entra em área de outras para manter preços altos e não ter concorrência em sua área. É muito melhor ficar com mercado elevado na sua região do que entrar em outro mercado”, argumenta Cuza mencionando estudo que a Telcomp recentemente divulgou sobre a competitição no setor.

Para o professor César Bolaño, este comportamento é próprio do funcionamento econômico da área de telefonia. “Se tem um monopólio em uma região e outro na outra, é muito mais fácil que haja acordo do que concorrência”, diz.

Contra as acusações de cartelização, as concessionárias respondem com o argumento de que a concorrência dever ser compreendida no conjunto do setor, e não em uma área específica. “Não houve concorrência dentro de telefonia fixa, mas no serviço de voz sim”, afirma Luiz Fernando Pauletti, da Associação Brasileira das Concessionárias de Serviço de Telefonia Fixa Comunitado (Abrafix). Na categoria “serviço de voz”, estão somadas todas as formas de comunicação por voz, como a telefonia celular e sobre plataformas IP (ou Voip), além do próprio serviço tradicional.

Ainda segundo as concessionárias, a falta de competição se deve à ausência de competidores. Dados da Abrafix apontam que em 94% dos municípios brasileiros só há uma operadora de telefonia fixa atuando. Os 6% onde há algum tipo de concorrência, no entanto, representam 53% da população brasileira e 58% do PIB nacional. Ou seja, seguindo esta lógica, mais do que um problema, a presença de apenas um operador seria algo positivo, pois estas empresas estariam cumprindo a obrigação de atuar em áreas não-rentáveis.

Na avaliação de Roberto Pfeiffer, do Procon de São Paulo, a presença de apenas um operador prejudica o cidadão. “A concentração econômica conduz a possibilidades mais sistemáticas de desrespeito, uma vez que consumidor não tem possibilidade de trocar de fornecedor”, alerta.

Preços nada modestos

O “acordo tácito” que mantém cada concessionária em sua área original repercute também no preço do serviço ao cidadão. “Não há competição na telefonia fixa e é o cidadão que paga caro por isso”, diz José Zunga, do Instituto Observatório Social das Telecomunicações (Iost).

Na avaliação da pesquisadora Sayonara Leal, do Laboratório de Políticas de Comunicação da Universidade de Brasília (Lapcom), a extinção da lógica tarifária existente na Telebrás, baseada no subsídio cruzado foi um fator do encarecimento excessivo das chamadas locais. O subsídio cruzado consistia em praticar uma diferença tarifária que permitia que os gastos do grande usuário sustentasse parte dos custos do pequeno. “Talvez essa seja uma explicação possível para o extraordinário número de telefones celulares no país. O telefone pessoal e a cartão mostra-se mais propício para controlar os gastos com as chamadas telefônicas”, sugere.

Uma das razões para o aumento do preço ao usuário do serviço de telefonia fixa foi o acréscimo do valor da assinatura básica. Segundo relatório do ex-ouvidor da Anatel, Aristóteles dos Santos, o custo desta taxa saiu de R$ 13 para mais de R$ 40 nos últimos 10 anos. Isso representou um aumento de 207,69%, enquanto a inflação do período foi de 83%.

“A tarifa de telefonia pública subiu acima da média”, avalia Ricardo Sanches, integrante do Conselho Consultivo da Anatel representando pequenos provedores de Internet. Na última reunião do Conselho, o representante do Ministério das Comunicações, Igor Vilas-Boas, também criticou os altos preços pagos pelo serviço de telefonia.

José Zunga acrescenta que, se a ausência de competição é um fator gerador de altas tarifas, a existência de concorrência não necessariamente sana este problema. “O Iost fez uma pesquisa e observamos que, no mês de abril, há 7 mil casos de preços diferenciados e isso não repercutiu em redução de preços para o usuário.” A opinião de Zunga é confirmada pelos dados: atualmente o Brasil tem a quarta tarifa mais cara do mundo no serviço de telefonia celular.

Universalização da oferta, não do acesso

O alto custo para se ter um telefone fixo em casa repercute na terceira promessa da privatização: a universalização do serviço. Houve um acréscimo importante no número de pontos de acesso à telefonia fixa, saindo de 17 milhões na época da privatização para 39,3 milhões hoje. No entanto, o cumprimento das obrigações de universalizar o acesso ao serviço são duramente contestados.

“Não podemos dizer que, no Brasil, todos são contemplados pelos serviços públicos de telecomunicações”, diz Sayonara Leal. As concessionárias alegam ter atingido a universalização da oferta, argumentando que hoje os serviços telefônicos estão nos 5.565 municípios do país. “As empresas privadas fizeram o que Estado deveria ter feito e não fez. A universalização foi feita com sucesso”, rebate Pauletti, da Abrafix.

A advogada Flávia Lefévre, da Pro Teste – Associação Brasileira de Defesa do Consumidor, questiona a posição das concessionárias. “Podemos ignorar o fato de que o Brasil tem, em média, 38 telefones fixos para cada 100 habitantes e que há estados, como o Maranhão, em que não chegamos a 8 telefones por 100 habitantes?”, indaga. Ela também problematiza o argumento de que a telefonia celular estaria cumprindo a função de universalização, uma vez que mais de 80% dos acessos móveis são pré-pagos, servindo apenas para receber chamadas. “Em tráfego de voz, só ganhamos do Marrocos”, lamenta.

Para o Instituto Braslieiro de Defesa do Consumidor (Idec), a presença de estações telefônicas em todos os municípios do país não pode ser considerada como cumprimento da meta de universalização. “Acreditamos e defendemos que o acesso efetivo só será realmente universal quando todo e qualquer brasileiro não enfrentar obstáculos de acesso ao serviço público, como as altas tarifas praticadas pelas concessionárias”, defendeu a organização em recente carta ao presidente da Anatel, Ronaldo Sardenberg.

O debate se assemelha ao exemplo das diferentes perspectivas em relação ao copo pela metade: enquanto as operadoras consideram a simples oferta de serviço, mesmo que monopolista, em 94% dos municípios do país quase como um “favor”, entidades da sociedade civil e pesquisadores olham o recipiente meio vazio e com grandes obstáculos ao seu preenchimento. Enquanto o telefone fixo for um artigo caro e inacessível ao cidadão, não fará sentido falar em êxitos da privatização sob a ótica do cidadão.

Projeto prevê que operadoras cobrem tarifa local para acesso à Internet discada

As tarifas telefônicas interurbanas para provedores de acesso à Internet em municípios não-servidos por esse serviço poderão ficar mais baratas. A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) analisa na reunião desta terça-feira (5), entre os 15 itens que constam da pauta de votações, projeto de lei do senador Romero Jucá (PMDB-RR) que determina a aplicação da menor tarifa cobrada pelas prestadoras de serviços de telecomunicações para ligações locais, quando efetuadas a partir de terminais fixos e se destinarem a provedoras de acesso à rede mundial de computadores.

Para que não restem dúvidas sobre o valor da menor tarifa, o projeto (PLS 317/05) determina ainda que o valor pago será estipulado com base em todos os planos de serviços, básicos ou alternativos, independentemente das condições e requisitos de participação ou das regras do plano e levando em conta ainda quaisquer descontos oferecidos pela operadora.

Segundo Jucá, o objetivo da proposta é viabilizar a inclusão digital nas pequenas localidades e propiciar a interação dessas comunidades com o resto do mundo nas mesmas condições de que gozam os moradores dos grandes centros urbanos.

“A globalização tornou a inclusão digital imprescindível para a aquisição de conhecimentos, convertendo-se em fator fundamental para o desenvolvimento econômico, social, cultural e político do país. E não se pode falar em inclusão digital sem o acesso universal à Internet”, afirma Jucá.

O projeto já foi aprovado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), que acolheu parecer favorável do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM). O relator da matéria na CAE é o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA). Logo após votação na CAE, a proposta segue para análise em decisão terminativa pela Comissão de Serviços de Infra-Estrutura (CI).

FCC pune operadora de banda larga por limitar tráfego de P2P

A FCC (Federal Communication Commission, órgão regulador das telecomunicações nos EUA), em uma decisão histórica, afirmou na última sexta-feira que a Comcast, provedora do serviços de banda larga, ao interromper e dificultar o acesso dos usuários ao sistema de troca de arquivos BitTorrent, interferiu indevidamente, e deverá ser punida, por secretamente impactar no funcionamento de aplicativos da internet em sua rede.

Bloquear e desacelerar o tráfego de conteúdo na rede tem sido uma questão controversa nos últimos anos, irritando consumidores e gerando desmentidos da parte da Comcast e outras provedoras de banda larga. Como os usuários e a mídia encontraram diversas evidências provando que o bloqueio existe, a Comcast foi obrigada a gradualmente admitir suas ações.

“O gerenciamento da rede de internet banda larga da Comcast Corporation vai contra políticas federais que protegem a vibrante e aberta natureza da internet”, destacou a FCC em comunicado. “Especificamente, a comissão descobriu que a Comcast instalou equipamentos em sua rede para monitorar o conteúdo das conexões de seus clientes e seletivamente bloquear tipos específicos de conexões conhecidas como peer-to-peer (P2P)”, acrescentou o órgão. 

A FCC detalhou como a Comcast mentiu para a mídia, e quando foi descoberta, usou a desculpa de gerenciamento de rede para não revelar quais conteúdos ela bloqueava. Tudo devido a motivos classificados pela FCC como anti-competitivos – se os usuários podem facilmente acessar vídeos gratuitamente utilizando o BitTorrent, então a Comcast tem mais dificuldades para cobrar por um serviço próprio de vídeo.

As reclamações contra a Comcast começaram com consumidores, e foram encaminhadas a grupos de direitos dos consumidores como o Free Press e o Public Knowledge. Devido as descobertas, a FCC intimou a Comcast a revelar, em 30 dias, detalhes de suas práticas de rede, explicar como vai modificar estas práticas até o final do ano, e informar detalhes aos consumidores. Se a Comcast falhar em cumprir as determinações do órgão, entrará em vigor imediatemente uma medida obrigando-a a liberar sua rede, e a prestadora será chamada à FCC para dar explicações.

O comunicado, mais direto do que o usualmente feito pela FCC, afeta não só a Comcast, mas envia uma forte e clara mensagem para os provedores de serviço de todos os tipos, sejam de banda larga fixa, VoIP, sem fio, ou quaisquer outros. (Com noticiário internacional)