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Fundo de telecomunicações incide sobre valor do serviço

A contribuição para o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) não é cumulativa. Portanto, incide sobre o valor total da prestação de serviço. Assim, se a empresa, que recebe o pagamento do consumidor, já contribuiu com o valor de 1% de sua receita operacional bruta para o fundo, as operadoras que serviram de interconexão não precisam contribuir novamente.

O entendimento é da 7ª Vara da Justiça Federal do Distrito Federal. Segundo o juiz José Márcio da Silveira e Silva, o Fust “não incide sobre a transferência da remuneração decorrente da interconexão feita de uma prestadora de serviços de telecomunicações a outra, e sobre a qual já tenha havido o recolhimento por parte da prestadora que emitiu a conta ao usuário”.

A interconexão é uma imposição da Lei Geral de Telecomunicações, que tem por objetivo permitir a integração das redes de telefonia. Portanto, diferentemente do entendimento da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a interconexão não se constitui em um serviço de telecomunicação.

Para o juiz, se a interpretação dada pela Anatel fosse aplicada, haveria um favorecimento às empresas que possuem rede própria. Seria “um incentivo ao não compartilhamento das redes e à ineficiência, pela duplicação de redes, pois certamente as empresas dariam prioridade ao investimento em rede própria para cobrir todo o território nacional com a finalidade de diminuir os custos fiscais e, assim, obter vantagem comparativa sobre outras que necessitassem realizar interconexão para prestar seus serviços”, afirmou.

Já o sistema que possibilita transmissão de dados, voz e imagens através de circuito digital, chamado de exploração industrial de linha dedicada (EILD), não tem essa imposição legal, “tratando-se de mera operação comercial entre as operadoras, efetivada exclusivamente em função de suas estratégias operacionais”. Portanto, esse serviço é considerado de telecomunicação e entra na contribuição ao Fust.

As empresas de telecomunicações entraram com um Mandado de Segurança para pedir que a contribuição ao Fust não fosse obrigatória, uma vez que o tributo não tem sido aplicado, devidamente, pelo governo. Segundo o juiz, o fato de o poder público não aplicar os recursos do Fust não isenta as empresas de contribuir. “A eventual inércia do Poder Executivo no cumprimento dos objetivos delineados pela Lei 9.998/2000 implica a responsabilização dos agentes omissos, e não a suspensão da exigibilidade do crédito tributário”, afirmou.

Já no que se refere ao acúmulo das contribuições, o juiz declarou que “a remuneração recebida pelas impetrantes decorrente de serviços de interconexão, mediante transferência de outra prestadora de serviço de telecomunicações, não sofre incidência da contribuição”.

 

Bedran defende agilização dos processos e transparência

Em sua primeira entrevista coletiva como conselheiro da Anatel, Antônio Bedran defendeu especialmente a necessidade de agilizar a tramitação dos processos na agência. Isso será possível com as mudanças estruturais, que já vêm sendo preparadas há mais de dois anos e que foram paralisadas por determinação do governo a partir de uma dúvida à respeito da legalidade do processo. Bedran lembrou que no momento a agência está finalizando processos de 2002: "Um prazo máximo admissível seria de 18 meses considerados todos os prazos recursais e sem nenhum desrespeito aos direitos dos prestadores de serviços", afirmou Bedran.

Em relação à defesa do consumidor e à melhoria do atendimento dos usuários de serviços de telecomunicações, o conselheiro também admitiu que será necessária a mudança na estrutura da agência para garantir uma melhor atenção aos problemas que os consumidores trazem.

Mais tempo para estudar

O ex-procurador-geral da Anatel, que tomou posse como conselheiro na tarde da ultima segunda-feira, 14, observou que nas novas funções vai ter mais tempo para estudar e conversar com as pessoas, desligando-se exclusivamente dos aspectos jurídicos dos processos. Bedran também lembrou que o setor vive no Brasil um momento muito delicado com a necessidade de reformulação da legislação e da regulamentação de forma a atender às mudanças de paradigma tecnológico: "Tudo isso vai ter que passar pelo Congresso e temos que nos preparar bem para este debate".

Durante a coletiva, Bedran procurou sintetizar alguns pontos que deverão ser tratados pela agência ainda este ano. Falou da licitação de 3G "que deverá exigir mais cobertura das prestadoras do que dinheiro para ganhar a outorga"; da licitação de WiMax "que poderá ser flexibilizada para permitir que as concessionárias participem do leilão das freqüências em suas áreas de operação sem perder de vista o necessário estímulo à concorrência"; da boa relação que a agência já tem com o Cade, órgãos de defesa do consumidor; a independência do conselho diretor (e dele próprio) em relação ao Poder Executivo ("sou amigo de infância do ministro Hélio Costa, mas nós dois sabemos muito bem distinguir as coisas"); do celular como o verdadeiro instrumento de universalização das telecomunicações; da possível indicação do embaixador Sardenberg para a presidência do Conselho Diretor quando for nomeado conselheiro ("tenho ouvido isso aí no governo. De quem? Do presidente Lula").

E finalmente rechaçou a especulação de que ele votaria no Conselho sempre na companhia do conselheiro José Leite Pereira: "Voto de acordo com minha consciência, aliás, como acredito votem todos os conselheiros. E isso não significa nenhum desapreço às opiniões do conselheiro Leite".

Como se diz em Minas: Bedran "destramelou"

Na primeira coletiva do conselheiro, que todos os jornalistas conhecem bastante como procurador-geral, houve uma certa surpresa com a desenvoltura com que Bedran tratou de todos os assuntos, mesmo mantendo distância sobre algumas polêmicas sobre as quais nem o próprio conselho tem posição. Pareceu mais um desabafo de um personagem que passou quase nove anos sem ter voz própria ou manifestando-se cuidadosamente sobre temas que seriam apreciados por ele como titular da procuradoria da Anatel ou ainda "dando dicas em off" para que os jornalistas buscassem os próprios caminhos para entender o problema, e que agora foi libertado das amarras da auto-censura à qual se impunha em virtude do cargo. Uma boa estréia.

Active Image publicação autorizada.

Senado aprova incentivos a fabricantes de equipamentos

O Senado aprovou nesta terça-feira (15) o Projeto de Lei de Conversão (PLV) 11/07 – proveniente da Medida Provisória (MP) 352/07 – que institui uma série de incentivos às indústrias de equipamentos para TV digital e de semicondutores, através do Programa de Apoio ao desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores (Padis) e do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Equipamentos para a TV Digital (PATVD). O projeto ainda precisa ser sancionado pelo presidente da República.

Dentre os incentivos previstos, estão reduções a zero de alíquotas como a Contribuição para o Programa de Integração Social e de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PIS/Pasep), a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), na aquisição de equipamentos e softwares importados.

Também fica reduzida a zero a alíquota da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) destinada a financiar o Programa de Estímulo à Interação Universidade-Empresa para o Apoio à Inovação, nas remessas ao exterior destinadas a pagamento de contratos relativos à exploração de patentes ou de uso de marcas e os de fornecimento de tecnologia e prestação de assistência técnica. Poderá ser reduzida a zero a alíquota do Imposto de Importação incidente sobre máquinas, aparelhos, instrumentos e equipamentos, novos.

O senador Aloizio Mercadante (PT-SP) achou exagerada a exigência de investimento de 5% do faturamento bruto em pesquisa e desenvolvimento para as empresas poderem usufruir dos incentivos e disse que, no futuro, voltará a analisar esse item e propor as mudanças que se fizerem necessárias. O senador Jefferson Péres (PDT-AM) disse que a matéria proporcionará um avanço considerável no campo tecnológico, uma vez que o Brasil tem uma defasagem de mais de 20 anos nessa área graças a "um nacionalismo xenófobo que criou a famigerada reserva de mercado para informática".

O senador José Sarney (PMDB-AP) parabenizou as bancadas do Amazonas pela garra com que lutaram pelo pacote aprovado, mas observou que está ocorrendo uma concentração de incentivos em Manaus, que está crescendo mais do que a China e responde por 68% da arrecadação federal na Região Norte. Ele pediu que haja uma distribuição maior com outros estados da região e do Nordeste e cobrou um acordo de líderes firmado para aprovação, na Câmara dos Deputados, de um projeto de sua autoria para destinar incentivos fiscais ao Amapá.

O relator da matéria foi o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), que apresentou voto pela sua aprovação.

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Comissão marca votação de normas de concessão para dia 30

A Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática marcou para o dia 30 a votação do relatório da deputada Maria do Carmo Lara (PT-MG) sobre mudanças no Ato Normativo 1/99, utilizado na comissão em processos de outorga e renovação de concessão de rádio e TV. Até lá, a Subcomissão de Radiodifusão, que analisa o assunto, receberá novas sugestões dos parlamentares.

O relatório, de 101 páginas, foi apresentado hoje à comissão e busca, em linhas gerais, dar agilidade e maior transparência às análises feitas pela comissão. Maria do Carmo Lara e a presidente da subcomissão, deputada Luiza Erundina (PSB-SP), pediram maior participação dos deputados para que a nova norma seja aprovada o quanto antes, uma vez que há cerca de 250 processos parados na comissão aguardando essa definição. "Não podemos dar uma sensação de frustração à sociedade, que espera avanços nessa legislação", afirmou Erundina.

A Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática é apenas um dos órgãos que avaliam essas outorgas ou renovações de concessões. Os processos também passam pelo Ministério das Comunicações, pela Casa Civil da Presidência da República (duas vezes), pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara (duas vezes) e pela Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado.

"É uma tramitação muito longa", considera a deputada mineira. No que diz respeito às outorgas para prestação do serviço de radiodifusão comunitária, o exame dos dados demonstra que, mesmo após a indicação da entidade selecionada para prestar o serviço, o Poder Executivo demora quase um ano, em média, para que o ato de autorização chegue à Câmara dos Deputados. No Congresso Nacional, o prazo médio para essa modalidade de concessão é de 80 dias.

A situação é bem mais demorada nos casos de renovação de outorgas de rádios FM. Segundo o levantamento apresentado por Maria do Carmo Lara, esse processo dura em média 1.704 dias (4,7 anos) no Ministério das Comunicações; 675 dias (1,8 ano) na Casa Civil; e 227 dias na Câmara. "Há pedidos de renovação de concessões que já venceu duas vezes", alertou a deputada.

Entre as propostas de alterações no ato normativo, a deputada sugere a supressão do dispositivo que determina a devolução ao Ministério das Comunicações dos processos pendentes de documentação; a previsão de realização de audiência pública para debater processos específicos de outorga ou renovação, em casos excepcionais; fiscalização periódica sobre os procedimentos adotados pelo Executivo aplicáveis a outorgas e renovações de radiodifusão.

Além dessas propostas de aplicação interna, a subcomissão pretende apresentar, em uma segunda fase de trabalhos – na reunião de hoje o prazo de funcionamento do grupo foi ampliado em 90 dias -, propostas que mudem mais profundamente o sistema de concessão no setor de telecomunicações. Nessa fase serão debatidas propostas de regulamentação de artigos constitucionais e outros projetos de leis, inclusive a possibilidade de se unificar num único texto os diversos projetos e leis sobre o setor.

Além de definir a data de votação do relatório e de ampliar o prazo de funcionamento da subcomissão, os integrantes da comissão aprovaram dois requerimentos: um, do deputado Jorge Bittar (PT-RJ), para realização de seminário sobre as novas telecomunicações brasileiras; e outro do deputado Julio Semeghini (PSDB-SP), que propõe audiência pública para discutir proposta de criação de um regime tributário específico para importação de produtos do Paraguai.

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Governo vai manter normas, diz Ministério da Justiça

A novela da construção das regras para a classificação indicativa de programas audiovisuais ganhou um novo capítulo. Desde a publicação da nova portaria, há 90 dias, a classificação vem sendo pautada como “censura” pelos radiodifusores, que agem como podem para modificar ou mesmo derrubar as normas do Ministério da Justiça, defendidas por organizações da sociedade civil que lutam pela democratização da comunicação, pelos direitos humanos e pelos direitos das crianças e adolescentes. O final desta história pode não ser feliz, se o interesse público, mais uma vez, for submetido aos interesses privados das grandes emissoras de televisão do país.

 

O artigo 19 da portaria 264/2007, que define a vinculação entre faixa etária e horária, questionado pelos representantes das emissoras, está suspenso por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). E agora, outros três artigos da portaria – 15, 20 e 21 – entram novamente em discussão: por 45 dias, representantes de emissoras, da sociedade civil e de entidades de defesa dos direitos humanos e da infância deverão debater a padronização dos símbolos que informam a classificação indicativa dos programas de TV, a necessidade de informar a faixa etária em chamadas e traillers da programação e a reclassificação cautelar, conforme previsto na portaria.

 

A decisão do Ministério da Justiça de estender as discussões a respeito dos artigos foi uma resposta ao pedido de reconsideração de pontos considerados como negativos pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) e do manifesto apresentado recentemente pela Abert, pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) e pela Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner).

Recuo ou debate estratégico?

Para entidades da sociedade civil, a decisão do MJ poderia indicar um recuo, mas esse risco é afastado pelo Diretor de Justiça e Classificação do Ministério da Justiça, José Eduardo Romão, que garante que não haverá mudanças em nenhum dos pontos da portaria. “Acreditamos que esta discussão servirá para amadurecermos alguns pontos relativos a estes artigos e para que as emissoras se adeqüem às novas regras”, diz. Segundo ele, em paralelo ao debate dos três artigos, o MJ vai recorrer ao Superior Tribunal Federal (STF) para reverter a suspensão do artigo 19. “As emissoras de televisão resolveram correr este risco. A decisão pode ser julgada pelo STJ a qualquer momento e cair. Assim, todas terão que se adaptar”, explica.

 

Romão diz que “a pretensão das emissoras nestes 45 dias é de modificar as regras, mas até agora não há razão para que isso ocorra. A Abert não está oferecendo alternativas concretas para os pontos que contesta”, diz, exemplificando com a questão do fuso horário: “O nosso princípio é de que não pode haver discriminação entre crianças e adolescentes que vivem em horários diferentes. Para nós, a solução é que as emissoras de adeqüem ao fuso. Se elas nos apresentassem outra solução que fosse plausível, poderíamos discutir”, afirma.

 

O coordenador de relações acadêmicas da Andi – Agência de Notícias dos Direitos da Criança e do Adolescente, Guilherme Canela, concorda: “É saudável para a democracia que todos os temas sejam amplamente discutidos. Mas para rediscutir uma política é preciso que algum fato novo justifique. Qual o motivo para se colocar em discussão a portaria, que é resultado de um processo de três anos de debate? Nosso temor é de que o debate retroceda e que voltemos a discutir o que é ou não censura”.

 

Marcos Ferreira, presidente da Associação Brasileira de Ensino de Psicologia e membro do GT de Comunicação do Conselho Federal de Psicologia, sinaliza na mesma direção. “É claro que nesse processo sempre encontraremos questões que poderiam ser melhor discutidas, mas o essencial é que não podemos viver no Brasil sem que existam instâncias públicas que façam essa avaliação do que é produzido e indiquem à sociedade referências concretas”, afirma.

 

Romão reforça que os pontos não estão em discussão. “Avaliamos que seria razoável suspender estes três artigos não só para que as pequenas emissoras e as que têm menos recursos – entre elas as públicas e as comunitárias – que reclamam de dificuldades, se adaptem, mas também para que todas as outras possam se apropriar melhor das regras e das soluções que estamos oferecendo para sua implantação. O (ministro) Tarso (Genro) e o (Secretário Nacional de Justiça, Antônio) Biscaia estão seguros do trabalho realizado e têm a clara compreensão de que foi participativo, de que houve democracia no processo e legitimidade”, diz o diretor.

 

Não há expectativa de realização de consulta. Segundo Romão, aquelas entidades que quiserem debater devem encaminhar requerimento ao gabinete do ministro e terão oportunidade de explicitar suas defesas, críticas e justificativas. “A idéia é realizar encontros com a presença de interessados de diferentes campos para que o ministro possa, pessoalmente, vivenciar a contradição das posições”, explica. “Mas o Ministério não vai alterar a portaria e não haverá retrocesso no debate. As emissoras vão ganhar tempo para se adaptar. E em relação ao artigo 19, o STF tem que julgar”.


Os três artigos

O artigo 15, foco das principais críticas de censura das emissoras, segundo o diretor do Departamento de Classificação, “resolve o problema do atraso e da demora em decidir”. Ele explica que é comum as emissoras ganharem tempo com processos administrativos. Muitas das vezes, até que se chegue a uma conclusão, leva-se dois anos. “Da forma que propomos, podemos reduzir este tempo para até seis meses. Estrategicamente, as emissoras inserem cenas inadequadas nas novelas livres, porque o processo administrativo pode acabar depois da conclusão da obra. Com a reclassificação, isso vai mudar”, diz. A reclassificação cautelar, no fundo, é uma medida para evitar que emissoras façam uso perverso da demora do processo judicial. A diferença é que agora a emissora terá que provar que aquela classificação condiz ou não com a produção. “O ônus da prova é delas”, diz Romão, “E quando se trata de crianças e adolescentes, na dúvida, a gente protege e não expõe”.

 

O artigo 20 diz respeito à padronização dos símbolos que informam a classificação indicativa dos programas de TV. As críticas das emissoras estão na obrigação do uso das Libras (Linguagem Brasileira de Sinais). O MJ, reconhecendo esta dificuldade, se antecipou e fez, em parceria com a Radiobrás, 60 modelos de interpretação em Libras que estarão disponíveis para todas as emissoras que os desejarem, mesmo as comerciais. “Queríamos deixar este material disponível, para derrubar os argumentos de que a questão é complexa. Fizemos isso em pouco menos de dois dias. E nestes 45, vamos oferecer soluções como estas para que as emissoras de adaptem”, conclui Romão.

 

O artigo 21 versa sobre a necessidade de informar a faixa etária em chamadas e traillers durante a programação. “Ao longo da programação, é comum vermos chamadas de programas inadequados. E isso é uma reclamação permanente dos pais”, diz Romão. Pelas regras, se o programa é inadequado, mas não tem cenas inadequadas na chamada, a emissora precisa apenas identificar na chamada que aquele conteúdo é recomendado para determinada faixa etária. O que não poderá ser feito é a reprodução na chamada de um trecho com cenas inadequadas (como é comum vermos, em propagandas de novelas e filmes, para ter apelo, com cenas de casais na cama ou mesmo cenas de violência) em horário classificado como livre.


Remédio sem tarja

“No fundo, vai ficando cada vez mais claro que o que eles querem não é discutir. Eles não querem portaria nenhuma e isso não é possível”, diz Canela. “Podemos fazer uma comparação da ação das emissoras com a tentativa da indústria farmacêutica de abolir as tarjas dos remédios. Como os pais vão saber que remédio exige maior cuidado ao ser ingerido? É como abolir as cores do semáforo. Qual o problema de ter os padrões uniformizados?”, questiona o coordenador da ANDI.

“É preciso haver classificação, porque sempre alguém vai classificar: se não for uma instância pública, vai ser uma instância privada. Se não for a sociedade, vai ser o dono da emissora. Queremos ter transparência nesse processo. Isso estar vinculado ao aparelho de Estado não é um problema, até porque o próprio Estado está se propondo a fazer isso em conjunto com a sociedade. Na verdade, o que o governo fez foi criar um espaço para que a sociedade faça as suas escolhas”, afirma Ferreira, que também é membro da Campanha Quem financia a baixaria é contra a cidadania.

Neste sentido, Romão ressalta que o modelo de classificação (inspirado no que é utilizado em outros países como Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha) distribui a responsabilidade entre emissoras, sociedade, Judiciário e Ministério da Justiça, o que aumenta o controle sobre o trabalho do próprio Ministério.

 

Em entrevista à Agência Brasil, Zico Góes, diretor de programação da MTV – que adotou no último sábado (12) as regras para a classificação indicativa -, disse que as normas não são uma novidade, como argumentam algumas televisões que são contra a medida. Segundo ele, a portaria publicada em fevereiro regulamenta normas definidas pela Constituição e discutidas com a sociedade à exaustão: “Isso não foi uma coisa que caiu do céu, não foi uma imposição do Ministério da Justiça”, afirmou acrescentando que tampouco as normas podem ser consideradas como censura. “Aceitamos porque concordamos. Sempre discutimos com o Ministério a adequação dos critérios. Quem não quis debater na época tinha outros interesses”, disse.


Campanha velada

O temor de Canela, da Andi, é de que, nestes 45 dias para a discussão dos três artigos, as grandes corporações de comunicação resolvam reforçar a campanha que estão promovendo contra as regras da classificação. “Esta discussão é sempre comprometida pela bomba de fumaça que os grandes meios de comunicação lançam sobre ela: a da censura. Não há censura nenhuma. As emissoras não querem dor de cabeça. Querem fazer seu negócio da forma mais conveniente aos seus interesses”, diz.

 

Ferreira, do Conselho Federal de Psicologia, concorda: “Controle social e classificação não têm nada a ver com cerceamento à liberdade de expressão. Estamos só dizendo que é preciso haver limites, que o controle social é, ao contrário, a maior garantia para o exercício dessa e de outras liberdades”, afirma Ferreira. “O problema disso é que quem está organizado para atuar é o empresariado. Eles têm energia pra entrar na Justiça, para exercer mecanismos de pressão sobre o Estado. Por isso, a sociedade precisa se organizar, pois os interesses dos empresários e da sociedade, neste caso, são divergentes”, afirma.

 

Enquanto o artigo 19 (sobre o fuso horário) permanece suspenso, e os outros três artigos entram em discussão por mais 45 dias, alguns radiodifusores, de uma lado, e o Ministério da Justiça e as organizações da sociedade civil, de outro, voltam a travar o debate sobre a pertinência e necessidade da Classificação Indicativa. E, dessa vez, parece que a sociedade brasileira, em seu conjunto, não ficará do lado da Rede Globo.

 

 

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