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Universal distribui carnê para ampliar rede de rádios

A Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) distribuiu anteontem, durante "a maior sessão de descarrego do mundo", segundo a organização, carnês bancários para que seus fiéis contribuam na ampliação da rede de rádio da igreja no país. O valor mínimo proposto a ser pago mensalmente é de R$ 20.

O evento, na praia de Botafogo, zona sul do Rio, contou com a presença de 650 mil pessoas, disse a PM. O carnê -com 12 boletos, além da capa e contracapa- traz uma explicação aos fiéis sobre a importância do papel do rádio na evangelização. "A mídia é um canal valioso que a Iurd tem usado na propagação da Palavra de Deus, e o rádio é a principal ferramenta capaz de alcançar aqueles que moram nas mais distantes regiões", diz o texto na contra-capa do "carnê dos Auxiliares". A Iurd já controla uma rede nacional de rádios em FM, a Rede Aleluia, além de várias emissoras locais, em AM e FM.

A recompensa pela colaboração seria a inclusão do nome do contribuinte à "lista dos auxiliares do bispo Edir Macedo". "Logo após você pagar, e entregar o comprovante na igreja, seu nome chega aos nossos computadores. Aí estaremos orando por você toda a madrugada. (…) Então tem de ser feito mensalmente", disse Macedo.

O valor proposto é de R$ 20. Macedo, fundador da igreja, pediu valores maiores. "Quem puder doar R$ 50 doe R$ 50, R$ 100." Antes, havia ocorrido a contribuição de dízimo.

Macedo, que foi preso em 1992, sob acusação de charlatanismo, curandeirismo e estelionato, começou a erguer o império de comunicação da Universal no final dos anos 80, quando comprou as três emissoras de TV da Record de São Paulo. O grande salto de expansão neste setor se deu nos anos 90. Até 94, a Record tinha seis geradoras próprias de TV. Em 95, foram acrescidas mais oito. Ainda nos anos 90, a Universal investiu em duas novas redes de TV -Rede Mulher e Rede Família. Neste ano, foram compradas a TV e rádios Guaíba.
 

Belluzzo: nova TV pública precisa de modéstia e ambição

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Luiz Gonzaga Belluzzo afirma ter estranhado que o convite para presidir o conselho curador da nova TV pública tenha sido feito a um economista. “Acho que foi por conta dessa minha percepção de que é preciso que se dê curso ao debate mesmo que as idéias contrárias não sejam do seu agrado”. Hoje filiado ao PPS, Belluzzo é amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do governador José Serra.

Segundo Belluzzo, a TV pública precisa de “muita modéstia na formulação” e “ambição para não permitir que seja transformado num instrumento de poder como invariavelmente tendem a se transformar as televisões”. Ex-secretário dos governos Sarney e Quércia (SP), o economista afirma ainda que o PT demoniza a imprensa. ”Esse tipo de reação, eu não gosto. Tenho medo. Assim como tenho medo de certas unanimidades que vemos na mídia", critica.

Confira a íntegra da entrevista:


FOLHA – Por que não aceitou ser presidente executivo da TV pública?
LUIZ GONZAGA BELLUZZO – Não quero mais aceitar um cargo público que receba uma remuneração do governo. Disse a eles que aceitava ser presidente do conselho, se eleito, que me comprometia com o projeto, desde que não remunerado.

FOLHA – Por quê?
BELLUZZO – Cabe aos profissionais do setor. O papel do conselho é traçar as diretrizes e fiscalizar a execução do projeto de se criar uma TV não estatal, apartidária, plural e, desculpe ser um pouco pedante, mas que sobretudo permita que pouco a pouco o cidadão seja capaz de compreender o mundo onde vive. Precisamos de muita modéstia na formulação. E, paradoxalmente, ambição para não permitir que seja transformado num instrumento de poder como invariavelmente tendem a se transformar as televisões, ou as televisões estatais que não respeitam esses princípios.

FOLHA – Como evitar?
BELLUZZO – Primeiro, o conselho tem que ser muito amplo, plural. Nenhum ponto de vista pode ser excluído. Uma TV pública tem que dar abrigo a todos os pontos de vista.

FOLHA – A que atribui o convite?
BELLUZZO – Estranho que tenha sido a um economista. Acho que foi por conta dessa minha percepção de que é preciso que se dê curso ao debate mesmo que as idéias contrárias não sejam do seu agrado. Pode parecer simplório. Mas não é fácil.

FOLHA – Como o sr. enxerga a decisão do PT de "acompanhar" as renovações de concessões de TVs?
BELLUZZO – Isso é um problema do PT. O PT tem todo direito de pensar como ele pensa. Só que a TV pública não pode se submeter a esse tipo de coisa. Não se pode politizar uma TV pública.

FOLHA – O sr. considera isso um "problema" do PT?
BELLUZZO – Não. Há muitos grupos dos EUA que se preocupam com isso. No livro "The Assault of Reason" (O ataque à razão), o Al Gore, que não é um perigoso esquerdista, faz uma análise de como o poder da mídia causou problemas sérios na decisão do povo americano de apoiar ou não a guerra no Iraque. A mídia insistiu na questão das armas de destruição em massa. Se há movimentos unânimes, não é bom para a democracia.

FOLHA – No Brasil, há esse risco?
BELLUZZO – Às vezes, há certas ondas de unanimidade que não são boas. Por exemplo, no julgamento do Supremo. Como sou amigo de muitos juízes, eles disseram que era difícil suportar aquilo. Quando perguntaram a Hannah Arendt por que estava interessada em compreender o nazismo, ela disse: "Se eu não compreender o nazismo vou enlouquecer". É preciso que se insista nisso. Vejo a TV pública como a antítese da idéia de doutrinação. A idéia de doutrinação é abominável.

FOLHA – O sr. acha a postura do PT e da "grande mídia" doutrinária?
BELLUZZO – Muitas vezes é doutrinária no mau sentido da palavra, porque não permite que vire as vísceras. Muitas vezes é uma coisa propagandista de ambos os lados. É propaganda. Não é informação, nem debate.

FOLHA – O PT diz que o julgamento no STF era desnecessário, pois o governo foi aprovado nas urnas.
BELLUZZO – Aprendi com Ulysses Guimarães que é preciso deixar as instituições funcionarem. A idéia de que os acusados de mensalão não poderiam ser julgados é, para mim, completamente estranha. Era preciso que fossem julgados por um tribunal independente. O relatório foi feito com a maior seriedade, a despeito do clima muito emocionalizado [no STF].

FOLHA – E a imprensa?
BELLUZZO – Simplificou. Ficou uma coisa de bandidos contra mocinhos. O mundo não é assim. Vejo alguns colunistas que têm certezas tão graníticas. Fico muito surpreendido porque não tenho essa certeza.

FOLHA – E a reação ao "Cansei"?
BELLUZZO – Vi muita gente ofendida com razão. Por que não podem dar a opinião? Posso ter desprezo intelectual pelo o que estão dizendo, mas eles têm todo direito de dizer o que acham.

FOLHA – Na sua opinião, qual seria o tratamento ideal da mídia no caso do mensalão?
BELLUZZO – Seria a evolução do caso. O que não posso é me colocar na posição de juiz. Existe uma instituição encarregada de julgar. Ficamos espantados que esteja funcionando no país. O Brasil é o país onde os de cima nunca eram afetados pela polícia, pela Justiça. É um choque do avanço da democracia. Um choque, às vezes, é dolorido e exaspera reações antidemocráticas. As instituições, de certa forma, estão funcionando. Inclusive a imprensa está se comportando de uma maneira em que é obrigada a se submeter à crítica. Tem um autor francês Paul Virilio que diz a mídia é a única instituição que cria suas próprias leis.

FOLHA – O sr. concorda?
BELLUZZO – Um pouco. Não tem coisa mais sagrada que a liberdade de expressão. Ela não pode ser monopolizada por ninguém. Você não pode se colocar na posição de que é inatacável.

FOLHA – O sr. acha que a reação da mídia é ao choque democrático?
BELLUZZO – Esse terremoto democrático, que se acentuou com a chegada do operário ao poder, suscitou uma reação de ambos os lados. O que não se pode permitir é que isso provoque transgressão à liberdade de opinião recíproca. O que eu temo é isso. "A mídia é isso", "a mídia é aquilo", é uma coisa acrítica. Esse tipo de reação, eu não gosto. Tenho medo. Assim como tenho medo de certas unanimidades que vemos em certos momentos na mídia.

FOLHA – Essa relação, sob tensão, é perigosa?
BELLUZZO – Não é boa para o país. Pode ser conflituosa, mas não desrespeitar regras da sociedade democrática.

FOLHA – Lula está preocupado?
BELLUZZO – Ele acha que tem que criar um espaço público que distensione isso. Ele é muito conciliador, o Lula. Ele fica muito assustado.

FOLHA – O sr. concorda que a imprensa seja tratada como um bloco?
BELLUZZO – É simplista. Há matizes. Criou-se um embate que não é bom para o Brasil. O governo tornar a mídia num bloco monolítico. E a mídia diz "o governo quer censurar".

FOLHA – O que o sr. acha dessa postura mais agressiva?
BELLUZZO – Se você acua um gato num quarto escuro, dizem, não tem uma forma de expressão. Em "Origens do Totalitarismo", quando você lê os relatos que a Hannah Arendt faz do fascismo, é claramente de um povo que se sentia acuado, economicamente, social e politicamente. O totalitarismo não permite que o indivíduo se exprima. Gera a violência. Isso é muito perigoso. Fico assustado quando vejo esse tipo de reação. A reação correta é construir um ambiente de diversidade. Não é um demônio adversário, em cima do qual você joga toda responsabilidade.

FOLHA – A demonização vem dos dois lados?
BELLUZZO – Bastante. É o ápice da irracionalidade. O PT demoniza a imprensa e a resposta não tem sido adequada.

FOLHA – O sr. assusta quando fala do animal acuado como semente do fascismo…
BELLUZZO – Uma sociedade em que os processos de sociabilidade se destruíram completamente. Não há mais referências a não ser o füher. O populismo latino americano é uma pálida idéia do que foi aquilo. Vocês dizem que o Lula é populista. Ele é uma figura popular. É muito democrático. Não acho que tenhamos as condições históricas do fascismo. O que digo é que a sociedade está sempre ameaçada pelo risco de salvacionismo, que, volta e meia, volta. Se você forma um consenso que não é passível de ser contraditado, corre um risco enorme.

FOLHA – A democracia brasileira está sob ameaça?
BELLUZZO – Acho que está permanentemente ameaçada pelos poderes privados e pela idéia de que você pode ter um salvador da pátria e que o Estado pode, na verdade, controlar a vida dos cidadãos. O processo democrático envolve, necessariamente, o risco de você perder. Necessariamente perder o controle e caminhar na direção, por exemplo, de situações de monopólio de informação. Um dia li uma entrevista na Folha, do Ruy Fausto, com a qual concordo quase inteiramente em que ele diz que às vezes a esquerda não se deu conta de que o socialismo real fracassou completamente. Ele diz que a esquerda não conseguiu se reabilitar. De vez em quando você tem frêmitos controlistas. Não vai dar certo. Os pais da idéia pensaram na democracia radicalizada. É autonomia dos indivíduos produtores. É claro que é uma coisa do século 19. A sociedade ficou muito mais complexa. Mas as idéias de autonomia do indivíduo são as que deveriam guiar a nossa luta política. Isso está permanentemente em risco.

FOLHA – O sr. é um conselheiro do Lula e apoiou o Serra em 2002. Gostaria de entender essa relação.
BELLUZZO – Conheço o Lula desde os anos 70, quando começou ser um líder sindical. Tenho uma relação afetiva com ele. Gosto muito dele. Não obstante, por que apoiei o Serra? Não porque sou amigo do Serra, mas porque achei que fosse capaz de exercer uma política econômica melhor. Exerci meu direito de divergir. Era uma disputa entre duas pessoas que acho importantes para o Brasil.

FOLHA – Como evitar a influência do governo na TV Pública?
BELLUZZO – O recado que recebi do presidente foi que levasse com a maior autonomia possível.

FOLHA – Deve haver um fundo?
BELLUZZO – O financiamento é fundamental. Uma TV pública, dada a missão que tem que cumprir, tem que ter regularidade na fluência dos recursos. Senão a qualidade do serviço cai. Sem falar na autonomia.

FOLHA – E a publicidade?
BELLUZZO – A TV pública não pode disputar publicidade. Se for presidente do conselho, não vou admitir.


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Práticas de educomunicação ganham visibilidade no estado

A educomunicação mostra sinais de que vem sendo aceita como um campo capaz de articular agentes culturais e sociais em torno de projetos de transfomração social. Foi o que ficou evidenciado em Salvador, durante o 2o. Seminário Baiano de Radiodifusão Comunitária, ocorrido entre 29 e 31 de agosto, no espaço do Centro de Cultura da Câmera dos Vereadores de Salvador, no centro histórico.

O evento que contou com a presença de instituições e personalidades do primeiro setor (área governamental) e do terceiro setor (espaço de atuação das ONGs). A iniciativa coube à REBECA – Rede Brasileira de Educomunicação Ambiental, ao Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Rádio, TV e Publicidade da Bahia e à Associação de Rádios Alternativas e Comunitárias da Bahia – SINTERP, com o apoio do SESC, SENAC, SEBRAE, IPRAJ e Sindicato dos Jornalistas do Estado da Bahia – SINJORBA, num trabalho articulado pela jornalista Simone Moraes.

O encontro notabilizou-se por reunir, numa mesma mesa-redonda, de um lado, representantes do Ministério das Comunicações (na pessoa de Zilda Beatriz, da Secretaria de Serviços de Comunicação Eletrônica) e da Casa Civil da Presidência da República (na pessoa de Carlos Freire Resende, Diretor do Departamento de Outorga de Serviços), que tiveram espaço e tempo para apresentar os pontos de vista do governo e, de outro, lideranças do movimento em favor da multiplicação dos canais comunitários (notadamente Joaquim Carvalho, representante da Associação Brasileira de Rádios Comunitárias – ABRACO e Manoel Ávila, presidente da Associação de Rádios Alternativas e Comunitárias da Bahia-ARCOBA) que criticaram com veemência a forma com que Brasília trata os pedidos protocolados, inibindo o desenvolvimento de uma política democrática de comunicação para o país.

Para os participantes do evento, pessoas que trabalham com comunicação comunitária no estado da Bahia, houve uma contribuição em conhecimento e a interação das experiências de cada um somada é um estímulo para a continuidade dos trabalhos nos meios de comunicação comunitários. Como o depoimento de Edmilson Sacramento: “Participei do seminário de Radio Comunitária e aproveito para parabenixzá-las pela efetivação do evento. Sou integrante da Comissão Civil de acessibilidade de Salvador – COCAS e dirijo a ong ARCCA (Acesso e Reintegração a Comunicação, Cultura e Arte. Sou também um rádio apaixonado, educador e pesquisador na área da comunicação livre e comunitária. Aprendi muito com o Seminário e espero poder compartilhar idéias e ações para uma comunicação cidadã.”

Educomunicação

O seminário dedicou tempo para refletir sobre educomunicação e ouvir experiências bem sucedidas de práticas educomunicativas através do uso do rádio. O tema da educomunicação apareceu na palestra de abertura, quando o conferencista, Prof. Ismar Soares, do NCE/USP, lembrou a importância de se reverter o paradigma funcionalista que dá suporte às políticas de comunicação, introduzindo, na prática social, o paradigma das mediações culturais, num trabalho articulado que leve em conta a busca de apoio dos demais setores da população para o trabalho que emerge das bases da sociedade, principalmente o apoio da nova geração, constituída pela infância e pela juventude, enfatizando: “Foi o que ocorreu com o projeto Educom.rádio, que levou a linguagem radiofônica a 455 escolas do município de São Paulo.

A partir de uma aliança entre educadores e comunicadores, especialmente radialistas, um número significativo de professores e estudantes pode vivenciar a prática do planejamento de uma comunicação dialógica no contexto do espaço escolar, ampliando o número das pessoas empenhadas em lutar pelo direito à comunicação e ao acesso universal aos recursos da informação”.

O professor comentou, ainda, que o próprio conceito de educomunicação nasceu a partir de pesquisas realizadas junto ao movimento social, dando conta de que o que era considerado como “alternativo” nos meados do século XX passa a ser considerado como opção relevante e de primeira linha, nos dias atuais, gerando uma demanda específica, até mesmo pelo mercado de trabalho. Deu, como exemplo, o recente reconhecimento do campo da educomunicação por órgãos da mídia, como o Canal Futura e o Jornal da Tarde, do Grupo Estado, ou pelas políticas públicas, através de ações de ministérios como o da Educação e o do Meio Ambiente e, mais recentemente, pelo próprio meio universitário, como ocorreu no caso da criação de uma Licenciatura em Educomunicação, na ECA/USP.

A educomunicação foi, ainda, objeto de uma das oficinas mais concorridas do encontro, ministrada por Francisco Assis, do Ministério do Meio Ambiente, que contou com a colaboração de Janete Reis. Por outro lado, várias das entidades presentes ao evento declararam conhecer e empregar o conceito em suas atividades, como foi o caso da CIPÓ, representada, no encontro, por Danielle Rocha, e do MOC, representado por um de seus coordenadores, Klaus Mimikuber.

É importante lembrar que NCE/USP, a Cipó e o MOC fazem parte da Rede CEP – Comunicação, Educação e Participação, com sede em São Paulo, que adota a educomunicação como filosofia de trabalho. Durante o evento, o tema da relação entre a comunicação e a educação foi objeto, ainda, das exposições de Airton Medeiros (Escola Brasil), Manina Aguiar (Centro das Mulheres do Cabo, de Pernambuco e represente da AMARC), Adriana Vieira (SESC nacional) e Maria Clara (SENAC Nacional), ambas articuladoras do projeto Sintonia.

Fórum

Durante o 2º. Seminário, uma série de compromissos foram assumidos pelos participantes, destacando-se o convite do Deputado Estadual Javier Alfaya, no sentido de que as pessoas envolvidas com a experiência das rádios comunitárias se integrem ao fórum a ser criado na Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, para discutir políticas de comunicação e propostas especificas de ampliação do direito à expressão no Estado da Bahia. Educomunicação socioambiental.

PT quer discutir democratização da comunicação com ministros

A Comissão Executiva Nacional do PT aprovou na última semana resolução em que solicita uma audiência com os ministros Luiz Dulci, Hélio Costa e Franklin Martins para defender a democratização da “Conferência Nacional de Comunicação” e discutir o modelo de gestão da TV Pública.

No documento, a Comissão Executiva também informa que o PT pedirá à bancada petista no Congresso que faça gestões no sentido de se rever o atual de concessões de canais de radiofusão, conforme resolução aprovada no 3º Congresso Nacional do partido, realizado no último fim de semana.

Leia a íntegra do documento:

Resolução da Comissão Executiva Nacional do PT sobre Comunicação

1) Sobre a Conferência Nacional de Comunicações

Considerando que a sociedade civil vem cobrando a realização do evento para conseguir realizar um debate público sobre as políticas de comunicação brasileiras, o Ministério das Comunicações, a Câmara, o Senado e a Anatel convocaram uma "Conferência Nacional Preparatória de Comunicação" para os dias 17 a 19 de setembro, que, apesar do nome, é um seminário sobre a regulamentação das mídias em tempos de convergência. Não há até agora nenhuma sinalização de que o governo vá realizar uma conferência para a comunicação nos moldes do que aconteceu em outros setores.

A Comissão Executiva Nacional decide solicitar uma reunião com os ministros Luis Dulci, Hélio Costa e Franklin Martins, para reafirmar nossa defesa de uma conferência nacional de comunicação ampla e democrática e propor ao governo que lance a conferência nacional de comunicação na conferência preparatória, instituindo uma comissão com participação de governo, empresários e sociedade civil para a sua organização.

A CEN adiantará esta posição no café da manhã da Bancada com o ministro Franklin Martins.

2) TV pública

A CEN solicitará aos ministros informações oficiais sobre como será definida a gestão da TV pública, em particular sobre a notícia de que a gestão da TV pública será feita por um conselho indicado pelo presidente Lula. O PT deve, com base na resolução do Congresso, reafirmar aos ministros da área que uma das marcas da nova TV pública seja a participação. Isso passa pela composição do conselho por representações da sociedade, a exemplo do que diz a Carta de Brasília do I Fórum de TVs Públicas, e pela criação de um sistema de acompanhamento da programação, que permita diferentes formas de participação e avaliação do conteúdo transmitido, criando comissões de usuários por programas e uma geral de programação para a emissora.

3) Concessões

No dia 5 de outubro vencem as concessões de importantes emissoras brasileiras, entre elas as cinco TVs próprias da Rede Globo. Movimentos sociais e entidades do campo da comunicação vêm preparando mobilizações no mês de outubro, iniciando no dia 5, nas quais pretendem questionar o sistema de concessões, a concentração de propriedade e cobrar critérios que garantam a participação da sociedade organizada nas outorgas e renovações e no acompanhamento do conteúdo transmitido.

Conforme resolução do 3º. Congresso, a CEN acompanhará o desenrolar destas mobilizações e solicitará à nossa Bancada no parlamento que faça as gestões necessárias para que seja revisto o atual sistema de concessões.

O assunto voltará a ser debatido na próxima reunião da CEN em 25 de setembro de 2007.Brasília, 05 de setembro de 2007.

Comissão Executiva Nacional
Partido dos Trabalhadores

Dossiê revela como a mídia cobre os temas ligados à educação

Quase um mês depois do lançamento oficial do Plano de Desenvolvimento da Educação, anunciado pelo governo federal em 24 de abril deste ano, o apresentador Jô Soares recebeu em seu programa noturno de entrevistas o ministro da Educação, Fernando Haddad. Desenvolto e sabendo capitalizar o crescente interesse da sociedade pelos temas de sua pasta, o ministro ficou no ar por dois blocos – quase 22 minutos – deferência só prestada aos entrevistados de maior prestígio.

Confiante em sua verve e em seu olhar sobre os problemas brasileiros, o mais que experiente Jô Soares não pareceu pautado o bastante para trazer à tona as questões do momento e, sobretudo, com pontos de vista atualizados. Insistiu em surrar a progressão continuada, sem se dar conta de que ela não está em todas as redes e que não é, segundo estudos, fator decisivo para a qualidade da educação. Pediu a interferência do MEC na greve da Universidade de São Paulo – instituição estadual – e em redes municipais que cometem desatinos, como se o centralismo federal fosse portador da ordem e da razão pedagógica. E reavivou o discurso da escola pública de qualidade, lembrando de figuras proeminentes que ali se formaram nos anos 50, sendo que desde então a população do país foi multiplicada quase por quatro. E que, naquela época, muitos ficavam de fora da escola.

À semelhança do script do apresentador de TV, carente de mais dados e menos impressões, a cobertura de educação realizada pela imprensa, especialmente pelos grandes jornais, a despeito de ter ganho espaço e qualidade nas duas últimas décadas, padece ainda de antigos problemas. Entre eles, a excessiva dependência da agenda governamental, a recorrência abusiva a algumas fontes, a superexposição de certos temas, a invisibilidade de outros e uma renitente desconfiança mútua entre jornalistas e acadêmicos.

De qualquer forma, assim como cresce a preocupação e a importância atribuídas à educação pela sociedade, aumenta também a presença do tema nos jornais diários e revistas. Prova disso são as análises de mídia feitas pela Agência Nacional dos Direitos da Infância (Andi), entidade criada por jornalistas em 1993 com o objetivo de ajudar a aumentar a aceitação social dos então novos marcos legais relativos a crianças e adolescentes, por meio de uma mudança de posição dos veículos de comunicação.

Em 1996, a Andi começou a rea-lizar análises sobre a cobertura da mídia, contemplando todo o noticiário de 50 jornais diários brasileiros. Nesse primeiro ano, foram veiculadas perto de 10 mil matérias sobre a infância e a adolescência, sendo que a prisão de menores e outros temas ligados à violência detinham a primazia do número de aparições. À educação restava o 5º lugar. Em 2004, os mesmos 50 jornais veicularam 16 vezes mais notícias (cerca de 160 mil) sobre infância e adolescência, com a educação sendo o objeto principal da cobertura, o que já vinha ocorrendo desde 1998.

"Trabalhamos a partir de três eixos estratégicos", conta Guilherme Canela, coordenador de Relações Acadêmicas da Andi. "Primeiro, de que a cobertura não é uma questão de militância do jornalista, e sim de se fazer bom jornalismo. Segundo, de que é preciso monitorar a mídia, com dados objetivos da cobertura. E terceiro, de que é preciso qualificar a cobertura", explica Canela. Para cumprir a terceira estratégia, a instituição prepara análises e estudos como o recém-lançado "Orçamento Público e Educação", que analisa a maneira como jornais e revistas relacionam educação e execução de orçamentos públicos.

Mas um dos pontos centrais da atuação da Andi talvez seja o de tentar delinear o que seja um bom jornalismo, resumido em três itens: textos que ofereçam informação contextualizada; que busquem o agendamento de prioridades públicas; e, por fim, que fiscalizem os governos. No dia-a-dia do jornalismo, no entanto, ter tudo isso ao mesmo tempo muitas vezes é um oásis.

Profissão, repórter

Nos três jornais brasileiros cujas opiniões têm maior repercussão, a educação ainda é muito tributária do que Canela classifica de "questão de militância". Em O Globo, O Estado de S.Paulo e na Folha de S.Paulo, apesar de muitos jornalistas e articulistas escreverem sobre o tema, a cobertura é puxada por um repórter devotado à área que acaba responsável pela seleção dos assuntos. O perfil do jornal e de seus leitores torna-se um indicativo daquilo que terá boa aceitação se proposto como pauta. Ao contrário de outras editorias como política e economia, a interferência da direção é pouca ou nenhuma.

"Dada a desimportância da educação nos jornais e na sociedade em geral, não vejo uma linha nítida estabelecida para a cobertura na grande imprensa. Além disso, há coisas da cultura dos jornais que acabam influenciando o que se noticia. Por exemplo, o ensino superior é muito mais próximo dos jornais do que a educação básica, pois há muitos professores universitários entre os leitores", relata Antônio Gois, principal encarregado dos temas de educação na Folha de S.Paulo.

Para Antônio Carlos Pereira, que há 10 anos coordena os editorialistas de O Estado de S.Paulo, o interesse da publicação no ensino superior está intimamente ligado à educação básica. "Desde que o jornal participou da criação da Faculdade de Filosofia da USP, nos anos 30, a preocupação era com a formação de professores. Hoje não é muito diferente, continuamos com a mesma necessidade", diz.

Para Antônio Gois, a política de avaliações instituída a partir do governo Itamar Franco com o ministro Murílio Hingel, que ganhou força nos dois mandatos de FHC e nos dois de Lula, tem contribuído para aumentar o espaço dado à educação nos jornais, além de tornar a cobertura mais objetiva.

"No início da minha carreira cobrindo educação, falava muito mais com gente com base nos livros que eles tinham lido. Hoje, falo mais com quem analisa os dados do Saeb, por exemplo. Isso melhorou a cobertura. A discussão sobre ciclos, que existe desde que a [Luiza] Erundina foi prefeita de São Paulo, deixou de ser feita tão em cima de paixão e de preferência política e passou a acontecer a partir de dados mensuráveis, o que mostrou que eles não são assim tão determinantes para a qualidade", exemplifica Gois.

A avalanche de dados gerados por fontes oficiais ou pesquisadores, no entanto, traz outra ameaça à cobertura: a de um olhar excessivamente economicista sobre a educação, que por sua vez embute uma guerra no campo teórico: a de pedagogos e "economistas da educação".

"É preciso tentar aproximar os dois lados, ter cuidado para não matematizar todas as questões pedagógicas. Mas também há muito educador que despreza as análises econométricas", avalia o repórter. Como exemplo de relativização da importância dos números, cita a questão do salário dos professores. Pesquisas recentes dão conta de que o puro e simples aumento do ganho docente não melhora os resultados dos alunos. "Mas não quer dizer que o salário não deve ser bom. No longo prazo, isso faz com que as melhores cabeças abdiquem da carreira, o que piora a educação. Isso não é pego por esse tipo de análise", conclui.
 
Para Renata Cafardo, repórter titular da área em O Estado de S.Paulo, os dados podem ser um ponto de partida para a aferição da questão da qualidade. Até o final de julho, ela ainda tentava emplacar uma grande reportagem que incluía viagens às escolas de melhor Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). "Se mostrássemos essas escolas de perto, poderíamos saber o que é e o que não é fator gerador de qualidade." A urgência cotidiana, no entanto, tem falado mais alto. Quando o governo anunciou o novo índice, Renata teve dois dias para fazer sozinha um caderno de quatro páginas. A viagem para aferir as escolas in loco ainda não tinha previsão.

Na visão de Sílvia Fonseca, editora da área Nacional de O Globo, a qualidade é a grande questão da educação brasileira hoje. Para ela, os fatores que concorrem para isso são a "falta de formação adequada para os professores, os baixos salários e os altos índices de repetência e evasão escolar, entre outros". Segundo a editora, O Globo não parte de nenhuma concepção específica de educação, apenas "defende o ensino de qualidade, voltado para a formação de cidadãos para o mercado de trabalho e para a vida, como também noções claras de cidadania, respeito ao meio ambiente etc.".

Como tem sido corrente em vários segmentos sociais, o jornal atribui ao mau desempenho da educação muitas das amarras que emperram o desenvolvimento do país. A publicação tem investido de forma mais sistemática no tema, com a edição de um caderno voltado para juventude e educação, além de alguns especiais, como na última eleição presidencial.

Para Antônio Carlos Pereira, de O Estado, a qualidade no ensino fundamental se traduz de forma simples: "o aluno tem de saber ler, escrever, contar e pensar. No ensino médio, tem de sair sabendo pensar, com um instrumental tal que permita a ele ficar a vida toda com esse nível de conhecimento sem que seja excluído da sociedade", avalia.

Para Mariângela Graciano, coordenadora do Observatório da Educação, entidade fundada há cinco anos com o objetivo de intervir com uma visão mais pluralista no debate sobre políticas públicas para o setor, um problema central da cobertura é que a educação ainda é vista como um serviço, não como um direito público que deve garantir que as diferenças sejam respeitadas.
 
Por essa razão, quando vem à tona o debate sobre qualidade, fica muito voltado a um conceito empresarial de gestão, em que o que importa é o resultado, e não como se chegou a ele. "Quando se fala de qualidade, trata-se de fazer ranking dos exames, e as nuances se perdem", avalia.

Há cerca de dois anos, o Observatório, ligado à ONG Ação Educativa, começou a fazer análise de mídia. Com a edição do boletim quinzenal Ação na Mídia, priorizou-se um olhar a partir da concepção da entidade de que, sendo a educação um direito, se este não for cumprido, o caminho para fazê-lo valer é recorrer à Justiça.

"É interessante a maneira como as notícias tratam das violações. São apenas eventos, e não direitos infringidos", alerta Mariângela.

Outros veios da atuação do Observatório são a tentativa de chamar a atenção dos jornalistas para "temas invisíveis" e para diversificar suas fontes, ampliando o olhar sobre as questões. No caso dos temas que têm pouca visibilidade, o esforço da entidade é para trazê-los ao noticiário sob a ótica de políticas públicas. Um exemplo disso é a educação no âmbito das prisões, que começou a ganhar espaço nos últimos tempos.

Fontes: mais e melhores

No caso da proposta de ampliação do universo de fontes, prática também adotada pela Andi, a entidade busca ser o elo entre jornalistas e pesquisadores, de forma a aumentar o número de matérias que têm como ponto de partida a pesquisa acadêmica. Para isso, começou em agosto último a reunir grupos de discussão com professores, alunos, jornalistas e representantes de organizações da sociedade civil.  

A aproximação entre professores da educação básica e jornalistas não é à-toa. Como o contato com os professores da rede pública normalmente precisa ser chancelado pelas assessorias de imprensa das respectivas secretarias, assim como o acesso às escolas, a cobertura acaba por não ouvi-los ou, quando o faz, traz apenas relatos carregados de vezo oficial, com docentes que falam de projetos com os quais estão envolvidos. Difícil, nesses casos, extrair algo que vá além do elogio e do lugar-comum.

"Todo mundo fala sobre educação e quem trabalha diretamente com o assunto, que é o professor, não pode falar. Isso faz parte da tentativa de fazer com que o ofício perca o seu caráter político. O professor está perdendo a voz, a autoridade", acredita Mariângela.

Para os jornalistas, a preocupação com as fontes é uma constante. Apesar de se reconhecer que é preciso ter interlocutores com posições variadas que tragam novos ângulos a cada questão, os repórteres sabem que em muitas ocasiões devem recorrer a algumas fontes cativas, em quem confiam, que possam fazer análises pertinentes sobre a última medida editada pelo governo, a qual tem de se transformar em matéria para a edição do dia seguinte.

"Temos um esforço quase diário para trazer gente nova. Minha preocupação ao fazer uma reportagem é trazer diversidade. Tento fazer com que, ao final do texto, o leitor tenha uma dúvida, não uma certeza. Nas minhas melhores reportagens, os dois lados ficam insatisfeitos comigo", diz Antônio Gois, da Folha.

Para Renata Cafardo, uma condição sine qua non é que a fonte seja clara e didática. Como exemplo, cita uma professora da faculdade de Educação da USP, com quem sempre "aprende algo novo".

Nessa busca, no entanto, os repórteres esbarram em questões ligadas à falta de entendimento mútuo sobre as leis dos campos jornalístico e acadêmico, aquele para onde naturalmente se dirigem ao tentar obter análises ao mesmo tempo mais qualificadas e diversificadas.

Os problemas são de ordem diversa. De um lado, os jornalistas normalmente têm uma urgência incompatível com os tempos da universidade, que exigem processos mais longos de maturação das idéias, além de as fontes terem também suas próprias prioridades. De outro, como aponta Renata, no meio universitário muitas vezes não se sabe o que potencialmente é notícia. "Muitas vezes, no meio de uma conversa, surge um comentário qualquer sobre algo muito interessante, falado como se fosse sem relevância", diz.

Mas o nó maior parece ser mesmo a desconfiança que muitos intelectuais acadêmicos nutrem pelos jornalistas e o sentimento de que a mídia é protagonista de uma invasão nas discussões sobre formulações para a educação, exercendo um poder social para o qual não está preparada por não dominar os fundamentos teóricos do campo.

Em parte, os intelectuais estão certos. Afinal, a grande maioria dos repórteres que cobre o tema começaram a fazê-lo a partir de um interesse genérico que vai se transformando em conhecimento – muitas vezes não sistematizado – ao longo dos anos. Mas, por outro lado, a academia se mantém numa postura arredia, sem enxergar que nos tempos correntes os meios são o espaço de embate político e de idéias, e que pesquisas, teses e propostas geradas na universidade interferem na vida de outros cidadãos.

Um exemplo cristalino das tensões entre repórteres e intelectuais pôde ser observado com a inauguração do blog da própria Renata Cafardo, lançado em 16 de julho. Em seu post (texto) inicial, "Primeiras Letras", discorreu sobre as diferentes etapas da escolarização formal, tentando atualizar o leitor sobre a atual nomenclatura. O texto utiliza uma linguagem mais informal que a do jornal diário, característica verificada em muitos blogs. A repercussão, no entanto, foi além do esperado.

Essa primeira inserção recebeu 173 comentários, muitos elogiando a iniciativa, outros mais ácidos. "A quantidade de críticas que você recebe é enorme. Cada post que coloco gera, em média, uns 200 comentários. Cerca de 20% são agressivos. Parece que muitos são de professores que te vêem como alguém desqualificado para falar de educação", desabafa Renata.

Na busca do tom mais coloquial, a repórter escreveu "ensino básico", em lugar de educação básica, o que gerou algumas reprimendas e uma troca de comentários mais extensa com o professor Paulo Ghiraldelli Jr., professor de Filosofia da Educação do Centro de Estudos de Filosofia Americana. Nela, houve uma discussão sobre a educação infantil em que Renata, após acusar o docente de "estar defasado", defende que mesmo para as crianças menores existe um processo importante de aprendizagem. Paulo responde dizendo que nessa fase existe educação, não ensino. O professor, ao introduzir sua resposta, recorre ao discurso de autoridade para enfatizar seus argumentos posteriores: "Eu não estou defasado, o problema é que eu uso os termos corretos, por dever de ofício, entende? Essa é a diferença entre o scholar e o curioso".

A dificuldade dessa interlocução, aliada às reduzidas equipes dos jornais e o tempo escasso, faz com que o noticiário ainda seja extremamente reativo à agenda governamental. Para Guilherme Canela, da Andi, apesar de uma sensível evolução, esse ainda é um dos pontos problemáticos da cobertura. Para o analista, houve um salto de qualidade na virada do século, com maior diversificação de fontes. Resta, ainda, que imprensa e meio acadêmico se entendam. Outros buracos são a parca cobertura da educação infantil e de temas como inclusão de pessoas com defi­ciências e questões de gênero.

"Mas estamos refinando a cobertura. Se compararmos a educação com outras áreas sociais, a cobertura é mais qualificada e com um olhar mais voltado para políticas públicas", conclui.

Para Mário Magalhães, repórter da sucursal do Rio de Janeiro da Folha de S.Paulo há 16 anos e desde abril ombuds­man do jornal, além da dependência de fontes governamentais, a cobertura padece de dois outros problemas. Um deles, diz em linha oposta à de Ghiraldelli, é tratar a educação, dada sua interação com vários outros campos, como tema de especialistas. "O jornalismo deveria fazer da educação pauta permanente em todas as editorias. Acho que é um problema confiná-la nessa rubrica, olhando-a apenas como sistema de produção e transmissão de conhecimento formal", defende.

O outro ponto é que o olhar sobre os temas deveria ser mais sistemático. Como exemplo, cita a experiência das cotas nas universidades. "Quase todas as matérias se baseiam em desempenho. Atende-se ao chamado das instituições que utilizam as cotas. O ideal seria que um repórter ficasse na universidade por uma semana, acompanhando a vida dos cotistas", sugere, na mesma linha proposta por Renata Cafardo, para entender os porquês de as escolas de melhor Ideb terem alcançado tal desempenho. As limitações, em ambos os casos, talvez sejam mais de infra-estrutura dos jornais do que de qualquer outra coisa.

Como exemplos de boa cobertura, cita duas reportagens mais extensas publicadas em O Globo. A primeira mostrava, 20 anos depois, o abandono dos Cieps, lançados no primeiro governo Brizola no Rio de Janeiro, com Darcy Ribeiro à frente da Secretaria de Educação. A segunda reportava o que foi feito dos alunos que estudaram nessas instituições nessa época, procurando aferir se o modelo proposto lhes havia mesmo garantido um futuro melhor.

Para Antônio Gois, os jornais poderiam investir na busca de olhares mais particulares. "No caso do Ideb, quando o MEC divulgou os dados com embargo, como faz o IBGE, deu tempo para que cada jornal fizesse sua avaliação. Cada um viu as coisas de forma diferente. Deixou de ser a política do furo pelo furo e passou a ser a política da qualidade, do caderno mais bem elaborado e mais bem editado", diz. Exemplos de um jornalismo que se permite alongar os tempos de apuração e multiplicar os ângulos daquilo que reporta. Talvez um estágio anterior àquele que poderia diluir os desconfortos na lida com os intelectuais e as idéias.

Equipe de jornalismo pauta apresentador

O convite ao ministro da Educação, Fernando Haddad, foi decorrência da visão de que o tema é uma prio­ridade do país e que o ministro é jovem, atuante e bem preparado para o exercício do cargo. Quem explica a escolha é Anne Porlan, há 13 anos responsável pelo jornalismo do Programa Jô Soares.

Segundo Anne, a pauta seguiu os trâmites normais do programa, com a realização de uma pesquisa prévia para subsidiar o apresentador. Quanto aos questionamentos feitos no correr da entrevista, Anne não se sentiu apta a tecer muitos comentários. Disse que as críticas do apresentador à progressão continuada e ao atual panorama das escolas públicas são fruto de sua preocupação com a educação. "Quando o Jô fala isso é com amor ao Brasil e tendo como referência o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, que ainda hoje é muito bom", diz a jornalista.

Análise do orçamento ainda é pouco utilizada

Como saber se uma propalada prioridade governamental encontra, na prática, a mesma guarida que tem nos discursos? Uma das formas mais eficazes – e ainda pouco utilizada no jornalismo diário – é o acompanhamento da execução orçamentária dos diversos níveis de governo. Na cobertura educacional não é diferente, como revela o documento "Orçamento Público e Educação", realizado pela Andi e financiado pela instituição britânica Save the Children.

Segundo o estudo, que analisou em torno de 35 mil matérias veiculadas por 61 jornais diários e 4 semanais ao longo de 2006, apenas 3% dos textos (1.140) fazem referência à questão orçamentária. Desses, 89,3% trazem algum elemento de contextualização, como relacionar o orçamento a "políticas públicas, fontes de financiamento, legislação, indicadores de resultados ou objetivos educacionais e indicadores orçamentários", diz o relatório.

No geral, ainda são poucos os textos que fazem a relação entre orçamento e qualidade de forma mais profunda: 32,2%. Menos de 2% o fazem trazendo pontos de vista contraditórios. O item específico mais mencionado quando se fala de qualidade é o professor (em 8% das matérias). Infra-estrutura (7,3%) e insumos (4,6%) vêm a seguir. A jornada integral aparece em apenas 0,5% dos textos; o cumprimento do currículo escolar em 0,3%.

Para Raílssa Alencar Peluti, coor-denadora de Monitoramento de Mídia da Andi, além da dificuldade de lidar com números – de resto constatada na parca formação da sociedade em geral quando o assunto é matemática -, existe uma outra, adicional: a falta de unificação dos sistemas de informação.

"Não existe um sistema integrado entre os diversos poderes e as próprias instâncias executivas que tomam parte na elaboração e na execução orçamentárias. Os ministérios envolvidos não seguem o mesmo padrão de organização dessas informações, dificultando o pesquisador e o controle social desses dados", explica Raílssa.

Além disso, os dados demoram a ser consolidados. No caso dos R$ 21,1 bilhões da dotação orçamentária do ano passado, ainda não se sabe exatamente o que e quanto efetivamente foi gasto, nem onde. Mas já é possível saber que o MEC, em 2005, aplicou apenas 51,68% do montante previsto para a educação infantil naquele ano.

"Só se fala de agressão e taxas", diz professor

Superficial, que não ultrapassa o fato noticioso, não investiga fenômenos de maior significação educacional e explora em demasia a ocorrência da violência no ambiente escolar. É desta forma que alguns professores que se dedicam a analisar a cobertura da imprensa sobre educação vêem o resultado da maior parte do material publicado.

João Kleber de Santana Souza (foto), diretor da Emef Dr. José Pedro Leite Cordeiro, no Itaim Paulista, em São Paulo, administra o Fórum de Educação da Zona Leste (leste@yahoogrupos.com.br), grupo de discussão na internet em que os professores  comentam o que se publica em jornais diários, revistas semanais e especializadas, entre outras atividades.

"A impressão que tenho é que não há jornalistas especializados, então a mídia só veicula notícias sobre agressão ou taxas. Fica muito nesse campo noticioso, abordado de forma superficial", avalia Souza.

Em sua opinião, esses meios prestariam serviços mais relevantes caso trouxessem com maior constância debates sobre temas como avaliação e ciclos, que aparecem pouco. Ou se levantassem dados como a média de alunos por sala de aula no Brasil, ponto de partida para que se estudasse a interferência do fenômeno na educação.

Outra coisa que incomoda os participantes do grupo é o fato de haver pouca análise sobre o impacto local de medidas federais ou a falta de foco nos planos locais de desenvolvimento, por exemplo. "Não consegui, quando do lançamento do PDE, obter uma visão global do plano a partir das leituras que fiz na mídia. Queria saber o que havia de benefícios ou problemas, qual o impacto local", diz o diretor.

Para Regina Oshiro, sindicalista e professora de história há 20 anos, a cobertura parece pouco próxima da realidade de sala de aula. "Tenho dúvida sobre o que leva o jornal a pautar educação. Todo mundo diz que o tema é importante, mas para quê?", questiona. E lembra que a presença dos professores nos meios de comunicação acaba sendo muito direcionada. "Se é a secretaria que escolhe quem vai falar sobre determinado assunto, é normal que ela escolha quem lhe convém", diz.