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Sistema de concessões perpetua oligopólio na radiodifusão

No próximo dia 5 de outubro, vencem as concessões das principais emissoras de TV brasileiras. Entre elas, estão cinco concessões da Rede Globo – em São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Recife e Minas Gerais. Neste dia, caberá ao Executivo federal, por meio do Ministério das Comunicações e da Casa Civil, aceitar ou não os pedidos de renovação, por mais 15 anos, e submeter sua decisão do Congresso Nacional, que tem a palavra final no processo. 

O que pouca gente sabe é que tal procedimento, de tamanha importância para o país – é redundante afirmar o papel político, econômico e social que os meios de comunicação, sobretudo a TV, desempenham em nossa sociedade – será nada mais do que um rito burocrático. Mas, para evitar que a data passe em branco, movimentos sociais e entidades ligadas à luta pela democratização da comunicação planejam promover manifestações e chamar a sociedade para debater o modelo das concessões públicas de radiodifusão. Um modelo que contribuiu de forma decisiva para fazer da Globo o império que ela é hoje. 

“O mercado de televisão no Brasil, especificamente, não era oligopolizado até a década de 1970. Chateaubriand tentou até monopolizar, mas a Globo, durante a ditadura militar, atualiza o projeto das elites do setor e do governo no período anterior. Dadas as condições técnicas, ela pôde ocupar um espaço que os Diários Associados do Chatô não podiam sequer sonhar”, esclarece a cientista social da Universidade Federal de Pernambuco Maria Eduarda Rocha. Ela atribui a concentração de capital e produção da Rede Globo à própria construção da indústria cultural no Brasil, que pressupõe centros produzindo para um vasto território. 

Maria Eduarda cita ainda como fatores que foram fundamentais para a estruturação da Globo na década de 1960 o famoso acordo com a Time-Life, realizado em 1962, responsável por injetar capital estrangeiro na emissora, algo que ia contra a legislação vigente. “Há um fator mais forte que é a relação entre o empresariado da cultura e governo militar, que era muito orgânica. O governo permaneceu como maior anunciante, o que era um grande instrumento de controle, sendo que a Globo foi a grande captadora de verba publicitária do regime”, sustenta. 

Mas não foi só à época da ditadura que o regime de concessões e o Estado favoreceram a Globo. Durante o governo Sarney (1985-1989), o ministro das Comunicações Antônio Carlos Magalhães promoveu uma verdadeira farra de distribuição de concessões na área de radiodifusão. Paulino Motter, doutor em Ciências Políticas, na dissertação de mestrado A batalha invisível da Constituinte, mostra que em três anos e meio Sarney distribuiu 1.028 outorgas, aproximadamente 25% delas no mês de setembro de 1988, que antecedeu a promulgação da Constituição. Quase todos os beneficiados foram parlamentares que, direta ou indiretamente, receberam as outorgas em troca de apoio político aos cinco anos de mandato e o regime presidencialista. Motter mostra que, dos 91 constituintes que receberam ao menos uma concessão de rádio ou de televisão, 82 (90,1%) votaram a favor do mandato de cinco anos.

Além de beneficiar a Globo e Sarney, ACM também aproveitou sua estada no governo federal para incrementar sua influência na área da comunicação na Bahia. A maior parte das concessões das emissoras que integram a Rede Bahia são dessa época. Antônio Carlos Magalhães Júnior é o presidente da Rede Bahia. Em 1987, a TV Bahia, do grupo, se tornou afiliada da Rede Globo, desbancando a TV Aratu, que retransmitia o sinal da emissora da família Marinho havia 18 anos. 

Perpetuação do oligopólio

O processo constituinte não foi somente um palco generoso onde parlamentares receberam concessões para apoiar Sarney. O lobby pesado dos radiodifusores garantiu condições bastante especiais aos prestadores de serviço no rádio e na TV. A Constituição Federal estabelece que, para uma concessão não ser renovada, é necessária a deliberação de dois quintos do Congresso Nacional em votação nominal. E, para ser cancelada, requer decisão judicial, contrariando assim a regra geral da prestação de serviço público. 

Mas foi durante o regime militar, que regulamentou o Código Brasileiro de Telecomunicações (CBT) promulgado em 1962, que foram definidas as primeiras regras para outorgas e instalação de emissoras. O CBT, em geral, buscava facilitar ao máximo a ocupação de todas as freqüências disponíveis e abria com isso um flanco para a expansão do setor privado, sem garantias ao interesse público. 

Em seu livro A história secreta da Rede Globo, o jornalista Daniel Herz escreveu que a legislação brasileira para a radiodifusão “é carente de definições de princípios” e prende-se “quase que exclusivamente a definições técnicas e a tributações de competência”. “O Código omite-se na definição de princípios que orientem o uso privado desse recurso (…) de domínio público”, afirma. 

Em 1979, ao apresentar as diretrizes para a radiodifusão, o presidente João Figueiredo reforçou ainda mais o caráter privatista do serviço, determinando que a radiodifusão é uma atividade eminentemente privada, que o papel do Estado é “meramente supletivo” e que a concessão de canais de radiodifusão deve levar em conta, além dos critérios técnicos e legais, a viabilidade econômico-financeira dos empreendimentos. 

A Constituição de 1988 tentou restabelecer o caráter público da comunicação. O artigo nº 221, por exemplo, diz que a produção e programação das emissoras de rádio e TV devem atender preferencialmente a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas – princípios estes definidos desde o CBT; devem promover a cultura nacional e regional e o estímulo à produção independente; e respeitar os valores éticos e sociais das pessoas e da família. Apesar disso, o caminho para o descumprimento de tais normas foi deixado totalmente aberto, dependendo de regulamentação posterior, e por isso os artigos da Constituição referentes à comunicação seguem ignorados pelos concessionários e pelo Poder Executivo. 

Ausência de critérios Se os princípios constitucionais para a operação das emissoras de rádio e TV são ignorados no dia-a-dia, a situação para a escolha das empresas que poderão explorar o serviço de radiodifusão não é nada melhor. Segundo a legislação, a concessionária deve ser escolhida mediante processo de licitação – o que, em sua origem, pretendia garantir tratamento isonômico aos participantes. 

Ao longo dos anos, no entanto, ficou claro, pelos sucessivos decretos que alteraram os dispositivos do CBT que o foco para a escolha dos concessionários era meramente econômico. Em 1996, o decreto nº 2.108 estabeleceu para o critério de pontuação que 40% dos pontos da licitação vêm do prazo para iniciar a execução do serviço em caráter definitivo – enquanto 30% vêm do tempo destinado a programas culturais, artísticos e jornalísticos gerados na localidade; 15% do tempo destinado a programas jornalísticos, educativos e informativos e 15% do tempo destinado a serviço noticioso. 

A lei também exige dos interessados documentação relativa à sua qualificação econômico-financeira, incluindo balanço patrimonial e demonstrações contábeis do último exercício social que comprovem a boa situação financeira da empresa. Ou seja, os critérios favorecem o poder econômico e as empresas grandes e já estruturadas, em detrimento da diversidade e pluralidade de vozes. 

“Ao introduzir a licitação para a concessão de outorgas, privilegiando o aspecto econômico, do ponto de vista contratual, e abandonando outros critérios, o mais importante ficou esquecido”, acredita Venício Lima, pesquisador e professor da Universidade de Brasília. “E assim a comunicação comercial se consolidou: sem nunca obedecer às prioridades para a radiodifusão definidas na própria lei”, completa. 

Aliado à ausência de mecanismos claros que impeçam o monopólio dos meios de comunicação – também proibido pela Constituição –, o privilégio ao aspecto econômico das empresas resultou num quadro de elevada concentração da propriedade dos meios no país. 

Dados do estudo Os Donos da Mídia, do Instituto de Estudos e Pesquisa em Comunicação, mostram que somente seis redes privadas nacionais de televisão aberta e seus 138 grupos regionais afiliados detêm a propriedade de 667 veículos de comunicação, entre emissoras de TV, rádios e jornais. O campo de influência dessas redes privadas se capilariza por 294 emissoras de televisão VHF que abrangem mais de 90% das emissoras nacionais. Somam-se a elas mais 15 emissoras UHF, 122 emissoras de rádio AM, 184 emissoras FM e 50 jornais diários. Somente as Organizações Globo detêm 32 concessões de TV e possuem 113 afiliadas no país, obtendo 54% da audiência. 

A ausência de critérios se estende após a obtenção da concessão. A venda de outorgas, por exemplo, permitida por lei, é quase um processo de transferência privada. “Nas transferências, não há nenhum tipo de fiscalização da autoridade pública. Eu sou concessionário, você tem interesse, eu vendo minha outorga pra você ou para qualquer empresa ou pessoa, de acordo com o meu interesse”, explica Lima. 

Pior na renovação

Na avaliação do professor da UnB, a situação é pior nos processos de renovação das concessões. Além da não-renovação precisar da votação nominal de dois quintos do Congresso, Lima faz duas observações. “Em primeiro lugar, mesmo se as concessionárias ignoraram ao longo dos anos os princípios que regem a radiodifusão, previstos no artigo nº 221, isso não aparece como critério. Em segundo, embora haja uma série de exigências formais e técnicas, de comprovação fiscal da empresa para a renovação, o processo demora tanto que as comprovações perdem a validade. Na prática, as concessões acabam se transformando em propriedade permanente e as renovações são pró-forma”, avalia. 

A obrigação das concessionárias que desejarem a renovação dos prazos é dirigir requerimento ao Ministério das Comunicações no período entre 180 e 120 dias antes do término do prazo. Mas há casos de processos de renovação que saem do Executivo 14 anos depois de abertos, ou seja, 4 anos depois de vencido o prazo que deveria ter sido renovado. Segundo relatório da subcomissão de concessões da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados (CCTCI), o tempo total médio de tramitação no Poder Executivo é de 6,5 anos – sendo que o prazo de validade da outorga, no caso do rádio, é de dez anos. “Assim, na média, cabe ao Congresso Nacional apreciar apenas 3,5 anos das outorgas, visto que os 6,5 anos restantes já decorreram quando o processo fica finalmente disponível para apreciação pela Câmara”, diz o relatório. 

Para seguir funcionando, as empresas refugiam-se nos decretos que regem os processos de renovação, todos anteriores à Constituinte. Um deles diz que, “caso expire a concessão ou permissão, sem decisão sobre o pedido de renovação, o serviço poderá ser mantido em funcionamento, em caráter precário”. A previsão da precariedade, sem qualquer prazo ou limite, conflita com o CBT, que afirma que “expirado o prazo de concessão ou autorização, perde, automaticamente, a sua validade a licença para o funcionamento da estação”. 

“Se, para seguir funcionando, uma emissora não precisa que o processo previsto na Constituição chegue ao fim, o que vale na prática é o simples ato de protocolar um documento em que solicita a renovação. E, se o Ministério das Comunicações, por sua morosidade ou incompetência, não dá seguimento aos processos de renovação das outorgas, ele passa, na prática, a invadir a competência do Congresso Nacional, possibilitando às emissoras funcionarem sem terem a sua concessão renovada”, acredita a jornalista Cristina Charão, integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, organização da sociedade civil que luta pelo direito à comunicação. 

Fórum solicitou ao ministério a informação de se as emissoras que terão sua concessão vencida no dia 5 de outubro haviam encaminhado este pedido. Mas não obteve resposta. 

Às escuras

Como já dito, não bastasse a falta de transparência nos processos de concessão e renovação das outorgas, os 15 anos que as emissoras de TV e os dez anos que as de rádio exploram o serviço de radiodifusão são de total “rédeas soltas”. Não há nenhum tipo de fiscalização, por exemplo, se as emissoras destinam o mínimo de 5% obrigatório do horário de sua programação diária à transmissão de serviço noticioso. Ou se respeitam o limite máximo de 25% de seu horário à publicidade comercial. Menos ainda se reservam cinco horas semanais para a transmissão de programas educacionais. Acredite ou não, o decreto que regulamenta o CBT impede que rádios e TVs transmitam programas que atentem “contra o sentimento público, expondo pessoas a situações que, de alguma forma, redundem em constrangimento” e veiculem espetáculos, trechos musicais cantados, quadros, anedotas ou palavras contrárias “à moral familiar e aos bons costumes”. Mais distante da realidade da nossa TV aberta impossível. 

Outra norma que passa ao largo da fiscalização do governo é o artigo nº 54 da Constituição, que proíbe aos parlamentares do Congresso Nacional “ser proprietários, controladores ou diretores de empresa que goze de favor decorrente de contrato com pessoa jurídica de direito público, ou nela exercer função remunerada”. O Regimento Interno da Câmara também proíbe a votação dos parlamentares em assuntos que sejam de seu próprio interesse. 

Um estudo de Venício Lima acerca da última legislatura, no entanto, apontou que 10% dos deputados federais eram controladores de empresas de radiodifusão. No ano de 2004, a Comissão da Câmara com atribuição para examinar as outorgas e renovações do serviço era composta por 33 deputados, dois quais 15 figuravam na lista do Ministério das Comunicações como concessionários de 36 emissoras de rádio e três canais de televisão. 

“Isso cria um problema gigante”, afirma Lima. “Há uma contaminação do processo, pelo fato de, tradicionalmente, haver vários parlamentares com interesse direto em jogo, para aprovar ou prorrogar concessões, compondo a CCTCI”, diz. A própria subcomissão de concessões da CCTCI admitiu que, até agora, as renovações eram aprovadas em bloco sem obedecer a nenhum critério. Alguns parlamentares pegos votando em suas concessões alegaram justamente a votação em bloco como defesa. 

Recentemente, o ministro das Comunicações Hélio Costa – que já foi proprietário de uma emissora no interior de Minas Gerais – garantiu que não há parlamentares ocupando cargos de direção em emissoras de rádio e TV. “Mas a questão de ser membro da diretoria ou apenas sócio da emissora é uma filigrana. Se é parlamentar, se transforma em poder concedente. Então há um impedimento ético se participa de decisões que lhe interessam”, acredita Lima. 

Apesar da garantia de Costa, no início de agosto o MiniCom anunciou um recadastramento de todas as concessionárias de radiodifusão. As empresas terão 60 dias para enviar informações sobre composição do capital, quadro de diretores, procuradores com poder de gerência, endereço e nome fantasia. O último recadastramento foi em 1973. Não é demais lembrar que, por lei, qualquer mudança no quadro societário e contrato social da empresa deveria ser solicitada previamente ao Ministério. Sinal de que não foram.

* Colaborou Glauco Faria

Active Image Revista Fórum.

Repórter do Corrreio Braziliense é baleado no Distrito Federal

O repórter do Correio Braziliense/Estado de Minas, Amaury Ribeiro Júnior, foi baleado na virilha, ontem, às 19h15, enquanto fazia uma matéria especial sobre a violência no entorno do Distrito Federal. O jornalista estava no bar da Selma, na quadra 8 do bairro Colina Verde da Cidade Ocidental, em companhia de uma fonte, quando um homem invadiu o local, retirou uma arma que trazia na cintura e apontou-a para o repórter.

Segundo versão da polícia, o jornalista teria reagido a um assalto e se agarrado ao bandido. Armado, o assaltante teria acertado um tiro na virilha de Amaury. Antes de fugir, o criminoso ainda fez mais dois disparos contra o motorista do Correio Fernando Oliveira, 54 anos, que acompanhava o repórter.

De acordo com Oliveira, a história teria sido diferente da versão divulgada pela polícia. O desconhecido já teria entrado no bar com a arma apontada para Amaury. Ao perceber o perigo, o jornalista tentou se defender, partindo para cima do homem. Na confusão, o repórter acabou sendo atingido pelo tiro.

Ferido, porém consciente e muito nervoso, Amaury foi levado às pressas pelo Corpo de Bombeiros para o Hospital Regional do Gama (HRG), onde permanecia até o fechamento desta edição.

O subsecretário de Saúde do DF, Milton Menezes, informou ao Jornal de Brasília que o estado de saúde do repórter é estável. No entanto, ele terá que passar por uma cirurgia para a retir a bala que está alojada na altura da virilha.

Busca

As polícias Civil, Militar e Federal foram acionadas. Elas fecharam as entradas e saídas da cidade em busca do homem de pele morena e estatura mediana, que usava um casaco e boné no momento da tentativa de assassinato. Até agora, ninguém sabe ao certo o que provocou o crime. Por enquanto, tudo são suposições. Até o fechamento desta edição, nenhum suspeito havia sido preso.

Por volta das 21h30, o governador do DF, José Roberto Arruda, deslocou-se até o Gama para acompanhar de perto o estado de saúde do jornalista. "Precisamos desmantelar urgentemente o crime organizado no Entorno. A violência chegou a índices alarmantes. É necessário unir forças para combatê-la. Essa mesma epidemia também ocorre em outros estados brasileiros", comentou.

Arruda encontrou ainda ontem com o governador do Goiás, Alcides Rodrigues. Eles conversaram rapidamente sobre a tentativa de assassinato sofrida pelo repórter e acertaram uma reunião para discutir profundamente o assunto da violência.

O secretário de Saúde, José Geral Maciel, permaneceu durante toda a noite de ontem no hospital. O presidente do Grupo Associados, Álvaro Teixeira da Costa, e a editora-chefe do Correio Braziliense, a jornalista Ana Dubeux, também acompanharam o repórter no hospital.

Álvaro estava otimista em relação ao estado de saúde do jornalista. "Tenho esperança que o desfecho seja amplamente favorável. Em breve, o Amaury estará recuperado", declarou. O diretor do grupo disse que o problema de segurança no Entorno é grave e merece a união das autoridades para sua solução. "É preciso mais investimentos em segurança. Sugiro a criação de um PAC da paz", completou Álvaro.

O secretário de Segurança Pública de Goiás, Ernesto Roller, classificou o fato como lamentável e inadmissível. "Não podemos permitir que pessoas no exercício de suas funções sejam atacadas dessa forma", declarou. A Força Nacional vai enviar cerca de 500 homens para os municípios do Entorno.

Nota

O Sindicato dos Jornalistas do DF (SJP-DF) emitiu nota repudiando a violência contra o repórter. No texto, a entidade diz que vem a público manifestar solidariedade ao profissional. "Repudiamos esse tipo de violência e exigimos das autoridades a imediata apuração do ocorrido, com punição exemplar dos responsáveis por mais esse atentado contra o exercício profissional", afirma a nota.

O sindicato reitera a proposta de realização de um seminário para discutir a necessidade de segurança no exercício da profissão, envolvendo os empresários e a Secretaria de Segurança do DF. "Esse atentado contra a vida do Amaury é profundamente lamentável. Não podemos permitir uma barbaridade dessas e nem deixar esses trabalhadores sob fogo cruzado. A profissão é de risco e precisa ser amparada, ainda mais em caso de reportagens investigativas", disse o presidente do SJP-DF, Romário Schettino.

Conselheiros e especialistas querem aperfeiçoar as políticas do órgão

A convergência dos meios de comunicação já é uma realidade latente e a internet é o carro-chefe desse avanço, tornando-se a janela para um mundo globalizado. Contudo, há uma grande lacuna na distribuição de conteúdos na rede. Os Estados Unidos é o grande detentor de servidores da internet (76%). Buscar caminhos para a independência da rede em relação ao domínio norte-americano e construir uma identidade própria são algumas das ações promovidas pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil – CGI.br. Desde 2004 a instituição promove eleições para escolher seus membros que comporão o comitê por 3 anos. As próximas eleições vão ocorrer entre os dias 01/11 a 05/11/2007, oportunidade em que a sua política poderá ser aperfeiçoada.

Embora caracterizada como uma rede de todos para todos, a internet é acessada de forma desigual. Há um grande desequilíbro de fluxo entre países desenvolvidos e emergentes, segundo dados das Nações Unidas. Enquanto os primeiros contam com 68%, os segundos têm apenas 32% da participação. No Brasil, o número de usuários é estimado em 32,1 milhões de usuários, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD 2005, análise resultante de convênio entre o IBGE e CGI.br.

O CGI.br é um órgão público independente, criado pela Portaria Interministerial n° 147 de 31 de maio de 1995 e alterado pelo decreto n° 4.829 de 3 de setembro de 2003, que estabeleceu suas normas de funcionamento, com participação da sociedade civil. Entre as suas atribuições estão a coordenação e integração de todas as iniciativas e serviços da Internet no país, promovendo a qualidade técnica, a inovação e a disseminação dos serviços ofertados pela rede.

Apesar dos avanços em relação ao acesso de tecnologia da informação e da comunicação no Brasil, os fatores socioeconômicos continuam determinando o acesso à internet no país, é o que aponta a pesquisa sobre o uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs) de 2006, desenvolvida pelo CGI juntamente com o Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br). Segundo a pesquisa, as políticas públicas de inclusão digital precisam ser diferenciadas, pois o custo de aquisição dessas tecnologias ainda é muito elevado para a população de menor poder aquisitivo.

Para Gustavo Gindre, jornalista, membro eleito do Comitê e coordenador do Coletivo Intervozes, é preciso universalizar a estrutura que hoje está na mão das teles. O estado Brasileiro tem hoje quase 40 mil de quilômetros de fibra óptica percorrendo o país, mas essa fibra está dispersa nas mãos de conglomerados” afirma. Na opinião de Gindre, o governo poderia reverter tal situação centralizando a fibra em uma única empresa brasileira, controlada pelo estado, que serviria como grande backbone da inclusão digital, levando a infra-estrutura a várias regiões e possibilitando o acesso de comunidades distantes à internet.

Aproximar a Internet da comunicação social

A incrementação de conteúdos sobre a cultura nacional também é um ponto a ser pensado quando se fala em internet. Para tanto, segundo o memorando de intenções elaborados pelo CGI, é preciso uma articulação político-institucional que possibilite a integração entre produtores e difusores de conteúdos. “A produção cultural acessível de forma ampla à sociedade é o fator fundamental para o desenvolvimento, educação e qualidade de vida da população brasileira”, afirma o memorando.

A posição do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) é a de ressaltar que, no processo de convergência, a internet é a coluna vertebral das futuras redes digitais convergentes, expõe James Görgen, consultor do Fórum, pesquisador do Instituto de Estudo e Pesquisas em Comunicação (EPCOM). Para tanto, ela precisa ser pensada menos como tecnologia e mais como suporte para a circulação de cultura, de conteúdos também audiovisuais. Ele considera que o aporte da área da comunicação social para a internet nesse momento é estratégico.

Sugestões para democratizar a rede

O pesquisador e membro do CGI, Carlos Alberto Afonso, aponta em seu artigo Políticas Públicas e Inclusão Digital, dez estratégias para promover a democratização da rede:

1. Garantir que em cada município haja um ponto de presença de espinhas dorsais nacionais de fibra óptica (PdP), de alta velocidade, ou uma extensão direta de um PdP, suficiente para assegurar conectividade de qualidade para uso de multimeios a todas as áreas do município;

2. Priorizar o apoio na ponta (municípios) a iniciativas abrangentes de inclusão digital que integrem as distintas iniciativas e necessidades locais em uma rede comum, otimizando custos de conectividade e melhorando a qualidade dos serviços de acesso;

3. Garantir pelo menos o acesso coletivo na ponta (através de iniciativas locais de telecentros comunitários apoiadas por uma política nacional) em todas as áreas urbanas de menores recursos;

4. Evitar, com legislação adequada, que se criem “capitanias” de telecomunicação e de transmissão de dados para satisfazer apenas o mercado;

5. Garantir que no menor prazo possível todas as escolas públicas estejam bem conectadas (e permanentemente conectadas!) à internet;

6. Garantir conectividade a todos os serviços de saúde pública, segurança e administração municipal;

7. Assegurar a utilização de sistemas e padrões abertos, para reduzir a um mínimo a dependência de sistemas e softwares proprietários ou com problemas de interoperabilidade;

8. Generalizar os serviços e sistemas de e governo a todas as instâncias da administração pública, usando critérios de transição que levem em conta a brecha digital, com critérios rigorosos de interoperabilidade, padrões abertos, transparência e eficácia;

9. Montar uma estratégia nacional de capacitação para que, em todos os níveis, pessoas e instituições, tendo o acesso aos meios e instrumentos, possam utilizá-los com eficácia;

10. Promover a curto prazo a adequação da lei e regulamentação do FUST, bem como criar um mecanismo pluralista de governança para o fundo.

Canal móvel terá mesmo conteúdo da HDTV, diz Globo

A transmissão de TV digital que começará em dezembro deste ano será composta tanto de um sinal em alta definição (HDTV) quanto um de baixa definição para aparelhos portáteis (1 SEG), e ambos terão o mesmo conteúdo da atual TV analógica. Quem garante é o gerente do departamento de projetos de transmissão digital da TV Globo, Paulo Henrique de Castro. "É até mais fácil para as emissoras transmitir o mesmo conteúdo", explica. O governo brasileiro estava preocupado com o risco de os radiodifusores transmitirem conteúdos diferentes em 1 SEG porque alguns modelos de set-top box que serão comercializados no Brasil receberão apenas o sinal 1 SEG – é o caso daquele produzido pelo consórcio formado por Encore, Telavo e Teikon. O executivo da TV Globo abriu com uma palestra no segundo dia do 7º Congresso Latino-Americano de Satélites, organizado pela Converge Comunicações e Convergência Latina, nesta sexta-feira, 21, no Rio de Janeiro. O evento é promovido pelas revistas TELETIME e TELA VIVA.

Castro lembrou, entretanto, que no Japão está se estudando a possibilidade de diversificar o conteúdo transmitido em 1 SEG, adequando-o ao perfil de uso da TV em aparelhos portáteis. "Existe um novo horário nobre para os aparelhos portáteis: é a hora em que as pessoas estão indo e voltando do trabalho. E também a hora do almoço", afirma o executivo da TV Globo.

A definição de imagem em 1 SEG equivale a 25%daquela em SDTV, o que só permite a visualização em telas de no máximo 14 polegadas, mas consegue atingir uma taxa de 30 frames por segundo, o que é melhor que a maioria dos serviços de streaming oferecidos hoje nos celulares.
Sobre multiprogamação com canais de SDTV, Castro voltou a repetir que dificilmente ela seria interessante do ponto de vista econômico, já que a receita publicitária não sustentaria o projeto. "Não haverá quatro Casas Bahia para anunciar nos quatro canais", compara.

Satélites

A Globo segue em negociação para a compra de mais capacidade satelital para a transmissão em HDTV. É essencial que a transmissão seja criptografada, para atender às exigências dos detentores de direitos sobre os conteúdos veiculados.

Paralelamente, Castro lembrou que deve aumentar no futuro o uso de fibra óptica para a transmissão de eventos em estádios. No Rio, com o Pan-Americano, por exemplo, várias arenas esportivas foram equipadas com fibras ópticas. De qualquer forma, a exigência de redundância da Globo deve garantir ainda links via satélite nessas transmissões.

O executivo da Globo não demonstrou preocupação com a possível escassez de capacidade satelital na América Latina. "As operadoras podem realocar a cobertura de seus satélites para atender regiões com aumento de demanda", explica.

Ainda não se sabe como será feita a migração para HDTV da transmissão que hoje acontece em banda C para cerca de 15 milhões de domicílios no Brasil. Castro acredita que o tema venha a ser debatido pelo Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital.

Dossiê avalia situação das mulheres negras na mídia

O Dossiê sobre a situação das Mulheres Negras Brasileiras, preparado pela Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras – AMNB foi lançado em julho último e apresentado em audiência à Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos – OEA. “A audiência foi em julho, em Washington, e agora, o governo Brasileiro tem um tempo para responder às denúncias que fizemos. Em seguida, relatores da OEA devem visitar o país para constatar possíveis mudanças no quadro e fazer recomendações ao governo brasileiro”, informa Nilza Iraci, integrante da AMNB e responsável pela coordenação geral do projeto.

O dossiê avalia a situação das mulheres negras no Brasil em respeito a diversos campos, como desenvolvimento, trabalho, renda e pobreza, educação, saúde, violência, religião, meio ambiente, participação nos espaços de poder. Avalia também a imagem e a representação das mulheres negras na comunicação.

O documento recupera a centralidade da comunicação na formação de valores e no reforço ao preconceito na sociedade e analisa diferentes pesquisas que apontam “a naturalização do racismo e do sexismo na mídia que reproduz sistematizacamente os esteriótipos e estigmas sobre a mulher e em especial sobre as mulheres negras, trazendo prejuízos para a afirmação de sua identidade racial e valorização social”.

O dossiê questiona a invisibilidade dos negros na mídia e ausência nos espaços produores de comunicação e também a falta de valorização da história e dca cultura afro-brasileiras.

Uma das pesquisas que o documento recupera é a do livro “A negação do Brasil”, que demonstra que os atores afrodescendentes estiveram ausentes de cerca de 30% das telenovelas produzidas em quase 50 anos e, quando presentes, as mulheres negras estão sempre em papéis das esferas da subalternidade e da sensualidade.

Mesmo na TV pública, como demonstra outro levantamento levado à OEA pelo dossiê, a pesquisa “Onde está o negro da TV pública”, realizada pela Fundação Palmares, que constatou que 82% da programação não apresenta temáticas sobre a raça ou a cultura negras.

As denúncias e a invisibilidade se estendem também para o campo da publicidade. O dossiê apresenta a análise realizada pela pesquisadora Juliana Botelho no Conselho Nacional de Autoregulamentação Publicitária – Conar, onde estão registradas 31 denúncias de discriminação racial/étnica e outras muitas arquivadas por não reconhecimento do mérito: 70,96% das denúncias enviadas em 26 anos.

Nos anexos do documento, são apresentadas várias reportagens de jornais e revistas e algumas peças publicitárias que ilustram o cenário apresentado nos textos.