Liberdade de Expressão X Liberdade de Imprensa: anacronias de nossos tempos

“Liberdade de Expressão X Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia”, coletânea de artigos do professor Venício A. de Lima lançada recentemente pela Editora Publisher, é a síntese mais bem acabada do debate vigente no Brasil neste início de século quando o assunto é regulação e políticas de comunicação.

Os artigos reunidos no livro foram originalmente publicados pelo site Observatório de Imprensa, projeto voltado para o acompanhamento e a discussão da atividade da mídia no país. Fogem, portanto, do formato tradicional das contribuições teóricas, evitando o “hermetismo” típico do gênero e contribuindo de forma generosa com a abertura do debate público sobre o tema. Embora academicamente densos, os textos apresentam um panorama bastante claro – e por isso acessível aos não-especialistas – da forma como os proprietários dos grandes meios de comunicação nacionais recorrem ao princípio jurídico da liberdade de expressão para evitar qualquer forma de incidência da sociedade sobre suas atividades, garantindo um ambiente altamente desregulado cuja marca essencial é a ausência de instrumentos de controle público.

Tal discurso se apóia, entre outros aspectos, na confusão estabelecida entre liberdade de expressão e liberdade de imprensa – com variáveis como liberdade de expressão artística, liberdade de criação, liberdade de anúncio, liberdade jornalística, entre outros. Como aponta o autor de forma inequívoca, é rotineiro encontrar não só a utilização das duas expressões – liberdade de expressão e liberdade de imprensa – como equivalentes, mas também o deslocamento da liberdade de expressão do indivíduo para a "sociedade" e, desta, implicitamente, para os "jornais", sejam eles impressos ou audiovisuais.

A mesma lógica que busca confundir o direito fundamental à expressão com o direito das empresas privadas que atuam no setor das comunicações materializa-se, de forma ainda mais radical, na tentativa de forjar a aceitação – como se costume jurídico fosse – da "liberdade de expressão comercial" como um direito humano. Mas, como aponta Lima, a liberdade de expressão comercial, ao transformar em equivalentes dois tipos totalmente distintos de informação – a publicitária e a jornalística – “apropriou-se, sem mais, da idéia de liberdade de expressão como se a mídia, anunciantes e agências de publicidade fossem os legítimos representantes do direito individual e coletivo contra a 'censura' e a 'sanha regulatória' exercidas pelo o Estado”.

Não há, portanto, confusão que resista à boa-fé intelectual, especialmente após a leitura de “Liberdade de Expressão X liberdade de Imprensa”.

Lima vai inclusive à origem política e filosófica da liberdade de expressão, jogando por terra a afirmação de que os autores geralmente invocados pelos grandes empresários de mídia do país – como John Stuart Mill e John Milton – referendariam a tese da “sanha regulatória” do Estado brasileiro neste início de século. Pelo contrário: nos alerta Venício Lima que em Sobre a Liberdade (On Liberty), ensaio rotineiramente invocado como um dos pilares da defesa da liberdade de expressão e da liberdade de imprensa, Mill aponta o perigo da “tirania da maioria”, na qual a sociedade – e não o governo – poderia passar a fazer as vezes do tirano. Mill, assim, já sinalizava os riscos para a representação e o respeito à diversidade social, por meio da apropriação privilegiada – e, portanto, desigual – dos meios de comunicação de massa (no caso, os jornais).

Da análise de casos concretos descritos e comentados em “Liberdade de Expressão X Liberdade de Imprensa” não há outra conclusão possível: no Brasil, o princípio jurídico da liberdade de expressão foi capturado pelos proprietários dos meios de comunicação, que impõe uma interpretação deturpada de seu significado original. Os donos da mídia ressignificam este direito humano fundamental de forma a esvaziá-lo e tentam a todo custo, estabelecer como hegemônica a visão de que sua efetivação só se dará com a ausência absoluta de instrumentos que regulem a atividade midiática e imponham restrições a seus interesses econômicos. Assim, a ameaça à liberdade – em particular à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa – tem sido identificada no espaço público como vinda exclusivamente do Estado, mesmo que estejamos vivendo em um Estado de Direito, no (pleno) funcionamento das instituições democráticas.

Foi apoiada nessa pretensa confusão conceitual que se moveram, nos últimos anos, as disputas políticas sobre os modelos regulatórios no campo das comunicações, nos quais os coronéis da mídia brasileira têm obtido amplo sucesso. O resultado dessa hegemonia é claro: no Brasil, a estratégia discursiva empresarial – simultaneamente política e jurídica – prevaleceu e o marco regulatório nacional se moveu historicamente à mercê de interesses privados, ora nacionais, ora internacionais. Como comprovam de forma categórica os diversos relatos da história regulatória dos serviços de comunicação, a circulação de informação, à exceção de períodos episódicos, sempre foi controlada por monopólios e oligopólios privados. Seus proprietários mantiveram, e ainda mantêm, influência decisiva na vida política nacional, perpetuando, no plano normativo, um ambiente altamente favorável à maximização de seus lucros e a defesa de interesses políticos determinados.

A sanha antirregulação do empresariado brasileiro é tamanha que as reformas que combatem não são, nem ao menos, estruturais. Em geral, são medidas que pouco alterariam o status quo e que há muito foram implementadas em democracias liberais, sempre ancoradas no direito à liberdade de expressão. No Brasil, inversamente, tais diretrizes regulatórias não prosperam apoiadas justamente na idéia de que tal liberdade, para que seja garantida em sua plenitude, deve ser compreendida como a abstenção absoluta do Estado na dinâmica econômica do setor. É, por certo, uma das anacronias dos nossos tempos.

“Liberdade de Expressão X Liberdade de Imprensa” desnuda a hipocrisia discursiva dos coronéis da mídia brasileira. E, afirmo sem medo de errar, tratar-se da melhor síntese do debate político-jurídico vigente no campo das comunicações neste início de século XXI.

* Diogo Moyses é radialista, mestre em Direito pela Universidade de São Paulo e membro do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

Telcomp aponta risco de concentração com aquisições

O presidente executivo da Telcomp (Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas), João Moura, considera, em teoria, a compra do controle da Vivo pela Telefónica e a parceria entre Oi e Portugal Telecom como positivas, mas se preocupa com a concentração do mercado e a possibilidade de afastar a vinda de novos investidores ao país. Ele defende uma atuação mais forte da Anatel para evitar restrições à competição.

“A compra da Vivo dará a oportunidade para a Telefônica, que está restrita ao estado de São Paulo, a expandir suas operações de telefonia fixa e acesso à internet para todo o país, por meio de licença de SCM (Serviço de Comunicação Multimídia), disse. Porém,  teme que o esforço financeiro para aquisição do controle da operadora móvel acabe adiando essa expansão.

No caso da parceria entre a Oi e a PT, Moura também aponta aspectos positivos, como a melhora do nível de investimentos, que até então estava aquém das exigências do mercado, e da própria governança corporativa da operadora, que ainda adota, em sua opinião, práticas anticompetitivas.

O presidente da Telcomp afirma que a preocupação é com o fato das duas operações anunciadas nesta quarta-feira (28) apontam para a formação de duas empresas muito grande, aumentando o nível de concentração do mercado. Ele lembra que fusão da Oi com a Brasil Telecom, que mudou a configuração do mercado e permitiu a operação da nova prestadora em 95% do território brasileiro, sequer foi julgada no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica).

Zeinal Bava diz que PT terá direito de veto na Oi

O presidente executivo da Portugal Telecom, Zeinal Bava, insistiu por três vezes na conferência de imprensa, realizada hoje para comentar a venda da Vivo e a entrada da PT na Oi, que a Portugal Telecom não é um mero investidor financeiro na Oi, mas que trata-se de um investimento estratégico e que a PT terá posição de decisão dentro da Oi.

Zeinal Bava avalia que a parceria entre PT e Oi reúne todas as condições para a "PT voltar a ter um projeto com grande ambição" ou até "mais ambicioso ainda", uma vez que as empresas (PT e Oi) poderão expandir a sua atividade ao restante do continente sul americano. Com a Oi, a PT "vai voltar a ser um operador de escala internacional". Do lado da PT, destacou que a empresa poderá colaborar com a Oi com sua experiência no serviço de banda larga, contribuindo para a expansão da Oi no Brasil , ainda, com seu "expertise" nas áreas de engenharia e de operações.

Bava acrescentou que a compra de uma posição minoritária na Oi vai gerar valor para a Portugal Telecom já em 2010 e 2011. E enfatizou que os objetivos estratégicos da PT no Brasil não foram alterados pela saída da Vivo e entrada na Oi. "A PT já demonstrou ao mercado que é boa a criar valor, somos bons parceiros, vamos ter condições numa empresa com dimensão", disse.

Acordo

A PT formalizou hoje o acordo com a Telefónica para a venda da fatia que detinha na Vivo por 7,5 bilhões de euros, e anunciou sua entrada na operadora Oi com uma participação de 22,3%, pagando R$ 8,4 bilhões (3,65 bilhões de euros). Na conferência, Bava explicou que dos R$ 8,4 bilhões, "dois terços são para ficar na empresa" para aumento de capital que potencialize "a expansão da empresa".

Conforme a apresentação de Zeinal Bava o investimento de R$ 8,4 bilhões pagos pela PT a Oi se dará da seguinte forma:
– R$ 4,7 bilhões serão destinados à aquisição da participação minoritária das ações da AG e da LF na TmarPart;
– R$ 2 bilhões serão para a subscrição de aumento de capital a preço de mercado na TNLP;
– R$ 1,7 bilhão será para a subscrição de aumento de capital a preço de mercado na Telemar

Deputados veem oportunidades nas operações de telecom

O deputado Julio Semeghini (PSDB-SP) disse que a compra do controle da Vivo pela Telefónica só não foi prejudicial para o país porque a Portugal Telecom anunciou acordo para compra de participação na Oi. “A preocupação era que a operação resultasse na redução de países que investem no mercado de telecom no Brasil, que seria um passo para reduzir a competição”.

Semeghini avalia que a solução encontrada, da parceria da PT com a Oi evitará a redução de investidores e, de quebra, contribuirá para a consolidação da operadora brasileira. Porém, ressalta que é preciso assegurar que o controle da Oi continue nas mãos de controladores brasileiros. “Senão, irá na contramão de tudo que foi feito para aprovação da compra da Brasil Telecom para criação de uma grande empresa nacional do setor”, disse.

Para o deputado, as operações seguem a tendência mundial, de grandes concentrações no mercado de telecom. “Enfim, dos males, o menor”, concluiu.

Cumprir metas

O deputado Walter Pinheiro (PT-BA) disse que já esperava a compra do controle da Vivo pela Telefónica desde fevereiro deste ano, quando esteve em Portugal e viu a situação difícil da PT, que enfrentava críticas de acionistas contra a administração. De outra parte, considerou que a entrada da PT na Oi e a compra da participação dessa na operadora portuguesa ajudará a sua a entrada em outros países, especialmente os de língua portuguesa na África, como sempre desejou o governo.

“A entrada da PT na Oi é uma alternativa muito melhor do que o aumento da participação do BNDES na operadora, como já havia sido cogitado pela Oi para assegurar a sua capitalização”, disse Pinheiro. Ele espera que, com o reforço de caixa, a Oi cumpra as metas de ampliação da rede de banda larga e de investimentos em pesquisa e desenvolvimentos, incluídas entre as condicionantes para a compra da Brasil Telecom e que até agora não foram cumpridas por falta de recursos.

Anatel e Cade esperam documentações para analisar negócios

A Anatel não vai se pronunciar agora sobre a compra do controle da Vivo pela Telefónica nem sobre o acordo firmado entre a Oi e a Portugal Telecom. Segundo o conselheiro Antonio Bedran, apesar de ter sido comunicada das operações, a agência ainda não recebeu a documentação que lhe propicie uma análise dos negócios.

Sobre a compra da Vivo pela Telefónica, Bedran reconheceu que precisará de uma análise mais acurada, já que a operadora espanhola tem participação na Telecom Itália, que controla a TIM. Essa operação já passou pela análise da agência e do Cade (Conselho Administrativo de Defesa da Concorrência), que impuseram condicionantes às operadoras.

O Cade também não vai se pronunciar pelas operações das empresas de telecom anunciadas nesta quarta-feira (28), mas lembrou que a Telefônica tem um prazo de 15 dias para notificar o tipo de operação à autarquia. "A operação depende da aprovação prévia da Anatel antes de chegar ao Cade", disse o presidente Arthur Badin.

Em abril deste ano, o Cade aprovou a compra de ações minoritárias da Telecom Itália (controladora da TIM) pela Telefónica, feita em 2007. O conselho, porém, obrigou as duas empresas a assinarem um termo de compromisso em que se comprometem a manter a administração das operadoras do grupo separadas.

Na compra anunciada hoje, o Cade terá que avaliar em que medida o aumento da participação acionária da Telefónica na Vivo provocará mudanças na forma de atuação da operadora móvel no mercado nacional. E ainda analisar os impactos que o negócio causará na TIM Brasil, uma vez que a Telefónica detém 46,18% da Telco, maior acionista da Telecom Itália e controladora da TIM Brasil.

Já o ato de concentração da fusão da Brasil Telecom com a Oi, concretizado em 2008, já aprovado na Anatel, aguarda julgamento no Cade. A avaliação de advogados que atuam na área concorrencial é de que a entrada da PT na Oi e a participação da operadora brasileira na portuguesa não enfrentaram obstáculos no conselho.