Autorregulamentação, mais do mesmo

Na quinta-feira (19/8), a Associação Nacional de Jornais (ANJ) veio à boca do palco para anunciar a criação de um conselho de autorregulamentação como forma de reiterar o compromisso da entidade com a liberdade de expressão e com a responsabilidade editorial. De acordo com a presidente da ANJ, Judith Brito, reeleita no dia 20, a entidade organizará até o final do ano um conselho autônomo, destinado a examinar queixas contra periódicos afiliados e impor eventuais sanções. E nunca escrevi um texto de abertura que demandasse tantas explicações, tanta necessidade de se colocar o assunto às claras como este.

O que passou a serem favas contadas e tratadas como instância deliberativa "mais que oportuna" pela quase totalidade dos grandes blocos empresariais de comunicação no Brasil, os mesmos que dão suporte físico e algum tipo de substância à sua entidade porta-voz, longe de acenar com algo útil, trouxe ao debate, uma vez mais, a desconcertante existência do monopólio da comunicação no Brasil que avança no século 21, sem perceber a força de enxurrada arrancando ideias arcaicas como a que sustentava a indústria da seca, e outras não menos letais que teimavam em rotular brasileiros em duas classes apenas – os do Sul-Sudeste, ricos e opulentos e os do Norte-Nordeste-Centro-Oeste, prisioneiros de crônica falta de meios elementares para sua subsistência física.

No entanto, ficou patente que é muito mais fácil mudar o curso do Rio São Francisco e também muito mais factível o Brasil constatar o mais vigoroso processo de mobilidade social que se tem notícia nos últimos séculos que o país democratizar o acesso aos meios de comunicação e transformar o direito de expressão em conquista não de um punhado empresas de comunicação, mas sim uma conquista de sociedade como um todo.

Três interrogações

Nada soa mais extemporâneo no momento por que passa o país que a criação de um Conselho de Autorregulamentação. Extemporâneo por quê?

Oras, alguém já teve a feliz e oportuna idéia de criar um Conselho de Autorregulamentação para os presidiários do país? Um conselho com força para evitar rebeliões, motins, assegurar a segurança da população carcerária, dos agentes públicos etc?

Alguma entidade de classe das operadoras de telefonia celular já teve a brilhante iniciativa de propor a criação de um Conselho de Autorregulamentação como algo viável para coibir os milhares de abusos cometidos por suas afiliadas, desde aquela comezinha falha de cobrar taxas e impostos do tipo "se colar, colou" até a de não prover com rapidez e eficiência o direito do usuário à sua portabilidade?

Não chama a atenção o fato de que, até o momento, nenhuma entidade representativa dos proprietários de transporte público (ônibus, vans etc.) tenha criado o seu Conselho de Autorregulamentação com a missão de punir os motoristas que mostram descaso com seus usuários, dirigem em alta velocidade, não param nos pontos designados, freiam bruscamente, arrancam antes mesmo de o passageiro estar completamente dentro do veículo?

A presidente Judith Brito promete que será um conselho autônomo, destinado a examinar queixas contra periódicos afiliados e impor eventuais sanções. Autônomo? Como assim? O cordão umbilical do conselho em gestação não derivaria, em absoluto, de sua entidade-mater, a ANJ?

Sei não, depois que o monobloco da comunicação no Brasil decidiu tutelar o conceito de liberdade de expressão parece que tudo é possível. A começar por iniciativa como esta que já nasce fadada ao descrédito: como tratar de julgar com objetividade matéria de natureza eminentemente subjetiva?

É sintomático recolher do editorial da Folha de S.Paulo de segunda-feira (23/8) estas pérolas:

"Setores autoritários do bloco hoje dominante na política brasileira, o de Lula e Dilma, acenam com um controle `social´ sobre a mídia. Mas como formar um conselho representativo? Como evitar que esse conselho seja dominado pela militância em nome da `sociedade´? Como assegurar que suas decisões sejam `certas´?"

E não seriam estas mesmíssimas três interrogações que inviabilizam logo de saída o anunciado Conselho de Autorregulamentação a ser indicado pela ANJ? Como formar um conselho representativo se quem o cria representa tão somente um espectro – majoritário, sem dúvida – das empresas de comunicação do Brasil?

Fim do ano

Apenas a título de exemplo, como imaginar que revistas como CartaCapital e Caros Amigos "se sintam representadas" em tal conselho?

E o jornalismo da internet, uma realidade que assoma os olhos por sua pujança e vigor nos últimos anos, como estariam representadas se não são subsidiários de portais mantidos por empresas como as Organizações Globo, a Editora Abril, os jornais Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo?

E os blogues, por alguns chamados logo de início como "sujos"? Quem representaria os "sujos" no conselho de autorregulamentação? Ou então este seria apenas um conselho dos "cheirosinhos"

Como evitar que esse conselho proposto pela ANJ seja dominado exatamente por aqueles que mais se dizem porta-vozes da sociedade, muito embora não tenham recebido qualquer procuração da população para tal, seja por meio de eleições livres e universais, seja através de consultas plebiscitárias? A não se encontrar resposta plausível a esta pergunta, penso que a nova instância nada acrescentaria ao status quo de nossas comunicações no Brasil. Ao contrário, visaria tão somente legitimar a prepotência dos que muito podem sobre os que nunca podem, dos que têm direito a falar e a ser ouvidos sobre os que têm, quando muito, apenas o direito de falar, mas nunca o de ser ouvidos.

E, missão impossível mesmo seria a busca de meios que pudessem assegurar que as decisões do novo rebento da ANJ sejam "certas". Sim, porque é de todo impensável, em pleno século 21, acreditar que é justo… decidir em causa própria.

Ora, nem vamos muito longe com o andor porque os santos continuam sendo de barro: não é da praxe jurídica que a isenção por parte de quem julga é essencial para se obter julgamento justo?

E não é por isso que juízes devem se "declarar impedidos" quando têm interesses próprios em julgamento e, se não o fizerem, a parte prejudicada poderá requerer simplesmente a nulidade do mesmo?

Vamos ver se até o dia 31 de dezembro de 2010 seremos brindados com respostas a tais questões. Até lá, esperemos mais, cada vez mais, do mesmo.

* Washington Araújo é mestre em Comunicação pela UnB e escritor; criou o blog Cidadão do Mundo.

Sai listas das primeiras 100 cidades do PNBL

O presidente da Telebrás, Rogério Santanna, divulgou nesta quinta-feira (26) as 100 cidades que serão atendidas na primeira fase do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL), a serem conectadas ainda este ano. Além das cidades das regiões Nordeste e Sudeste, das 15 capitais e do Distrito Federal, foram incluídos seis municípios de Goiás, na região Centro-Oeste, e seis cidades de Tocantins, na região Norte. A população total beneficiada é de mais de 14 milhões de pessoas.

Santanna disse que agora vai esperar a manifestação dos provedores para que o serviço possa ser ofertado para o consumidor final. Se não houver interesse dessas empresas, ou a Telebrás terá que esperar a definição do CGPID (Comitê Gestor dos Programas de Inclusão Digital) dos critérios para oferta direta do serviço ou trocar a cidade por outra que se encaixe nos mesmos parâmetros. “Nossa expectativa, baseada em conversas anteriores, é de que os provedores entrem mesmo com a última milha”, disse.

O preço cobrado pela conexão será de até R$35 por mês e com velocidade de no mínimo 512 Kbps, enquanto o valor do link será fixado em R$ 230 por megabite transportado. A qualidade do acesso também será maior do que a ofertada pelo mercado e nada impedirá que o provedor possa ofertar velocidade maior.

A ativação da rede da Telebrás ainda depende de licitação para compra dos equipamentos. Os termos de referência das licitações deverão ser colocados em consulta pública na próxima semana. A partir da assinatura dos contratos, entretanto, a previsão é de que o serviço possa ser ofertado em 45 dias.

Para o próximo ano, a previsão é de que mais 1063 cidades sejam atendidas. O atendimento em todo o país está previsto para 2014, em função das dificuldades de atendimento à região Norte. Santanna disse que nessa região a rede ainda será instalada em hidrelétricas que estão em construção. Ele disse que a estatal está estudando outros mecanismos para atender o Norte mais rapidamente.

Cidades

Os critérios para escolha das cidades foram a proximidade com os anéis Sudeste e Nordeste (de até 50 Km dos POPs), do cronograma de implantação do backhaul, da existência de programas de inclusão digital em curso, de baixo IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). Com menor densidade de banda larga, entre outros.

Veja a lista das 100 primeiras cidades do PNBL:

– Arapiraca (AL)- Messias (AL)
– Palmeira dos Índios (AL)
– Joaquim Gomes (AL)
– Pilar (AL)
– Rio Largo (AL)
– Feira de Santana (BA)
– Itabuna (BA)
– Camaçari (BA)
– Governador Mangabeira (BA)
– Eunápolis (BA)
– Governador Lomanto (BA)
– Muritiba (BA)
– Presidente Tancredo Neves (BA)
– Sobral (CE)
– São Gonçalo do Amarante (CE)
– Quixadá (CE)
– Barreira (CE)
– Maranguape (CE)
– Russas (CE)
– Cariacica (ES)
– Domingos Martins (ES)
– Conceição da Barra (ES)
– Piúma (ES)
– São Mateus (ES)
– Vila Velha (ES)
– Itapemirim (ES)
– Anápolis (GO)
– Aparecida de Goiânia (GO)
– Trindade (GO)
– Águas Lindas de Goiás (GO)
– Alexânia (GO)
– Itumbiara (GO)
– Imperatriz (MA)
– Paço do Lumiar (MA)
– Presidente Dutra (MA)
– Porto Franco (MA)
– Grajaú (MA)
– Barra do Corda (MA)
– Barbacena (MG)
– Juiz de Fora (MG)
– Conselheiro Lafaiete (MG)
– Ibirité (MG)
– Sabará (MG)
– Uberaba (MG)
– Ribeirão das Neves (MG)
– Santa Luzia (MG)
– Campina Grande (PB)
– Campo de Santana (PB)
– Araruna (PB)
– Riachão (PB)
– Dona Inês (PB)
– Bananeiras (PB)
– Duas Estradas (PB)
– Carpina (PE)
– Tracunhaém (PE)
– Nazaré da Mata (PE)
– Paudalho (PE)
– Limoeiro (PE)
– Aliança (PE)
– Piripiri (PI)
– Campo Maior (PI)
– José de Freitas (PI)
– Piracuruca (PI)
– Batalha (PI)
– São João da Fronteira (PI)
– Angra dos Reis (RJ)
– Nova Iguaçú (RJ)
– São Gonçalo (RJ)
– Piraí (RJ)
– Mesquita (RJ)
– Rio das Flores (RJ)
– Duque de Caxias (RJ)
– Casimiro de Abreu (RJ)
– Santa Cruz (RN)
– Nova Cruz (RN)
– Passa e Fica (RN)
– Parnamirim (RN)
– Lagoa d´Anta (RN)
– Extremoz (RN)
– Açú (RN)
– Nossa Senhora da Glória (SE)
– Barra dos Coqueiros (SE)
– Laranjeiras (SE)
– Japaratuba (SE)
– São Cristóvão (SE)
– Carira (SE)
– Campinas (SP)
– Guarulhos (SP)
– Pedreira (SP)
– Serrana (SP)
– Conchal (SP)
– Embu (SP)
– São Carlos (SP)
– Gurupi (TO)
– Araguaína (TO)
– Guaraí (TO)
– Paraíso do Tocantins (TO)
– Wanderlândia (TO)
– Porto Nacional (TO)

Ipea irá avaliar resultados qualitativos e quantitativos do PNBL

O governo aproveitou o segundo encontro do Fórum Brasil Conectado que acontece esta semana em Brasília para anunciar o lançamento de um projeto amplo para diagnosticar a situação das telecomunicações brasileiras, pontos estratégicos de avanço na inclusão e, especialmente, os resultados do Plano Nacional de Banda Larga. O projeto será gerenciado pelo Instituto de Política Econômica Aplicada (Ipea) e se constituirá em uma grande rede virtual de dados sobre o setor de telecomunicações, compilando levantamentos hoje dispersos em vários órgãos públicos e civis.

Segundo Cosette Castro, membro do Comitê Gestor das Políticas de Inclusão Digital (CGPID), que coordenou a plenária em que o anúncio foi feito, o governo pretende monitorar quantitativamente e qualitativamente o cumprimento das metas fixadas no Plano Nacional de Banda Larga (PNBL). A rede virtual irá absorver dados sobre o setor gerados pelo IBGE, pelo Comitê Gestor de Internet (CGI) e pela Anatel, para citar alguns exemplos. Mas a rede estará aberta a outras informações de outras instituições que ajudem a mapear especialmente a qualidade da oferta de banda larga que vem sendo prestada no país.

"Nessa primeira etapa de construção, o Ipea avaliará primeiro quais parcerias já estão firmadas com órgãos que possuem esses dados, em segundo lugar quais números já estão disponíveis e, por fim, quais os dados que são necessários além destes para a análise", explicou Cosette. Para prospectar essas futuras parcerias, o Ipea abriu um fórum específico onde as entidades poderão se cadastrar para acompanhar e colaborar com o projeto. O site é o forum.ipea.gov.br .

A proposta também tem um viés de dar publicidade a dados que, muitas vezes, não são de acesso pleno da sociedade em seus órgãos de origem. A ideia é produzir relatórios periódicos sobre esse acompanhamento, divulgando os cenários da inclusão digital brasileira. O governo ainda não sabe quando a rede estará plenamente organizada, mas o trabalho já está em curso e o próximo Fórum Brasil Conectado já deve contar com uma compilação prévia do Ipea para os debates sobre as metas mais ambiciosas do PNBL, que envolvem incentivos à cadeia produtiva de softwares e conteúdos voltados, especialmente, para aplicativos de governo eletrônico. O próximo encontro do Fórum está previsto para ocorrer em outubro deste ano.

Planejamento de cabo está pronto, mas não entra em pauta

A polêmica sobre as outorgas de TV a cabo ganhará em breve mais um capítulo. A conselheira Emília Ribeiro concluiu seu voto-vista sobre o Planejamento dos Serviços de TV a Cabo e MMDS. O posicionamento da conselheira é aguardado com ansiedade pelo setor e pelos seus próprios colegas de Conselho Diretor desde que a Anatel decidiu editar uma medida cautelar suspendendo a limitação do número de outorgas que podem ser distribuídas a empresas interessadas na oferta do serviço. Em tese, a cautelar neutralizaria o planejamento, mas a agência acabou atrelando todas as decisões sobre outorgas à aprovação do plano formal de distribuição do serviço no país.

Mas, mesmo concluído, o assunto não entrará na pauta da próxima reunião do Conselho Diretor, adiada para quarta-feira, 1º de setembro. Procurada por esta reportagem para comentar a mudança de agenda da reunião, que deveria ocorrer nessa quinta, 26, Emília Ribeiro informou que tentou pautar o Planejamento do Cabo para a reunião desta semana, mas não teve respaldo dos demais conselheiros. A tentativa de agendamento do debate deverá, inclusive, constar da ata da futura reunião, conforme acerto entre os conselheiros.

Emília Ribeiro não comentou o conteúdo de sua análise do planejamento, argumentando que o assunto ainda precisa ser analisado e deliberado pelo Conselho Diretor o que, agora, não tem data prevista para ocorrer. A conselheira fez questão de frisar que a relatoria do documento está nas mãos do colega Antônio Bedran, sendo esta a proposta que será deliberada no conselho, evitando antecipar se seu posicionamento, afinal, será contra ou a favor da sinalização já dada pela agência ao mercado. Vale lembrar que a conselheira estava de férias quando a Anatel emitiu a cautelar suspendendo os limites do planejamento, não tendo participado desta deliberação.

Governo vai regulamentar unbundling

O CGPID (Comitê Gestor dos Programas de Inclusão Digital) vai elaborar minutas de decretos presidenciais para regulamentar as regras de unbundling e compartilhamento de infraestruturas para uso em telecomunicações e tarifação de outros setores, para evitar que as receitas geradas pelo uso dessas redes sejam obrigatoriamente revertidas, na sua quase totalidade, para modicidade tarifária dos serviços.

A decisão saiu do debate sobre implantação de dutos e fibras óticas em obras civis e compartilhamento de infraestrutura, realizado nesta quarta-feira (25) no Fórum Brasil Conectado. As definições só não foram consensuais porque as teles reclamaram da possível regulamentação do unbundling.

A ideia do governo é inverter a regra existente hoje para o compartilhamento de redes de telecomunicações. Ao invés do tomador ter que provar que a infraestrutura é passível de compartilhamento, o dono da rede que terá que comprovar a impossibilidade do unbundling.

No caso da tarifação de outros setores para uso em telecomunicações, como nas elétricas e rodovias, cujas receitas de aluguéis de poste e dutos têm que ser revertidas em 90% para a modicidade tarifária dos serviços objetos de concessão, a intenção é reduzir esse percentual, incentivando a disponibilização dessas infraestruturas. Nesse caso, será regulamentado artigo da lei das concessões (8987). Essa medida deverá facilitar a implantação do PLC (Power Line Comunication) ou banda larga por rede elétrica.

Taxas municipais

Outro ponto discutido foi a cobrança de taxas pelos municípios pela ocupação do solo. O entendimento é de que essas regras são muito variadas e dificultam a ampliação dos serviços. A intenção do governo é recomendar que os Planos Diretores das Cidades contemplem a questão do uso do solo para telecomunicações, de preferência sem a cobrança de nenhuma taxa. O entendimento é que a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) para uma causa específica, de que a legislação sobre telecomunicações é privativa da União, pode balizar a nova postura.

O governo quer ainda que o Confea (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) recomende que todos os projetos de prédio prevejam infraestrutura de banda larga para serem aprovados. Outra decisão é formalizar o entendimento de que todas as obras de infraestrutura contratada ou licitada pelo poder público terão que contemplar duto com fibra ótica para uso em telecomunicações.

As minutas deverão estar concluídas até dezembro, para consulta pública. O governo ainda vai avaliar se as normas sairão por decreto ou por outro instrumento legal.