Governo e Oi, nem tão simples assim

Quem vê a Oi pleiteando o reajuste da tarifa da ligação fixo/móvel, inclusive com ação na Justiça contra a Anatel, poderia se perguntar: quem é a Oi?

Nós respondemos. A empresa faz parte do grupo que, em 1998, no processo de privatização do Sistema Telebrás, foi montado para não ganhar a concessão. Apesar disso, acabou levando 16 estados da Federação com apenas 1% de ágio sobre o valor proposto para a venda das empresas de telecomunicações que compunham essa área. Os recursos vieram, em boa parte, dos cofres públicos. Tanto que, ainda hoje, o governo detém 49% das ações da empresa – parte via BNDES (13%) e parte dos fundos de pensão – Previ, Petros e Funcef. Como acionista, o governo tem assento no Conselho de Administração da empresa.

Por causa disso, a Oi sempre se vangloriou de ser um grupo verdadeiramente nacional. E era, até a entrada da Portugal Telecom. Só que mesmo antes disso a Oi jamais teve qualquer compromisso com a indústria nacional, muito menos com o desenvolvimento e a pesquisa no país. Em 2008, quando assumiu o controle da Brasil Telecom, a empresa chegou a se comprometer a investir em pesquisa e na compra de equipamentos nacionais. Nada disto ocorreu. Ciência e tecnologia brasileiras nem de longe estiveram entre as suas prioridades.

Em 2010, quando estabeleceu sua parceria com a PT, prometeu mais uma vez investir em tecnologia, utilizando a expertise da empresa portuguesa, para implementar fibra ótica na última milha. E ainda anunciou que a inclusão no cenário internacional seria um dos seus desafios, chegando até mesmo a países africanos. No primeiro caso, ainda está engatinhando. No segundo, não há, pelo menos publicamente, nenhum projeto de alcançar outro continente.

Ainda em 2010 quando o governo federal lançou o PNBL (Plano Nacional de Banda Larga), a Oi não economizou nas promessas e se colocou como a grande empresa que poderia dar suporte a este plano com sua rede nacional.

Não só nada disso se efetivou como, contrariando as expectativas do seu discurso, a concessionária se juntou às outras empresas no combate às cláusulas relativas à expansão da banda larga. E tenta descaracterizar o Termo de Compromisso assinado com a Anatel e o Ministério das Comunicações, refutando, sempre que possível, as metas de qualidade propostas pela Agência.

De quem é a responsabilidade por esse comportamento da Oi? Dos empresários que compõem o seu Conselho de Administração ou dos representantes do governo e dos fundos de pensão que não interferem na política definida pela empresa?

Como o descompromisso com o Estado e a sociedade faz parte da natureza dos empresários, que visam única e exclusivamente o lucro, é fácil concluir qual a resposta correta.

Afinal, o que faz o governo neste Conselho de Administração, se já abriu mão de parte desse poder para garantir a entrada da Portugal Telecom na Oi e continua a demonstrar total desinteresse em interferir na política da empresa? É essa postura passiva que influencia diretamente não só no descumprimento de metas de qualidade como nas políticas públicas governamentais, dentre elas a universalização da banda larga brasileira.

Por que o governo não cobra mais coerência da Oi, supostamente a grande parceira do Estado brasileiro? A Oi nunca deu qualquer bom exemplo à iniciativa privada. Ela poderia reduzir a assinatura básica, permitindo maior acesso da população aos serviços de telefonia fixa. Poderia se comprometer com a política do Aice (Acesso Individual Classe Especial) proposto, justamente, para viabilizar a telefonia fixa para os mais pobres. A Oi nunca fez nada disso.

E a questão não atinge apenas os usuários. O nível de terceirização na Oi é escandaloso. Milhares de trabalhadores que prestam serviço à empresa na instalação e manutenção da rede de telefonia e na área de teleatendimento – neste último caso via sua subsidiária, a Contax -, são submetidos a salários e condições de trabalho aviltantes.

O Instituto Telecom volta a cobrar do governo federal que assuma o seu papel e discuta as suas responsabilidades dentro do Conselho de Administração da Oi. Afinal, ela se comporta como uma empresa qualquer, sem nenhum compromisso público. A grande pergunta é: o que o Estado pretende da Oi? Uma questão simples assim.

Programa da Folha diminui audiência da TV Cultura

João Brant – Observatório do Direito à Comunicação

Números do Ibope mostram que o programa TV Folha, produzido pela Folha de S. Paulo e veiculado aos domingos à noite na TV Cultura, diminuiu sensivelmente a audiência da emissora no horário. Comparando as médias dos cinco domingos em que o TV Folha foi exibido (entre 11/3 e 8/4) e os cinco domingos anteriores (entre 5/2 e 4/3), em que era exibido o Cultura Documentários, houve uma diminuição de 22% no índice de audiência (de 0,64 para 0,5) e de 26% na participação entre os televisores ligados (de 1,14% para 0,84%). Os números são ainda mais alarmantes se constatado que nos últimos dois domingos os resultados da TV Folha foram pífios, com índice de audiência médio no horário oscilando entre 0,1 e 0,2.

Conteúdo e infraestrutura separados são mais democráticos

Imagine um caminhão de carga. Num dia, ele transporta ovos, no outro, batatas. Em viagens separadas, a mesma infraestrutura – no caso, o caminhão –, é utilizada para levar diferentes conteúdos – ovos e batatas. Essas mercadorias, no entanto, são bastante distintas, e exigem cuidados particulares, embalagens específicas e formas de acondicionamento. Em ambos os casos, o caminhão tem uma capacidade de transporte, que considera o peso e volume máximo da carga.

Essa analogia, apresentada pelo pesquisador e especialista em telecomunicações Marcus Manhães, pode ser usada para compreender do que se trata o terceiro ponto da Plataforma para um novo Marco Regulatório das Comunicações no Brasil: a separação de infraestrutura e conteúdo. Na Plataforma, propõe-se que:

“A operação da infraestrutura necessária ao transporte do sinal, qualquer que seja o meio, plataforma ou tecnologia, deve ser independente das atividades de programação do conteúdo audiovisual eletrônico, com licenças diferenciadas e serviços tratados de forma separada. Isso contribui para um tratamento isonômico e não discriminatório dos diferentes conteúdos, fomenta a diversificação da oferta, e assim amplia as opções do usuário. As atividades que forem de comunicação social deverão estar submetidas aos mesmos princípios, independentemente da plataforma, considerando as especificidades de cada uma dessas plataformas na aplicação desses princípios.”

Para Manhães, no Brasil tendemos a convergir conteúdos e serviços, uma vez que no dia a dia dos grandes centros urbanos é comum assistir a vídeos, falar no telefone, navegar na internet e ter TV por assinatura. Os “caminhões” que transportam essas “mercadorias”, porém, ainda são muito diferentes. Essa é uma visão tecnicista que prevaleceu, ao longo dos anos, na forma como a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) regulou a atribuição de serviços. “Compreender que todas as redes estarão aptas a transportar de tudo é uma meta a ser atingida. Outra questão importante é a da ubiquidade, em que todos os serviços estarão disponíveis em todas as redes e localidades. Infelizmente, no Brasil estamos longe de atingir isso. Portanto, é outra meta a ser atingida”, explica o pesquisador.

Uma das principais questões postas frente ao modelo atual de comunicação no Brasil é a de haver oligopólios no controle das estruturas físicas por onde passam as informações. O sociólogo Sérgio Amadeu aponta que, para não nos tornarmos dependentes de determinados grupos, devemos criar regras de divisão do controle dessas corporações, como propõe a Plataforma. “Quanto mais conseguirmos impedir que se estabeleça um poder total na comunicação a partir do controle da infraestrutura, melhor. Então, quem oferece determinado serviço não poderá oferecer outro. Se controlar o cabo, não poderá controlar o provimento de acesso ou conteúdo. Isso tem de ser desagregado”, defende o sociólogo.

Neutralidade

A partir do domínio da infraestrutura, permite-se que as empresas – e as de telecomunicações já perceberam isso – direcionem o fluxo de informação da forma que lhes for mais conveniente. Podem, assim, decidir que tipo de aplicações podem ser baixadas ou a quais dados pode-se ter acesso. Para Amadeu, essa situação impõe a pior das censuras: a privada. “A censura política, em uma democracia, pode ser revertida em uma eleição. Mas como você interfere numa empresa de telefonia? Comprando ações e indo na assembleia de acionistas? A sociedade fica refém da ditadura do capital”, argumenta.

O tratamento isonômico de diferentes conteúdos é um dos principais objetivos da separação entre infraestrutura e conteúdo. Isso garante a neutralidade da rede, que significa que todas as informações que nela trafegam devem ser tratadas da mesma forma, trafegando na mesma velocidade. Manhães destaca, porém, que essa reivindicação deve respeitar direitos. Para ele, a possibilidade de igualdade surge com o tratamento distinto. A neutralidade deveria manter-se no limite de não prejudicar serviços e usuários em favorecimento de outros. “Certamente, a reivindicação está baseada em evidências de transgressões a direitos. Mantenha-se nessa lógica e não se siga adiante. Melhor, exijam-se redes aptas ao atendimento sem que impactem na qualidade e velocidade. Isso exige investimentos elevados em redes. Na lógica atual, instaura-se uma elevada demanda, com agregação de muitos usuários e administram-se os limites até que se possa melhorar a rede”, afirma o pesquisador.

Nesse contexto, fica clara a necessidade de separação entre infraestrutura e conteúdo, uma vez que a combinação disso resulta em um poder grande demais para ficar sob responsabilidade de apenas um segmento ou companhia, seja de telecomunicações, radiodifusores ou qualquer empresa cujo negócio gire em torno das tecnologias, das redes e serviços. “Por baixo da reivindicação de separação de infraestrutura e conteúdo, demanda-se uma nova formatação dos modelos de negócio. Esse é, a meu ver, o ponto nevrálgico, onde dói mais naqueles que têm poderes e privilégios e não querem reduzi-los”, conclui Manhães.

Conheça mais sobre a a Plataforma para um novo Marco Regulatório das Comunicações no Brasil.

TV Universitária: uma jovem senhora

A TV Universitária brasileira é uma jovem senhora de 40 anos. Mas com corpinho de 14.

Seu ar jovial é graças às suas próprias características de adolescente – ainda indefinida quanto a sua personalidade, mezzo rebelde/obediente e independente/dependente. Mas também porque, para boa parte das pessoas, ela nasceu em 1995, com a Lei do Cabo. Poucos sabem que a verdadeira data de nascimento é de quatro décadas atrás, com o surgimento da ainda muito ativa TV Universitária de Recife.

Seus 40 anos, inclusive, foi menos comemorado do que merecia. Uma parte, imagino, pelo recato natural da senhora que não a deixa falar muito de si. Outra porque também se esconde em uma timidez construída por um ambiente onde as primas ricas, as TVs comerciais, são o destaque hegemônico da família.

O problema é que falamos muito pouco de nós mesmos. Como retraídos nerds, ficamos recolhidos em nossos pequenos estúdios e ilhas de edição, produzindo, produzindo, produzindo, na vã esperança que o mundo olhará para nós com um ar de orgulho e compreensão. Vá lá, nem precisa ser o mundo. O(A) Reitor(a) já estaria de bom tamanho!

Bem, é dura a realidade, mas geralmente o(a) Reitor(a) – e boa parte da comunidade acadêmica – tem mais o que fazer. Neste momento, algum outro setor da IES está batendo à porta solicitando que o seu pedido passe para a parte de cima da pilha de prioridades. E a nossa solicitação da compra de uma nova câmera afunda um pouco mais.

Mas também não condenemos assim tão rápido os tímidos guerreiros das TVs Universitárias. Afinal, são os únicos que matam um dragão por dia, mas têm que frequentar as aulas nas noites.

A TV Universitária brasileira é contemporânea de um grupo crescente de jovens adultos. Mesmo com quatro décadas, ainda mora com os pais. Mas não é só culpa sua. É uma relação de co-dependência entre pais e filhos, entre reitorias e suas TVs. Como na patologia, um se apóia no outro nas suas fragilidades, e não em suas forças.

E é filha, muitas vezes, de pais complicados. Ou relapsos, sem dar a atenção devida às potencialidades de sua cria; ou exigentes demais, cobrando da filha o que ela, ainda, não dá conta de fazer, por pura falta de apoio financeiro, estrutural (e emocional, porque não?) dos próprios pais.

Boa parte das reitorias considera suas TVs como mais um castelo feudal dentro da estrutura acadêmica. Algo a ser mantido ou rechaçado conforme a configuração política da reitoria ou do curso de comunicação social. Caso alguém defenda que isso é normal em todos os departamentos de uma universidade, comparo a TV com o departamento jurídico: pode-se mudar o reitor ou o diretor do curso de direito, mas ninguém irá questionar a necessidade da existência do departamento. No máximo muda-se a coordenação, o que é natural e esperado, mas está fora de questão a sua eliminação do organograma. A experiência já nos mostrou que a TV Universitária não conta com esse privilégio.

Não tenho dúvidas para falar da qualidade da produção das televisões universitárias, um sopro de ânimo neste hegemônico mundo televisivo brasileiro comercial, excelente em qualidade técnica mas pobre no resto. Diversidade de conteúdos, fontes, formatos, lugares, produtores. Ideias, ideais, visões de mundo… Tudo que as instituições de ensino se propõem a oferecer em um mundo ideal. E que boa parte das equipes das TVs Universitárias pelo país afora se mata para fazer e veicular.

Um retrato que ainda nos surpreende: a TV Universitária brasileira cresceu 700% desde 1995! Nenhum outro segmento de televisão cresceu tanto. Aliás, desconfio que nenhum país tenha tantas televisões universitárias em seu território. E ainda com um enorme potencial pois, apesar destes números, apenas 6% das IES do país tem sua televisão.

A TV Universitária, assim como a universidade brasileira, é diversa e assim deve ser. Nos orgulhamos dessa diversidade pois é justamente contra a hegemonia que lutamos. Mas é, antes de tudo, uma luta diária para agradar os pais, para que eles fiquem devidamente entusiasmados e, finalmente, o Reitor libere a compra daquela câmera!

Cláudio Márcio Magalhães é professor universitário, presidente da Associação Brasileira de Televisão Universitária.

Encontro Nacional de Blogueiros abre inscrições

Redação – Observatório do Direito à Comunicação

O III Encontro Nacional de Blogueiros pretende mobilizar 500 ativistas, entre os 25 e 27 de maio em Salvador, Bahia. O evento contará com mesas de debates e espaços autogestionados (propostas devem ser apresentadas até 4 de maio). A inscrição para encontro vai até o dia 11 de maio, no valor é de R$ 60,00 para os ciberativistas e de R$ 30,00 para estudantes.

Mais informações: http://www.baraodeitarare.org.br/noticias/abertas-as-inscricoes-para-o-iii-blogprog.html#.T34YYYxYvnY