Grupo português Ongoing fecha a compra do portal iG

O grupo português Ongoing, que edita os jornais "Brasil Econômico" e "O Dia", fechou a compra do portal iG, que pertence à Oi.

A Folha apurou que faltam detalhes para que o negócio seja formalizado em um contrato, que deve ser assinado amanhã. Os valores não foram revelados.

Três grupos chegaram a analisar a compra do iG. Primeiro foi a divisão de internet da RBS, no início deste ano. As conversas não prosperaram por dois motivos: o valor era alto demais e o perfil dos visitantes do portal não se alinhava com a estratégia da RBS na internet.

Após a desistência da RBS, os portugueses seguiram sozinhos até que o banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual, também se apresentou interessado na compra. O valor pedido pela Oi também foi um impeditivo.

A Folha apurou que, embora a proposta dos portugueses contemple um prazo maior para o pagamento, eles aceitaram as cifras pedidas.

Segundo o Ibope, o iG é o quinto maior portal do país em número de visitantes. Em março, foram 23,48 milhões de visitantes únicos.

Está atrás do R7 (da Rede Record), que teve 23,571 milhões de visitantes únicos; do Terra (da Telefônica), com 29,508 milhões de visitantes; da Globo.com (das Organizações Globo), com 29,619 milhões de visitantes e do UOL, empresa controlada pelo Grupo Folha, que edita a Folha, que é líder com 34,324 milhões de visitantes.

Antecedentes

A Oi não tinha pressa em vender seu portal e, por isso, não abriu mão dos valores. A companhia decidiu vender o iG desde que o novo presidente da operadora, Francisco Valim, assumiu o comando, em agosto do ano passado.

Com o desafio de melhorar o desempenho financeiro da companhia e recuperar a capacidade de investimento, Valim tinha a missão delegada pelos controladores da Oi de focar na operação de infraestrutura (acessos à telefonia, internet e TV paga).

Embora estivessem presentes na internet, os controladores da Oi nunca acharam que esse era um negócio do grupo. Por isso, decidiram abrir mão do iG.

A decisão ganhou força especialmente após a aquisição da Brasil Telecom, em janeiro de 2009, que fez explodir o grau de endividamento da Oi a ponto de comprometer seus planos de investimento.

No ano passado, o endividamento da companhia foi reduzido pela metade com a entrada da PT (Portugal Telecom) no bloco de controle, um acordo fechado em julho de 2011.

Com a chegada dos portugueses, o foco passou para os negócios na rede de dados (basicamente internet e TV), algo que, em Portugal, elevou a rentabilidade da PT.

Antes de atuar diretamente no Brasil, o Ongoing tinha presença no país por meio de sociedade em empresas como a Vivo e a própria Portugal Telecom.

4G no Brasil será feito às pressas, dizem analistas

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) definiu ontem (12) as regras para o edital de licitação das frequências para instalação da rede 4G no Brasil. No entanto, as determinações vêm gerando críticas entre as empresas e analistas.

De acordo com as novas regras, os vencedores deverão atender todas as seis cidades que receberão os jogos da Copa das Confederações até abril do ano que vem. Além das sedes e subsedes da Copa do Mundo de 2014 até dezembro de 2013.

As principais operadoras do país afirmam que o curto prazo estabelecido pela Anatel poderá reduzir os custos dos investimentos em outras áreas, incluindo o 3G e não garantirá uma infraestrutura pronta para todos esses eventos.

“A Copa das Confederações será a prova de fogo para as empresas. Será um longo período ainda até assinar o contrato para dar início à implementação da infraestrutura, o que só deve acontecer em outubro se a licitação ocorrer de fato em junho. É preciso pagar tudo antes ao governo e são processos que demoram. São coisas que normalmente demorariam de 12 a 18 meses e o prazo aqui será de 6 meses somente”, afirma Erasmo Rojas, diretor da 4G Americas para America Latina e Caribe.

Outro problema é a falta de compatibilidade dos atuais aparelhos existentes no mercado com a frequência da tecnologia que será utilizada no país por meio da faixa de 2,5 GHz.

Segundo dados da consultoria Teleco, atualmente no Brasil ainda não existe nenhum modelo de celular compatível com esta frequência. Quando considerado dados mundiais, há 94 tipos de aparelhos que funcionariam no país. Além disso, a empresa acredita que existe a possibilidade de não haver uma conectividade 4G efetiva no país durante a Copa de 2014.

“Isso [cobertura 4G na Copa] é mais uma questão de marketing do governo e não fará muita diferença. Para a Copa o problema é muita gente de fora concentrada em um só local, e será preciso aumentar a capacidade de voz e dados. Para isso as operadoras vão ter de implantar recursos como Wi-Fi e HSPA+”, afirma Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco.

Além disso, turistas oriundos dos Estados Unidos não conseguirão utilizar a rede 4G brasileira devido à incompatibilidade com seus aparelhos. Já os europeus terão mais oportunidades para usar nossa rede, mas como ainda a oferta de dispositivos LTE na região é reduzida é capaz de durante a Copa do Mundo não haver muito uso desse tipo de conexão.

Outra reclamação diz respeito à obrigatoriedade das operadoras em investir na faixa de 450 MHz para levar internet banda larga a zona rural. Pelas regras, a Anatel irá primeiro leiloar as faixas de 450 MHz e assim, se não houver interessados, elas serão juntadas ao leilão da faixa de 2,5 GHz e as operadoras que vencerem a licitação da telefonia de 4G deverão cumprir as metas propostas para a zona rural.

“Essa determinação da Anatel segue o mesmo princípio de alguém que vai à uma loja comprar um carro, mas é obrigado a comprar uma bicicleta para fechar o negócio”, diz Rojas.

“O ponto principal ainda não conhecemos, que é o preço mínimo. Se for descontado o 450MHz pode até ficar razoável. Mas do meu ponto de vista não colocaria esse peso no 450MHz, pois qualquer obrigação a mais para as operadoras no fim quem vai pagar a conta é o usuário. Então o ideal para o serviço fluir seria não colocar essa pressa para eventos e o ônus do 450MHz”, completou Tude.

O ideal para o Brasil, segundo os analistas, seria o uso da faixa de 700 MHz para o 4G, pois é a mesma frequência utilizada por diversos países, incluindo os Estados Unidos, e a que oferece a maior amplitude de sinal (especialmente em estradas e lugares fechados). Segundo dados, uma rede 2,5 GHz exigiria até três vezes mais a quantidade de antenas do que uma rede de 700 MHz.

No entanto, a faixa de 700 MHz atualmente é utilizada para a transmissão do sinal de TV analógico e pela previsão do governo a frequência somente será liberada em 2016, quando se encerra o prazo dado para a convergência do sinal para TV digital.

Além disso, os analistas acreditam que a abertura para a entrada de empresas estrangeiras na licitação não trará novas operadoras ao setor. Isto porque o prazo estabelecido pela Anatel é muito curto e será bastante oneroso para ser cumprido, o que não torna o mercado atrativo para empresas que não conhecem o mercado brasileiro.

A definição final dos preços mínimos das outorgas do leilão de 4G ainda depende de avaliação do Tribunal de Contas da União (TCU). Nessa disputa, vencerá quem oferecer a maior outorga ao governo. No caso do leilão de 450 MHz para área rural, o critério será o do menor preço para o usuário.

Determinações

Pelas regras, todas as capitais do Brasil e municípios com mais de 500 mil habitantes terão de receber a nova tecnologia até dezembro de 2014.

As cidades com mais de 200 mil habitantes receberão o 4G até dezembro de 2015 e as com mais de 100 mil habitantes, até dezembro de 2016. Em dezembro de 2017, as demais cidades com até 100 mil habitantes também receberão a tecnologia 4G.

O edital estabelece ainda cotas mínimas de conteúdo nacional nos investimentos em aquisição de bens e produtos pelos operadores.

As cotas aumentarão gradativamente, passando de 60% de 2012 a 2014 para 70% de 2017 a 2022.

Segundo a Anatel, o edital deve ser publicado na semana de 22 de abril. O leilão, por sua vez, deve ocorrer por volta de 11 de junho.

Em torno da polêmica política cultural

Que algo não vai bem nas políticas da cultura é fora de dúvida. Nunca, desde o período Collor, a política oficial na área foi tão contestada, e por tantos lados. Surpreendentes lados, além do mais. Históricos e respeitáveis militantes petistas fazem críticas contundentes, enquanto figuras conhecidas no campo cultural se alinham a encarniçados conservadores na defesa de uma ministra do PT. Tentemos propor o problema de fundo numa perspectiva ampla, ainda que à custa de rodeios necessários.

Fazer política cultural nunca foi fácil. Quando não se tem uma concepção clara das relações entre sociedade, Estado e cultura fica ainda mais difícil. A questão desagradável é: como juntar esses três termos sem fazer violência a nenhum deles? Pior: sem fazer violência à cultura, o elo frágil nessa cadeia? Mas qual intervenção na cultura não lhe faz violência? Eis o grande desafio de qualquer proposta séria de política cultural: mexer com essa coisa imponderável com a leveza sem a qual ela sufoca, junto com a firmeza suficiente para lhe dar força.

Cultura ou é tudo, uma espécie de atmosfera que respiramos nos menores gestos, ou é nada, porque cada vez que tentamos prendê-la numa das formas que assume ela nos escapa sob outra forma. Ou então, aprisionada nas redes administrativas, ela se converte em terreno bem demarcado no interior da produção e circulação simbólica. Essa última condição é que faz brilhar os olhos dos gestores mais apressados. Até porque desse modo ela pode ser definida, classificada e avaliada, mediante o uso de qualificativos: é popular, é nacional e assim por diante, tudo dependendo de quem tenha o poder de "ocupar o espaço" e de impor a sua definição.

Entre a cultura na sua acepção mais genérica possível (segundo a qual é nela que se dá a tradução no registro simbólico da vida humana, convertendo-a em experiências organizadas e peculiares a épocas e lugares) e suas expressões singulares bem mapeadas (a dança x na cidade y) há um enorme espaço, que se oferece às políticas.

A questão da formulação e implementação de políticas na área ganhou importância no Brasil com a criação do Ministério da Cultura em 1985 e assumiu forma constitucional a partir de 1988. Ao reservar-se todo um ministério a essa questão seguia-se um pouco o caso exemplar da França, que, no governo De Gaulle, consoante a vertente napoleônica da orientação republicana, criou em 1959 aquele órgão de difusão mundial da "grandeur" gaulesa. E fez questão de legitimá-lo na figura de um ministro grande intelectual, André Malraux. É verdade que isso se fez sem esquecer a frente interna, na qual viriam a se elaborar políticas inovadoras como a da "animação cultural", cujas repercussões no Brasil merecem atenção.

Entre nós quem fez o papel de Malraux foi Celso Furtado, a quem se deve a concepção básica das leis de incentivo (batizadas na origem com o nome do então presidente Sarney, para depois se converter em Lei Rouanet) e, sobretudo, uma concepção abrangente da cultura como foco de políticas, centrada na ideia de criatividade. Depois disso, a rotina gerencial, mesmo quando competente, passou a se impor, como que dando razão àqueles que viam com reserva a própria criação do ministério.

Em 1984, quando se discutia essa criação, eu argumentava contra ("Cultura é cultura", "Folha de S. Paulo", outubro/1984), em termos que retomo agora. "A política cultural não segue a lógica da cultura – qual seria? -, mas a lógica da influência, do prestígio e do poder. Para isso ela cria suas instituições, seus gestores, seus funcionários, como condição para poder exercer-se. No limite, cria um ministério. A ideia da criação de um Ministério da Cultura não é, portanto, aberrante. Tem sua lógica, mas é uma lógica perversa. Ela repousa numa confusão que tem importância decisiva para entender como essas coisas se dão: aquela que no lugar do que é público coloca aquilo que é oficial. Enfim, aquela pela qual a clássica oposição liberal entre esfera pública e esfera privada fica sufocada nas malhas da esfera oficial, que acaba se identificando com a do aparato estatal".

E concluía: "A cultura, essa entidade fugidia, tende a escapar por entre as malhas grossas das redes coletoras de recursos. Enquanto isso as redes mais finas podem ficar ociosas, dispersas pela sociedade, ou então continuar colhendo, à margem dos organismos e processos oficiais, sua sempre renovada carga simbólica. O risco é que elas fiquem restritas, confinadas em universos privados, talvez à espera dos possantes aspiradores da indústria cultural. O desafio continua o mesmo: articular o processo cultural com outros processos sociais e políticos, não para definir seu campo e suas prioridades oficiais, mas para o converter de fato em coisa pública, pois essa é no fundo a sua vocação. A cultura é entidade multiforme e intrometida e, tendo liberdade, nada lhe escapa. Porém, como ela não existe de maneira fixa e palpável, sua liberdade só se realiza juntamente com todas as outras liberdades. E isso passa, é claro, pelas condições materiais para exerce-las. Portanto, sua plena realização só se dá juntamente com todas as outras, num aprendizado social e político que certamente não passa por nenhum ministério".

De passagem, interrogava se caberia àquele orgão "a regulamentação da concessão de canais de rádio e televisão, que atualmente está na área na qual se cruzam considerações tecnológicas com as de segurança nacional, sob o nome de 'comunicações' (área, de resto, cuja sombra incide fortemente sobre o processo cultural)". Nesse aspecto, convém lembrar que a antes citada França tem atualmente um Ministère de la Culture et de la Communication.

O dado importante, aqui, é que no período recente ocorreram mudanças que permitem pelo menos matizar aquelas reservas. A principal delas, claro, consiste no fortalecimento da sociedade nas suas relações com o Estado, que inclui o uso das novas tecnologias da comunicação. Avanço que se anunciou com força em certo momento e no entanto se revela vulnerável, como demonstra a situação presente na área cultural.

É fácil detectar o momento em que isso ganhou corpo. Foi na gestão Gilberto Gil-Juca Ferreira nos mandatos Lula, quando se adotaram políticas baseadas numa concepção ampla e generosa de cultura, de cunho antropológico, como então se proclamava (em contraste com concepções gerenciais-mercadológicas). Chamou-se a sociedade, criaram-se condições de participação mediante a associação em múltiplas redes, apostou-se no prazo mais longo para o aprendizado cultural, multiplicaram-se as formas de produção e distribuição.

Foi o brusco freio quando não reversão dessa tendência na atual gestão Ana de Hollanda que gerou o mal-estar manifestadoRedaçãoRedação em várias frentes, desde os participantes e produtores culturais atingidos por cancelamentos de projetos em andamento até amplos setores simpáticos a políticas nas quais reconheciam a marca das melhores vertentes democráticas. É por aí que se traça a linha divisória entre críticos e defensores da atual ministra. O que a vertente crítica não tem como aceitar é o retrocesso envolvido numa política tipo "o ministério dos artistas", pois isso equivale em converter o MinC em agência de reconsagração daqueles já consagrados pelo mercado. Ou então a conversão do ministério em agência de policiamento da circulação cultural, em nome da defesa de direitos autorais (com tudo o que isso representa em termos de envolvimento com entidades privadas de organização e conduta nebulosa).

O Ministério da Cultura está aí para ficar, para o bem ou para o mal. (Perguntem a qualquer presidente se é fácil fechar um ministério, salvo pelo seu desdobramento em outros dois.) Houve momentos, recentes, em que ele veio para o bem. Caso persista a orientação que se vem imprimindo a ele na atual gestão, só restará sua face sombria, e os danos serão irreparáveis.

Gabriel Cohn é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

O futuro da concessão da telefonia fixa

A estruturação dos serviços de telecomunicações no Brasil, consolidada a partir da Lei Geral de Telecomunicações – LGT (Lei 9472 de julho de 1997) trouxe para o cidadão um crescimento enorme na oferta dos serviços de telefonia. Primeiro na telefonia fixa que saiu de cerca de 11 milhões de linhas de assinantes para mais de 40 milhões num período relativamente curto de 3 anos.

No momento da reforma do setor, a telefonia móvel celular estava engatinhando e o acesso à internet em banda larga estava restrito às grandes empresas usuárias de serviços de telecomunicações.

Este cenário dos serviços de telefonia móvel celular logo se alterou experimentando taxas de crescimento elevadas e, no final de 2011, atingiu a marca de 242 milhões de linhas de assinantes.

Por outro lado, a telefonia fixa se estabilizou na faixa de 40 milhões de linhas de assinantes, fruto do elevado preço da assinatura básica local, que inacreditavelmente teve esta tarifa aumentada ano a ano e principalmente pela falta de competição neste segmento de telefonia fixa.

Os usuários, apesar dos preços elevadas dos serviços de telefonia móvel celular, preferiram pagar mais e fugir da parcela fixa da assinatura, optando pelos celulares pré-pagos (80% dos terminais móveis estão em planos de serviço pré-pago), onde a alternativa de controle da utilização e do custo parecia ser mais razoável.

Recentemente, após a regulamentação da portabilidade numérica aplicada as telefonia fixa e móvel, e com o crescimento da demanda por acessos à internet em banda larga, a telefonia fixa ganhou uma sobrevida e sofreu um incremento, motivado basicamente pela introdução da competição nestes dois segmentos de serviços. Dados recentes de janeiro de 2012 indicam que foram realizados 17 milhões de pedidos de troca de operadora e que cerca de 36% destes foram de assinantes da telefonia fixa. Neste esforço de sobrevida a telefonia fixa tinha, em 2011, cerda de 43 milhões de terminais de assinantes.

Outro aspecto que deve ser considerado é o elenco de empresas dispostas a prestar este serviço. Excluindo as concessionárias de telefonia fixa local nas suas áreas de concessão, podemos identificar 20 prestadoras de serviços de telefonia e de acesso à internet em banda larga com uma participação representativa no mercado.

A participação total do conjunto de empresas autorizadas a prestar o serviço de telefonia fixa, as conhecidas como entrantes, já atinge 28% deste mercado.

Novas bases

Estamos em 2012 e os contratos de concessão da telefonia fixa se encerram em 2025 e naquele momento novas bases deverão ser ajustadas entre o poder concedente e as empresas interessadas no objeto da concessão deste serviço de telefonia fixa, ou algo que possa substituí-lo.

Não resta dúvida que a tendência da telefonia fixa é de sofrer queda no número de assinantes, assim como em sua receita. Uma hipótese bastante otimista seria a manutenção dos níveis atuais de assinantes, mas com uma participação no mercado das concessionárias de telefonia fixa inferior a atual e possivelmente não superior a 20 milhões de assinantes, com uma concentração em áreas de baixa ou nenhuma competição. Este quadro já estaria considerando uma posição competitiva destas empresas com preços reduzidos e sem a imposição da assinatura básica.

Devemos também considerar que, no período, novas tecnologias estarão disponíveis no mercado e os serviços tradicionais de voz, como a telefonia, serão substituídos por soluções integradas de voz, dados, textos e imagem com preços bem mais acessíveis à população.

Mantido este cenário, as concessões de telefonia fixa estarão gradativamente perdendo o seu valor, uma vez que a perda de mercado e de receita será iminente e as empresas concessionárias continuarão com os compromissos de universalização e de continuidade do serviço.

Certamente este cenário não interessa ao poder concedente e muito menos às empresas que detem esta concessão.

A possível cobertura de custos destas concessionárias por outros serviços como acessos em banda larga, TV por assinatura e o Serviço Móvel Pessoal (celular para voz e acesso à internet) não é algo recomendável e até irregular. Segundo a regulamentação, estamos tratando de serviços em regimes diferenciados de prestação dos serviços. A telefonia fixa no regime público sobre a égide de contratos de concessão, com compromissos de universalização, entre outros, e os demais serviços no regime privado sobre a égide de termos de autorização.

Soma-se a este cenário uma maior intensidade na competição entre os serviços prestados no regime privado, o que tornaria esta hipótese de subsídios cruzados insustentável.

Temos então que identificar o que estas concessionárias de telefonia fixa têm ainda de grande valor. Neste contexto, visualizamos a sua rede de telecomunicações, composta por uma infraestrutura de prédios, instalações, linhas de dutos, torres, postes e cabos de pares e de fibras ópticas e sistemas de multiplexação e transmissão. Estes recursos, além de suportar os serviços de telefonia fixa nas suas áreas de concessão, suportam também os demais serviços prestados no regime privado, como o acesso à internet em banda larga, à telefonia móvel celular e à TV por assinatura. Há ainda o atendimento às redes corporativas dos grandes clientes, que sem dúvida é a peça de maior rentabilidade, pela demanda agregada e a pela otimização periódica dos recursos da rede.

A atenção dada à questão dos bens reversíveis, que retornarão para a União ao final da concessão passa a ser decisiva, visto que os recursos da rede de telecomunicações, alocados efetivamente para o serviço de telefonia fixa, objeto da concessão, serão irrisórios se comparados com os alocados aos demais serviços prestados no regime privado.

Há que se considerar que grande parte dos investimentos realizados pelas concessionárias na sua rede de telecomunicações há muito tempo são destinados aos demais serviços e não à telefonia fixa, o que certamente vai provocar uma discussão sem precedentes com risco de grandes perdas para ambas as partes e em particular para o usuário consumidor.

A verdade é que cada vez mais estes novos serviços de telecomunicações fazem parte do dia a dia do cidadão, das empresas e das diversas organizações, sendo indispensáveis e, portanto, devem ter alguma garantia de sua continuidade. Outro aspecto é que as demandas são crescentes por bandas de comunicação cada vez mais largas, alocadas para os diversos serviços e consumidores, o que faz com que investimentos em redes de telecomunicações de suporte aos serviços também tenham que ter um grande crescimento.

Transformar a concessão

Imaginar que uma empresa privada focada exclusivamente no atendimento ao mercado possa realizar estes investimentos em rede de telecomunicações sem algum compromisso ou mesmo que o governo, a partir de uma empresa estatal, possa arcar com toda esta responsabilidade, me parece que estamos fadados ao insucesso.

Temos então que encontrar um espaço onde os investimentos sejam realizados para garantir o funcionamento seguro e ininterrupto da rede de telecomunicações e a sua demanda de crescimento gerada pelos serviços privados que serão suportados por esta rede.

Um caminho a ser avaliado seria o de transformar as concessões do serviço de telefonia fixa, o STFC (Serviço de Telefonia Fixa Comutada) numa concessão de rede de telecomunicações. A partir desta opção, seria definido o escopo inicial da rede de telecomunicações que estaria sob este regime de concessão, os compromissos de universalização, de continuidade e de expansão da rede de telecomunicações entre outras.

Este caminho se justifica pelas seguintes razões:

O que a União faria com os recursos da rede de telecomunicações devolvidos?
Passaria a operar a rede e os serviços de telecomunicações através de uma empresa estatal? Ou faria um processo licitatório para escolha de novos concessionários de serviços?

Estas são algumas das perguntas que, se respondidas a tempo, podem facilitar um processo de negociações de grande complexidade que giram em torno de uma solução adequada para o futuro das concessões da telefonia fixa no Brasil.

José Roberto de Souza Pinto é engenheiro, mestre em economia e consultor na área de telecomunicações.

A transmissão distribuída: “Meu objetivo é extinguir a televisão”

O BitTorrent Live funciona exatamente ao contrário da forma como funcionavam, até agora, as transmissões ao vivo: quanto mais pessoas estão conectadas a um mesmo serviço, mais veloz pode ser a conexão. Impressionante. Este simples conceito poderia revolucionar várias coisas ao mesmo tempo: “Meu objetivo é extinguir a televisão”, disse Bram Cohen, em fevereiro, um pouco sério e um pouco em tom de brincadeira. Também permitirá realizar transmissões, ao vivo, sem grande infraestrutura. É que mais de 40% da circulação mundial usa o protocolo BitTorrent, que o próprio Cohen inventou, há pouco mais de uma década, quando revolucionou a forma de compartilhar arquivos. Agora, ele vem com um serviço de “transmissão”, em linha, que é conceitualmente fabuloso, num momento em que as águas da circulação de informação na Internet estão “quentes”.

A pressão internacional do FBI e de outras administrações para que se retire de circulação os sítios de downloads diretos, como MegaUpload ou os distribuídos como The Pirate Bay, foi visto como uma vitória das empresas defensoras da “propriedade intelectual”. Porém, como se sabe, entre MegaUpload e The Pirate Bay existe uma diferença estrutural: o sítio criado por Kim Doctom permitia realizar downloads diretos (de um só servidor) e isto agilizava as transmissões em tempo real, sem necessidade de baixar o arquivo previamente. A velocidade era consideravelmente boa, mas, também, era simples o rastreamento da fonte: uma vez descoberto o arquivo era fácil rastreá-lo e pedir que fosse dado baixa. The Pirate Bay, ao contrário, era (é) um buscador de arquivos que estão alojados de forma distribuída, por meio deste protocolo chamado BitTorrent. Os arquivos não estão “dentro” do The Pirate Bay, este só funciona como um índice. Estas fontes estão distribuídas por todo o planeta: uma vez plantada a semente, cada pessoa que se conecta, não somente está baixando o material, mas também compartilhando o material baixado com os demais.

Esta forma de comunicação inventada por Bram Cohen, chamado BitTorrent, é a versão mais difundida do protocolo peer-to-peer, ou par a par ou p2p. Não é novidade para ninguém: BitTorrent foi inicialmente planejado por Cohen no CodeCon, em 2001, e em 2002 juntou um pouco de pornografia grátis, para testar seu programa. Esse protocolo foi desenvolvido, inicialmente, para uma empresa de segurança, que tinha que distribuir seus arquivos de forma criptografada, de maneira tal que não se poderia destruir as cópias de segurança e, ao mesmo tempo, fosse impossível conhecer o conteúdo dos mesmos. Atualmente, BitTorrent tem 150 milhões de usuários ativos, com maior permanência que o Facebook ou YouTube.

Desde seu nascimento, as produtoras de Hollywood e dos selos discográficos pressionam aos provedores de Internet para que desacelerem as comunicações realizadas por meio deste protocolo. Na Argentina, todos os provedores tendem a isso, diminuindo a largura de banda dedicada, afetando o conceito de neutralidade da Internet, onde cada “pacote” de comunicação deveria ser considerado da mesma maneira. O que Bram Cohen apresentou, há algumas semanas, sob o nome de BT Live poderia revolucionar os consumos culturais, por meio da Internet: usa fontes distribuídas, porém, não para “baixar” arquivos, mas para transmitir conteúdo, o que se conhece no inglês como “streaming”. No último dia 20 de janeiro, foi transmitido pela primeira vez, para todo o público, um concerto de Dean Guitars (fabricantes de instrumentos musicais) dentro das conferências de NAMM, cuja fonte não era uma só, mas estava distribuída em dezenas de computadores ao redor do planeta.

Para que este protocolo funcione corretamente, Cohen teve que escrevê-lo praticamente de novo, já que a versão existente de BitTorrent tinha problemas de latência, ou seja, o tempo que demora o envio e recepção dos dados. Segundo a declaração de Bram Cohen, em seu blog oficial, o objetivo de BT Live é “eliminar um problema fundamental dos serviços de transmissão, em tempo real (streaming), na Internet, eliminando a necessidade de ter servidores custosos com a infraestrutura e reduzindo consideravelmente as demoras nas transmissões”. O objetivo do acontecimento era experimentar o protocolo que – segundo Cohen – funcionou, incrivelmente, de maneira estável e precisava ser provado de forma massiva. “O streaming ao vivo, do BitTorrent, trabalha com um modelo de distribuição entre aqueles que estão vendo a transmissão. Ou seja, a arquitetura de peer-to-peer aproveita dos recursos de cada usuário, de cada computador, de cada rede e quanto mais gente se soma a uma transmissão, melhora ainda mais a velocidade da mesma”, disse Cohen. BT Live está testando o protocolo, durante semanas, na página oficial live.bittorrent.com, para o qual é necessário instalar o programa de BitTorrent, e um aplicativo que se baixa de sua web. Talvez, o lado mais fraco de BT Live é que quando há poucas pessoas assistindo, a velocidade é menor. Porém, o espírito do protocolo permite que seja mais fácil exibir uma transmissão “direta” para menos pessoas.

Do ponto de vista tecnológico, a proposta de Bram Cohen bane rupturas: até agora se supunha que para “garantir” uma maior demanda de uma transmissão, seria necessário ter maior infraestrutura. BT Live irá mudar essa lógica (sempre e quando o deixar, os provedores de serviço, e não filtrem o protocolo): quanto maior for a demanda de um serviço, maior será também a velocidade de transmissão. Essa lógica, agora, está pensada para as transmissões ao vivo, porém, não demorará muito para que alguém comece a usá-la na visualização de qualquer tido de conteúdo cultural. O grande desafio de Cohen é fazer a indústria compreender que BT Live não é um inimigo, mas um aliado do investimento. Do ponto de vista filosófico, pretende-se recuperar os pilares de uma Internet livre, distribuída e neutra.

Tradução: Cepat – Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores