TV Digital: rumo ao interior

Quatro anos depois da implementação do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD) e com 47% da população brasileira atendida nos municípios já cobertos, o processo de digitalização da transmissão começa a avançar para as cidades menores e para o interior. Os Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo são os mais adiantados com a TV digital: têm, respectivamente, 69,6% e 70% de cobertura. Esses dados são do Fórum SBTVD, que reúne fabricantes de TV (LG, Panasonic, Philips, Samsung, Semp Toshiba, Sony e H Buster) e de conversores digitais (Elsys, Visiontec e Envision). E o consumidor responde a essa expansão: até dezembro do ano passado, foram vendidos 15 milhões de aparelhos com conversor digital integrado (foram sete milhões em dezembro de 2010).

“São 433 cidades brasileiras, registradas pelo Fórum SBTVD, que têm TV digital”, comenta a coordenadora do módulo de promoção do Fórum SBTVD, Liliana Nakonechnyj. Nos Estados em que a cobertura da TV digital está mais avançada, começa, agora, o processo de interiorização: a expansão do serviço para cidades médias e pequenas. Nesses Estados, as regiões metropolitanas (capital e cidades circunvizinhas) e as grandes cidades já estão praticamente cobertas.

Isso significa o começo, também, do processo de digitalização das retransmissoras (RTV), que passam o sinal das geradoras (cabeças de rede). Ou seja, a TV digital, além da transmissão nacional, inicia o processo de captação e detransmissão local. Mas existem alguns entraves para que ele ocorra com rapidez, aponta a coordenadora do Fórum SBTVD. “Primeiro, o Ministério das Comunicações tem de trabalhar com afinco para liberar as licenças, que são as consignações de canais digitais. E, não menos importante, as empresas precisam de financiamento para trocar os equipamentos (de captação e retransmissão)”, explica.

As retransmissoras apresentam grande dificuldade de obter financiamentos e o Fórum, segundo a coordenadora, tem feito esforços junto ao governo, via BNDES, para conseguir condições melhores de empréstimos. “Mesmo assim, algumas emissoras têm feito a digitalização, seja com recursos próprios ou, em parte, financiada pelo BNDES e fabricantes dos equipamentos”, afirma.

As geradoras detêm pouco mais de 500 canais e, desses, Liliana estima que entre 100 e 200 já estão inteiramente instaladas com equipamentos digitais. Quanto às principais cabeças de rede, ou redes nacionais, todas, exceto a Rede Globo, cuja sede fica no Rio de Janeiro, ficam em São Paulo: SBT, Record, RedeTV e Band. O País conta com pouco mais de 30 redes de TV locais. As outras emissoras são retransmissoras dessas redes. “A interiorização ocorre com mais ou menos rapidez conforme a região. O Brasil é um país extenso e o planejamento (da implantação) da TV digital abrange, apenas, as retransmissoras primárias (5.716 em todo o País)”, diz Liliana. Agora, para avançar com a interiorização, é necessário englobar as secundárias (4.555), aponta a coordenadora. O cronograma do Ministérios das Comunicações prevê que toda substituição do sinal analógico pelo digital será feita até o final de 2016.

Rádio digital pode sair neste semestre

Até o final de maio encerram-se os testes com os dois padrões para a digitalização do rádio que o Brasil deve adotar: o norte-americano In-Band On-Channel (IBOC ou HD Radio) e o europeu Digital Radio Mondiale (DRM). A expectativa da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) e da própria DRM Brasil, fórum que representa a tecnologia, é que maio seja o mês-chave para a escolha do padrão. O Ministério das Comunicações (Minicom) já havia prorrogado o prazo final para o dia 9 deste mês. No entanto, testes remanescentes com o IBOC e um último teste com o DRM+ (versão evolutiva do DRM) em Brasília (DF) atrasaram esse cronograma. O diretor geral da Abert, Luiz Roberto Antonik, trabalha com uma data ideal, entre os dias 19 e 21 de junho, que é quando ocorre o 26º. Congresso Brasileiro de Radiodifusão.

Nessa ocasião, espera-se que o Minicom anuncie os resultados dos testes com ambos os sistemas – IBOC e DRM – e faça uma opção pela tecnologia que digitalizará a transmissão radiofônica no Brasil. Segundo o Minicom, há uma série de emissoras FM e AM em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte que têm conduzido os testes essas tecnologias. A avaliação final, que leva em conta a área de cobertura, as condições de propagação nas diferentes regiões do Brasil, a qualidade do sinal e adequação às regras estabelecidas pelo Sistema Brasileiro de Rádio Digital (SBRD), dará ao Minicom os elementos para a escolha do padrão. “Até o momento, o Minicom não divulgou nenhum relatório sobre os testes com o DRM ou com o IBOC”, diz Antonik, da Abert. Mas, depois de cinco anos, o fato é que o debate sobre o rádio digital evoluiu. “Com o governo Dilma, deslanchou”, admite o diretor da Abert. O rádio é o único meio que ainda não iniciou a migração do sistema analógico para o digital.

O secretário de Serviços de Comunicação Eletrônica do Ministério das Comunicações, Genildo Lins, já afirmou que, ao final dos testes, o Minicom terá um resultado técnico para definição que qual é a melhor tecnologia para, a partir dessa definição, começar a debater sobre a indústria (equipamentos) e relações internacionais (know-how tecnológico e royalties) para definir o modelo a ser adotado. Ou seja, será um processo longo e bastante similar ao que foi feito com o Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), que é um híbrido do padrão japonês ISDB com funcionalidades desenvolvidas pelas universidades brasileiras. O governo brasileiro deve adotar o mesmo princípio para o rádio digital e exigir do padrão escolhido (europeu ou norte-americano) contrapartidas que, muito provavelmente, envolvem transferência de tecnologia e uma espécie de ‘tropicalização’ do sistema.

Governo do DF planeja seminário sobre políticas de comunicação

Redação – Observatório do Direito à Comunicação

A Secretaria de Comunicação Social do Governo do Distrito Federal publicou hoje uma nova portaria designando os membros do Grupo de Trabalho para o 1º Seminário de Comunicação do Distrito Federal. O evento terá como objetivo discutir polítcas públicas de comunicação em uma articulação do governo com a sociedade civil.

O Grupo de Trabalho contará com representantes de diversas secretarias, representantes da Câmara Legislativa e de entidades da sociedade civil. As entidades foram indicadas pelo próprio movimento pela democratização da comunicação do DF e conta com a participação do Sindicato dos Jornalistas, Intervozes, Frente Nacional pela Valorização das TVs do Campo Público, Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária, Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações, Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, Movimento Negro Unificado, Sindicato dos Radialistas, Laboratório de Políticas de Comunicação da UnB e a Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social – Enecos.

O governo já tinha publicado um decreto em março estabelecendo a data do Seminário para 22 e 23 de junho de 2012.

‘Sem os meios de comunicação não haveria debate democrático’

Chamado de "pai" ou "arquiteto" das constituições da Venezuela, do Equador e da Bolívia, onde trabalhou como consultor nos últimos anos, o professor de Direito Constitucional da Universidade de Valência, Roberto Viciano Pastor, de 49 anos, não perdeu a calma diante da plateia que insistia nas perguntas sobre as ameaças à liberdade de imprensa e de expressão naqueles países. "Já estava preparado", comentou, depois do debate na Reunião de Meio de Ano da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).

Em entrevista ao Estado, Viciano defendeu a tese de que o trabalho dos meios de comunicação é um serviço público. "Como é serviço público a distribuição de eletricidade ou de água, o que não quer dizer ingerência ou abuso de controle do poder público", afirmou. Reconheceu, no entanto, não saber que critérios definiriam uma boa ou má prestação do serviço. "Ainda estamos na primeira parte do debate. Não demos o salto porque não há consenso", justificou.

Os trabalhos de consultoria para países da América Latina são feitos pelo professor e sua equipe do Centro de Estudos Políticos e Sociais (CEPS), sem vínculo com a Universidade de Valência e que se define como "uma organização política não partidária dedicada à produção de pensamento crítico e ao trabalho cultural e intelectual para fomentar consensos de esquerda". Admirador da ideologia de direita na juventude, Viciano hoje se define como partidário do "socialismo democrático".

Estadão – Qual foi seu papel na elaboração das constituições de Bolívia, Equador e Venezuela? O senhor trabalhou diretamente com os governos?

Roberto Viciano Pastor – Faço parte de uma equipe de professores espanhóis interessados no constitucionalismo latino-americano e, quando éramos muito jovens e não tínhamos capacidade de fazer assessoria, seguíamos à distancia. Estudamos os processos democráticos de América Latina desde 1991. Em 1998, no Equador, trabalhamos com a Assembleia Constituinte, em um programa de cooperação internacional do governo espanhol. Não trabalhamos com o governo. Na Venezuela fizemos um convênio com a Assembleia Constituinte também, em um contrato com a Procuradoria Geral da República. No caso boliviano, foi um programa próprio que fizemos com nossos fundos. Nunca trabalhamos diretamente com os governos.

O senhor dialoga com frequência com os presidentes Evo Morales, Rafael Correa e Hugo Chávez? Trocam ideias, têm proximidade?

Conheci presidentes da Venezuela, da Bolívia, do Equador e de outros países da América Latina, da Argentina, do Chile. Em razão do meu trabalho tenho relação com muitos presidentes da América Latina, mas esporádica.

Não discutiu com eles as questões da Constituição?

Não, nosso trabalho foi com os parlamentos eleitos para discutir a fazer as constituições.

Existe uma grande discussão sobre a tese de que o trabalho dos meios de comunicação é um serviço público. O senhor levou esta ideia para os países onde trabalhou?

Este tema não se discutiu nas constituintes, não está contemplado nas constituições. O que está nos textos constitucionais se refere à questão das concessões de telecomunicações, o que é normal. Não se fala na comunicação em si.

Mas esta é a ideia que o senhor defende, que os meios de comunicação prestam um serviço público?

Óbvio. Eles servem para que haja um debate político no país. Sem os meios de comunicação não haveria debate democrático.

Esta tese não deixa os meios de comunicação submissos aos governos?

Não, o fato de ser um serviço público não significa que tenha ingerência ou controle abusivo do poder público. Um serviço público pode ser de eletricidade, e não quer dizer que o governo vai dizer como se produz eletricidade. Mas se uma companhia não presta adequadamente o serviço público, terá que ser tomada uma medida porque está causando uma disfunção no funcionamento da sociedade.

Mas no caso da eletricidade se sabe exatamente o que é não prestar um serviço adequado. O que seria não prestar um serviço adequado no caso dos meios de comunicação?

Não sei. Estamos na primeira parte do debate: é ou não é um serviço público? Se é, até onde tem que haver uma intervenção do poder público para garantir o serviço público? O que tem que ser garantido e o que seria um abuso dos poderes públicos frente os que realizam o serviço, seja no setor privado ou público? Ainda não demos o salto, porque não há consenso de social que seja um serviço público. Quando se assumir que é um serviço público, veremos como funciona, como sempre se fez no Direito. Primeiro se decidiu que a distribuição de água é um serviço público e depois se pensou o marco jurídico que rege este serviço. O papel dos meios de comunicação em sociedades democráticas não está em discussão só na América Latina, mas na Espanha, na França, na Itália, na Alemanha. O tribunal constitucional espanhol disse que é um instrumento fundamental para a comunicação pública. Se é assim, pode-se deduzir que se está prestando um serviço público, o que não é nada negativo. Como o serviço público de água.

Se a água não chega às casas das pessoas, está claro que há um problema. No caso da informação, é uma avaliação mais subjetiva. Como avaliar a prestação do serviço?

Sim, se a água não chega as pessoas morrem por não beber, é muito mais grave falhar o serviço público de água. Mas dizer que é um serviço público não quer dizer que é restritivo nem anulador da liberdade. Apenas que é necessário para o funcionamento da sociedade e, se é necessário, qual o marco regulatório necessário? Sobre isso não tenho opinião formada. Mesmo no serviço de água, não se quer a eliminação do setor privado.

Informes de países como Argentina, Equador e Venezuela apresentados ontem na SIP dizem que os governos tratam os críticos como inimigos o traidores. O que pensa sobre isso? Os presidentes precisam ter essa atitude para manter sua autoridade?

Acredito que em toda sociedade democrática é necessária a crítica e o contraste de opiniões. Não se pode estabelecer uma dinâmica de amigos ou inimigos, me parece incorreto.

Politicamente, o senhor acredita que os governos Chávez, Morales e Correa estão no caminho certo?

Eu falei aqui das constituições dos países, não da ação política dos governos. É difícil um governo todo bom ou todo mal. Precisaria de uma análise ponto a ponto.

Outra crítica é a concentração de poder do Executivo nesses países, com o Legislativo e o Judiciário submisso ao governo. O senhor concorda com este modelo?

Temos uma crise mundial da definição dos Poderes. A cidadania tem a sensação de que não há equilíbrio. Acho que vocês creem que algumas coisas só acontecem na América Latina, mas acontecem no resto do mundo. O movimento dos indignados na Espanha diz exatamente que não há equilíbrio de Poderes e que o partido que ganha se coloca em uma posição demasiadamente hegemônica. Quando fizeram uma pesquisa na Espanha de insatisfação como o modelo político, as pessoas falaram que não há suficiente separação de Poderes. É um debate no mundo inteiro.

Mas em países como Espanha, França ou Itália não há um debate sobre ameaças à liberdade de imprensa e de expressão como há em muitos países da América Latina, certo?

Na Europa há um debate muito forte sobre o papel dos meios de comunicação, que não estão transmitindo o debate político ou o estão fazendo de acordo com seus interesses políticos. Muitos cidadãos na Europa questionam por que os meios de comunicação não criticam tao fortemente as políticas de cortes na área social. Acreditam que os meios não estão em sintonia com a população, que está reagindo.

É verdade que o senhor, quando jovem, militou em um grupo da direita católica e depois se tornou marxista?

Quando eu era muito jovem, dos 16 aos 18 anos eu tinha uma ideologia mais de direita, mas não militei em organizações. Não tinha identidade com nenhum modelo político concreto. Depois, houve uma evolução para posições democráticas, mas não sou comunista, como dizem alguns meios de comunicação. Tive que entrar com uma ação judicial contra um jornal para retificar porque dizia que eu pertencia um partido, o que não era verdade absolutamente. Mandei uma carta, não corrigiram. Só quando fui à Justiça. Acho que posso enquadrar-me no socialismo democrático.

Venezuela, Bolívia e Equador não teriam um caminho mais democrático de mudança que não concentrasse tanto poder nos governos?

Eu ou qualquer pessoa pode ter opiniões favoráveis ou desfavoráveis de algumas políticas, mas não se pode dizer que não são países democráticos. Existem eleições, liberdade de imprensa, liberdade de partidos políticos, de manifestação. Ninguém pode dizer que não são democráticos.

Mas muitos jornalistas nos informes à SIP relatam grandes dificuldades de acesso a informações públicas. Não é uma restrição à liberdade de imprensa?

Sou militante ativo e partidário do pleno acesso à informação, porque é do interesse do cidadão. Qualquer mecanismo de limitação me parece negativo em uma sociedade democrática.

Por que o senhor defende que a Bolívia tenha um sistema unicameral?

Sou a favor do sistema unicameral em algumas situações. Na Espanha, por exemplo, porque o Senado não tem muito sentido. Muita gente pensa que é um gasto inútil. Tem que pensar as ideias para cada país. Estados federais, como o Brasil ou os Estados Unidos, sim, devem ser bicamerais. Na Bolívia, acho que não era necessário um sistema bicameral porque não é um Estado federal. Quando me perguntaram, eu disse o que acredito que me parece melhor. Mas não houve mudança.

Anatel arrecada apenas 4% das multas que aplica, diz TCU

Dentre todas as agências reguladoras a Anatel é a aquela que arrecada o menor percentual das multas aplicadas. A constatação foi feita pelo secretário de fiscalização de desestatização do Tribual de Contas da União (TCU), Maurício de Albuquerque Wanderley, em audiência na Comissão de Ciência e Tecnologia (CCT) da Câmara dos Deputados.

Entre os anos de 2008 a 2010, a Anatel aplicou R$ 5,8 bilhões em multas, mas o que entrou de fato nos seus cofres foi apenas 4% disso, cerca de R$ 250 milhões. As multas que não foram recolhidas estão sendo discutidas ou foram perdoadas. Segundo o secretário, a Anatel deve encontrar formas alternativas de garantir o cumprimento das suas determinações. "O mecanismo de multas a gente vê que não é eficaz.

A Anatel deveria lançar mão de outras medidas, como a suspensão de venda de serviço", afirma ele. A apresentação do técnico do TCU gerou protestos de parlarmentares que inclusive ameaçaram convocar uma CPI para investigar a Anatel. "Essa questão das multas é muito séria e vale uma CPI dentro dessa Casa. Não se sabe o que foi perdoado e o que está sendo discutido na Justiça. Sendo assim, fonte de grandes suspeitas", disse o deputado Arolde de Oliveira (PSDB/RJ). O baixo índice de arrecadação das multas aplicadas pela Anatel surpreendeu também o presidente da CCT, deputado Eduardo Azeredo (PSDB/MG). "Apenas 4,3% de pagamento é um número que espanta".