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A imprensa no papel vai acabar?

A circulação dos maiores jornais americanos continua a cair. Os dados do fim de agosto apontam para um futuro difícil. Os únicos que registraram crescimento foram o USA Today, que de tão simplista é quase um infográfico de várias páginas, e o Wall Street Journal, que teve suas vendas puxadas por leitores que queriam saber se Rupert Murdoch destruiria as virtudes do jornal depois da compra da publicação em julho de 2007.

Outros jornais importantes, como o New York Times e o Washington Post, sofreram quedas na circulação, mas a situação é ainda pior para os jornais locais. O Dallas Morning News perdeu 10,6% dos leitores e o Atlanta Journal-Constitution, 8,5%.

Esse cenário reforça a tese dos que defendem que o único caminho possível para a imprensa é migrar para a internet. É de se notar que a migração é tida como forçada, como uma medida extrema e desagradável. Contudo, não é o que mostra o Capital Times, de Madison, Wisconsin.

A última edição impressa do jornal saiu em 25 de abril e a transição foi explicada aos leitores no editorial “O novo velho Capital Times”. Paul Fanlund, editor da publicação, escreveu que a idéia era “assegurar que Madison, o condado de Dane e o Wisconsin tivessem uma voz independente para a paz, a justiça econômica e social e que se a verdade ao poder todo dia”.

Mais adiante, Fanlund sustentou que o fundador do jornal “nos diria para ficarmos despreocupados com o formato do Capital Times e nos concentrar no conteúdo e no caráter da nossa mensagem. E, como sempre, (ele) teria razão. Continuaremos a dar ao povo a verdade e a liberdade para discuti-la, e tudo vai dar certo”.

Alguns podem achar o otimismo de Fanlund um pouco exagerado, mas é importante que alguém da chamada imprensa tradicional demonstre uma reação além do simples pânico quando confrontado com a “ameaça da internet”. A circulação do Capital Times teve seu auge nos anos 60, quando atingiu 40 mil leitores. Antes do fechamento, a tiragem era de 18 mil.

A decisão de acabar com a edição impressa tem o potencial de ampliar o número de leitores e também dinamizar o conteúdo editorial. O Capital Times tem como forte a cobertura do noticiário local de Madison e a nova edição on-line deve reforçar essa imagem, coisa que os grandes jornais de cobertura nacional e os portais não têm. É o que argumentou o professor de jornalismo James Baughman, da Universidade de Wisconsin, ao New York Times. “Se existe essa janela de oportunidade para os jornais na internet, ela é a cobertura local. A versão on-line do Capital Times deve dar certo por isso.”

Baugham faz um paralelo interessante ao dizer que os jornais com edições vespertinas eram a internet da época, ao publicar os resultados atualizados dos jogos de beisebol ou os valores da Bolsa. Eram mais lucrativos do que seus competidores matutinos exatamente por isso.

É essa a oportunidade que a internet oferece e a transição do papel para a tela, se bem-feita, pode ser benéfica e lucrativa. Como escreveu o editor Fanlund no texto de despedida da edição impressa do Capital Times. Para ele, “tudo vai dar certo”.

Jornal não é corte de Justiça

Imprensa não é tribunal. Quando um veículo de comunicação se arvora nessa condição incorre em risco de cometer injustiças sérias, confundir o público e perturbar o andamento da Justiça.

A Folha trilhou este perigoso caminho ao longo da semana ao designar José Aparecido Nunes Pires como "vazador" ou "responsável pelo vazamento" do dossiê sobre gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, antes mesmo de ele ter sido indiciado pelo crime de violação de sigilo funcional.

O "Manual da Redação" deste jornal é claríssimo, no verbete "acusações criminais" (página 155), ao determinar: "Até que seja condenada em definitivo pela Justiça, a pessoa deve ser tratada como suspeita, acusada, ré ou condenada em determinada instância. Esse procedimento visa evitar prejulgamentos e preservar a imagem de personagens do noticiário".

Essa resolução tem sido quase sempre estritamente cumprida desde a primeira edição do "Manual", há quase 25 anos. No passado, nem réus confessos de homicídio foram chamados de assassinos pelo jornal antes do seu julgamento. Desobedecê-la agora é um precedente temerário.

Ao longo da semana, registrei muitas vezes na crítica interna à Redação meu desassossego com o assunto. Requisitei formalmente à Secretaria de Redação que explicasse as razões do procedimento.

A resposta foi que o jornal "tem certeza" de sua apuração. Para mim, essa justificativa não é aceitável. Decisões sobre culpabilidade de acusados de crimes não se tomam com base em "certezas" de indivíduos.

O comportamento do jornal é particularmente incompreensível por ser concomitante com sua posição editorial exemplar no caso da prisão dos acusados pela morte da menina Isabella.

Em 9 de maio, a Folha definiu assim o que chamou de "humilhação" a que foram expostos o pai e a madrasta da garota: "punição cruel e indelével, impingida antes e a despeito do pronunciamento da única fonte legítima para atribuir culpa neste caso, o Tribunal do Júri."

Se o jornal acusa a Justiça de prejulgamento do casal, o que deve fazer em relação à sua própria atitude de resolver, porque tem "certeza" de sua apuração, que José Aparecido Nunes Pires é culpado antes do indiciamento?

Uma tentativa para compreender essa evidente contradição poderia ser supor que haja diferença qualitativa de tratamento para acusados de crimes "violentos" e acusados de crimes "políticos".

Não creio que essa distinção seja cabível. Ao contrário até: crimes cometidos por motivação política deveriam ser tratados de maneira ainda mais cuidadosa pelo jornalismo, devido aos danos institucionais que podem resultar deles e da maneira como a sociedade lida com eles.

As relações entre jornalistas e agentes do Ministério Público e da Polícia Federal em casos que envolvem política são extraordinariamente complexas e freqüentemente deletérias. Vazamentos seletivos de informações têm sido feitos por motivações diversas: da busca da notoriedade à promoção de ideologias, partidos ou grupos corporativos com a conseqüência, às vezes, de vidas e reputações arrasadas injustamente.

Tamanho da torcida vai remunerar futebol na TV paga

Flamengo, Corinthians e São Paulo criaram um enorme impasse para a TV Globo. Unidos, os três clubes decidiram na semana passada assinarem o quanto antes contrato com a Globosat pelos direitos de TV paga (SporTV e pay-per-view) do Campeonato Brasileiro de 2009 a 2011. Simultaneamente, decidiram manter o veto ao contrato pelo mesmo torneio na TV aberta (Globo). Sem a assinatura dos times, a Globo não poderá exibir seus jogos.

Em outras palavras, os clubes que mais têm jogos exibidos na Globo ameaçam boicotar a TV aberta e privilegiar a TV paga.

Por trás disso está, principalmente, uma nova regra, criada pela própria TV Globo (dona da Globosat): a partir de 2009, os clubes serão remunerados pela TV paga conforme a participação de suas torcidas entre os assinantes de pay-per-view. Uma pesquisa será feita entre compradores de pacotes de pay-per-view para determinar o percentual de cada clube.

Como têm maiores torcidas, Flamengo, Corinthians e São Paulo acham que serão mais bem remunerados se seus jogos forem apenas exibidos pela TV paga. Se mantiverem as bases atuais, em que praticamente a metade de suas partidas são transmitidas pela TV aberta, esses clubes, em tese, serão prejudicados, pois seus torcedores não se sentem estimulados a comprar pay-per-view.

Na verdade, os três times querem apenas aumentar suas receitas com TV, e não boicotar a Globo. Atualmente, toda a arrecadação com direitos de TV é rateada pelo Clube dos 13 entre seus sócios. Flamengo e Corinthians, por exemplo, recebem cada um aproximadamente 7% do total. Como têm mais jogos transmitidos pela TV aberta, acham o critério injusto.

No fundo, os três clubes estão usando a TV Globo para aumentarem suas cotas dentro da entidade que os representa nas negociações. Os cartolas têm em mãos dois grandes trunfos: a separação das negociações de direitos de TV aberta e paga e as recomendações da Secretaria de Direito Econômico, principalmente a que proíbe o direito de preferência à Globo na renovação de contratos.

“É preciso mudar a cultura da Cultura”, afirma Markun

55 anos, jornalista, blogueiro e presidente da Fundação Padre Anchieta; Responsável pelas emissoras públicas de TV e rádio, Markun quer colocar Twitter e até lan house na programação

Ele quer levar o mundo virtual para a tela da TV e vice-versa. Isso inclui estrear um programa que acontece em uma lan house, colocar o "hypado" Twitter em um dos programas de entrevista mais tradicionais da televisão brasileira, chamar para produzir gente que surgiu no YouTube e, claro, desaguar na rede conteúdos específicos para a web.

Desde o ano passado como presidente da Fundação Padre Anchieta, que mantém a TV Cultura e as rádios Cultura AM e FM, o jornalista Paulo Markun está na busca por quebrar barreiras e misturar, cada vez mais, internet, televisão e rádio. "É cada vez mais evidente que nos tornamos produtores de conteúdo, não importa a mídia. Hoje a TV é predominante. Mas quem garante que daqui a dez anos vai continuar? Quem garante que não será uma mistura de tudo: internet, televisão, rádio…?"

Markun diz não ter bola de cristal. Mas na sala de reuniões da Fundação, no bairro da Água Branca, arrisca um palpite, enquanto é maquiado para a foto desta página. "Eu, pessoalmente, acho que a web irá se tornar a mídia mais importante em quatro, cinco anos. Mas isso não significa dizer que os outros meios irão acabar: o cinema não acabou com o teatro; a TV não acabou com o rádio. As mídias sobrevivem e encontram seu caminho."

Enquanto acompanha essa evolução, a ordem na Cultura é experimentar, experimentar e experimentar. "Os novos meios são uma das minhas prioridades", diz ele, que assumiu o cargo em junho de 2007. "A idéia é ficar de olho em tudo o que acontece de novo. Temos de estar preparados". Markun cita com conhecimento sites como Twitter, Joost, OhMyNews, Digg e outros bambambãs que freqüentam as páginas do Link.

Bem informado, hein? Mais ou menos. Ele confessa que o grande responsável por abastecê-lo com informações sobre os bits e bytes é seu filho Pedro, de 22 anos, um consultor informal para assuntos tecnológicos e "habitué" de eventos sobre cultura digital – de BlogCamp e Campus Party à reunião da ONU que discutiu no Rio a internet, em 2007.

"Hoje já não é mais tão assim, também acompanho novidades. Mas o Pedro sempre está um passo adiante", diz Markun. "Minha aproximação com esse universo se deu por causa dele, que está sempre enfurnado no PC. E eu dizendo: "Você nunca vai ser nada na vida, não estuda." No fim, tive de dar a mão à palmatória. O Pedro estava certo e aproveitou muito bem o seu tempo."

Pelas dicas do filho, há cinco anos, o jornalista montou um blog, hoje fora do ar pois "presidente não pode ter blog pessoal". Também se animou a montar um portal de jornalismo colaborativo, o Jornal de Debates (www.jornaldedebates.com.br), onde os internautas opinam sobre os assuntos do dia-a-dia e que hoje é tocado por seu filho.

Todas essas experiências, diz, ele carrega agora para a Fundação. Foi criado um núcleo só para novas mídias. Os sites estão em reforma e já cresceram 11% em audiência entre agosto e abril deste ano. Cerca de 200 entrevistas do Roda Viva devem estar na web em dois meses. E, todos os dias, no jantar, Markun continua batendo aquele papo com o filho para ver o que há de novo. "Aí vemos como aplicar na prática."

Foi daí que nasceu a idéia, por exemplo, de colocar o Twitter no programa Roda Viva. "Três blogueiros transmitem o que acontece no programa." A novidade estreou na semana passada. Foi daí também que nasceu o site Radar Cultura, um projeto que possibilita aos internautas definirem as músicas que serão veiculadas na rádio Cultura AM, por meio de votos.

No menu digital de Markun e equipe, ainda devem figurar conteúdos para celular, um programa de TV gravado em uma grande lan house em que o público leva o próprio PC (numa espécie de mini Campus Party) e uma série com os mesmos criadores do mitológico vídeo Tapa na Pantera, que fez sucesso no YouTube. Ah, e Markun ainda quer colocar todos os funcionários da Fundação (mesmo quem não for apresentador/artista) com um blog no site da Cultura.

"É preciso mudar a cultura da Cultura", diz. "Com os blogs, por exemplo, a idéia é fazer com que os funcionários descubram as possibilidades da rede", diz ele, que deve criar um "blog do presidente". "Vamos experimentar e temos espaço para isso, pois não somos uma rede comercial. As novas mídias permitem acertar e errar gastando muito pouco."

Convergência requer forte regulação, aponta debate em plenária

As aceleradas mudanças tecnológicas na área das comunicações têm aproximado os diferentes serviços e plataformas, fazendo com que hoje uma mesma rede possa transmitir de áudio, dados e imagens. Embora a constatação não seja nova e esteja em todos as discussões sobre a chamada convergência tecnológica, os debates do primeiro dia da plenária do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) realizados na última sexta-feira (16) contribuíram para ressaltar a importância deste novo ambiente ser não apenas um arranjo de mercado mas uma oportunidade de democratizar a comunicação no Brasil.

A questão central sobre o desenho desta nova realidade das comunicações não está nos meios técnicos, mas no desenho institucional de como serão ofertados os serviços e conteúdos.  “A barreira não é mais tecnológica, é regulatória”, defendeu José Fernandes Pauletti, da Associação Brasileira de Concessionários de Serviço Telefônico Fixo Comutado (Abrafix). Exatamente por isso, continuou, a legislação que rege o setor não pode mais caracterizar os serviços pelas tecnologias.

 

Se a opção é política, e não técnica, evidencia-se que as propostas de regulação refletem os interesses em jogo. Partindo dos objetivos de maximizar os lucros das empresas de seu setor, o representante da Abrafix concluiu seu raciocínio defendendo que as normas sejam mais liberalizadas de modo a permitir que as empresas de telecom possam utilizar as redes para obter o retorno do investimento feito na ampliação de sua capacidade.  Um exemplo é a TV a cabo, oferecida hoje para apenas 150 municípios. Este quadro poderia ser ampliado pela oferta deste serviço pela rede de telefonia fixa, presente em 5500 municípios. “Mas a legislação impede”, reclamou Pauletti.

 

Augusto César Gadelha, do Ministério da Ciência e Tecnologia, se aproximou desta posição ao defender que a Internet deveria ter o mínimo de regulação possível pelo seu potencial de possibilitar às pessoas maior acesso à fruição e à produção de conteúdos em áudio, texto e audiovisual. “A Internet está se espalhando pelo mundo inteiro, então quando começa a regular sua flexibilidae e poder de comunicação você mata ela”, afirmou.  

Novo marco regulatório

Na opinião do deputado Jorge Bittar (PT-RJ), hoje a comunicação, “que é um direito fundamental da cidadania”, é vista apenas como bem econômico. Na avaliação do parlamentar e de outros integrantes da mesa, os debates sobre a convergência tecnológica devem superar a dimensão unicamente mercantil do assunto e tratá-la sob a ótica de como as tecnologias podem beneficiar o conjunto da população. Para isso, destacou Bittar, é preciso construir um novo marco regulatório para o setor. “Se este marco regulatório já era insuficiente, imagina depois desta revolução tecnológica”, reforçou a deputada Luiza Erundina.

Durante o painel, duas iniciativas foram apresentadas como possibilidades de democratização da mídia brasileira: a criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e dos canais públicos mantidos por ela, e a tentativa de aprovação de uma nova legislação para a tv por assinatura com o PL 29.   

Tereza Cruvinel, presidente da EBC, apontou a criação da nova empresa como um avanço da gestão atual do Executivo. “A EBC pode contribuir para suprir esta carência de diversidade e pluralidade no sistema de mídia no país. É uma possibilidade que a sociedade tem de agarrar e se apoderar destes canais”, sugeriu. O êxito desta experiência, acrescentou Cruvinel, é fundamental para superar o quadro de concentração de propriedade na mídia brasileira, que impõe conteúdos produzidos de maneira centralizada à população e represa a diversidade cultural existente no país.

A busca desta variedade na produção audiovisual e na oferta de serviços é o que persegue Jorge Bittar na relatoria do PL 29. Visando garantir estes avanços no ambiente convergente, o substitutivo ao projeto escrito por Bittar atualmente em discussão no Congresso tenta introduzir uma nova forma de regulação do setor ao separar o regramento do serviço de televisão por assinatura em duas camadas: a infra-estrutura de distribuição e o conteúdo.

“Precisamos de uma Lei Geral, mas este projeto é um exercício que aponta o que podem ser as referências deste novo marco”, disse. O deputado concluiu alertando que o caso do PL 29 é exemplar para analisar as possibilidades de uma nova legislação de caráter progressista no país, pois a aversão radical das “forças conservadoras” do setor já está se manifestando e pode acabar sabotando a aprovação da matéria.

A saída para “equilibrar o jogo”, segundo a deputada Luiza Erundina, está na realização da Conferência Nacional de Comunicação. “Até hoje não tivemos conferência nacional, onde sociedade e empresários possam debater, serem ouvidos e se posicionar sobre a construção de uma política de comunicação para o Brasil”, defendeu. Para a deputada, não há democracia no país se não houver um fórum amplo e democrático para discutir tema tão sensível como a comunicação, que envolve aspectos culturais e políticos da nação.

A deputada paulista alertou que a realização da Conferência com convocação pelo Executivo depende de muita mobilização da sociedade civil para pressionar o governo.  Para Jorge Bittar, a Conferência só deve acontecer em 2009, uma vez que o calendário está apertado por conta das eleições municipais.