Arquivo da categoria: Notícias

Com ou sem diploma, regulamentação precisa ser revista

A guerra de trincheiras entre os batalhões contra e a favor da obrigatoriedade do diploma de curso superior específico para o exercício da profissão de jornalista deve ser transferida para o campo aberto nos próximos meses. A batalha campal virá independente do resultado do iminente julgamento pelo Supremo Tribunal Federal sobre o mérito de ação que contesta a exigência do diploma. O sim ou não dos ministros do STF poderá apenas estabelecer uma diretriz legal para a rediscussão da regulamentação da profissão de jornalista que se impõe seja por iniciativas de órgãos do governo federal, seja pela inegável reconfiguração do jornalismo em tempos de convergências tecnológicas e reestruturações do mercado de comunicação.

A pendenga jurídica a ser decidida pelo Supremo arrasta-se desde 2001, quando uma ação do Ministério Público Federal contestando a exigência foi julgada procedente pela Justiça Federal. Mas o debate sobre o mérito da questão arrasta-se a quase 40 anos, desde a edição do Decreto-Lei 972 pela Junta Militar que governava o país em 1969 e que regulamentou o exercício profissional do jornalismo. Em todo este longo período, o tema poucas vezes deixou as rodas de conversa entre jornalistas ou os círculos sindical e patronal para ganhar status de debate público. Nestas ocasiões, quase sempre motivadas pelas idas e vindas de ações judiciais contra e a favor do decreto-lei, a discussão tomou ares de fla-flu: ou se apoiava a obrigatoriedade do diploma, ou se pregava a desregulamentação da profissão.

A iminência do julgamento do STF parecia recolocar o debate nestes termos mais uma vez, a despeito de seguidas manifestações públicas de profissionais do campo do jornalismo tentando abrir o debate sobre uma nova regulamentação e mesmo de iniciativas deste porte em outros países. A mudança de rumos na guerra foi iniciada com a criação do Grupo de Trabalho do Ministério do Trabalho para a rever a regulamentação e demarcada de vez com as declarações do ministro da Educação, Fernando Haddad, sobre o assunto. O MEC deve criar uma comissão para rever os currículos e a organização dos cursos de Comunicação Social e o ministro aproveitou para sugerir novos parâmetros para o registro profissional.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) segue defendendo que mesmo uma nova regulamentação tenha como ponto de partida a exigência de formação superior específica. “Nossa posição é reforçar a questão do diploma e incluir a função de assessoria de imprensa como atividade exclusiva de jornalistas, o que ainda não está previsto na regulamentação atual”, diz José Carlos Torves, diretor da federação. A Fenaj tem tratado as discussões dentro do GT do Ministério do Trabalho como uma atualização das regras instituídas em 69.

Proteção ou liberdade

Para a entidade sindical, segue valendo o argumento de que a exigência do diploma dá cobertura aos problemas corporativos da profissão e também o interesse social. “É uma garantia de proteção da profissão e da qualidade da informação. A formação específica dá conta de um compromisso com a informação de qualidade, que é o que é importante para a sociedade”, resume Torves.

“Penso que a reserva de mercado para formandos em cursos de jornalismo é indefensável, não só por conta da fragilidade dos cursos, mas por afrontar a liberdade de opinião – ponto essencial da nossa Constituição”, rebate o sociólogo e professor da Universidade de São Paulo Ricardo Musse. Ele ainda contesta a idéia de que a restrição da corporação possa ser útil à defesa da profissão. “Sou, por princípio contra a ordem corporativa. Não se dignifica uma profissão limitando o rol dos possíveis jornalistas, mas sim por um exame rigoroso.”

A afronta ao direito fundamental da liberdade de expressão lembrada por Musse faz parte da argumentação do Ministério Público na ação original contra o Decreto 972. Para a Fenaj, entretanto, o que está em jogo no STF não é o mérito constitucional da exigência do diploma, mas sim se o Decreto-Lei da Junta Militar foi ou não recepcionado pela ordem jurídica pós-Constituição de 1988. Por esta razão, Torves afirma que a atualização que está sendo feita pelo GT do ministério vai sanar uma possível decisão desfavorável do Supremo. Seria uma substituição de um mecanismo ultrapassado por uma nova lei.

No entanto, os ministros do STF podem decidir avaliar a constitucionalidade da obrigatoriedade da formação específica. Ou seja, há a possibilidade de que o julgamento vire do avesso a pretendida atualização da Fenaj.

Nenhum diploma

Como este cenário tem sido evitado mesmo como possibilidade pela principal promotora do debate, as propostas de regulamentação sem a exigência do diploma de Bacharel em Comunicação Social – Habilitação Jornalismo ganham destaque apenas agora. O jornalista Maurício Tuffani, editor do blog Laudas Críticas, tem sido dos poucos a esboçar diretrizes para uma outra regulamentação da profissão de jornalista.

Na sua opinião, em primeiro lugar, uma nova regulação não pode conflitar com o livre acesso ao exercício do jornalismo, o que contraria a Declaração dos Direitos Humanos e outros pactos internacionais. “É importante também assegurar que, seja qual for a forma de regulamentação a ser estabelecida, um compromisso formal dos profissionais e também das empresas jornalísticas com o código deontológico do jornalismo. Essa é uma exigência não cerceadora do livre acesso”, avalia.

Outra preocupação de Tuffani é com a distinção entre o exercício da profissão na atividade de imprensa e as funções hoje também ocupadas por jornalistas no mundo corporativo e institucional. Para ele, os registros profissionais poderiam ser diferenciados.

Em países como a França e Portugal, onde não há exigência do diploma, considera-se para fins de registro profissional que apenas aqueles que atuam na imprensa, seja em que tipo de mídia for, podem ser considerados jornalistas. No estatuto português, há ressalvas específicas para aqueles que exerçam atividades de tratamento de informação em publicações com intuito “predominantemente promocional” ou “segundo oportunidade comercial ou industrial”. O estatuto ainda diz que não poderão obter o registro profissional quem exercer “funções remuneradas de marketing, relações públicas, assessoria de imprensa e consultoria em comunicação ou imagem, bem como de orientação e execução de estratégias comerciais”.

Vários diplomas

A proposta que parece ganhar mais corpo, entretanto, é da abertura do exercício profissional do jornalismo a toda pessoa com diploma de nível superior, independente da carreira escolhida para os estudos. A primeira defesa pública da medida foi feita pelo ministro Fernando Haddad. Segundo ele, seria possível que o registro profissional fosse concedido a profissionais graduados em qualquer carreira que fizessem um curso de especialização em jornalismo.

Para o professor da USP Ricardo Musse, a exigência do nível superior seria “satisfatória” para atender os requisitos de conhecimento e crítica necessários ao exercício do jornalismo. Porém, o sociólogo acredita que a entrada na profissão poderia ser mediada por um tipo de “exame nacional de admissão à carreira”. “Li a sugestão do Fernando [Haddad], que como ministro valoriza o sistema de ensino, mas não creio que nesse caso a seleção seja rigorosa. Qualquer faculdade de fundo de quintal pode vir a oferecer tais cursos.”

Já o jornalista Lúcio Flávio Pinto, editor do Jornal Pessoal, critica duramente a instituição da obrigatoriedade do diploma específico “Em nenhum outro país com imprensa de respeito há essa exigência”, alfineta. Ele cita como exemplo a famosa dupla que desvendou o escândalo de Watergate: “Carl Bernstein era jornalista formado, enquanto Bob Woodward fora tenente da Marinha – e Woodward se revelaria o mais competente dos dois.”

Porém, entende que há necessidade de pensar como uma outra regulamentação impactaria as relações de trabalho hoje estabelecidas. “Como o jornalismo é, hoje, uma profissão de nível superior, admito que se exija o diploma, mas qualquer diploma, apenas para prevenir rebaixamento de nível e de salário”, comenta.

Debate enviesado

Os anos de embate entre a posição intransigente da Fenaj em relação ao diploma e o que se conformou como uma defesa da desregulamentação, entretanto, deixam marcas no debate que parece se abrir agora de revisão das regras da profissão de jornalista. Lúcio Flávio Pinto enxerga uma briga fratricida entre os jornalistas, com os representantes sindicais acusando quem se opõe à obrigatoriedade da formação específica de “fazer o jogo dos patrões”.

Para Rafael Fortes, jornalista e doutorando em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, estes anos de dicotomia enviesaram inclusive o processo institucional em que se dá o debate atual. “A premissa básica é que a regulamentação tem que ser discutida pelo Congresso. Deixar para o STF decidir é complicado. Precisa haver uma discussão de verdade”, comenta.

Fortes analisou em um artigo os argumentos mobilizados pelos participantes do debate sobre o diploma. “As entidades profissionais defendem apenas o argumento técnico. Por exemplo, o site da Fenaj omitia o primeiro parágrafo da lei de 1969, onde se lia que os ministros militares são responsáveis pela regulamentação.” Segundo ele, um sintoma de que falta dar uma dimensão política à discussão sobre a profissão de jornalista.

Minicom diz ao CGI.br que já está estudando a separação estrutural

Sem fugir ao script previamente anunciado por sua consultoria jurídica, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, escapou de qualquer decisão polêmica sobre o debate envolvendo uma eventual separação estrutural ou funcional no setor de telecomunicações. Em resposta à carta encaminhada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), o ministro explicou, em poucas palavras, que o assunto está inserido em consultas públicas realizadas tanto pelo ministério quanto pela Anatel. E, com isso, a recomendação do CGI para que governo considerasse "os benefícios da adoção da desagregação", já está contemplada nas ações dos últimos meses.

A possibilidade de implementação de um sistema de separação, seja ele estrutural ou funcional, é visto com reticências pelas empresas e por alguns setores do governo. Apesar de não ter tomado uma posição oficial sobre o tema, o ministro das Comunicações teria ressalvas sobre as vantagens do método. No estudo técnico formulado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para a construção do Plano Geral de Regulamentação (PGR) é visível que alguns técnicos da agência também tem dúvidas sobre a eficácia da separação, especialmente a estrutural, ainda não implantada plenamente em nenhum país.

A discussão em torno deste tema ganhou um novo espírito com a carta emitida pela CGI.br recomendando os estudos. Isso porque o órgão representa toda a cadeia de provimento de banda larga no Brasil e o retrato do país no exterior nos debates sobre esta área. Para os entusiastas da separação, a carta foi uma grande iniciativa do comitê, que até então jamais havia feito uma recomendação formal ao Minicom.

Mas, mesmo os defensores não acreditavam que o ministério tomaria alguma decisão mais forte com base na carta, segundo relatos publicados por este noticiário em 1 de setembro. O consultor jurídico do Minicom, Marcelo Bechara, – que também é membro do CGI.br – foi o único a votar contra a emissão da carta exatamente por entender que ela era inócua e que fazer este tipo de recomendação não era função do comitê.

De fato, o Minicom não surpreendeu. Na resposta, o ministro Hélio Costa cita que a pasta fez uma consulta pública onde a separação era um dos itens a ser discutido com a sociedade. Também citou o trabalho da Anatel na formulação do PGR. Neste documento, a realização de estudos sobre a separação consta como uma das ações de longo prazo.

"Nesse diapasão, pode-se concluir que este Ministério, bem como a Anatel, já vêm trabalhando no sentido de considerar a adoção da desagregação das redes, objeto da recomendação em epígrafe, em atenção, pois, a premissas dispostas na Lei Geral de Telecomunicações (LGT – Lei nº 9.472, de 16 de julho de 1997) e no Decreto nº 4.733, de 10 de julho de 2003 (o qual dispõe sobre políticas públicas de telecomunicações)", conclui o ministro.

A idéia de estabelecer algum tipo de separação tem ganhado adeptos. Na última sexta-feira (19), representantes do Ministério Público Federal (MPF) e da Secretaria de Direito Econômico (SDE) apoiaram a execução de uma separação funcional durante reunião do Conselho Consultivo da Anatel sobre as reformas que estão sendo executadas no setor. O ex-conselheiro do Cade e Procurador da Fazenda Nacional, Ricardo Cueva, também defendeu a idéia e lembrou que a imposição de separações já foi usada pelo sistema antitruste como um remédio concorrencial.

Anatel vai mudar normas para cumprir decreto do call center

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deverá adaptar os regulamentos do STFC (telefonia fixa), SMP (celular) e de TV paga ao que reza o Decreto 6.523, de 31 de julho de 2008, que regulamenta os serviços de atendimento ao consumidor dos serviços públicos de energia elétrica, água, telefonia e os serviços de televisão a cabo, bancos, cartões de crédito, aviação civil, ônibus interestaduais e planos de saúde.

Segundo o superintendente de Radiofreqüência e Fiscalização da agência, Edilson Rodrigues dos Santos, alguns pontos do decreto vão além das exigências contidas nos regulamentos da Anatel. Ele acha que a adaptação facilitará a fiscalização dos call centers das operadoras a partir de janeiro de 2009, quando o decreto entra em vigor.

“Naquilo em que o nosso regulamento estiver melhor, prevalece. No que o decreto estiver melhor, nós vamos incorporar ao nosso texto e vamos exigir que as empresas cumpram, de modo que quem vai sair ganhando nisso é o cidadão”, disse Rodrigues. Ele adiantou que a Anatel fará uma fiscalização nos call centers das operadoras este mês e outra em fevereiro, quando o decreto já está em vigor.

Diferenças

O artigo 4º do decreto diz que no primeiro menu eletrônico deve ter as opções de contato com o atendente, de reclamação e de cancelamento de contratos e serviços. No parágrafo primeiro, determina que a opção de contatar o atendimento pessoal constará de todas as subdivisões do menu eletrônico. Nos regulamentos da Anatel, apesar de prever a opção de falar com o atendente a qualquer tempo, não trata especificamente de cancelamento e reclamação.

Os regulamentos da Anatel (STFC, SMP e TV paga) não prevêem o atendimento preferencial a pessoas com deficiência auditiva ou de fala, como prevê o artigo 6º do decreto. Também as normas da agência não citam a impossibilidade de mais de uma transferência em uma única ligação. Pelo decreto, somente será possível uma transferência, em até 60 segundos e com acesso ao histórico da ligação, para evitar que o consumidor repita o que já falou.

Boechat, Miro Teixeira, Kfouri e Bucci comentam pesquisa da Fenaj

Com mais de 50 comentários no Comunique-se, a matéria desta terça (24) “Brasileiros defendem diploma para jornalistas” chamou a atenção da comunidade do Portal. Para saber o que pensam profissionais ligados diretamente ao tema, convidamos Ricardo Boechat, o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), Juca Kfouri e Eugênio Bucci para falar sobre a pesquisa da Fenaj/Sensus.

A pesquisa, com 2 mil entrevistados em todo o País, retratou que os brasileiros são favoráveis à obrigatoriedade do diploma e à criação de um Conselho Federal de jornalismo. Quando se questionou sobre a credibilidade das notícias veiculadas, a população, no entanto, foi comedida. Menos da metade acredita no que é publicado, no que escuta ou no que vê.

Ricardo Boechat, da Band, não completou o 2º grau. “Fui trabalhar, cuidar da vida”, conta. Para Boechat, o diploma não deveria ser um “dado impeditivo”. “Não entendo que ao jornalismo tenha que se impor um pretenso conteúdo específico”, disse o jornalista.

O também radialista da BandNews FM argumenta que a faculdade seria interessante do ponto de vista humano. “Para a cidadania, a discussão, o debate”, afirmou.

O jornalista não se surpreendeu com mais da metade dos entrevistados não acreditar piamente nas matérias publicadas. “Prefiro uma opinião pública que desconfia do que confia”, disse. Boechat acredita que o jornalismo está na média nacional de credibilidade de outras instituições públicas, como o Poder Judiciário e o Parlamento. “Não merecemos mais do que isso, não”, finalizou.

Juca

Colunista da Folha, e apresentador da CBN e da ESPN, Juca Kfouri pondera a declaração de Boechat. “Eu sou a favor do diploma, mas contra a obrigatoriedade”. Para o jornalista, todo e qualquer profissional que tivesse ensino superior poderia atuar na profissão.

Kfouri é contra, também, à instauração de um Conselho Federal de jornalismo, como prevê o projeto do deputado Celso Russomano (PP-SP). “A regulamentação da profissão de jornalista deve ser feita pela sociedade civil, sem ingerência do governo”, disse.

Mas ele, diferentemente de Boechat, se surpreendeu com os dados de credibilidade. Para ele, a falta dela atribuída à imprensa se dá pelos “garotos-propaganda”. “Há muitos jornalistas que vendem produtos e não só no jornalismo esportivo”, comentou.

Bucci

O jornalista Eugênio Bucci diz que a questão do diploma é “secundária”. Mas ressalva que, com a profissionalização do jornalismo, o “padrão da profissão elevou-se”.

Para ele, o índice de credibilidade em 42,7% por parte da população é elevado. “É uma boa notícia”, disse.

Miro Teixeira

O deputado e jornalista Miro Teixeira é voz dissonante. Acredita que o diploma deva ser obrigatório. “O direito da informação é o direto da população a uma informação qualificada”, disse. Para ele, “a evolução dos conceitos remete a um aperfeiçoamento da mão-de-obra”, que incluiria a realização de uma faculdade. Mas Miro Teixeira faz uma ressalva: colunistas e comentaristas não precisariam ter o diploma. “Você vê, é o máximo o Oscar falando de basquete, por exemplo”, ressaltou.

Assim como Bucci, Miro Teixeira se diz admirado com o resultado da pesquisa no quesito credibilidade. “O número é surpreendentemente alto quando se faz uma pergunta seca à população, no tratamento genérico dado à imprensa, sem se especificar rádio, TV, jornal ou internet”.

Sobre a criação de um Conselho Federal, o deputado é contra. “Sou contra a qualquer forma de controle da atividade”, disse. E citou Maquiavel: “Quem regulamenta protege os próprios interesses”, afirmou Miro Teixeira.

Regulamentação da Anatel pode inviabilizar projetos atuais com PLC

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) promete decidir até novembro sobre a regulamentação do acesso em banda larga utilizando a rede de energia elétrica. Quem afirma é o gerente Operacional de Planejamento de Espectro da agência, Marco Antônio Tavares. Ele participou, na semana passada, do seminário de telecomunicações Aptel 2008, realizado no Rio de Janeiro, pela Associação Brasileira das Entidades Municipais de Tecnologia da Informação e Comunicação (Abemtic).

Tavares afirmou que a agência trabalha com a expectativa de finalizar o processo regulatório antes do recesso de fim de ano. A Consulta Pública nº 38 ("Proposta de Regulamento sobre Sistema de Acesso em Banda Larga utilizando Rede de Energia Elétrica") já recebeu mais de 200 contribuições e permanecerá aberta até o dia 29 de setembro.

A regulamentação gera grande expectativa para aqueles que já investiram na tecnologia PLC (Power Line Communication). Cirano Iochpe, coordenador do projeto que, há um ano e meio, leva acesso à internet ao bairro Restinga, na periferia de Porto Alegre (RS), revela preocupação com a possibilidade de ter de zerar a iniciativa.

Isso porque, diz Iochpe, os equipamentos instalados na área eram, à época, os únicos homologados pela agência reguladora. No entanto, agora, se a regulamentação for aprovada nos termos atuais, diz o executivo, eles não poderão ser mais utilizados – por causa da freqüência prevista pela Anatel para o uso da tecnologia.

Atualmente o PLC funciona em quatro prédios do bairro: o posto de saúde (com aplicações de telemedicina), o Serviço Nacional da Indústria (Senai), a escola pública e o centro administrativo. A implantação do PLC foi uma alternativa de capilarizar o projeto da Infovia, rede multisserviços com 360 quilômetros de fibra óptica desenvolvida na capital gaúcha pela Procempa, empresa pública de tecnologia do município.

O gerente de Operações da Infovia, Lafaiete dos Santos, ressalta que o uso do PLC está sendo maturado neste projeto piloto. "Os equipamentos ainda não estão disponíveis na velocidade e na inteligência que suportariam nossas redes. Agora, a regulação pode mudar isso tudo. Nós estamos aprendendo, por isso a Procempa usa a tecnologia confiável disponível no mercado", sinaliza Santos.

Eletronet: Um sonho dourado

Sobre a possibilidade de aproveitar a estrutura da Eletronet – rede nacional que virou um "elefante branco" para o governo federal, por conta de dívidas milionárias – o gerente da Infovia da Procempa prefere não alimentar grandes esperanças. "É uma novela", lamenta.

"Em Porto Alegre, usamos parte dessa rede, temos um swap de rede com a Eletronet que está operacional. Mas que bom se o Brasil pudesse ter esses 16 mil quilômetros de rede interligando todo mundo de norte a sul. Seria um sonho dourado", completa Santos.

Do Sul para o Nordeste

O Ceará, onde o projeto Cinturão Digital, rede de fibras ópticas do governo do estado em parceria com a companhia estadual de energia elétrica, também acalenta o sonho de que o imbróglio da Eletronet possa vir, um dia, a ser resolvido. Mas Fernando Carvalho, presidente da Empresa de Tecnologia da Informação do Estado do Ceará (Etice), não vê perspectiva imediata de que se possa usar o backbone já existente.

"A idéia é essa, a gente vem acompanhando com a Casa Civil a possibilidade de usar essa estrutura, mas o processo está na Justiça. Seria interessante que isso fosse usado para inclusão social. O canal de retorno para TV digital, por exemplo, é um serviço que precisa ser gratuito, tem de ter abrangência de 100% da população", destacou o presidente da Etice.

O Cinturão Digital cearense é uma rede de 3 mil quilômetros de fibra óptica criada para prover os órgãos do governo do estado de serviços de dados, voz e videoconferência, além de atrair empresas. Todos podem "transitar" por essa infovia desde que ofereçam serviços e paguem a cota de manutenção e expansão.

Nesse ambiente, o governo do Ceará não pretende atuar como competidor das operadoras de telecomunicação. Ao contrário, busca parcerias. "Hoje o ambiente é de monopólio. Apenas uma operadora atua no mercado de banda larga no Ceará. A idéia é proporcionar um ambiente de competição para as empresas. Não passa pela idéia do governo criar uma nova concessionária de telecom", observou Fernando Carvalho.

"Queremos que as empresas da área venham prestar o serviço. Essa infra-estrutura que preparamos faz com que empresas que nunca se interessariam em ir ao município de Tauá possam ir pra lá, com um custo mínimo", completa o presidente da Etice. Mesmo os serviços públicos a serem oferecidos, segundo o executivo, serão contratados. "Não há intenção de competir, absolutamente. Os serviços vão ser contratados com empresas que já estão no mercado", garantiu.

A Anatel propõe na consulta pública – aberta no dia 26 de agosto – que a comunicação a ser estabelecida pelo sistema BPL, confinada nas redes de energia elétrica, somente possa ocorrer na faixa de 1.705 kHz a 50 MHz.

Além disso, os equipamentos que compõem o sistema BPL devem possuir certificação expedida ou aceita pela Anatel, de acordo com a regulamentação vigente, e atender às normas cabíveis, referentes ao sistema elétrico, expedidas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).