Arquivo da categoria: Notícias

Senado Federal vai regular direito de resposta

Uma semana após o Supremo Tribunal Federal (STF) revogar a Lei de Imprensa, o Senado decidiu desengavetar os projetos que regulamentam o direito de resposta nos meios de comunicação. A tarefa está a cargo do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), que planeja apresentar uma nova proposta em 15 dias. Antes de redigir o texto, ele quer fazer uma audiência pública para ouvir juristas e representantes do setor. Relator de dois projetos sobre o assunto na Comissão de Ciência e Tecnologia, Demóstenes diz que é preciso estabelecer critérios que garantam o direito de resposta a quem se julgar ofendido, mas que impeçam o uso do instrumento para intimidar ou punir os jornais.

— É uma questão urgente, porque a decisão do STF deixou um vazio legal. Não vamos fazer uma nova lei punitiva, e sim estabelecer parâmetros que deverão ser seguidos em caso de ofensas — disse.

Desde 2005, tramitam no Senado dois projetos sobre o tema. Um, do líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), obriga os jornais a publicarem a resposta no mesmo espaço dedicado a reportagens contestadas. Outro, do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), aumenta penas de prisão para jornalistas se o juiz concluir que a notícia não estava baseada em “criteriosa investigação” ou que o outro lado não foi ouvido em tempo hábil. Ontem, Crivella disse que mudou de ideia e que vai retirar sua proposta. Diretor de Relações Governamentais da Associação Nacional de Jornais (ANJ), que representa as principais empresas do setor, o advogado Paulo Tonet Camargo disse que é preciso evitar excessos contra as publicações.

— O direito de resposta tem que ser eficaz para reparar a verdade quando ela for falseada.
Mas precisamos impedir abusos — disse.

No fim de março, a ANJ protestou contra decisão do juiz da 4aVara Federal de Belo Horizonte, Ronaldo Santos de Oliveira, de obrigar o jornal “Estado de Minas” a ceder sete páginas para um direito de resposta da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Para a entidade, todas as denúncias estavam baseadas em documentos e relatórios do Tribunal de Contas da União (TCU). A decisão foi cassada em instância superior.

Fenaj é a favor de uma nova legislação O presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sérgio Murillo de Andrade, se opôs à aprovação de regras específicas para o direito de resposta. Ele defende uma nova lei de imprensa, com base num substitutivo apresentado em 1997 pelo ex-deputado Vilmar Rocha (DEM-GO) que está parado na Câmara. O texto prevê a publicação da resposta em até três dias, no caso de jornais diários, com “destaque, dimensões e caracteres tipográficos, no título e no texto, idênticos ao escrito ofensivo”.

— A revogação da lei antiga deixou um poder imenso nas mãos dos juízes de primeira instância, o que pode dar margem a abusos. Mas não faz sentido produzir uma legislação às pressas para dar conta apenas do direito de resposta — afirmou Murillo.

MinC veta “análise subjetiva” na reforma da Lei Rouanet

O Ministério da Cultura (MinC) decidiu reincorporar ao projeto de reforma da Lei Rouanet o artigo que proíbe "apreciação subjetiva quanto ao valor artístico ou cultural" dos projetos submetidos à lei. O artigo consta no texto original, de 1991, e havia sido suprimido no projeto elaborado pela pasta, cuja consulta pública iniciada em 23/4 acaba hoje. A supressão despertou críticas e a suspeita de que pudesse denotar uma suposta intenção do MinC de agir discricionariamente na administração da lei.

É o ministério quem autoriza a obtenção de patrocínio com benefício da lei, após análise dos projetos pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura. Os recursos da Lei Rouanet proveem do Imposto de Renda. O governo federal abre mão de receber parte do imposto devido pelas empresas, que o destinam à produção cultural. Desde 2007, o montante anual movimentado pela lei gira em torno de R$ 1 bilhão.

Regras claras

O secretário-executivo do MinC, Alfredo Manevy, diz que "o fundamental [no projeto de reforma da lei] é a adoção de critérios que eliminam a subjetividade e deixam claras as regras do jogo para todos que concorrem ao recurso público". Manevy afirma que a reintrodução do artigo que veta análise subjetiva foi definida por que "algumas pessoas do setor cultural apontaram isso [a ausência do veto] como insegurança".

Do ponto de vista do MinC, diz ele, "ao definir os critérios [de avaliação dos projetos], a subjetividade é minimizada, mas muitos não consideraram isso suficiente". Em resposta a críticas, o MinC decidiu também incluir no texto parte dos parâmetros que nortearão a análise dos projetos. Os critérios citados em lei serão "nem tão genéricos a ponto de ser uma lacuna nem tão específicos que limitem o manejo da lei", diz Manevy.

Direitos autorais

O MinC admitiu "equívoco na redação" do artigo 49 do projeto de lei, que prevê a "licença compulsória" dos direitos autorais de obras produzidas com a Rouanet. Esse foi um dos pontos mais criticados na consulta pública. Muitos dos comentários a respeito incluíam pareceres de advogados. Da forma como está, o projeto autoriza o governo a usar gratuitamente, para "para fins educacionais", obras que tiverem sido realizadas com recursos da lei um ano e meio após ficarem prontas.

O prazo para utilização gratuita pelo governo sobe para três anos após a conclusão da obra, quando os fins forem "não comerciais e não onerosos". Na alteração que fará desse artigo, o MinC substituirá a expressão "direitos autorais" por "direitos patrimoniais". Para o secretário-executivo da pasta, "a redação [atual] de fato é ruim. Fala em direitos autorais, não patrimoniais". Ele diz que isso "gerou preocupação e havia razão nessa preocupação".

Título original: "MinC veta "análise subjetiva" na Rouanet"

Ministro da justiça responde a reivindicações sobre PL Azeredo

O Projeto de Lei sobre cybercrimes, conhecido como PL Azeredo (89/2003), que estabelece procedimentos e penas para crimes praticados na Internet, continua sob intenso debate. Há quase um ano a sociedade civil vem alertando os diversos deputados e setores do governo sobre o risco que esse projeto representa para a manutenção de uma internet livre, para a democratização do acesso à rede. Parlamentares, de um lado, alertam junto à sociedade civil e,  de outro,  pressionam pela aprovação do projeto. E determinados setores da iniciativa privada apostam suas fichas no PL, como ferramenta para viabilizar a criminalização de usuários que ultrapassem os limites do que consideram razoável.

Em carta, o Ministro da Justiça Tarso Genro manifestou-se publicamente, comprometendo-se com uma redação que não crie limites à inclusão digital, que não privilegie o vigilantismo e afirmou que recebeu com entusiasmo a idéia de uma regulamentação civil da Internet. Agora está se chegando a outro patamar de discussão. É significativa a manifestação do Ministro, que está no epicentro de pressões de todos os lados: da indústria cultural, preocupada com downloads e compartilhamento de arquivos, aos bancos, preocupados com as perdas causadas pelas fraudes dos sistemas.

A sociedade civil, por sua vez, segue alerta, e também pressiona o Ministério, em busca de garantias de que este projeto não colocará em xeque a expansão do acesso, a inclusão digital e a inovação na rede. Com mobilização e propostas de alteração da redação do Projeto de Lei, a sociedade civil está fazendo a sua parte para o governo e parlamentares façam escolhas conscientes e informadas sobre a Lei que regulmentará os crimes na Internet no Brasil.

Veja a carta do Ministro Tarso Genro e, mais abaixo, a escrita por militantes gaúchos, respondida no mesmo documento.

Ao Deputado Paulo Teixeira

E aos companheiros José Tavares, Marcelo Branco, Sady Jacques, Juberlei Bacelo, Celso Woyciechowski,

A aprovação, no Senado Federal, do substitutivo apresentado pelo senador Eduardo Azeredo ao Projeto de lei nº 84, de 1999, que dispõe sobre os crimes cometidos na área de informática, intensificou o debate público sobre o tema. Felizmente, vieram em tempo as críticas da sociedade civil à regulamentação penal da Internet e aos problemas trazidos pelos tipos penais e pelos mecanismos de controle do projeto de lei.

Pela carta que recebi, estamos claramente do mesmo lado na discussão sobre a Internet no Brasil. Ao elaborar uma nova proposta, o Ministério da Justiça estabeleceu como premissa o respeito à democratização da Internet e a necessidade de aprofundar a inclusão digital no país. Somos contrários, evidentemente, ao estabelecimento de quaisquer obstáculos à oferta de acesso por meio de redes abertas e à inclusão digital, ao vigilantismo na Internet e a dificuldades para a fruição de bens intelectuais disseminados pela Internet.

A aprovação do projeto de lei no Senado demonstrou o perigo de uma legislação com esses problemas ser aprovada caso não haja reação forte e decidida dos setores democráticos da sociedade. Estamos a serviço desses setores. Por isso mesmo, a proposta que levamos à discussão foi – e ainda vem sendo – debatida no interior do Poder Executivo, em reuniões coordenadas pela Casa Civil com representantes da sociedade civil e empresas que participam da inclusão digital no Brasil (lan houses e provedores), em São Paulo, em Brasília, no Fórum Social Mundial e, esperamos, nas próximas oportunidades em que possamos contribuir.

O deputado Paulo Teixeira, presente na maior parte dessas ocasiões, testemunhou nosso empenho em corrigir os graves problemas do projeto de lei aprovado no Senado. Para isso, precisamos sim de auxílio para a construção de um texto alternativo ao que hoje parece estar próximo de ser aprovado.

Com a nova proposta, procuramos clarear nossos posicionamentos: garantir que as iniciativas de inclusão digital não arquem com os altos custos de armazenamento de dados informáticos; excluir o dispositivo que obriga os provedores de acesso a informar à autoridade competente denúncia que tenha recebido e que contenha indícios da prática de crime ocorrido no âmbito da rede de computadores sob sua responsabilidade; estabelecer e melhorar o conceito de provedor de acesso; reformular os crimes de acesso indevido a informações em sistemas informatizados e de inserção e difusão de código malicioso, excluindo-se, ainda, diversos tipos penais desnecessários, porque já previstos na legislação vigente. Ressalte-se, também, que procuramos retirar todas as possibilidades de os crimes previstos no PL atingirem direitos de propriedade intelectual.

Estamos convictos de que essas mudanças foram positivas, embora talvez ainda não tenham solucionado todos os problemas do projeto de lei aprovado no Senado. Na última reunião de que participamos, representantes da sociedade civil se prontificaram a apresentar uma nova redação para o substitutivo, inclusive com o aporte de conhecimentos técnicos de que não dispomos. Recebemos com entusiasmo a idéia de uma regulamentação civil da Internet e a oposição pública aos equívocos do projeto de lei, que tem impedido a aprovação impulsiva do projeto hoje na Câmara dos Deputados.

Acreditamos ser possível chegar a um projeto adequado à realidade brasileira, que contenha garantias para que a população não tenha seus hábitos na Internet analisados sem autorização judicial, e que os esforços para disseminar a Internet sejam encorajados cada vez mais. No entanto, é imprescindível que recebamos contribuições dos representantes da sociedade civil, pois só assim poderemos construir uma regulamentação que não reproduza os problemas do projeto de lei aprovado no Senado.

Mantemos nosso compromisso de participar desse debate, liderado pelo deputado Paulo Teixeira. Permanecemos à disposição para auxiliar nas discussões do projeto de lei, no Congresso Nacional ou fora dele. E reafirmamos nosso apoio às alterações que fortaleçam a inclusão digital e que protejam os usuários da Internet de abusos cometidos por quaisquer autoridades.

Tarso Genro

E, aqui, a carta dos militantes do Rio Grande do Sul:

Porto Alegre, 25 de abril de 2009.

Ao Ministro Tarso Genro:

Parcela importante da sociedade civil organizada do Rio Grande do Sul declara-se extremamente preocupada com a possível aprovação da Lei de Controle da Internet, proposta pelo substitutivo do Senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Justamente no momento em que debatemos e lutamos pela radicalização da democracia no país, e nos esforçamos para que não haja descontinuidade eleitoral de nosso Governo democrático popular no plano Federal, surge a ameça de uma lei que representará na prática um “AI-5 Digital”.

A Lei Azeredo irá criminalizar em massa, práticas comuns na Internet; irá tornar mais caros nossos projetos de Inclusão Digital; proibirá as Redes Abertas; piorará a legislação referente à propriedade intelectual; legalizará a delação e o vigilantismo; inviabilizará sites de conteúdo colaborativo; atacará frontalmente a privacidade individual e oferecerá mecanismos digitais para que ressurjam perseguições politicas como houve nos tempos da ditadura. Teremos uma Internet controlada, pior do que em países como Arábia Saudita, Nigéria e China.

Sendo assim, reivindicamos:

* Arquivamento do “substitutivo” organizado dentro do Ministério da Justiça;
* Apoio à não-aprovação do PL Azeredo, especialmente através da supressão dos artigos 285-A, 285-B, 163-A e 22;
* Constituição de uma comissão de membros da sociedade civil organizada, para redação de uma proposta de marco regulatório civil da Internet brasileira;
* Agenda com Vossa Excelência, em regime de urgência, para tratarmos destas iniciativas e suas conseqüências.

Assinam esse documento:

* Setorial de Tecnologia da Informação do Partido dos Trabalhadores do Rio Grande do Sul (Setorial de TI do PT-RS);
* Associação Software Livre.Org (ASL.Org);
* Associação Gaúcha dos Profissionais na Área de Tecnologia da Informação e Comunicação (APTIC-RS);
* Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários);
* Central Única dos Trabalhadores (CUT-RS).

Maiores informações : http://fsfla.org/svnwiki/trad/cibercrimes/alerta-parlamentar.pt

Contatos:
José Tavares (Setorial de TI do PT-RS) – tdaj@uol.com.br – (51) 9251 9103
Marcelo Branco (ASL.Org) – marcelo@softwarelivre.org – (51) 9736 3076
Sady Jacques (APTIC-RS) – sady@via-rs.net – (51) 8213 5999
Juberlei Bacelo (SindBancários POA) – juberlei@sindbancarios.org.br – (51) 9805 2617
Celso Woyciechowski (CUT-RS) – celso@sintaers.com.br – (51) 9967 1278

Título Original: "Projeto de Lei sobre Cybercrimes em debate"

Consulta pública sobre PGMU recebe 185 contribuições

Com 185 contribuições, foi encerrada ontem à noite a consulta pública da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) sobre o regulamento do Plano Geral de Metas de Universalização (PGMU) do Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC) prestado em regime público, aprovado pelo decreto nº 4.769/03 e alterado pelo decreto nº 6.424/08, que possibilitou a troca dos Postos de Serviços de Telecomunicações(PSTs) por backhaul (infraestrutura para banda larga). A maioria das sugestões refere-se aos artigos que tratam do backhaul, no que diz respeito à reversibilidade, obrigação de oferta, tarifação e acompanhamento econômico das metas.

Enquanto as concessionárias do STFC querem que a oferta do excedente da capacidade do backhaul seja tratada como oferta de Exploração Industrial de Linhas Dedicadas(EILD), aprovado pela Resolução nº 402, de 27 de abril de 2005, as autorizadas, inclusive as operadoras móveis e provedores de internet, pretendem garantir que os recursos do backhaul sejam disponibilizados de forma equânime, fomentando a competição.

No artigo 13, que trata da tarifação de conexão a ser empregada pela concessionária na oferta da capacidade de backhaul, a situação se repete: as concessionárias pedem a sua exclusão, uma vez que a questão deve ser tratada como EILD, que já tem regulamentação; as autorizadas sugerem fórmulas para cálculo e definição de prazo para determinação do preço.

O acompanhamento das despesas e das receitas resultantes da implementação também é motivo de polêmica. As concessionárias querem apresentar os levantamentos apenas ao final do prazo de implantação do backhaul, em junho de 2010, enquanto os órgãos de defesa do consumidor querem publicidade total, inclusive com divulgação pela internet.

Nas considerações finais, a Hispamar, empresa de serviço de satélites, argumenta que o backhaul satélite não pode ser revertido à União, mas critica a restrições previstas no regulamento para o uso da tecnologia. Já a Telefônica defende que escopo do regulamento deve ser restrito à troca de obrigações de PST, instrumento utilizado para viabilizar o atendimento, com infraestrutura de suporte à banda larga, a regiões que não possuíam tal capacidade, pois não apresentavam viabilidade econômica para o investimento puramente privado. “Consequentemente, não há que se falar em qualquer relação entre as disposições deste regulamento e as infra-estruturas de backhaul já existentes, ou cuja implantação não está diretamente vinculada ao processo de troca de obrigações”, entende a concessionária.

Revogação integral gera polêmica entre entidades

Na última quinta-feira (30), o plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) revogou, por sete votos a quatro, a Lei de Imprensa (52350/1967). A decisão foi resultado da Argüição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 130, apresentada pelo Deputado Federal Miro Teixeira em nome do seu partido, o PDT, que considerava norma inconstitucional por conflitar com o direito fundamental à liberdade de expressão, assegurado no Artigo 5º da Carta Magna de 1988.

Além do relator da proposta, Carlos Ayres Britto, votaram a favor da supressão total da Lei os ministros Eros Grau, Menezes Direito, Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Cezar Peluso e Celso de Mello. Os ministros Marco Aurélio Mello, Ellen Gracie, Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa se posicionaram contrários à revogação integral por considerarem que alguns artigos, como aqueles relativos à compensação pelos abusos cometidos por órgãos de imprensa, deveriam ser mantidos.

Entre os principais argumentos contra a Lei de Imprensa utilizados pelo proponente da ADPF e endossados por parte dos ministros estava o fato da norma ter sido sancionada durante a ditadura militar, ter em sua ementa a regulação da liberdade de manifestação de pensamento e de informação e trazer entre seus artigos o ranço do autoritarismo militar que fechou jornais e prendeu jornalistas.

O STF já havia sinalizado favoravelmente a este entendimento quando, no início de 2008, suspendeu 20 dos 77 artigos da Lei de Imprensa considerados mais autoritários e, portanto, contraditórios com a Constituição Federal. A resolução das questões tratadas pelos artigos interditados passou então a ser disciplinada pelos códigos Civil e Penal.

Críticas à supressão integral

Em outra linha, se posicionou o ministro Joaquim Barbosa, que destoou da maioria do plenário da Corte pelas críticas ao conflito de liberdades e à concentração dos meios de comunicação. Enquanto a maioria dos magistrados questionou as restrições legais à liberdade de imprensa, Barbosa ponderou sobre o conflito entre o direito à liberdade irrestrita da imprensa e o direito à intimidade do cidadão comum, por exemplo.

Segundo matéria sobre o julgamento publicada no site do STF, “Joaquim Barbosa defendeu que não basta ter uma imprensa livre, mas é preciso que seja diversa e plural, de modo a oferecer os mais variados canais de expressão de idéias e pensamentos. Ele criticou a atuação de grupos hegemônicos de comunicação que, em alguns estados, dominam quase inteiramente a paisagem audiovisual e o mercado público de idéias e informações, com fins políticos. De acordo com ele, a diversidade da imprensa deve ser plena a ponto de impedir a concentração de mídia que, em seu entender, é algo extremamente nocivo para a democracia.”

A posição de crítica à revogação integral defendida por Barbosa é partilhada por vários críticos da Lei de Imprensa. O jornalista Alberto Dines, apresentador do programa Observatório da Imprensa e um dos principais opositores da referida norma, é contra deixar um vácuo legal para a regulação das atividades da imprensa.

“Havia alguns artigos que deveriam ser expurgados. Mas havia alguns que, na falta de outra coisa, teriam que ser mantidos, e isso quem diz não sou eu, mas grandes juristas como o Miguel Reale Jr. Um novo estatuto deveria ter sido feito antes. Mas preferiu-se deixar esse vácuo por uma questão simbólica. A grande imprensa brasileira queria acabar com o nome [Lei de Imprensa] para que a imprensa seja desregulada”, avalia Dines.

A mesma avaliação é compartilhada pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ). “Obviamente éramos contra essa Lei de Imprensa dos tempos da ditadura militar, mas também não somos partidários de ficarmos sem nenhuma lei. Queremos agora que o congresso trabalhe para aprovação de uma nova lei”, argumenta José Carlos Torves, Diretor da Federação.

Empresariado questiona vácuo

A presidente da Associação Brasileira de Jornais (ANJ), Judith Brito, publicou na página eletrônica da entidade, antes mesmo da votação da ADPF, um artigo no qual externa a posição da associação. Judith Brito alerta para a importância de relacionar a evolução da sociedade à plena liberdade para o debate, a troca de opiniões e para a divulgação de informações. “Essa Lei de Imprensa é tão absurdamente fora do contexto democrático brasileiro que mal vinha sendo aplicada pelo Poder Judiciário. Mas é preciso jogá-la de vez na lata de lixo da história.”

Porém, a presidente da ANJ não defende um vácuo legal para a imprensa. No citado artigom ela considera ser “óbvio que eventuais erros cometidos no jornalismo têm que ser punidos. Para isso, deve haver legislação que preveja direito de resposta e penas contra calúnia e difamação dentro de critérios objetivos e equilibrados.” E explica: “uma legislação mínima, que garanta os direitos individuais diante do direito maior da sociedade à liberdade de expressão, mas que nunca possa significar intimidação contra essa liberdade.”

Nova legislação

Contudo, não será preciso partir do zero para elaborar um novo marco legal para a imprensa brasileira. Segundo José Torves, tramita no Congresso há mais de uma década projeto de lei do deputado Vilmar Rocha (PFL-GO) cuja redação agrada tanto aos jornalistas como às empresas de rádio e televisão, mas que nunca foi votada. “A FENAJ, junto com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), vai iniciar uma campanha nacional para a imediata aprovação de uma nova lei. Não podemos ficar sem lei que regulamente a imprensa no Brasil”, diz o sindicalista.

Na opinião de Alberto Dines, o projeto de lei de Vilmar Rocha não vai para frente porque o “legislativo hoje só discute a si mesmo”. Ainda segundo o jornalista, “[o PL] não foi tocado adiante porque interessa manter a imprensa sem regulamentação. Agora estamos diante desta situação, que é muito pior. Em alguns casos, o código penal é até mais duro. Não se atentou para o dia a dia ao tomar esta decisão.”

Dines é categórico ao defender a necessidade de uma lei específica. “Meios de comunicação precisam ser regulados. Não podem ficar na mão da livre iniciativa. Agora fomos levados a um pântano por causa do politicamente correto, sob a justificativa de que era preciso acabar com o ‘entulho da ditadura’”, argumenta.

Por isso, o desafio agora é pressionar o Congresso para a aprovação de uma lei e também fazer com que o Conselho de Comunicação Social seja convocado. “O que vai fazer falta é uma disposição de criar instrumentos. Seria preciso convocar novamente o conselho de comunicação social, representativo, e neste âmbito discutir estas questões”, defende Dines.

Sem regulamentação

Já a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) é mais reticente sobre a aprovação de uma nova legislação que regulamente o setor. Para o presidente da associação, Maurício Azêdo, a imprensa não carece de leis específicas. “A ABI segue a mesma linha da decisão do ministro relator da proposta Ayres Britto e considera dispensável a regulação por lei de qualquer aspecto relacionado à imprensa, pois a Constituição Federal deixa claro que a imprensa é livre de qualquer tipo de restrição e não carece de leis infraconstitucionais.”

Azêdo avalia a revogação total da Lei de Imprensa como um avanço muito importante para preservar a liberdade de expressão e de imprensa e também para a constituição do Estado Democrático e de Direito tal como estabelecido na Constituição de 1988. “A lei tinha disposições típicas de uma ditadura e que vai de encontro com os textos constitucionais.”

Quanto aos aspectos mais questionados da revogação, a regulamentação do direito de resposta e também das responsabilidades civil e penal dos jornalistas e das empresas de comunicação, a ABI acredita que o assunto é dever da justiça. “Cabe à justiça em consonância com o estabelecido na Constituição Federal julgar os casos de responsabilização civil e penal e também a garantia dos direitos de resposta”, complementa.

Omissão da grande mídia

Para Alberto Dines, a grande imprensa não deu a devida atenção e não promoveu o debate sobre a votação da revogação da lei de imprensa. “A grande imprensa só se manifestou no dia 3 [quando saiu um editorial da Folha de S. Paulo]. Até então, a imprensa toda ficou calada porque sabia que a tendência era o voto simbólico. Na avaliação de Dines, o autor da ADPF agiu de forma a tentar agradar a grande imprensa que queria a revogação completa da lei. “Miro Teixiera foi leviano nesta questão. Ele é um político e sabe que fazer algo simpático à grande imprensa, pois sempre dá votos”, dispara.

* Com colaboração de Henrique Costa