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Interatividade é considerada incógnita da TV digital

Quando o assunto é interatividade na TV – especialmente na TV digital aberta – ainda não se sabe quais aplicações podem funcionar, qual deve ser a interface utilizada, e nem mesmo se o usuário quer interagir com a televisão. O tema foi debatido na última sessão do Congresso TV 2.0 que aconteceu nesta quarta, 31, em São Paulo. Carlos Ferraz, do CESAR, ressaltou que o espectador de TV e os usuários de PC têm expectativas muito diferentes quanto à interatividade. "Existem serviços, como o Internet banking, que talvez não funcionem bem na televisão, já que é um momento de menos privacidade, no qual a família toda está reunida na sala de estar", exemplifica.

Ele apresentou as conclusões de uma pesquisa realizada na Escócia, em 2005, que indicava, entre outros resultados, que os serviços interativos não podem competir com funções normalmente executadas no PC e têm de ser simples e claros. Além disso, ressaltou que são os mais interessados que tendem a interagir com um programa, não necessariamente os mais jovens. A pesquisa indicou ainda que os problemas apontados estavam centrados basicamente em facilidade de uso e confiabilidade, com 63% do entrevistados que acharam os serviços interativos difíceis de usar, e 51% que acharam que os serviços simplesmente não funcionavam. "Podemos concluir que é preciso ter muita criatividade na definição de serviços interativos", diz Ferraz.

A dificuldade na realização e no acerto dos serviços interativos pôde ser constatada pela operadora de TV por assinatura Sky, que já testou alguns modelos em sua operação digital. Segundo Cláudio Zylberman, da Sky, aplicativos como homebanking para a TV e a utilização de teclado de computador para acesso a serviços como e-mail, foram tentativas que tomaram muito investimento e que não foram bem aceitas pelos usuários, tendo de ser canceladas. "O que fizemos mais próximo da Internet deu errado. Multi-camera, enhanced TV e todos os outros aplicativos de televisão deram certo", afirma.

Setor de TV por assinatura aposta em uma emenda para alterar MP da TV pública

O setor de TV por assinatura aposta na aprovação de uma emenda como forma de suprimir ou alterar a redação do artigo 29 da Medida Provisória 398, que cria a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), responsável pela futura rede de comunicação pública. O referido artigo obriga as prestadoras de serviço de TV paga, independente da tecnologia, a disponibilizar dois canais gratuitamente ao Poder Executivo: um para transmitir a rede pública de TV e outra para a transmissão de atos e matérias de interesse do Governo Federal.

As operadoras reclamam que a obrigatoriedade não faz sentido do ponto de vista técnico ou financeiro. Além de alterar o equilíbrio econômico financeiro da operação, a medida esbarra na falta de canais disponíveis, justificam as empresas. Algumas operadoras que se valem da tecnologia MMDS, por exemplo, trabalham com algo próximo a 15 canais em algumas localidades, o que inviabilizaria a oferta de dois canais ao poder público, defendem os executivos do setor.

Na tentativa de alterar o artigo 29, ou mesmo suprimi-lo, algumas emendas já foram apresentadas por parlamentares à redação da MP, que tramita em regime de urgência na Câmara dos Deputados. Algumas emendas propõem uma compensação financeira às operadoras para que elas disponibilizem os canais. No conjunto, mais de 130 emendas já foram apresentadas ao texto, com as mais diversas sugestões, incluindo a mudança da sede da empresa do Rio para Brasília e a obrigação de contratação por concurso.

Cruvinel diz que TV pública deve se preparar para pressão política

A futura presidente da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), gestora da TV pública, Tereza Cruvinel, admitiu ontem que a nova emissora deverá sofrer pressões políticas em sua programação.

Em audiência na Câmara dos Deputados, a jornalista declarou que a solução para evitar a partidarização da TV, que tem estréia prevista para dezembro, é a composição de um conselho curador plural, com poderes reais de interferir. "O que nós temos que assegurar quanto à TV pública é a sua natureza pública. Tem risco de o governo querer influir? Tem. Em democracias até mais maduras há tentativas, sim, de governos influenciarem nas programações", disse ela.

Provocada por deputados da oposição, Cruvinel prometeu um jornalismo "sem adjetivos", mas reconheceu que o governo tentará às vezes emplacar seu ponto de vista. "As pessoas perguntam se o jornalismo será chapa-branca. Não, nós vamos fazer jornalismo sem adjetivos. Agora, eu não vou te assegurar que algum ministro não vá querer fazer alguma matéria a favor dele", afirmou.
A TV foi criada pelo governo por medida provisória, o que gerou protestos de parte dos deputados que compõem o Fórum Parlamentar de Radiodifusão, que promoveu a audiência de ontem.

A TV terá conselho curador de 19 integrantes, dos quais 4 ministros e 15 pessoas de "alta credibilidade", todas indicadas pelo presidente da República. Entre os prováveis componentes estão o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, o ex-governador de São Paulo Claudio Lembo (DEM) e o ex-diretor da TV Globo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni.

A audiência teve momentos quentes entre deputados do governo e da oposição, numa prévia do que ocorrerá no plenário da Câmara. Os governistas saudaram a emissora como um contraponto ao jornalismo comercial. "Não quero TV chapa branca, mas também não quero TV chapa preta, aquela que não deixa a gente falar", disse o deputado federal Fernando Ferro (PT-PE).

Entre os oposicionistas, ACM Neto (DEM-BA) disse que na TV "mandará quem paga a conta", numa referência ao Executivo, que proverá o orçamento anual de R$ 350 milhões. "Alguém pensa que o Poder Executivo vai pagar a conta e não vai procurar interferir na linha editorial?".

Frente parlamentar recebe Tereza Cruvinel e critica a MP

Apesar de não ter implantado a comissão mista prevista para discutir a criação da Empresa Brasil de Comunicações (EBC) e da TV Brasil, os parlamentares mostraram nesta terça-feira, 30, que estão atentos sobre o assunto e que há disposição para mexer no texto da Medida Provisória 398/2007 em muitos temas. Na manhã desta terça, 30, a Frente Parlamentar Mista da Radiodifusão convidou a futura presidente da Empresa Brasileira de Comunicação, Tereza Cruvinel, para prestar esclarecimentos sobre o projeto do governo. Com a presença majoritária de parlamentares da oposição, o encontro serviu muito mais para críticas do que para tentar uma conciliação sobre o tema.

O tom da reunião foi dado logo na abertura pelo presidente da frente, deputado Paulo Bornhausen (DEM/SC). "O projeto como está nessa MP, nós vemos o grande perigo de criar uma nova agência de propaganda partidária", reclamou o parlamentar, lembrando que o DEM está terminando a argumentação para entrar com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) no Supremo Tribunal Federal (STF) contra a medida.

Independência questionada

O cerne das críticas da oposição foi a falta de um instrumento no texto da MP que garanta cabalmente a independência da nova estatal dos desejos e opiniões do Governo Federal. As reclamações mais fortes nesse sentido partiram dos deputados Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM/BA) e Ronaldo Caiado (DEM/GO). "Pensar que o Poder Executivo vai pagar toda essa conta e que não irá procurar interferir na política editorial é difícil de acreditar", disse ACM Neto.

Caiado chegou até mesmo a levantar dúvidas sobre a disposição dos membros do Conselho Curador, que serão nomeados pelo Presidente da República, de questionar possíveis interferências do governo na EBC e destituir seus diretores. A futura presidente respondeu duramente às suspeitas. "Eu acho que o senhor não vai ter o Boni (José Bonifácio de Oliveira), da Rede Globo, ou um Cláudio Lembo (professor e ex-governador de São Paulo), que é do seu partido, ficar lá no conselho e dizer: 'Deixem eles trabalharem para o Lula'. É claro que isso não vai existir".

O embate com os deputados também passou pelas verbas que financiarão as operações da nova TV. Ao todo, está prevista a injeção de R$ 350 milhões em verbas orçamentárias para a implantação da nova estatal, valor considerado muito alto para a oposição e que ajudaria a comprometer a independência da empresa. Tereza defendeu-se apresentando os números das empresas de radiodifusão comercial. A Rede Globo tem um orçamento anual de R$ 5,5 bilhões, enquanto os gastos das menores giram em torno de R$ 750 milhões. "Fazer TV é caro mesmo", afirmou.

Canais na TV paga

 Do ponto de vista técnico, foi colocada em xeque a necessidade de que a TV Brasil disponha de dois canais obrigatórios na grade de transmissão das televisões pagas no País. Tereza Cruvinel usou a transição do sistema analógico para o digital como argumento para a exigência. "Você acha que todos os paulistanos vão ter TV digital em um primeiro momento? Claro que não, então precisamos desse segundo canal para a transmissão analógica." Considerando apenas um canal em São Paulo, a EBC terá quatro canais: TVE Rio, TVE Maranhão, TV Nacional e a nova transmissora paulista. Este quinto canal funcionaria como uma redundância das transmissões em São Paulo para garantir apenas a transição dos sistemas, segundo a presidente.

A TV digital foi o alicerce de críticas mais profundas do presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara, deputado Júlio Semeghini (PSDB/SP). O parlamentar reclamou que a proposta do governo foi desenhada considerando apenas o ambiente analógico, sem qualquer sinalização sobre o comportamento da TV Brasil no novo mercado digital. "A discussão é quantos canais serão usados, que multiprogramação vocês estão prevendo. A gente quer que a programação seja nacional, mas na equipe de vocês parece ninguém está realmente pensando nessas coisas", afirmou Semeghini, que se disse totalmente favorável à idéia de que o Brasil tenha uma TV pública.

Especialistas desmistificam interferências em aeroportos

As rádios comunitárias têm encontrado uma série de obstáculos para seu funcionamento. Além do volume de exigências para a legalização, a morosidade do governo federal na concessão de outorgas e a falta de recursos, as rádios de baixa freqüência enfrentam uma campanha sistemática de desmoralização e descrédito, encabeçada pelas grandes empresas de radiocomunicação. Entre os argumentos apontados pelas rádios comerciais – principalmente agora, aproveitando-se do momento de crise no setor aeronáutico do país – está o de que as rádios comunitárias interferem fortemente nos sistemas de comunicação e rádio-navegação aérea, podendo até mesmo provocar queda de aeronaves.

Sancionada pelo então presidente da República Fernando Henrique Cardoso, em 1998, a Lei 9.612 estabelece os critérios para concessão de canal às rádios comunitárias. Para receber a outorga, essas emissoras só podem operar em um raio de até um quilômetro, a uma altura máxima de 30 metros, longe dos aeroportos e com equipamento de transmissão fiscalizado e homologado. Além disso, quando recebem a autorização para começar a operar, as emissoras passam a ter um espaço no plano de canais calculado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), de forma que não interfiram em outra freqüência FM. “Física e tecnicamente, essas rádios de pequeno alcance não teriam como interferir na comunicação entre aeronaves e aeroportos”, avalia o jornalista Dioclécio Luz, autor do livro "A arte de pensar e fazer rádios comunitárias".

As rádios de baixa potência não-legalizadas que usam sinal livre dentro da faixa FM até podem ser responsáveis por interferências junto ao controle do espaço aéreo. Entretanto, se o equipamento é comprado legalmente e possui a homologação do órgão responsável, a possibilidade de interferência é mínima, mesmo que a rádio de baixa potência não seja legalizada. Assim garante o engenheiro eletrônico e pesquisador Higino Germani, ex-diretor técnico da TVE-RS. Para Germani, que tem larga experiência em sistemas de radiodifusão (foi chefe da área técnica de Radiodifusão no antigo Departamento Nacional de Telecomunicações e diretor técnico da Rádio Nacional de Brasília, atual Radiobrás), “embora possam ocorrer interferências, é um exagero dizer que uma rádio possa derrubar uma aeronave”.

O diretor da Faculdade de Ciências Aeronáuticas da PUCRS, Elones Fernando Ribeiro, salienta que a incidência de acidentes graves provocados pela interferência de sinais estranhos à radiocomunicação aeronáutica é nula, tanto que os livros técnicos utilizados pelos alunos não fazem referência a nenhum caso. “Nunca ouvi falar em queda de aviões”, conta o profissional, que tem em seu currículo mais de 27 anos como controlador de vôo e oito anos como piloto.

Um estudo realizado pelo pesquisador Marcus Manhães, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD), explica que a interferência de uma rádio na comunicação aeronáutica se dá por uma composição de vários sinais e não apenas um. Sinais de emissoras de rádio FM distintas, ao serem captados com níveis suficientemente fortes, podem provocar um efeito denominado intermodulação. Este fenômeno resulta em uma mudança de freqüências dos sinais recebidos, tornando-os idênticos ou relativamente próximos da faixa de freqüência utilizada na recepção dos serviços aeronáuticos. “Uma vez que as rádios comunitárias trabalham em baixa potência, elas só poderiam interferir com a ajuda de um sinal mais potente, ou seja, o de uma rádio comercial. Quanto mais alto for o sinal, mais crítica pode ser a interferência. É uma equação simples”, frisa o técnico. Cabe ressaltar, segundo Manhães, que cada aeroporto possui um único canal de rádio-comunicação dentro da faixa permitida.

Outro fator importante para a ocorrência de interferências, conforme o pesquisador, é a instalação de estações de rádio próximas aos pontos de testes dos aeroportos. No caminho para os aeroportos, são demarcados pontos que indicam a localização das pistas de pousos. Em alguns desses pontos são instalados equipamentos responsáveis pela medição de ocorrência, em terra, de interferência de sinais radiofônicos na comunicação aeronáutica. Se, na superfície, houver ingerências de sinais estranhos à comunicação, o mesmo ocorrerá no ar. “No caso da cidade de São Paulo, por exemplo, o ponto de teste está localizado na Avenida Paulista, local onde um expressivo número de estações comerciais está instalado. Nesta região, as interferências ocorrem com mais freqüência”, explica o pesquisador.

São três os aparelhos utilizados pelas aeronaves para auxiliar a navegação e a comunicação aeronáutica: o ILS (Instrument Landing System Localizer) tem a finalidade de guiar aeronaves em procedimento de aproximação e aterrissagem; o VOR – VHF (Omnidirectional Radio Range) auxilia a navegação aérea fornecendo informações sobre a radial da aeronave em relação a um ponto terrestre de localização conhecida, também denominado radiofarol; e o COM – VHF (Communications Equipament) proporciona comunicação bidirecional de voz entre a tripulação da aeronave e o controlador de vôo.

Segundo a pesquisa de Manhães, podem ocorrer neles interferências de dois tipos: aquelas provocadas pelo aparecimento de produtos de intermodulações ocasionadas pela não linearidade dos receptores; e aquelas decorrentes da incapacidade de rejeitar sinais de intensidade elevada. No segundo tipo de interferência, o serviço irá considerar potencialmente interferentes os sinais que forem de intensidade superior a -5dBm.

Já nos serviços ILS e VOR, os níveis de interferência variam com o valor da freqüência da estação FM. “Admitem-se níveis maiores para os canais mais baixos da faixa de FM. Tal variação significa que os receptores aeronáuticos estão mais sujeitos às interferências provenientes dos canais mais altos da faixa de FM e, conseqüentemente, são menos suscetíveis aos canais mais baixos”, explica o pesquisador.

Em 2005, os deputados federais Walter Pinheiro, Henrique Fontana, Valdecir de Oliveira e Adão Pretto questionaram o Ministério da Defesa (MD) quanto aos acidentes que teriam ocorrido em resultado de interferências em aeroportos. Das cinco ocorrências registradas, três eram de emissoras comerciais de radiodifusão. “A resposta do ministério revela que há comerciais, as broadcasting, como eles dizem, interferindo em dois aeroportos de grande trânsito do país, Guarulhos e Santos Dumont. Estas emissoras são associadas da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão)”, afirma o jornalista Dioclécio Luz.

Para impedir a ocorrência de interposições de freqüências, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) teria que interferir nas rádios comerciais. “Mas isso é coisa que eles jamais farão. É mais fácil culpar as emissoras comunitárias pelas interrupções provocadas na comunicação aeronáutica do que responsabilizar as empresas de radiodifusão comercial”, alerta o pesquisador do CPqD.

No Brasil, segundo estimativas de entidades ligadas à radiodifusão comunitária, existem hoje aproximadamente 20 mil rádios de baixa potência, das quais 2.745 possuem outorga. Porém, nenhum levantamento foi realizado para obter a precisão desse número, uma vez que não há como controlar a abertura e o fechamento de emissoras não-legalizadas. “As rádios de baixa potência, outorgadas ou não, na sua maioria, utilizam equipamentos legais. Como não possuem muitos recursos, já compram equipamentos homologados para que, quando a Anatel analisar a documentação jurídica e a estrutura técnica, os gastos não venham a aumentar”, argumenta o Coordenador Jurídico da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço), Joaquim Carvalho.

Embora contestado por especialistas, o argumento de que as transmissões das rádios de baixa freqüência podem causar a queda de aeronaves é usado freqüentemente como justificativa para o fechamento das emissoras. Para Manhães, isso se deve ao caráter técnico da questão, incompreensível para a maioria das pessoas, que, “aliado à comoção que provoca ao atribuir grave risco a vidas humanas, estabelece a aceitação desta cilada”. Usar tal argumento constitui, para ele, mais uma tentativa de desmoralizar estes importantes mecanismos para a democratização da comunicação, que são as emissoras de radiodifusão comunitária.