Enecos propõe criar nova articulação dos movimentos de comunicação

A partir da avaliação do cenário pós Conferência Nacional de Comunicação, a Executiva Nacional de Estudantes de Comunicação Social (Enecos) decidiu, em seu congresso nacional, defender a construção de uma nova articulação de movimentos sociais em torno das pautas da comunicação. A resolução do XVII Congresso Brasileiro dos Estudantes de Comunicação Social (Cobrecos) cita a continuidade da participação da Executiva nas comissões estaduais pró-conferência, de acordo com a realidade de cada estado.

A resolução do Cobrecos contrasta com o momento vivido pela Executiva, que passa por dificuldades de mobilização e participação. O congresso, principal evento político da Enecos, contou com cerca de 90 participantes. Foi também o momento para que uma nova diretoria tomasse posse depois de alguns anos em que a Executiva foi dirigida por gestões provisórias. Por outro lado, reforça posição anterior da Enecos em relação o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC). Há alguns anos, a Executiva, que foi uma das entidades fundadoras do FNDC, retirou-se da organização.

Segundo participantes do congresso, a decisão por participar de uma articulação alternativa ao FNDC tem forte relação com a postura da direção do Fórum durante a Confecom. A resolução aprovada pelos delegados cita a postura do FNDC que “colaborou para a limitação de avanços por parte dos movimentos sociais, como o fechamento de acordos que beneficiaram os interesses do governo e das entidades patronais”.

No texto do caderno de resoluções do Cobrecos, os estudantes reconhecem “o passado de luta do FNDC, fórum o qual a Enecos ajudou a construir. No entanto, o FNDC hoje se encontra burocratizado e engessado por meio do seu aparelhamento pela CUT e outros setores atrelados ao governo e patrões”.

“Hoje não existe nenhum espaço em que possamos tocar lutas de democratização da comunicação a partir da perspectiva que temos – de oposição de esquerda ao governo”, afirmou Naiady Piva, estudante de jornalismo da UFPR. Esse novo fórum que a Enecos pretende construir ainda não tem forma definida. “Optamos por não fazer uma proposta por achar que isso tem que ser construído por vários setores”, explicou Naiady.

Diploma para jornalistas

O Cobrecos aprovou resolução que revê a posição da Enecos sobre a exigência da formação superior específica para o exercício profissional do jornalismo. Mais do que uma defesa de fato do diploma, essa deliberação foi encarada pelos seus propositores como uma ação tática contra a decisão do Supremo Tribunal Federal, que agia pelos interesses dos empresários de comunicação. Os estudantes também avaliaram que este seria um modo de se aproximar dos estudantes de muitas escolas de jornalismo, cuja posição anterior da Enecos – de não posicionamento na dicotomia diploma “sim” ou “não” – era uma barreira ao diálogo.

Valério Paiva, estudante de jornalismo da PUC-SP, foi um dos defensores desse novo posicionamento da Executiva e relembra o acúmulo de mais de dez anos de debate sobre o diploma entre os estudantes de comunicação. “Naquele momento [de defesa da não obrigatoriedade], seria contraditório defender a democratização da comunicação, a comunicação popular, e ao mesmo tempo o diploma. Essa discussão foi muito rica na década de 90, mas a conjuntura era outra. No governo FHC, o grau de criminalização era diferente, assim como o grau de precarização de lutas e a unidade da esquerda. Hoje estamos numa situação ainda mais frágil, de desarticulação”, compartilha.

A eleição do governo Lula, considera Valério, foi um fato que tornou alguns setores dos movimentos sociais não combativos, havendo um avanço do neoliberalismo e “dos patrões em busca da precarização”. “Como exemplo, tem-se a votação da obrigatoriedade do diploma de jornalismo no STF a pedido das rádios e empresas de televisão do Estado de São Paulo.”

A Enecos hoje busca uma formulação que contemple setores das universidades, que acreditam que a obrigatoriedade do diploma é fundamental. “Tem alguns setores dos estudante nas universidades que acham extremamente importante a obrigatoriedade, como um dos modos de garantir a qualidade”, explica.

O desafio da Executiva é expandir o debate pela regulamentação profissional, sem se preocupar com a dicotomia da obrigatoriedade. “De essência, a luta dos dois [por uma outra regulamentação e pela obrigatoriedade] é a mesma: é a defesa dos interesses profissionais, em defesa da democratização da comunicação e da qualidade do ensino”, diz Valério. 

“Tem que se unir pra se defender”, diz Naiady a respeito dos trabalhadores de comunicação, não apenas de jornalismo. “Esse é o debate central que colocamos hoje. Quanto ao diploma, é importante termos uma posição porque somos requisitados a todo o momento.”

A resolução final do Cobrecos fala em exigir a obrigatoriedade do diploma somente nas empresas e instituições públicas que tenham relação capital-trabalho, o que deixa de fora mídias livres e comunitárias.

EBC e Conselho Nacional

Outra deliberação dos alunos de comunicação foi o posicionamento contrário ao modelo atual da TV Brasil e da TV Cultura, por não contribuir com a construção de uma radiodifusão pública que tenha ampla participação da sociedade civil na elaboração e gestão das emissoras. Defendem que haja garantia de liberdade editorial e financeira, além de espaço garantido para a produção regional independente.

Ainda em relação à Confecom, mas desta vez tratando das resoluções aprovadas na etapa nacional, os estudantes apontaram como prioridade pressionar o governo Lula para a efetivação do Conselho Nacional de Comunicação Social.

*** Texto corrigido em 29 de janeiro, às 15h30.

Telejornal da TV Brasil será transmitido na íntegra pela internet

O Repórter Brail, telejornal diário da TV Brasil, passa a ser transmitido na íntegra e gratuitamente pela internet a partir da segunda-feira, 1 de fevereiro. Será o primeiro telejornal brasileiro a ser disponibilizado nestas condições aos espectadores.

As matérias exibidas nas duas edições do telejornal (manhã e noite), além dos plantões de notícias, poderão ser assistidas através do endereço www.tvbrasil.ebc.com.br/reporterbrasil

Também será permitido o download dos arquivos em vídeo. A página ainda colherá comentários sobre as matérias, terá espaço para enquetes e servirá de porta de entrada para o arquivo do quadro “Outro Olhar”, que exibe vídeos de dois minutos feitos por telespectadores.

O link já vem funcionando em caráter experimental. Até agora, a TV Brasil contabilizou 19 mil acessos diários ao endereço.

Com informações da assessoria da Empresa Brasil de Comunicação.

Ministro volta a cobrar reestruturação da Anatel

O ministro das Comunicações, Hélio Costa, voltou a aproveitar um evento oficial da Anatel para pedir que a agência reguladora conduza rapidamente seu processo de reestruturação, em gestação há anos na autarquia. "A reestruturação da Anatel é essencial para que a agência esteja preparada para as demandas do futuro", afirmou Costa em seu discurso durante a posse do novo conselheiro da Anatel, Jarbas Valente. Em cerimônias anteriores, Costa já havia dado destaque a este ponto da agenda da autarquia. A última vez foi em junho do ano passado, durante a posse do conselheiro João Rezende.

O projeto de reestruturação previa, originalmente, o abandono da estrutura voltada para "serviços", investindo em uma regulação por "processos". A ideia consiste em reorganizar a agência em superintendências mais sintonizadas com o processo de convergência dos serviços de telecomunicações, ao invés do perfil atual onde a divisão é em serviços "públicos", "privados" e de "comunicação de massa". Não se sabe, porém, se a reestruturação seguirá ainda estas premissas quando for executada pela Anatel.

Oportunidade única

O recém-empossado Jarbas Valente mostrou simpatia pela execução do projeto ao incluí-lo como um dos seus cinco objetivos para seu mandato como conselheiro. Após a cerimônia, Valente reforçou sua defesa na reestruturação. "Quanto mais rápido ela acontecer, melhor", declarou. O conselheiro já promoveu uma mini-reestruturação na Superintendência de Serviços Privados (SPV) quando comandava a área e disse que a experiência foi muito positiva. "Acho que há um ganho muito bom na eficiência do trabalho", afirmou.

A intenção de promover, enfim, a reestruturação da autarquia poderá afetar a escolha de um substituto para Jarbas Valente no comando da SPV. Com a entrada de Valente no conselho, a superintendência passará a ser conduzida interinamente por Dirceu Baraviera. E se a reestruturação deslanchar, a SPV pode ficar ser um superintendente efetivo na SPV. Isso porque Valente defende que ninguém seja efetivado até que a mudança estrutural na Anatel seja concluída.

Nesse quesito, o novo conselheiro não está sozinho, pois outros conselheiros já têm defendido, internamente, esta posição. Além da SPV, a Superintendência de Serviços Públicos (SPB) também está sem um superintendente efetivo, sendo comandada por Fernando Pádua interinamente. Para Valente, essas duas "vagas" acabam ajudando no processo de reestruturação. "Acho que enquanto tivermos substitutos, isso facilita", afirmou. Na visão do conselheiro, efetivar os funcionários na iminência de uma reforma na agência seria prejudicial para os próprios servidores. "Efetivá-los agora geraria expectativas que talvez se frustrem em uma reestruturação".

Celular é caminho para fim da exclusão digital, segundo o Fórum Econômico Mundial

Relatório do Fórum Econômico Mundial divulgado em meados de janeiro afirma que os celulares são o melhor caminho para promover a inclusão social por intermédio do uso das novas tecnologias. Segundo o documento, que conta com o apoio de acadêmicos de diversas universidades norte-americanas e européias, além de grandes companhias telefônicas, há hoje quatro bilhões de pessoas conectadas via telefonia móvel. A quantidade de pessoas com um celular em mãos, diz o relatório, abre espaço para diversas inovações, inclusive na relação dos governos com os cidadãos.

“Para muitas pessoas no mundo, o celular é o único meio de acesso à internet. Obviamente, isso tem implicações na saúde, empreendedorismo, educação, governo eletrônico e segurança pública”, comenta Paul Jacobs, CEO da Qualcomm.

O documento reconhece que ainda há muito a ser feito para que os moradores de países em desenvolvimento possam utilizar todo o potencial da telefonia móvel, utilizando a internet para obter serviços, por exemplo. Se, por um lado, Brasil, Índia, África do Sul e China responderam, juntos, por mais de 300 milhões de novos assinantes nos últimos 12 meses, por outro, boa parte da população dessas nações permanece afastada das redes mais modernas, capazes de fornecer acesso à rede mundial de computadores e serviços em “nuvem”.

E, alerta, William Dutton, diretor do Instituto de Internet da Universidade de Oxford, “as interrelações entre os avanços da internet os nas comunicações móveis estão entre as mais fascinantes novidades a serem assistidas nos próximos anos”.

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, os celulares têm possibilitado, em alguns países, a oferta de novos meios de pagamento de impostos e consultas , além de conteúdos educacionais. Em Bangladesh, onde apenas 10% da população possuem acesso à rede bancária, a telefonia móvel  tornou-se uma forma eficiente de pagamento de contas, entre elas, encargos públicos.

Outra possibilidade é o fornecimento de informações médicas via telefone aos moradores de áreas rurais distantes dos postos médicos. O relatório sugere a abertura de linhas de atendimento para que dúvidas sejam sanadas e pequenos acidentes possam ser resolvidos no próprio local, caso não demandem a presença de um profissional de saúde.

“Os governos também podem estimular a adoção de soluções móveis de TIC para o cuidado com a saúde e outros serviços sociais. Se os governos criam políticas para apoiar seus próprios objetivos de oferta de serviços móveis, pode haver um segundo impacto, no qual outras atividades floresçam e ganham escala”, diz o documento.

Porém, afirmam os especialistas do Fórum, para que esse tipo de ação se torne uma realidade presente mundo afora, é preciso inovação e modelos de negócios alternativos. É por meio deles que serão gastos os US$ 2,3 trilhões de investimentos a serem feitos para incluir os cidadãos do mundo que ainda não possuem celular com acesso à internet.

O documento, intitulado “Escalando oportunidades: tecnologias da informação e comunicação para inclusão social” pode ser lido, em inglês, no link http://www.weforum.org/pdf/ICT/ScalingICT.pdf.

TVE-RS: A agonia do desamparo

A TVE-RS, pertencente à Fundação Cultural Piratini, vem prestando importantes serviços à comunidade gaúcha desde sua fundação, em 1974, em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. No entanto, tem potencial para fazer muito mais, radicalizando sua missão de serviço público, para tal necessitando desatrelar-se dos governos de plantão, uma característica de sua atuação. De toda forma, possui uma programação voltada para os meios culturais e notícias da região e cumpre papel social ativo no setor televisivo.

Nos últimos anos, vem aumentando seu grau de dificuldades de operação na mesma proporção em que tem sido intensificada a desatenção do governo estadual para com os objetivos da televisão pública, em especial a respeito do Conselho Deliberativo e dotação orçamentária adequada para produzir e distribuir conteúdos que atendam à diversidade social. No ideário neoliberal, um canal público de TV é descartável, na medida que (quase) tudo, inclusive a midiatização, deve ser entregue ao privado.

Não se identifica um compromisso do governo do estado do Rio Grande do Sul em relação à TVE. Os embates entre as diretorias da emissora, nomeadas pelo Executivo, e o Conselho Deliberativo têm sido freqüentes nos últimos anos, assim como as denúncias de interferências em sua linha editorial. Agora, a TV Educativa do Rio Grande do Sul vai mudar de prédio, pois estava instalada em um imóvel pertencente ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) — e um acordo não foi viabilizado por aparente falta de empenho para tanto.

A necessária independência

Um possível convênio com a TV Brasil não foi definido, ao que tudo indica, por questões menores, já que aquela é controlada pelo governo federal, comandado pelo PT, e a TVE é da alçada de um governo estadual do PSDB. A emissora gaúcha preferiu seguir retransmitindo a programação da TV Cultura, de São Paulo, mediante um pagamento mensal, enquanto a TV Brasil cederia seus conteúdos gratuitamente. Mais do que isso, o problema é que as questões partidárias ou de governos seguem sobrepondo-se às públicas.

Na verdade, a prioridade de atender aos governos não é exclusividade da TVE do Rio Grande do Sul. Não necessariamente no mesmo grau, interferências político-partidárias identificam-se até em algumas estações públicas européias, ainda que na Europa encontrem-se exemplos históricos de compromisso social, como a BBC. Em qualquer dos casos, trata-se de uma espoliação da sociedade, que perde um dispositivo efetivamente público num embate que, principalmente no Brasil, contabiliza muitas derrotas.

Carece a TVE-RS de um modelo de financiamento adequado que garanta a quantidade de recursos suficiente para cumprir seu compromisso público e, em simultâneo, assegure sua autonomia em relação aos governantes de plantão. Necessitando sempre do governo estadual para administrar suas decisões financeiras, apresenta-se hoje como uma emissora que, apesar do esforço de seu quadro de funcionários de carreira, tem dificuldade de se manter com a independência necessária para midiatizar a realidade aos gaúchos.

Transparência e seriedade

Cedo ou tarde terão que ser discutidas as relações de poder entre Estado e setor privado, cuja dinâmica, considerando-se elementos como parceria publicitária e acessos prioritários a fontes, tem garantido o espaço da televisão comercial, mas não o avanço da comunicação pública, seja detida pelo Estado ou não. Isto se chama ausência de compromisso para com a coisa pública, numa área tão estruturante quanto a comunicação, cuja força econômico-político-social é mais que sabida, como reconhecem o mercado publicitário e o setor político.

A sociedade precisa acompanhar de perto este momento crucial envolvendo a TVE do Rio Grande do Sul, monitorando a anunciada mudança para um prédio emblematicamente denominado Centro Administrativo. Como se espera que as administrações estaduais se mantenham distantes dos ambientes públicos de comunicação — e o Estado cumpra sua obrigação de fornecer referentes comunicacionais aos cidadãos —, é hora de os eleitores ficarem vigilantes, cobrando transparência e seriedade nesse campo.

* Valério Cruz Brittos é professor titular no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos.
* Diego Costa é graduando em Jornalismo pela mesma instituição.