Anatel envia ao Cade atos de concentração da Vivo/Telemig e Oi/Amazônia Celular

Reproduzido do Tele.Síntese

A Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) enviou ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) as instruções aos atos de concentração da aquisição do controle societário indireto da Telemig Celular pela Vivo e da Amazônia Celular pela Telemar. Os processos foram aprovados pelo Conselho Diretor da agência n dia 4 de junho, com parecer favorável às operações.

Em agosto de 2009, a Vivo comprou 22,72% da Telemig Celular Participações e 19,34% da Tele Norte Celular Participações (Amazônia Celular Participações) que pertenciam à Telpart Participações. Em dezembro do mesmo ano, a Vivo vendeu a Amazônia Celular, para a Oi por R$ 120 milhões.

Segundo a Vivo à época, a venda da Amazônia Celular teve como objetivo "solucionar eventuais dificuldades regulatórias”, que estariam atrasando a aprovação, pela Anatel, do negócio com a Telpart.

Sobre o debate na Argentina e a concentração da mídia

Luis Pardo, presidente da Associação Internacional de Radiodifusão (AIR), entidade de empresários que reúne representantes de rádios e televisões comerciais da América Latina, publicou, no dia 18 de maio, uma coluna de opinião no diário Clarín denominada "Não violar a liberdade de expressão".

Nessa coluna, Luis Pardo relata uma reunião realizada entre o Conselho Diretor da AIR e o Secretário Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, e aproveita para expressar a opinião desta organização sobre o anteprojeto de lei de serviços de comunicação audiovisual que está em discussão na Argentina.

A reunião foi celebrada no dia 4 de maio em Washington DC,  Estados Unidos, no marco das comemorações do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. O representante da OEA foi acompanhado pela Dra. Catalina Botero, Relatora Especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

Pardo menciona na nota as declarações de Insulza diante da delegação da AIR ali reunida. Segundo o presidente da AIR, "o Secretário General reconheceu importantes avanços na matéria, entre os quais se encontra a despenalização de certos delitos – como a difamação e o desacato – e a legislação, em vários países, para garantir o acesso à informação pública, ainda que tenha lamentado que nem todos os estados da região tenham tido avanços semelhantes".

Entretanto, o mais importante é o que ele não diz que disse Insulza*.

É importante justamente porque, mesmo que o Secretário Geral da OEA não tenha mencionado o anteprojeto de lei em debate na Argentina, alguns dos pontos abordados na sua intervenção têm relações estreitas com os conteúdos do mesmo. E suas afirmações adquirem um conteúdo especialmente simbólico se for levado em conta o momento e os interlocutores que tinha a sua frente.

Diante dos representantes de poderosos conglomerados midiáticos como Televisa, TV Azteca, Globo e Clarín, José Miguel Insulza falou do impacto "determinante" que a concentração dos meios de comunicação tem na restrição da liberdade de expressão.

Não era um evento acadêmico ou uma reunião de comunicadores a favor da democracia, era um encontro com os grupos mais concentrados da América Latina, aos quais ele disse que essa concentração, da qual eles são exemplo, é obstáculo fundamental para que haja uma comunicação democrática.

Após relatar aspectos centrais da agenda de liberdade de expressão regional como as agressões e assassinatos de jornalistas ou o crescente uso de mecanismos indiretos para censurar vozes críticas, Insulza afirmou que "o Estado não é a única fonte de restrições à liberdade de expressão, pois também o é, e de maneira muito determinante, a concentração da propriedade dos meios.

Quando se chega a uma circunstância desse tipo, frequentemente, as pessoas não recebem todas as perspectivas dos assuntos que lhes dizem respeito, o que por certo não contribui para a vigência efetiva da liberdade de expressão e da democracia, que implica sempre em pluralismo e diversidade".

O que tampouco disse a AIR é que Insulza agregou, citando a Corte e a Comissão Interamericana, que "os monopólios ou oligopólios da propriedade e controle dos meios de comunicação atentam gravemente contra o direito à liberdade de expressão" e que, por tanto, é "obrigação dos Estados" tomar medidas ativas para evitá-los.

De acordo com sua opinião, os Estados devem "sujeitar a propriedade e o controle dos meios a leis gerais antimonopolistas para evitar a concentração de fato ou de direito que restrinja a pluralidade e diversidade que assegurem o pleno exercício do direito à informação dos cidadãos",  assim como "a aprovação de concessões de rádio e televisão devem considerar critérios democráticos que garantam uma verdadeira igualdade de oportunidades de acesso para todos".

Para o Secretário Geral da OEA, nada menos que frente aos principais opositores às emissoras comunitárias, para que haja diversidade e pluralismo é "fundamental o reconhecimento de todas as formas de comunicação, incluindo as rádios comunitárias".

A tarefa de limitar a concentração tem como objetivo principal garantir a liberdade de expressão, não a afetar. É justamente o contrário do que defende a AIR. Aqueles que defendem seus interesses concentrados com o discurso do chamado "jornalismo independente" são os que atentam, na prática, contra a liberdade de expressão.

É obrigação dos Estados tomar medidas para impedir que se limite a diversidade e o pluralismo na mídia, condição indispensável para um exercício efetivo da liberdade de expressão de todas as pessoas e não de somente uns poucos grupos econômicos.

Ernesto Lamas é Coordenador Regional da Asociación Mundial de Radios Comunitarias – América Latina y Caribe, AMARC ALC. Gustavo Gómez é diretor do Programa de Legislaciones y Derecho a la Comunicación, AMARC-ALC.

Tradução: Gustavo Machala

* Discurso del Secretario General de la OEA, José Miguel Insulza, “La Libertad de Expresión en las Américas”, AIR, Washington, 4 de mayo. Ver comunicado de prensa enhttp://www.oas.org/OASpage/press_releases/press_release.asp?sCodigo=C-157/09)

Contingenciamento das verbas da Confecom será tema de audiência

Reproduzido do TelaViva News

Nem bem tiveram início os preparativos para a 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) e os organizadores já enfrentam seu primeiro obstáculo: a falta de verba. O orçamento previsto para o evento, de R$ 8,2 milhões, sofreu contingenciamento e caiu para um total disponível de apenas R$ 1,6 milhão. Há um mês o Ministério das Comunicações (Minicom) tenta reaver os recursos, sem sucesso até agora. E os deputados federais resolveram se unir na empreitada.

A Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) agendou para a próxima semana um debate sobre o assunto, que deverá contar com a presença do ministro das Comunicações, Hélio Costa. A audiência pública ocorrerá na quarta-feira, 8, e também foram convidados o presidente da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV), Daniel Slaviero; e o coordenador do Intervozes, Jonas Valente. A proposta dos deputados é procurar alternativas para reaver a verba contingenciada.

Governo gastou R$ 2,1 bilhões do Fust com dívida pública

Depois de dez anos de criação, pela primeira vez um montante expressivo do Fundo de Universalizações dos Serviços de Telecomunicações (Fust) foi usado. Cerca de R$ 2,1 bilhões da reserva do Fust foram gastos no ano passado. Mas o destino do recurso nada tem a ver com as telecomunicações.

A quantia foi desvinculada e gasta com o pagamento de juros da dívida pública, mesmo sendo definido como "verba carimbada", ou seja, que só pode ser aplicada na área prevista na lei que a criou.

O "sumiço" dos R$ 2,1 bilhões foi percebido pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e está registrado no relatório sobre a aprovação das contas do governo em 2008. "A disponibilidade total do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) que em 2007 totalizava R$ 5,3 bilhões, foi reduzida em 2008 para R$ 3,2 bilhões. Tal queda não ocorreu em virtude da utilização dos recursos, já que nada foi executado dos R$ 7,3 milhões alocados na LOA/2008 (Lei Orçamentária Anual) para o programa 'Universalização dos Serviços de Telecomunicações'. A redução da disponibilidade decorreu de desvinculação de recursos do Fundo para pagamento da dívida pública", relatam os técnicos do tribunal no documento sobre as contas do ano passado.

Mas como o governo conseguiu usar R$ 2,1 bilhões de um fundo destinado à expansão das telecomunicações para o pagamento da dívida pública? A resposta, em princípio, está em dois atos emitidos pela Presidência da República no ano passado. Um deles é a Lei nº 11.803, de 5 de novembro de 2008, que trata da utilização do superávit financeiro acumulado até 31 de dezembro de 2007. Esta lei, criada a partir da MP 450/2008, permite que o saldo do superávit seja utilizado para a "amortização da Dívida Pública Mobiliária Federal Interna". As novas regras resguardam apenas as "fontes decorrentes de vinculação constitucional e de repartição de receitas a estados e municípios".

Tudo indica que o Fust não foi visto como uma fonte com "vinculação constitucional". Isso porque em 11 de setembro de 2008 – quando a MP já estava em vigor mas ainda não tinha virado lei – o governo emitiu um decreto sem número abrindo crédito suplementar de R$ 40,864 bilhões para pagamento de "encargos financeiros da União", o que inclui o pagamento dos juros da dívida pública, com recursos de diversas fontes. Entre elas, estariam os R$ 2,1 bilhões do Fust.

A confirmação de que a desvinculação do fundo das telecomunicações ocorreu neste ato vem de fontes do TCU. Além do Fust, outros fundos, como o da Marinha, também teriam tido recursos transferidos para o pagamento da dívida. Por ora não há uma investigação do tribunal sobre a legalidade desta transferência, mas uma coisa é certa: o dinheiro não existe mais.

Existem algumas alternativas para "recuperar" a verba usada pelo governo, mas nenhuma delas é simples. Um caminho seria a recomposição dos créditos em um ato do próprio governo, repassando verbas de outras rubricas para o Fust. Outra possibilidade seria a constatação de que o ato que desvinculou as verbas é inconstitucional e, portanto, inválido. Esta reportagem não conseguiu informação sobre nenhum movimento, em qualquer sentido, para repor a verba utilizada.

A legalidade da desvinculação pode ser uma dúvida. Em princípio, qualquer Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) não pode sofrer aplicação da Desvinculação das Receitas da União (DRU), mecanismo que dá flexibilidade na destinação Orçamentária. Esses recursos seriam as tais "verbas carimbadas", tão citadas em diversos setores da administração. O "carimbo" é uma analogia de que a verba só pode ser usada dentro da sua área de destinação prevista em lei. O problema é que nem todos os juristas entendem que o Fust é uma Cide. Caso seja, a desvinculação das verbas pode ser inconstitucional.

Crescimento falso

Mas um fato que não envolve controvérsia jurídica e é tão grave quanto a nova destinação que o governo encontrou para o fundo é a constatação de que o bolo financeiro do Fust que cresce a cada ano, na verdade, não existe.

Segundo fontes do governo, os bilhões anunciados todo ano não são um número de trabalho orçamentário e a maior parte destes recursos está na "vala comum" do superávit financeiro. Que o dinheiro não usado engordava os cofres públicos, isso não é novidade para ninguém. Mas o uso recente demonstra que o Fust não tem mantido seus privilégios como fundo de fomento a partir do momento em que é depositado na conta do superávit.

Do ponto de vista financeiro, a arrecadação total do Fust em nove anos já está próxima dos R$ 8 bilhões, sem contar o "desaparecimento" dos R$ 2,1 bilhão. Mas este número não é refletido no Orçamento da União há muito tempo. Na prática, contam as fontes, o Executivo só conta com a receita corrente do fundo, em torno de R$ 300 milhões ao ano. E ainda assim, há restrições para a execução orçamentária. Mas, frente a todos esses obstáculos, pesa em desfavor da área de telecomunicações o fato de os recursos jamais terem sido usados. Apenas uma vez houve uma movimentação concreta para o uso de uma parte ínfima da verba – aproximadamente R$ 7 milhões -, mas pelos dados do TCU a execução não foi feita até hoje.

Silêncio na comunicação ou O corte que não é noticia

A quarta-feira, 30 de junho, foi um dia especial para a classe trabalhadora brasileira, embora muito pouca gente tenha sido informada. Nesta data, a Comissão Especial da Câmara que analisava a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais – sem redução de salário – aprovou o relatório do ex-presidente da CUT, deputado Vicentinho (PT-SP). Agora, o tema vai para plenário.

Conforme o Dieese, mais de dois milhões e duzentos mil empregos podem ser gerados com a medida, mais do que necessária para o fortalecimento do mercado interno e o enfrentamento aos impactos da crise internacional em nosso país. Importante também como elemento de justiça, já que a produtividade aumentou mais de 150% desde a última redução da jornada, feita pela Assembléia Nacional Constituinte em 1988. Com a decisão, ganham a saúde, o lazer, a cultura, a família…

E como a mídia acompanhou a votação? Quantas redes de rádio e televisão cobriram o plenário completamente lotado pelas principais lideranças do país, de todas as centrais sindicais, comemorando um passo histórico? Ignorando solenemente as exigências da própria Constituição de que a mídia deve ter um papel além de informativo, educativo e formativo, demonstraram que sua pauta atende os interesses de quem está do outro lado do guichê. Os que lucram com a exploração do mundo do trabalho. Afinal, quem paga a banda escolhe a música, não é mesmo? Desta forma, o tilintar dos cifrões fala mais alto e embala as redações.

No exato momento em que transcorria a votação, um valoroso fotógrafo cutista, Roberto Parizotti, documentava a variedade – e a mesmice – das telinhas dos televisores numa loja de eletrodomésticos. Absolutamente nada, silêncio sepulcral. Aquele fato com que tanto vibramos simplesmente não era notícia para os que, sendo proprietários de concessões públicas, se crêem donos da mídia – e do país.

Uns dias antes, nossa Central enviou uma carta ao Ministério do Planejamento onde condenamos o corte de 80% dos recursos previstos para a realização da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), convocada pelo próprio presidente Lula durante o Fórum Social Mundial de Belém, em janeiro. Alertamos que, se mantida a posição ministerial de reduzir de R$ 8,2 milhões para R$ 1,6 milhão a dotação orçamentária, haverá esvaziamento da discussão sobre a urgente e necessária democratização das comunicações e que "por isso se faz necessário que tal decisão seja imediatamente revista, a fim de que as comissões possam continuar fazendo o seu trabalho e o evento não seja definitivamente inviabilizado pela gravidade dos cortes – e o conseqüente comprometimento dos prazos".

Lembramos que os recursos previstos já não garantiam sequer a participação dos suplentes – representantes da sociedade civil não-empresarial – na Comissão Organizadora da Confecom, responsável por coordenar, supervisionar, elaborar o regimento interno e realizar a Conferência Nacional de Comunicação. E que a falta de provisão orçamentária atentava contra os prazos e a qualidade dos debates.

Os movimentos que lutam pela democratização da comunicação, pela pluralidade e diversidade, querem aproveitar o processo da Conferência para ampliar os espaços comunitários, públicos e estatais, a fim de que o direito humano à comunicação seja respeitado e não continue sendo tratado como moeda de troca, sem critério nem controle social, para deleite dos que mercantilizam a informação.

No momento em que os monopólios de mídia elevam o volume – e o tom – multiplicando inconsciências, entendemos perfeitamente as razões do corte continuar sendo segredo e não notícia. A Conferência precisa deste recurso. O Brasil agradece.

Rosane Bertotti é secretária de comunicação da Central Única dos Trabalhadores (CUT).