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TV rural, o dilema da transição digital norte-americana

Em 18 de fevereiro de 2009, as principais emissoras de TV norte-americanas terão que desativar as transmissões analógicas e passar a transmitir apenas com sinais digitais. Há, no entanto, uma polêmica envolvendo as emissoras de baixa potência, que atendem as áreas rurais.

Essas emissoras não foram obrigadas a também fazer a migração para a TV digital, mas a FCC (Federal Communications Commission), a agência reguladora norte-americana, anunciou, no mês passado, que irá subsididar com US$ 80,00 o setop box para que as residências rurais possam converter os sinais digitais a serem transmitidos pelas grandes redes para a sua TV analógica.

Essa decisão está provocando reação entre os proprietários das pequenas emissoras de TV, que temem que esses conversores acabem bloqueando os seus sinais analógico, mais fracos.

E o presidente da FCC, Kevin Martin já avisou a esses pequenos radiodifusores que em quatro ano, ou seja, em 2012, todos eles terão que acabar com as transmissões analógicas.

Internet foi meio que o faturamento mais cresceu em 2007

Segundo dados do Projeto Inter-Meios, o faturamento geral do mercado publicitário brasileiro foi de R$ 26 bilhões em 2007, o que representa um aumento de 9% em relação ao ano anterior. O setor cujo faturamento publicitário apresentou maior crescimento no período foi a Internet, com aumento de 45,76%, chegando a R$ 526 milhões. Em seguida vem o cinema, com um crescimento de 23,13% (chegando a R$ 75 milhões), e a TV por assinatura, com aumento de 20,65%, chegando a R$ 639 milhões.

De acordo com José Carlos de Salles Neto, presidente do Grupo M&M, que coordena o estudo, Internet e TV por assinatura devem destacar-se por muitos anos na pesquisa. "São meios novos e de importância crescente no mercado porque têm provado muita eficácia. Eles têm mais oportunidades de crescimento que os meios tradicionais. Até que se estabilizem atingindo uma fatia maior do bolo publicitário, continuarão apresentando desempenho superior", observa.

A TV aberta foi o meio com o maior faturamento publicitário no ano, R$ 11 bilhões, apresentando um crescimento de 8,67% em relação ao ano anterior. Ou seja, apresentou crescimento um pouco abaixo da média.

Nove meios são analisados: cinema, guias e listas, internet, jornal, mídia exterior, rádio, revista, televisão e TV por assinatura. Este ano, apenas guias e listas e mídia exterior apresentaram resultados negativos, -13,28% e -16,33% respectivamente.

Vale destacar, o Inter-Meios mapeia 90% da mídia brasileira. Estas empresas faturaram R$ 19 bilhões. Ao levar em conta os veículos não participantes do projeto, estima-se salto no faturamento total para R$ 21 bilhões. Adicionando 19% relacionados à produção comercial, o projeto chega ao volume total de R$ 26 bilhões.

Salles Neto prevê que em 2008, o crescimento do faturamento publicitário será de 10%.

Cotas para audiovisual nacional pode virar assunto diplomático

O PL 29/2007, que define as novas regras para o mercado de TV por assinatura, está em discussão na Comissão de Comunicação da Câmara dos Deputados e pode ser aprovado ainda este mês, segundo estimativa do relator da matéria, deputado Jorge Bittar (PT/RJ). Segundo o deputado Julio Semeghini (PSDB/SP), presidente da comissão, são aguardadas para esta semana as contribuições que ainda poderiam ser feitas pelos setores de TV aberta e de TV por assinatura. Segundo Semeghini, o setor de telecomunicações mostra-se satisfeito com o projeto, já que ele abre o mercado de TV paga.

O clima entre operadores e programadores de TV por assinatura internacionais é péssimo em relação ao projeto. Em comentários informais, não se economizam críticas ao projeto e ao fato dele, segundo os operadores, desconsiderar completamente quem atua no mercado de TV por assinatura. "Entendemos que se precise reformar o marco regulatório para que as teles possam entrar, mas com essa política de cotas, o modelo atual, que as próprias teles praticam ou praticarão, fica inviabilizado", diz um operador de TV paga.

Clima pesado entre os canais

Entre os programadores internacionais o clima é ainda mais tenso. Ainda é cedo para avaliar quais as conseqüências reais do descontentamento dos programadores com a idéia, sobretudo, de impor cota de conteúdo nacional a qualquer canal qualificado. Mas a última vez que se viu esse tom entre os programadores foi em 2001, quando o governo FHC e o GDIC (grupo que à época buscava soluções para o desenvolvimento da indústria do cinema) discutiam a medida provisória que criou a Ancine.

Naquela ocasião, a MPA (Motion Pictures Association, a poderosa associação dos estúdios de cinema dos EUA) e a TAP (associação de programadores de TV por assinatura norte-americanos que atuam na América Latina) encaminharam a todos os ministérios com voz ativa em relação à questão (Cultura, Comunicação, Casa Civil, Fazenda e Desenvolvimento), além da Embaixada do Brasil em Washington, cartas de conteúdo duro, contestando a falta de transparência do governo no trato desta questão. As associações ameaçavam, caso medidas como "criação de contribuições obrigatórias para os setores de programação estrangeira de TV por assinatura e de publicidade, bem como a instituição de quotas mínimas de programação local para os operadores de TV a cabo" fossem adotadas contra a indústria audiovisual norte-americana sem que os estúdios e programadoras fossem ouvidos, desistir do mercado brasileiro, suspender a venda de programação e, mais grave, recorrer à Organização Mundial do Comércio (OMC). Como se não bastasse o tom das cartas, elas ainda foram com cópia para o United States Trade Representative (USTR), o poderoso órgão de comércio exterior norte-americano.

Resultado

A pressão dos estúdios e programadores deu resultado, e boa parte das políticas que estavam sendo desenhadas foi negociada, inclusive a idéia das cotas.

Nesse momento da discussão do PL 29/2007, nenhum programador admite abertamente que as reações estejam chegando àquele ponto, até porque entendem que o debate ainda está circunscrito ao Congresso Nacional. Mas informalmente já se admite que esse cenário pode vir a ocorrer novamente, como em 2001, levando o assunto para o campo diplomático.

Estudo da ABTA diz que impacto das cotas na TV paga será de R$ 3,3 bi

Os programadores internacionais congregados na ABPTA (Associação Brasileira de Programadores de TV por Assinatura) e a Sky contrataram da Pezco Pesquisa e Consultoria um dos mais amplos levantamentos já realizados sobre a questão das cotas de programação e a relação delas com o impacto econômico para a indústria de TV paga.

O levantamento foi entregue nesta segunda, 3, ao deputado Jorge Bittar (PT/RJ), relator da matéria na Câmara. A conclusão do estudo é um forte argumento contra a política de cotas que está sendo estabelecida no PL 29/2007, que cria as novas regras para o setor de TV por assinatura.

Até o momento, é o único estudo que busca calcular como o mercado absorveria as cotas colocadas no PL 29/2007, caso elas entrassem em vigor. O método seguido foi o de calcular o custo necessário à produção daquele conteúdo demandado pelas cotas e hoje não disponíveis. Os parâmetros de custo de produção são aqueles adotados pela Ancine referentes à produção de filmes, animações e documentários, que são basicamente os conteúdos qualificados que estarão sujeitos às cotas.

E a conclusão é que para produzir todo o conteúdo, as cotas demandariam, no primeiro ano de vigência, R$ 850 milhões em investimentos na cadeia. No final do quarto ano de vigência das cotas, quando a aplicação dos percentuais se dará de forma plena, o custo para se cumprir os limites colocados em lei seria de R$ 3,3 bilhões, segundo as contas da Pezco.

"O desafio de formar novos atores, especialmente produtores e programadores que promovam ainda mais a cultura nacional no segmento de televisão por assinatura não se resolve com cotas ou com restrições artificiais, mas sim com incentivos econômicos adequados", conclui o levantamento da Pezco.

Peso na assinatura

Considerando que apenas o setor de TV por assinatura será obrigado a distribuir esse conteúdo, e que o PL 29/2007 também reduz o espaço de publicidade nos canais pagos, a Pezco projeta os possíveis cenários de aumento do valor da assinatura, e o resultado é alarmante: 144% nos pacotes mais simples e 82,6% nos pacotes básicos mais completos. Foram considerados pacotes reais existentes no mercado.

A partir deste impacto no valor da assinatura, a Pezco projeta não só a perda de mercado potencial para o mercado de TV paga, como uma possível retração na base de até 1,5 milhão de assinantes até 2010. O estudo faz ainda a co-relação com o possível impacto inflacionário de tal aumento de mensalidade, considerando que o IPCA já incorpora em seu cálculo o custo da TV por assinatura.

O estudo ainda discorre sobre outras experiências internacionais de imposição de cotas e traz elementos mostrando que o impacto, nos casos selecionados, foi negativo. O melhor exemplo é o da Austrália e do Canadá, que depois da adoção das cotas de programação tiveram retração na base do mercado de TV por assinatura. O exemplo da cota de tela de cinema no Brasil, que também não aumentou o público aos filmes nacionais, também é trazido como exemplo da ineficiência do mecanismo.

Pressupostos

A Pezco termina fazendo uma comparação sobre os pressupostos do PL 29/2007 em relação ao mercado de TV por assinatura, como aumento da base, estímulo à produção nacional e viabilidade da política de cotas. O estudo oferece argumentos contrários a estes pressupostos, levantando a dúvida sobre a eficiência do mecanismo.

Como sugestões, o estudo propõe políticas educacionais como forma de estimular a demanda por conteúdo nacional; revisão da incidência tributária, combate à pirataria e mecanismos de atração de capital como forma de estimular a cadeia produtiva do audiovisual; e financiamento baseado em incentivos como forma de compensar as necessidades de investimento do mercado.

A íntegra do estudo está disponível em www.telaviva.com.br/arquivos/estudo_pl29.pdf

Governo volta atrás e admite inclusão de mecanismos anticópia

A inclusão dos mecanismos anticópia nos conversores e aparelhos de TV digital está a um passo de ser permitida pelo governo federal. Fontes próximas ao grupo destacado pelo Planalto para decidir os rumos da digitalização confirmam que o governo estuda a forma jurídica ideal para regulamentar a instalação dos bloqueadores nos aparelhos de alta-definição (HDTV). O uso de softwares bloqueadores (conhecidos como DRM – Digital Rights Management) nos conversores convencionais, que criam imagens em baixa-definição, não seria permitido.

Com a adoção desta fórmula, o governo cede à pressão das empresas de comunicação, que desde o início das discussões sobre a TV digital pedem que todo tipo de cópia do conteúdo transmitido seja proibida. Os empresários dizem que visam combater a pirataria, mas especialistas e mesmo representantes do governo afirmam que os interesses são outros. Incluem a questão dos custos para transmissão de grandes eventos (como as Olimpíadas), cujo preço aumentaria com a possibilidade de transmissão simultânea do conteúdo pela internet, e até a possibilidade de, no futuro, realizar serviços pay-per-view também na TV aberta.

O acordo entre empresários e ministros foi selado em reunião realizada em Brasília no dia 19 de março. No dia seguinte, os jornais Folha de S. Paulo e O Globo publicaram notícias contraditórias. O primeiro afirmava que o governo iria permitir as cópias, tornando não-obrigatória a inclusão do DRM, o que afetaria os interesses dos empresários. O segundo, que o governo liberaria o bloqueio nos aparelhos receptores ou na transmissão, como as empresas solicitavam.

Extinção de direitos

Apesar de o resultado ser o mesmo – "liberar" e "não tornar obrigatório" significam, afinal, que o DRM poderá ser usado –, a diferença de ênfase causou certo ruído. Para especialistas em direito autoral e direitos do consumidor, independente dos termos, a inclusão de mecanismos anticópia seria um atentado ao caráter aberto e gratuito da radiodifusão no Brasil.

Pedro Mizukami, pesquisador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV-Rio, afirma que qualquer medida neste sentido seria "ilegal e inconstitucional" exatamente porque as características da radiodifusão estão previstas na lei maior do país, a Constituição. Segundo ele, há ainda outros conflitos de direitos. "É preciso pensar nos danos diretos e colaterais que sistemas como o proposto poderiam causar, implicando sérias ofensas à livre iniciativa, defesa da concorrência, autonomia tecnológica, possibilidades de inovação e direitos do consumidor, sem falar em violações a usos permitidos de conteúdo protegido por normas de direito de autor", comenta.

Esta tem sido também a posição do Ministério da Cultura, segundo explica Sérgio Vaz, especialista da Coordenação-geral de Direito Autoral do MinC. "O que o ministério tem defendido é que nenhum cidadão seja privado do direito de escolher quando e como vai assistir um conteúdo que, por princípio constitucional, é aberto", afirma Vaz.

A Lei de Direito Autoral permite a cópia de conteúdos para uso considerado privado, o que inclui a cópia para uso doméstico, para fins educacionais ou de crítica. O advogado do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), Luiz Moncau, lembra que nenhum instrumento jurídico de regulamentação (como portarias ou decretos) pode extinguir um direito. "Se uma portaria proibir a cópia doméstica, será uma portaria ilegal", afirma.

A edição de uma portaria é a opção que vem sendo estudada pelo governo para definir a questão do DRM. O uso deste instrumento teria sido, inclusive, parte do acerto entre ministros e empresários. A explicação possível para tal exigência por parte das TVs estaria na fragilidade jurídica e política de uma portaria. Como pode ser revogada a qualquer instante, basta uma troca de governo para se liberar completamente a aplicação até agora parcial do DRM. É justamente esta a aposta que fazem os radiodifusores: permite-se a instalação da tecnologia bloqueadora (mas sem a autorização para sua 'ativação'), na esperança que o próximo governo libere sua utilização.

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert) disse que não irá se pronunciar sobre o acordo até que uma medida efetiva seja anunciada pelo governo.

Outras justificativas

Nos textos publicados pela Folha e por O Globo, a justificativa para o acordo atribuída ao governo era a do baratemento dos conversores convencionais. O software para a proibição da cópias usado pelo sistema japonês, escolhido para ser o padrão no Brasil, é proprietário. Ou seja, seu uso gera custos para o fabricante, que os repassa ao consumidor.

O preço dos conversores tem sido apontado como o grande responsável pela baixíssima adesão dos usuários à nova tecnologia. O número de conversores e TVs sendo usados é tão pequeno que já se aventa a possibilidade de um novo "lançamento" da TV digital no país.

Porém, os especialistas ouvidos pelo Observatório do Direito à Comunicação lembram que o custo dos aparelhos deve cair naturalmente. Seu preço tende a baixar à como acontece com toda tecnologia recém-lançada: os consumidores tendem a diminuir sua desconfiança em relação à inovação e, ao mesmo tempo, ocorre o constante aprimoramento dos aparelhos e das formas de produção.

Em outras palavras, o preço final do conversor seria apenas uma desculpa para o acordo, assim como o próprio discurso sobre a pirataria. Os empresários da comunicação, tanto radiodifusores quanto grandes produtores de conteúdo, dizem que a inclusão do mecanismo anticópia nos aparelhos convencionais não é necessária porque a qualidade apenas regular de imagem não serviria aos "piratas". Apenas as imagens em alta definição poderiam ser usadas para boas reproduções.

De um lado, a diferenciação não se sustenta legalmente. Como lembram Moncau, do Idec, e Vaz, do MinC, a legislação atual de direito autoral não diferencia os conteúdos pela sua qualidade. "Em versão convencional ou em alta-definição, segue sendo uma única obra audiovisual e, portanto, segue sendo permitida a cópia para uso privado", diz o assessor do ministério.

Porém, qualquer menção à pirataria parece não fazer sentido no atual modelo de negócio da televisão aberta, que é a ponta final da cadeia de exibição das produções de interesse para a pirataria, os filmes. Ou seja, antes de chegar à TV, um filme já foi exibido no cinema, já chegou às locadoras, já foi para a TV paga, e o comércio ilegal só faz sentido quando há interesse dos consumidores.

Outros interesses

O verdadeiro interesse dos radiodifusores estaria nas mudanças que a tecnologia digital pode trazer aos contratos de cessão de direitos de transmissão. Hoje, os contratos exigem exclusividade e proíbem o chamado "simulcasting", ou a transmissão simultânea por outra plataforma. Para que o simulcasting seja permitido, cobra-se mais.

Ocorre que a qualidade da imagem HD e a própria forma de transmissão do conteúdo permite que qualquer usuário com um mínimo de recursos possa conectar seu receptor de TV à internet e fazer a transmissão simultânea. Esta possibilidade aumentaria o preço dos contratos.

Mizukami, da FGV, vai além da descrição do interesse imediato dos radiodifusores. "Proteção anticópia faz parte de sistemas de DRM, evidentemente, mas coibir reprodução é apenas uma dentre outras funções exercidas, a serviço de um objetivo maior. Este objetivo, resumidamente, não é combater a pirataria, mas estabelecer uma infra-estrutura tecnológica que permita a titulares de direitos autorais praticar discriminação de preços de forma abusiva", afirma.

Ou seja, a tecnologia DRM permite todo tipo de controle e monitoramento do conteúdo. Isso permite, como explica o pesquisador da FGV, detalhar hábitos de consumo e ajustar os preços do conteúdo oferecido conforme estes perfis. "Se um consumidor está disposto a pagar cinco reais por uma música, e outro está disposto a pagar 15, cobra-se conforme uma faixa de consumo condizente com a disposição de cada consumidor em pagar determinada quantia, escondendo-se variações díspares de preço por trás de promoções, pacotes ou planos."

Esta não é a realidade de hoje do modelo de negócios da TV aberta, cujo faturamento está baseado na venda de audiências medidas numericamente, com perfis apenas estimados. A tecnologia DRM, no entanto, permite a subversão deste modelo, que pode passar a ser baseado na modalidade pay-per-view. "Os radiodifusores podem até negar que essa seja a intenção, mas estudando-se alguns dos padrões técnicos estabelecidos internacionalmente, é impossível chegar a uma conclusão diversa do que a de que algumas infra-estruturas existentes de DRM são concebidas exatamente para este tipo de uso", conclui Mizukami.