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TV Brasil não entrevista todos os presidenciáveis e evidencia contradições das mídias públicas

Na primeira eleição para a presidência da sua curta história, a Empresa Brasil de Comunicação buscou distinguir-se da mídia tradicional ao desenvolver e publicizar Plano Editoral especial para o processo. Porém, assim como ocorre nos veículos privados, seis candidatos à Presidência da República não encontram espaço para apresentarem suas plataformas de forma equivalente aos três melhores posicionados nas pesquisas eleitorais.

As contradições que aproximam a EBC da abordagem tradicional das TVs comerciais começam ainda no Plano Editorial, aprovado pelo Conselho Curador da empresa, mas foram explicitadas com a gravação de entrevistas dos presidenciáveis para o programa 3 a 1, da TV Brasil. Por decisão do Departamento de Jornalismo, foram convidados para as edições especiais do programa apenas Dilma Roussef (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV).

O PSOL, do candidato Plínio de Arruda Sampaio, questionou a escolha da EBC junto ao Tribunal Superior Eleitoral. Para o partido, a TV pública contraria o espírito da lei eleitoral ao não estender o convite a, no mínimo, os candidatos cujos partidos possuem representação no Congresso Nacional. Este é o critério estabelecido pela lei para a realização de debates eleitorais.

O TSE negou o pedido de liminar e o 3 a 1 foi ao ar entre quarta-feira e sexta-feira (21 a 23). Para o ministro Henrique Neves, não se pode obrigar emissoras de rádio e TV a entrevistar os candidatos. Neves interpreta como válido o critério jornalístico de que o espaço dedicado a cada candidato seja proporcional ao seu desempenho em pesquisas eleitorais.

O PSOL divulgou o texto de carta enviada aos membros do Conselho Curador da EBC em que afirma que a lei eleitoral tenta “preservar a pluralidade de pontos de vista no processo democrático” com o critério da representação no Congresso e que este “princípio, especialmente em uma emissora pública, deveria ser estendido ao conjunto da cobertura jornalistica, pois é este, sem dúvida, o espírito da legislação eleitoral”.

A carta também questiona o manual, proposto pela direção da EBC e aprovado pelo Conselho Curador, apontando o contra-senso de considerar como critério a competitividade do candidato e desconsiderar o fato de ser, justamente, a cobertura da mídia um fator para que este possa expor suas propostas ao conjunto da população. "Como poderia um candidato se tornar 'competitivo' em uma posição de invisibilidade nos veículos de comunicação públicos e privados?", questiona o partido.

Emissoras públicas

A exclusão dos candidatos que não aparecem nos primeiros lugares nas pesquisas eleitorais é prática que se alastra entre as emissoras públicas. O candidato Plínio de Arruda Sampaio reclama ter recebido também tratamento desproporcional da TV Cultura de São Paulo. De acordo com a assessoria do candidato, o candidato do PSOL foi convidado a participar da série de entrevistas com os candidatos no Roda Viva, caso abdicasse ficar de fora de debate organizado pelo portal UOL e Folha de S. Paulo, que também ia ser transmitido na TV pública paulista. Como o PSOL não aceitou o acordo, a parceria da TV Cultura e Uol não vingou. Para a candidatura de Plínio, esse caso denota promiscuidade na relação entre o público e privado.

Já as regras estabelecidas pela EBC são amplificadas através das emissoras estaduais da Rede Pública Nacional de Televisão. O Plano Editorial da EBC também é seguido pelas TVs associadas. A presidente da Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec), Regina Lima, lembra que as TVs vinculadas aos governos estaduais recebem os manuais da EBC como guia para cobertura eleitoral, além de serem obrigadas pela legislação a retirarem qualquer propaganda vinculada ao projeto do mandatários do poder executivo.

Plano editorial

As contradições que aproximam a EBC da abordagem tradicional das Tv's comerciais começam ainda no Plano Editorial, quando os Telejornais e Radiojornais são orientados a dar: “Tratamento isônomico apenas aos candidatos realmente competitivos, segundo o resultado das pesquisas e expressão política de suas das coligações, registrando a movimentação dos candidatos 'nanicos' quandro produzirem atos e fatos merecedores de registro".

O documento ressalta abordagem complementar ao conjunto dos veículos nacionais com ênfase na pluralidade e criação de oportunidades de debates e discussão para o eleitor formar sua própria opinião. Pra isso, as diretrizes da EBC apontam cobertura prioritariamente temática, espaço para as eleições legislativas, isonomia ao tratar os candidatos e não adoção das pesquisas para pautar o noticiário.

Nas TVs comerciais de sinal aberto, além da Record News, que fará retransmissão das sabatinas com os nove candidatos do portal R7, a MTV também inova com a presença de todo os candidatos num debate. SBT, Record, Band e Globo fazem cobertura tradicional. Reportagens diárias com ênfase nos três candidatos bem posicionados nas pesquisas e debates com os quatro com representação na Câmara Federal. No caso do SBT, o debate para presidência só ocorre se houver segundo turno.

PSTU e PRTB

A candidatura de Zé Maria (PSTU) lembra que teve contato recente com a TV Brasil nos bastidores da sabatina do portal R7, que será retransmitido na Record News. Na ocasião, a TV Brasil pegou os contatos do candidato e ficou de marcar uma entrevista. Fora isso, não fez qualquer menção especial aos veículos da EBC. Quanto aos debates, o PSTU ficará de fora por não ter nenhum parlamentar na Câmara Federal. A assessoria de Zé Maria ressalta que a cobertura dos meios de comunicação reflete o domínio do poder econômico e que do ponto de vista histórico a internet é a que propicia maior espaço a plataforma.

O candidato a presidência Levy Fidelix (PRTB) ainda não teve qualquer contato com a TV Brasil, segundo a assessoria. Levy já atuou como apresentador de TV e diretor de criação em agências de publicidade e devido a experiência aposta num canal direto com o eleitor: programa de tevê nas segundas e sextas via internet. Por enquanto o programa está fora do ar porque a legislação não permite a transmissão via site do PRTB e o processo de migração do site ainda está em curso.

A candidatura de Levy Fidelix encara como dúbia a mini-reforma eleitoral para internet: se por um lado, ampliou as possibilidades de relação com o eleitor, por outro continuou a favorecer as principais candidaturas, em especial nos grandes portais. O Yahoo, Msn, IG e Terra, por exemplo, vão realizar debate em conjunto apenas com os três candidatos mais bem posicionados nas pesquisas. O mesmo ocorre com o UOL, que será retransmitido por mais 14 sites pelo país.

Limites

O professor aposentado da Universidade de Brasília (UNB) e articulista da Carta Maior, Venício Artur de Lima, defende que a TV Pública não tem razão de existir, caso não caminhe para um modelo distinto da mídia privada. “A mídia pública só se justifica como alternativa de qualidade. Cobrindo o que não é coberto, oferecendo o equilíbrio”, diz. Porém o professor evitou discutir o caso da EBC por não estar realizando um acompanhamento sistemático das eleições 2010.

Lima tenta se colocar na posição de chefe de reportagem ou editor da TV pública, a fim de construir mecanismos distintos para a cobertura eleitoral: 'Deve ser um problema. É muito complicado para qualquer meio ter condições profissionais para fazer a mesma cobertura dos candidatos. Não tem como oferecer o mesmo tempo para todos. Mas deve haver um esforço deliberado para cobrir os pequenos candidatos”.

A influência dos veículos tradicionais na agenda política nacional está diminuindo para Venício. “Temos uma sociedade mais organizada e consciente da importância da mídia”, comenta. O professor atesta que ao contrário da década de 1980, quando a principal fonte de informação era a tevê, hoje a internet ajuda a dispersar tais fontes. A grande procura o 1º Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas é um exemplo citado por Lima para ressaltar a influência da web.

TV digital móvel demorará alguns anos para ser popular

{mosimage}Apesar de a mobilidade ser uma das promessas associadas pelo governo à escolha do padrão japonês ISDB como base do Sistema Brasileiro de TV Digital, o uso de aparelhos portáteis que recebem sinal de TV digital começou a crescer um pouco mais significativamente no país este ano. Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), no último trimestre houve um crescimento de 400% na venda de celulares com conversores digitais. Mesmo assim, o número total de terminais com a nova função é baixo. A projeção da Abinee é que existam 500 mil celulares em uso que recebem o sinal de TV digital. Número ainda pouco representativo perto dos 183,7 milhões de assinantes de telefonia móvel que existem no país.

Uma das dificuldades para a massificação da nova tecnologia é o custo da inclusão do sistema de recepção nos aparelhos. O modelo de aparelho que a LG lançou em junho deste ano que vem com o Ginga (middleware brasileiro que permite a interatividade) sai por cerca de R$ 700. Segundo o diretor da Abinee e da Nokia Luiz Cláudio Carneiro parte da explicação para o preço final tão alto é uma dificuldade tecnológica para a aplicação do conversor digital em aparelhos com telas pequenas, mais baratos.

Ele acredita que esse problema deve ser contornado em breve e que a partir do próximo ano começarão a ser comercializados celulares mais baratos com a nova funcionalidade. Sua expectativa é que eles cheguem a um valor R$ 200 para o consumidor. Mesmo que este preço se torne realidade, a popularização da TV digital móvel vai depender da oferta das emissoras do sinal digital.

O primeiro celular no Brasil com recepção do sinal digital foi lançado em 2008. Porém, apenas em junho deste ano a indústria (LG) colocou no mercado um aparelho com recursos interativos – com o Ginga embarcado. E ainda assim, para chegar ao valor de lançamento de R$ 700, a LG não incorporou ao modelo a conectividade de Terceira Geração (3G), o que reduz as possibilidades de interação via internet para o usuário.

A pouca agilidade dos fabricantes em produzir aparelhos com receptores de TV digital demonstra que ainda não se pode perceber claramente o modelo de negócios que a indústria do setor quer adotar. Talvez essa tenha sido a motivação para que o governo federal resolvesse estabelecer uma política para tentar massificar o novo serviço nos celulares.

Política industrial

Inicialmente, foi criada uma regra que alterou as normas dos Processos Produtivos Básicos definidos para a fabricação de celulares no país. A Portaria Interministerial 237/2008 definia que, a partir de janeiro deste ano, pelo menos 5% da produção nacional de equipamentos que recebem incentivos fiscais da Lei de Informática ou do Pólo Industrial de Manaus deveria vir com um receptor de TV digital embutido, incluindo o Ginga.

No entanto, alguns fabricantes de celulares reclamaram desse percentual e o governo reviu sua posição, criando uma nova regra para a questão. Desde dezembro de 2009, o que está valendo é a Portaria Interministerial 223. A nova regra isenta as empresas de produzirem uma cota mínima de celulares com receptor digital este ano. Só vai cobrar tal ação em 2012, quando os fabricantes terão que cumprir o índice de 3% de aparelhos com a nova função. A partir de janeiro de 2013 em diante, a porcentagem sobe para 5%.

A nova portaria também retira a obrigação da fabricação dos terminais móveis com o Ginga. A nova portaria diz apenas que “os sinais de TV digital deverão ser compatíveis com as especificações e normas do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (SBTVD), inclusive com o middleware/Ginga, de acordo com norma brasileira (NBR) aplicável”. “As restrições ficaram por conta da conclusão de normas no uso do middleware que estão sendo propostas pelo Fórum do SBTVD”, explica o secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, Augusto Cesar Gadelha.

Em relação à flexibilização dos prazos e percentuais, o secretário diz que isso ocorreu em função de reivindicação da indústria. “Alguns fabricantes questionaram a exigência do PPB por falta de capacidade técnica de implementação e de interesse das operadoras em comercializar o aparelho com recepção de TV digital aberta nas quantidades relativas aos percentuais estabelecidos. Logo, fez-se necessário rever a portaria”, afirma Gadelha.

O integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Arthur William acredita que o governo não deveria ter revisto a portaria. “Esse prazo foi muito flexibilizado. Ficou ruim porque as pessoas querem TV digital no celular”, diz ele, lembrando que enquanto isso a população tem recorrido aos celulares de marcas menos conhecidas, geralmente vindos da China e de baixa qualidade.

Convergência

O celular vem se tornando uma das principais plataformas digitais convergentes, com a TV digital sendo mais uma das tantas funções que vem sendo acopladas aos aparelhos. O mês de dezembro do ano passado marcou o momento em que o tráfego mundial de dados nos aparelhos móveis – como e-mail, vídeos e músicas – ultrapassou o volume de tráfego de voz, segundo informações da Ericsson, maior fornecedora do mundo de equipamentos para redes.

Com isso, as operadoras têm perdido as receitas advindas do uso da voz no celular, que ainda é a maior fonte de lucros delas. Como esse é um movimento que dificilmente terá volta, as teles têm cobrado preços elevados pelos serviços de internet móvel. Talvez por isso Luiz Cláudio, da Abinee, entenda que a agregação de serviços seja positiva, na medida em que também aumenta o desejo das pessoas de comprarem mais e melhores aparelhos para usarem novas funções.

Dessa forma, a tendência é que as operadoras de telefonia móvel criem mecanismos de cobrança de serviços que venham a ser criados com a TV digital nos aparelhos. É possível imaginar ações semelhantes às que tem sido desenvolvidas com as emissoras de TV aberta e que incentivam o uso de SMS pelos cidadãos em caso de promoções, por exemplo.

É o que prevê o consultor de Mercado e Pesquisador da área de Tecnologia de Serviços do CPqD, Sidney Longo. “Com o surgimento dos celulares com TV digital e o middleware Ginga, as aplicações interativas – votações, solicitações de vídeos adicionais, etc. – acontecerão com mais frequencia e as operadoras vão ganhar com receitas de dados das interações via o canal de retorno da operadora”, diz. Resta saber se esse não será um impeditivo para que a população tenha o recurso em seus celulares.

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Preços e desinformação desestimulam compra de TV digital

{mosimage}Em uma rápida conversa com consumidores em um shopping center é possível perceber que a TV digital ainda não está “na boca do povo”. Apesar de televisores imensos com alta qualidade de imagens terem ganhado ares de “sonho de consumo” em peças de publicidade e nas próprias lojas, muitas pessoas ainda não se sentem estimuladas o bastante para fazer este gasto. A desinformação, a falta de novidades em relação à TV analógica e os preços elevados dos aparelhos parecem ser os principais motivos para este desinteresse.

A servidora pública Débora de Oliveira Lira, por exemplo, comprou uma TV de LCD há três anos e não vê motivos para trocar seu televisor por um novo. Por isso, ela espera que chegue às lojas os conversores externos, opção mais barata em relação a uma nova TV com o receptor digital. Ela acredita que a procura pela nova tecnologia tem sido baixa porque, além dos altos preços dos televisores, as pessoas ainda não compreendem a diferença da tecnologia digital para a televisão analógica. “A imagem melhora, mas a gente não se sente estimulado”, diz.

Quando da criação do Sistema Brasileiro de TV Digital, em 2006, o governo brasileiro estipulou – e reafirmou esta semana – que as emissoras devem desligar suas transmissões analógicas em 2016. Para a servidora pública, as pessoas só vão começar a se interessar de fato pela TV digital quando esse prazo estiver próximo. É o que Débora prevê que acontecerá com ela mesma, já que considera a imagem de sua atual TV suficientemente boa.

Mas mesmo quem quer melhorar a qualidade da imagem decide adiar a troca devido ao preço da nova tecnologia. “Tenho interesse. A imagem é bem mais nítida”, afirma a cabeleireira Leda Márcia. No entanto, ela ainda não teve condições de comprar um televisor com conversor, que sai por volta de R$ 2 mil nas versões mais simples.

Além disso, tanto Débora quanto Leda não sabem muito bem quais seriam as novidades da TV digital. E elas estão longe de serem casos isolados. Até mesmo quem já comprou uma televisão com conversor não está entendendo bem as diferenças da nova tecnologia. “É a moda”, diz o motorista Sérgio da Silva, que se motivou a pagar R$ 3.700 pela nova TV por causa da Copa do Mundo.

Gerente de uma loja de departamentos situada em um shopping de Brasília, Neide Ribeiro tem percebido a desinformação das pessoas em relação ao funcionamento da TV digital. Ela diz, por exemplo, que muita gente interessada em comprar um televisor com conversor mora em cidades aonde o sinal digital ainda nem chegou.

No dia a dia da loja, Neide também tem visto que a procura tem sido maior por televisões com conversor embutido. São poucas as pessoas, por exemplo, que aproveitam a baixa dos preços das televisões de LCD analógicas, pensando em adquirir um conversor externo depois. A diferença de preço entre os dois televisores, com e sem conversor, chega a R$ 800,00 em sua loja.

Na loja onde Neide trabalha, não existem conversores externos à venda. A gerente explica que isso aconteceu porque os que foram comercializados anteriormente apresentaram problemas técnicos. Os aparelhos não estavam lendo corretamente o sinal digital nos televisores de LCD, gerando muitas reclamações dos compradores.

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Promessa da TV digital, interatividade ainda engatinha

{mosimage}Passados mais de dois anos da primeira transmissão da TV digital no país, um dos principais recursos a ela associados, a interatividade, só agora começa a fazer parte dos aparelhos de TV e celulares do país, ainda de forma tímida. Apenas este ano algumas empresas começaram a colocar no mercado equipamentos (TV e celular) que permitem acessar os conteúdos interativos que vêm sendo testadas pelas emissoras. Além disso, quem se antecipou em comprar um conversor, terá de trocá-lo se quiser interagir com os aplicativos oferecidos. A maioria dos set top box produzidos até agora não possuíam o Ginga, programa desenvolvido no Brasil que possibilita a interatividade.

As pesquisas para o desenvolvimento do Ginga são antigas, o que significa que a interatividade na TV brasileira poderia estar em um estágio mais avançado de implantação. Porém, isso não aconteceu por problemas relacionados à propriedade intelectual.

O Ginga é um middleware, ou seja, um sistema que faz a mediação entre os diversos tipos de aplicativos que as emissoras criarão para ofertar conteúdos interativos e o sistema operacional do SBTVD. A versão original do sistema, o Ginga-J, é baseado na linguagem Java e possuía parte de sua composição advinda de software proprietário. Por isso, o governo brasileiro gastou um bom tempo tentando encontrar uma forma de não utilizar a parte proprietária até conseguir. Com isso, se descarta o pagamento de royalties e os aparelhos digitais tornam-se mais baratos. Diante desta demanda, os pesquisadores desenvolveram outro subsistema, o Ginga-NCL.

Como a indústria lucra mais vendendo televisões com conversores embutidos, não tem havido investimento em desenvolver e ofertar conversores (as conhecidas caixinhas) com o Ginga instalado. Sendo assim, o recurso da interatividade ainda é oferecido apenas àqueles que conseguiram comprar as caras televisões que vem com a funcionalidade. E mesmo os que fizeram esse investimento não podem desfrutar tanto da novidade, pois são poucas as emissoras que produzem aplicativos de interação com o telespectador.

As poucas emissoras que apresentam o recurso estão visando funcionalidades que possam agregar valor às suas programações. A Globo, por exemplo, ofereceu ao telespectador o acesso a tabelas, dados dos jogos em tempo real e resultados da Copa do Mundo. Para o Big Brother Brasil, um de seus programas de maior audiência, a interatividade vai possibilitar votar na eliminação de participantes ou acessar informações sobre eles. Nas novelas, está prevista a possibilidade do usuário acessar dados sobre os capítulos atual e anterior, além de galeria de fotos.

A utilização do canal de retorno, como se vê, se dá de forma bastante restrita. Potencialmente, a interação através do sistema digital de TV poderia se tornar um elemento da política de inclusão digital, com o canal de retorno sendo usado inclusive para o acesso à internet. Outra possibilidade, é a utilização do recurso para serviços de governo eletrônico. Não há indicações, ainda, de como será o uso destes recursos pelas televisões do campo público, que dependem do projeto da Rede Nacional de Televisão Pública Digital (RNTPD) para chegarem a população via sinal digital [saiba mais].

Ritmo

“Foi muito lento o processo. Nós poderíamos ter feito como na Argentina, mas não fizemos”, diz o professor de Informática da PUC-Rio Luiz Fernando Soares, que é um dos coordenadores do desenvolvimento do Ginga. No país vizinho, a política de implantação da TV digital inclui a distribuição de conversores para a população, uma tentativa de massificar rapidamente a nova tecnologia. E neles está embarcado o Ginga (apenas o subsistema NCL, por enquanto).

Para o professor, seria importante que se tomassem medidas para que a indústria produzisse conversores com o Ginga. “Eles [as empresas] acham que o conversor não dá lucro. O governo é que deveria chegar nessa hora e dizer que tem que ter [o Ginga] no conversor”, critica Luiz Soares. Ele acredita que, se isso não acontecer em breve, é possível que os set top boxes comecem a ser importados.

O governo parece que está começando a se mexer nesse sentido. Em dezembro do ano passado, editou uma portaria interministerial que determina que cada fabricante de celular possua uma cota obrigatória de 5% de terminais produzidos localmente com o Sistema Brasileiro de TV Digital e o Ginga NCL.

Perfis

O Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (Fórum SBTVD) criou dois módulos de operação do Ginga. Em ambos, a interatividade é possível de forma equivalente. No entanto, um deles, mais simples, não possui a mesma capacidade de receber mídias adicionais. Ele só possui interações em áudio e não em vídeo (como a divisão da tela em duas ou mais programações). Essa diferenciação foi pensada para viabilizar a fabricação de conversores mais baratos.

“Foi para começar logo. Os perfis mais avançados exigem mais capacidade dos equipamentos. Com o tempo, isso vai acontecendo”, explica Liliana Nakonechnyj, coordenadora do módulo de promoção do Fórum SBTVD. No entanto, como o perfil mais avançado deve vir acoplado em aparelhos mais caros, há o risco de essa política criar diferentes categorias de usuários, a partir do poder de compra de cada um.

TV por assinatura

Outro imbróglio que precisa ser equacionado na interatividade brasileira é adequar o Ginga, produzido para o sistema de TV aberta, para a TV por assinatura, que utiliza outro padrão tecnológico de interação, mais simples. “Não há compatibilidade. Se a TV por assinatura quiser ter aplicação das emissoras, vai ter que botar o Ginga dentro da caixinha (set top box)”, diz o professor Luiz Fernando Soares, da PUC-Rio. A caixinha, nesse caso, seria a atualmente utilizada pelas operadoras da TV paga.

O presidente da Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA), Alexandre Annenberg, não parece estar muito preocupado com essa falta de sintonia entre os sistemas. Para ele, é certo que não haverá compatibilidade. “Não vamos fazer nada além do que aquilo que a gente já faz”, afirma. Sua aposta é que as operadoras da TV paga produzirão recursos cada vez mais sofisticados de interatividade, que, a seu ver, serão mais interessantes do que os aplicativos das emissoras abertas. “A interatividade num sistema aberto tem sempre limitações razoáveis”, acredita. Em outras palavras, o setor de TV paga aposta na competição com o sistema aberto.

Essa incompatibilidade pode ser ruim para os usuários, na opinião do professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro Marcos Dantas. “O menor dos prejuízos é ser necessário ter mais de um conversor”, diz. Ele explica que o padrão adotado na Europa, o DVB, permite que apenas um conversor seja utilizado para todas as plataformas – TV aberta e paga – e para operadoras diferentes.

Além disso, existe a possibilidade de as emissoras, por falta de estrutura, não produzirem aplicativos diferentes para os canais que oferecem na TV aberta e para os que estão na TV por assinatura.

Para Arthur William, integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, isso faria com que a produção da interatividade seja feita apenas para os canais fechados, que é mais simples, e seja adaptada para as programações abertas. Mais um dos desafios que deverão ser enfrentados para que a tão propagada interatividade do sistema “nipo-brasileiro” seja realmente um diferencial positivo da nova tecnologia e acessível a toda a população de forma igual.

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Grupo de trabalho do novo marco das comunicações sai nos próximos dias

O presidente Lula deve publicar até o final desta semana o decreto criando o grupo de trabalho que desenvolverá um anteprojeto de marco regulatório para as comunicações. O trabalho, a ser coordenado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, é parte do conjunto de ações pós-Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), e pretende deixar uma proposta de legislação a ser encaminhada pelo próximo governo ao Congresso.

O escopo e a amplitude da nova legislação serão definidos pelo grupo de trabalho, mas algumas coisas são tidas como certas: a primeira é que o marco regulatório da radiodifusão e das telecomunicações está completamente defasado. Outra certeza é que a nova proposta trará, portanto, um marco regulatório convergente, que dê conta dos problemas enfrentados pelas empresas de radiodifusão, pelas empresas de telecomunicações e Internet e pela sociedade civil não-empresarial em função da convergência tecnológica e dos meios digitais. Estes desafios, enumerados nos debates da Confecom, serão abordados de forma mais sistematizada no anteprojeto. Outra questão que deve voltar à tona é sobre a ampliação da atuação regulatória da Anatel, que poderia abarcar a radiodifusão, justamente por conta da convergência de serviços e do gerenciamento do espectro. Hoje, a radiodifusão é regulada pelo Ministério das Comunicações.

O governo avalia que o PLC 116/2010 (antigo PL 29/2007), que está em tramitação no Senado e cria novas regras para o setor de TV por assinatura, é limitado a problemas pontuais, e não dá conta do conjunto de temas tratados na Confecom.

O grupo de trabalho deverá ainda produzir mais dois anteprojetos. Um deles visa disciplinar uma política para as TVs públicas de modo geral, já que a lei existente hoje vale apenas para a EBC. O outro anteprojeto é para regulamentar o artigo 221 da Constituição, que trata da produção regional e local. O grupo de trabalho avaliará se esse assunto deverá ser abordado dentro do marco legal das comunicações, se será aproveitado o projeto da ex-deputada Jandira Feghali que tramita desde 1991, já foi aprovado na Câmara e está engavetado no Senado, ou se será proposto algo novo.

Na avaliação do governo, questões específicas sobre políticas de massificação da banda larga já estão bem tratadas no PNBL e não precisarão ser tratadas nos anteprojetos de lei. Da mesma forma, questões de direito autoral já são objetos de projetos de lei elaborados, assim como o marco civil da Internet.