Prática ilegal de subconcessão será debatida na Câmara

Reproduzido do Tela Viva News

A Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) aprovou nesta quarta-feira, 18, requerimento da deputada Luiza Erundina (PSB/SP) para a realização de uma audiência pública onde será debatida a prática da subconcessão por empresas de radiodifusão. Esta prática consiste em arrendar a concessão concedida pela União a um terceiro, o que não é permitido pela lei. Existem suspeitas de que algumas empresas estariam agindo ilegalmente, sublocando as outorgas.

O estopim para a realização da audiência é um parecer do jurista Fábio Konder Comparato pela OAB onde o especialista conclui que a prática é irregular. "O concessionário de serviço público não pode, de forma alguma, arrendar ou alienar a terceiro sua posição de delegatário do Poder Público", conclui Comparato em seu parecer. O documento foi enviado à CCTCI e alertou para a necessidade de uma discussão mais ampla sobre o tema.

O jurista, que preside a Comissão Nacional de Defesa da República e da Democracia da OAB, encabeça a lista de especialistas que devem ser convidados a debater o assunto, em data ainda a ser agendada. É esperada a presença também do procurador da República Domingos Sávio Dresch da Silveira; Bráulio Araújo, representante do Coletivo Intervozes; Guilherme Stoliar, diretor de rede do SBT; Alexandre Raposo, presidente da Rede Record; Evandro Guimarães, vice-presidente das Organizações Globo e conselheiro da Abert; e Flávio Lara Resende, diretor administrativo da Abra. O Ministério das Comunicações também será convidado a enviar um representante para o debate.

(Mariana Mazza)

Pedido de vista adia votação do projeto sobre TV por assinatura

Reproduzido do Portal da Câmara dos Deputados

A votação do projeto que estabelece novas regras para a televisão por assinatura (PL 29/07) na Comissão de Ciência e Tecnologia foi adiada para a próxima semana. Como já era esperado pelo relator da proposta, deputado Paulo Henrique Lustosa (PMDB-CE), um pedido de vista adiou a votação.

O pedido de vista foi apresentado pelos deputados Ratinho Júnior (PSC-PR), Índio da Costa (DEM-RJ) e Solange Amaral (DEM-RJ).

(Geórgia Moraes – Edição – Natalia Doederlein)

Proposta de debate sobre renovação de outorgas é rejeitada na Câmara

Reproduzido do Tela Viva News

A Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) decidiu nesta quarta-feira, 18, que não debaterá em audiência pública a renovação das concessões de radiodifusão para a Rede Record, RBS, TV Cultura e duas afiliadas da Rede Globo, a TV Tocantins e a TV Bauru. A sugestão de debater as renovações havia partido da deputada Luiza Erundina (PSB/SP), parlamentar bastante atuante na área de radiodifusão. Mas o requerimento acabou sendo rejeitado por que a deputada não é relatora de nenhum dos processos em tramitação, denominados TVRs.

Em seu requerimento, Erundina argumentava sobre a necessidade de um debate sobre o tema até mesmo para municiar os relatores das TVRs. No entanto, um ato normativo editado a partir do trabalho da subcomissão de radiodifusão, presidida pela própria Erundina, colocou por terra a iniciativa. O ato normativo nº 1 define que os relatores das TVRs podem, excepcionalmente, requerer a realização de audiências sobre os processos, mas não faz qualquer citação a pedidos dos demais parlamentares. Com base neste item, o requerimento foi rejeitado por 21 votos contra três favoráveis e uma abstenção.

Para apaziguar a situação, o deputado Gilmar Machado (PT/MG), declarou que pretende apresentar um requerimento de realização de uma audiência que abarque todo o processo de renovação das concessões, escapando da polêmica sobre o debate de outorgas específicas que estão em tramitação. A iniciativa deve ser confirmada na próxima semana, segundo o deputado.

(Mariana Mazza)

Etapa mineira encaminha 700 propostas à Confecom

Ansiada por muitos e temida por alguns, a Conferência Estadual de Comunicação de Minas Gerais (Confecom-MG), realizada entre os dias 13 e 15 de novembro, apesar de alguns problemas, foi um passo importante para a democratização da comunicação no Brasil. Movimentos sociais, empresários e poder público reuniram-se, por três dias, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, para discutir políticas públicas de comunicação e falar livremente sobre a democratização da mídia no Brasil.

A Conferência Estadual, transmitida ao vivo pela TV Assembleia para todo o estado e também via internet, elegeu 64 delegados da sociedade civil, 64 do segmento empresarial e 16 do poder público. Minas Gerais será a segunda maior delegação na Conferência Nacional de Comunicação, que será realizada entre os dias 14 e 17 de dezembro, em Brasília, atrás apenas da delegação de São Paulo.

Quase 700 propostas foram encaminhadas à Comissão Organizadora Nacional. Foram aprovadas 16 das 19 moções apresentadas, todas elas pelos representantes dos movimentos sociais. Entre elas, destaca-se a moção que condena a censura à imprensa mineira pelo Governo Estadual, aprovada por contraste visual. Entre as propostas discutidas, destacam-se as que procuram garantir a universalização do acesso à internet, as que criam conselhos municipais e estaduais de comunicação e as que garantem controle público e social da comunicação.

A organização do evento foi bastante elogiada pelo presidente da Comissão Organizadora Nacional, Marcelo Bechara, mineiro, que participou dos três dias do evento em Belo Horizonte. “O espírito de participação democrática dos três segmentos aqui em Minas está servindo de exemplo para o resto do Brasil”, comentou Bechara acerca do bom entendimento entre empresários, poder público e movimentos sociais durante a realização de uma reunião extraordinária da Comissão Organizadora Estadual de Minas Gerais (COE-MG), feita no primeiro dia do evento, para solucionar problemas no credenciamento de participantes da sociedade civil.

Apesar da avaliação positiva de Bechara, o governo do estado não garantiu passagem nem hospedagem para os participantes do interior, o que prejudicou a mobilização das pessoas. Nesse sentido, foi proposta uma moção – não aprovada – sobre a falta de apoio à participação dos participantes do interior do estado.

Votação de moções foi a verdadeira conferência

Apenas na plenária final, no domingo (15), foi possível vislumbrar o embate entre movimentos sociais e o que na Confecom é definido como "sociedade civil empresarial". Impedidos de votar propostas pelo regimento elaborado pela Comissão Organizadora Nacional, que definiu que as etapas estaduais apenas reunissem as proposições que serão levadas para apreciação dos delegados em Brasília, restou aos participantes da Confecom-MG debater e votar apenas as moções.

O murmurinho, os gritos e a agitação tomaram conta do plenário da Assembleia Legislativa de Minas Gerais enquanto as propostas de moções eram defendidas pelos representantes dos movimentos sociais. Os empresários não apresentaram moções e tiveram pouca participação na votação dessas. Pouquíssimos fizeram defesas contrárias às moções e grande parte delas foi vencida por contraste visual.

Aos brados de "abaixo a censura", aprovou-se a moção contra o cerceamento da imprensa pelo governo do estado de Minas Gerais. O governo de Aécio Neves é acusado em diversos sites da web e em vídeos do Youtube de censurar e mandar embora jornalistas de veículos mineiros. Perguntado sobre a aprovação desta moção, Hugo Teixeira, representante da Superintendência Central de Imprensa do governo do estado, apenas disse: "Você realmente acredita que nós mandamos essas pessoas embora? Não há nenhum dado concreto que prove isso."

Apresentada pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, a moção de repúdio à criminalização dos movimentos sociais e em favor da reforma agrária também foi aprovada em plenário. Outra moção que movimentou o plenário foi a que pedia a transparência nos gastos realizados pelo governo do estado para a realização da Confecom-MG.

Os movimentos sociais perderam na votação de apenas três moções e apenas uma foi ganha por unanimidade: a moção em favor da participação da sociedade nos Conselhos Gestores da TV Minas e Rádio Inconfidência.

Metodologia ruim, debates prejudicados

A série de exigências e resoluções propostas pela Comissão Organizadora Nacional não permitiram que, durante as reuniões dos grupos de trabalho, se estabelecesse um debate real entre os segmentos que participaram da conferência. As mais de mil propostas encaminhadas à Conferência Estadual de Minas Gerais pelas etapas municipais e intermunicipais não podiam ser alteradas, melhoradas ou suprimidas. Se qualquer alteração fosse feita, a proposta anterior e a reformulada precisavam ser encaminhadas.

Todas as propostas encaminhadas, por uma decisão da COE-MG, tiveram de ser lidas no início dos trabalhos, o que tomou bastante tempo das discussões. Dos três grupos, dois só terminaram seus trabalhos após as 19h, somando mais de cinco horas de atividade. Além disso, os três GTs tinham grande número de participantes (mais de 100 cada um), o que inviabilizou a possibilidade de fala para todos os que estiveram presentes.

Durante os debates do Grupo de Trabalho 3, que tratou do eixo “Cidadania: direitos e deveres”, houve uma tentativa dos presentes de garantir a soberania do grupo e permitir que as propostas alteradas ou suprimidas por consenso prevalecessem sobre as originais. No entanto, o representante dos empresários na mesa de condução do GT foi contrário à proposta apresentada.

Diante da insistência dos demais presentes, que queriam garantir a alteração e reformulação a despeito das propostas originais, quatro representantes da “sociedade civil empresarial” que se encontravam no GT informaram que impediriam qualquer consenso, o que inviabilizou uma sistematização adequada das propostas.

A sistematização e eliminação de propostas equivalentes ficará a cargo da Fundação Getúlio Vargas, contratada pelo governo federal para auxiliar na organização da Conferência Nacional.

Eleição de delegados

Contrastando com a presteza e facilidade com que empresários e poder público escolheram seus delegados, a “sociedade civil não empresarial” só conseguiu apresentar seus nomes nos minutos finais da Confecom-MG.

A escolha foi feita a partir de uma chapa única, baseada em critérios regionais, representatividade das entidades e participação na construção da conferência, apresentada por Kerison Lopes, do Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais. Pelo menos três reuniões envolvendo os participantes dos movimentos sociais foram realizadas para se chegar a um acordo acerca dos nomes e dos critérios. Foi grande a disputa entre regiões do interior e mesmo entre os diversos segmentos, que queriam garantir a maior participação de seus representantes.

Jornalistas e comunicadores comunitários terão o maior peso na chapa mineira. Os representantes do Triângulo Mineiro, que tinham a maior representação do interior, negociaram até o final para conseguir oito representantes, o que dificultou o processo de finalização da chapa.

Ao final, com a desistência de dois delegados que já constavam na chapa, mas que preferiram deixar de participar para garantir a unidade dos movimentos sociais (havia o risco de se dividir os participantes e fazer uma disputa de chapas no momento final) chegou-se a um consenso e os movimentos sociais apresentaram os nomes dos delegados que representarão a “sociedade civil não empresarial” em Brasília.

*** SAIBA MAIS: ***

Resumo de algumas propostas dos eixos:

Eixo “Meios de Produção”:

  • regulamentação da distribuição da verba destinada à publicidade e propaganda oficial dos governos municipal, estadual e federal, garantindo a reserva de 30% para rádios e TVs comunitárias, jornais de bairro de baixa tiragem, internet e outras mídias comunitárias.

  • garantia de subsídio estatal para a aquisição de equipamentos para as rádios comunitárias através de linha de crédito ou subsídio direto.

  • regulamentação de artigo da Constituição que estabelece a regionalização da produção cultural, artística e jornalística.

  • criação do Fundo Nacional de Comunicação Comunitária, financiado com impostos a serem cobrados das empresas comerciais de comunicação.

  • acesso gratuito e universal de banda larga para todos os brasileiros.

  • elaboração de novo marco regulatório para a televisão por assinatura que contemple a eliminação das restrições contidas na Lei Geral de Telecomunicações que impedem a prestação do serviço de TV a cabo por parte das prestadoras de serviços de telecomunicações.

  • estabelecimento de uma Rede Única de Comunicação Pública para a Rede Minas e a Rádio Inconfidência, com participação efetiva da sociedade civil em conselhos de gestão e editorial e, principalmente, com autonomia para gestão dos recursos previstos em lei.

  • observação, no ato de outorga de radiodifusão, do impedimento do controle, gerência ou direção de empresa por pessoas físicas investidas em cargo público ou no gozo de imunidade parlamentar ou de foro especial, e seus parentes até 3º grau, em nome próprio ou de terceiros.

  • definição de critérios legais para a publicidade oficial; reserva de, no mínimo, 30% das verbas de publicidade oficial para veículos de baixa circulação comercial e não-comercial.

  • ampliação e fortalecimento das rádios comunitárias.

  • valorização e implantação dos conselhos de comunicação federal, estadual e municipal.

  • estabelecimento de uma política estadual de comunicação com foco no controle público dos meios de comunicação, por meio de um projeto de lei na Assembleia que garanta a participação popular de maneira institucionalizada.

Eixo “Meios de Distribuição”:

  • valorização e implantação dos conselhos de comunicação federal, estadual e municipal, de caráter deliberativo e abertos à participação popular.

  • rediscussão do fim da exigência de diploma para o exercício da função de jornalista.

  • regulamentação do artigo 223 da Constituição Federal, com a alocação de 40% do espectro para emissoras públicas; 40% para emissoras privadas, divididos entre comerciais e sem fins lucrativos; e 20% para as emissoras estatais.

  • estudo de novos parâmetros para a distribuição de concessões de rádios e TVs; e desburocratização das concessões das rádios comunitárias.

  • criação de política pública orientada para a universalização dos equipamentos utilizados para acesso à internet, por meio de redução de carga tributária.

  • fim da proibição de veiculação de publicidade nas rádios comunitárias e educativas.

  • inclusão de todas as emissoras de televisão do campo público no projeto de operador de rede; e garantia de que as emissoras legislativas estejam todas no mesmo transmissor, na estrutura do operador de rede, a fim de permitir a criação de uma rede legislativa.

  • garantia de acesso ao sinal aberto pelas TVs comunitárias; e criação de um fundo nacional para o desenvolvimento da comunicação comunitária.

  • uso de recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) e do Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funtel) para políticas públicas de democratização da comunicação social.

  • modificação da legislação da Anatel a respeito do acesso à rede mundial de computadores via rede elétrica, de maneira a garantir a universalização gratuita ou de baixo custo por esse meio.

  • universalização da internet de banda larga como política pública, usando os recursos do Fust e demais fundos públicos.

Eixo “Cidadania: direitos e deveres”:

  • criação de conselhos municipais e estaduais de comunicação deliberativos.

  • garantia, pela sociedade e seus representantes, do direito do controle social na comunicação, por meio de conselhos e outros mecanismos democráticos.

  • efetivação das políticas públicas de acesso gratuito à internet, como telecentros, garantindo também o acesso à aquisição de equipamentos por meio de financiamentos.

  • proibição do monopólio e oligopólio na área de comunicação por meio de mecanismos que identifiquem os reais concessionários e permissionários.

  • formulação de uma nova política de outorgas e de renovação de outorgas de emissoras de radiodifusão e de novas tecnologias de comunicação, na qual constarão, entre outros dispositivos, a previsão de realização de audiências públicas e de apresentação de pesquisa com avaliação dos serviços prestados à comunidade.

  • criação, em âmbito nacional, de comissão intersetorial de controle social dos conteúdos veiculados nas TVs, rádios, mídia impressa e programas de auditório e humorístico, a fim de coibir as discriminações por gênero, orientação sexual, etnia, deficiência e religião.

  • produção de nova legislação sobre direito de resposta e produção de uma nova lei de imprensa que garanta a liberdade de expressão.

  • efetivação da autonomia das instâncias de controle social das políticas públicas de comunicação (conferências, conselhos, audiências), desatrelando-as do Executivo e Legislativo.

  • várias propostas relativas à “educomunicação” (análise crítica dos meios), inclusive com a inserção de conteúdos nos currículos escolares.

  • implantação de mecanismos de acessibilidade na comunicação, a fim de garantir o direito à plena participação; e criação de publicidades oficiais inclusivas, não apenas com a existência de recursos mínimos (audiodescrição, legenda, braille e intérpretes de libras), mas com a presença de negros e pessoas com deficiência em todas elas.

Controle social e direitos humanos

A realização da Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) tem tudo para ser um divisor de águas sobre essa coisa fugidia e, poucas vezes tocadas, que é o controle público e social da comunicação. Este é o debate essencial, central e inadiável.

Há tempos queria adjetivar algo como essencial, como central, como inadiável. Essencial porque oferece um novo norte nas relações entre produtores e consumidores de informações, de notícias. Central porque evita dispersão para outros temas, também importantes, mas que sugam as energias da sociedade e são meras distrações do que realmente importa. Inadiável porque o Brasil já avançou em muitas áreas.

Vejamos: a população de uma Colômbia saiu da pobreza no Brasil para a influente classe média nos últimos seis anos; o rio São Francisco, não importando seu gigantismo, está mudando seu curso para enterrar séculos da famigerada indústria da seca (e penúria) a enfermar boa parte do Nordeste brasileiro; o Brasil há quatro anos é auto-suficiente em petróleo e descobriu há poucos meses reservas de petróleo no pré-sal em quantidade e valor de mercado jamais imaginados.

A par disso, o Brasil já ocupa a quinta posição de maior mercado para carros no mundo e já é percebido no exterior não como o "eterno" país do futuro a rimar com o verso do Hino Nacional – já tão caricaturado – na famosa estrofe "deitado eternamente em berço esplêndido". Sediar a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, aliados à multiplicidade de cadernos especiais e capas de jornais e revistas influentes mundo afora a gritar em várias línguas que agora é a vez do Brasil… virou lugar comum.

Círculo virtuoso

Mas o que não avançamos – ou, se o fizemos, foi tão timidamente – concerne ao direito dos brasileiros à informação. O acesso às notícias e à produção das notícias. Por que não? Não avançamos, nem residualmente, na definição de critérios legais para publicidade oficial, a fim de promover a pluralidade e diversidade de veículos e impedir seu uso político tanto por governos quanto por meios de comunicação. E temos uma concentração monumental dos meios de comunicação – jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, televisão a cabo, portais na internet – nas mãos uma meia dúzia de felizes empresários. Se essa meia dúzia de famosos sobrenomes se reunir em um restaurante de grife poderíamos dizer que ali estavam reunidos "os donos da mídia no Brasil".

Como os rios correm sempre para o mar e não há como deter essa inclinação natural do mais alto seguir para o mais baixo, constatamos que menos de 10% das verbas de publicidade oficial são dirigidas a veículos de baixa circulação, alternativos e livres. E, mesmo assim, os donos da mídia não perdem a oportunidade para demonizar em seus editoriais e nas penas de aluguel mais vetustas os males de o governo fazer suas publicações em jornais regionais ou locais, em emissoras de rádio paroquiais, em jornais de 3.500 ou 6.000 leitores.

É um círculo vicioso que não demonstra qualquer tendência a um dia vir a ser um círculo virtuoso. E já passa a pautar as novas mídias, as digitais, aquelas antenadas com a tecnologia de ponta. Aquelas do futuro, hoje.

Atenção da academia

Menos de uma década atrás, em dezembro de 2000, o Brasil contava com 9,8 milhões de usuários ativos na internet – de acordo com dados da Rede Nacional de Ensino Pesquisa (RNP), citando o Ibope eRatings e o serviço norte-americano Nielsen/NetRatings –, dos quais 4,8 milhões de usuários ativos (acessaram a internet pelo menos uma vez entre novembro e dezembro daquele ano).

A escassez e o alto custo de linhas telefônicas fixas limitavam o acesso dos internautas. Atualmente o país conta com 62,3 milhões de internautas segundo o Ibope Nielsen Online. Os brasileiros representam 5% do total de internautas do planeta, que já tem 1,6 bilhão de pessoas conectadas. O país supera o total de usuários de internet de todo o restante da América Latina somados. Os números são da consultoria Everis, que, em parceria com a IESE Business School, da Universidade de Navarra, e com base em estatísticas da União Internacional de Telecomunicações, avaliou 44 países.

Neste sentido a Conferência de Comunicação é muito bem-vinda. Daí sua necessidade. É preciso destravar o debate antes mesmo de ter sido iniciado. Os movimentos sociais precisam ser vistos como interlocutores dos meios de comunicação. Não como meros coadjuvantes, mas sim como protagonistas que na verdade são – afinal, o maior tesouro de uma nação é o seu povo, já afirmava o pensador Shoghi Effendi, em 1955. Considero importante dar voz às organizações da sociedade civil que defendem os direitos humanos.

A Conferência de Comunicação poderia também promover a conscientização dos meios de comunicação sobre a relevância de incluir a cobertura dos temas afetos aos direitos humanos em sua atividade jornalística regular, bem como a capacitação dos profissionais que atuam nos meios de comunicação para promover uma cultura de direitos humanos. Com certeza o assunto não pode ficar respaldado apenas na ação governamental via sua Secretaria Especial dos Direitos Humanos.

Não me chamem de lunático por defender que os meios de comunicação considerem a temática dos direitos humanos para ocupar toda uma editoria. Assim como é comum termos editorias específicas para economia, política, esportes, cultura, comportamento, internacional etc., há que se promover parcerias no formato público-privadas visando a criação e a consolidação de cursos sobre o papel da mídia e a sua forma de pautar questões atinentes aos direitos humanos no cotidiano dos brasileiros. E o mesmo precisa ser feito para levar a discussão para os meios acadêmicos. As relações entre direitos humanos e meios de comunicação estão a exigir que a academia pense uma disciplina específica para isso em seus cursos de Comunicação Social.

Mundo a desvendar

Quando penso em direitos humanos não penso em utopias. Posso até ter a cabeça nas nuvens, mas quero os pés bem fincados no chão. São Thomas Morus que me perdoe. Isso me faz refletir que precisamos criar diferentes espaços para que o cidadão possa denunciar veículos de comunicação que violam os direitos humanos ou que induzam à sua violação, reforçando estereótipos racistas, preconceitos de classe, cor, gênero, intolerância e fanatismo religioso.

Na agenda da Confecom poderia constar artigos também de primeira necessidade como ferramentas que mensurem quão comprometidos com os direitos fundamentais da pessoa humana estão os meios de comunicação. Para sentir o chão duro da realidade somente mexendo nos bolsos dos donos da mídia. Que tal propor que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) considere a inclusão de novo critério quando da aprovação dos meios de comunicação responsáveis pela comunicação institucional do governo?

A novidade seria criar mecanismos para mensurar o engajamento dos meios de comunicação que venham a participar de licitações públicas na promoção e difusão dos direitos humanos, bem como na denúncia de atos e fatos que denunciem os direitos estipulados na Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Há todo um mundo a desvendar e a democratizar na seara da comunicação. E há que se avançar. É aí que veremos se chegou, realmente, a vez do Brasil.

P.S.: Na quinta-feira (19/11), às 9h, no Plenário 9 da Câmara dos Deputados, falarei na Conferência Livre de Comunicação sobre o tema "Desafios e possibilidades para a Comunicação", a convite da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.