Campanha publicitária da Confecom ignora mídia digital

Faltando 20 dias para a realização da etapa nacional da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), a campanha de divulgação da Confecom ainda não está completa. Entre os materiais publicitários disponíveis no site oficial da conferência (www.confecom.gov.br), não há peças voltadas para a internet, um meio que poderia ter sido bem aproveitado para divulgar o processo inclusive durante o período de realização das etapas estaduais, que se encerrou no dia 22. No site, é possível baixar material visual para veículos impressos e spots para rádio e TV. Nada, porém, para a mídia online.

A opção por priorizar as mídias tradicionais contrasta com o fato de a campanha de divulgação da Confecom, a cargo da Secretaria de Comunicação Social, não contar com verba para contratação de espaço publicitário. O fato de as peças poderem ser baixadas do site oficial não é, portanto, sinônimo de que estejam sendo veiculadas, uma vez que esta veiculação depende da cessão gratuita dos espaços publicitários pelos veículos.

Procurada pelo Observatório do Direito à Comunicação, a assessoria de imprensa da Secom não precisou quais veículos chegaram a veicular os anúncios. Segundo a assessoria, “todas as redes de televisão, televisões públicas, sejam governamentais, comerciais ou alternativos” receberam ofício da Secom fazendo a solicitação da cessão do espaço publicitário de forma gratuita. Ainda segundo a Secom, há inserções em televisão e rádio em mídia gratuita e distribuição de links das peças da campanha aos parceiros da conferência.

“Podemos dizer que a Confecom, até o momento, está tendo bastante repercussão e gerando discussão, o que nos leva a entender que a divulgação tem sido satisfatória”, afirmou a Secom, ressaltando especialmente o trabalho da assessoria de imprensa contratada para trabalhar na conferência. A assessoria tem sido feita em parceria com uma equipe de jornalistas da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que é responsável por cobrir as conferências estaduais e enviar releases à imprensa regional e nacional, e tem feito um boletim semanal que pode ser recebido mediante cadastramento no hotsite da Confecom.

Quanto ao material para internet, afirmaram que um banner será disponibilizado em breve.

Etapa paraibana da Confecom elege 36 delegados para a nacional

Foi no Dia da Consciência Negra que a Paraíba fez a abertura da sua 1ª Conferência Estadual de Comunicação (Conecom-PB), que aconteceu em João Pessoa, na sede da Federação das Indústrias do Estado da Paraíba. Para contemplar a discussão racial, que também está em debate nesta Conferência, o governador do Estado, José Maranhão, iniciou a mesa com a leitura do Diário Oficial daquele 20 de novembro, que instituiu o Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial. A conferência paraibana, que se encerrou no dia 21, agregou a responsabilidade ainda maior de incluir nas suas propostas à Conferência Nacional a bandeira da diversidade racial brasileira.

Participaram ainda da abertura da Conferência Estadual de Comunicação, secretários de governo, representantes da Comissão Organizadora Nacional da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), movimentos sociais da Paraíba e de outros estados, bem como gestores da TV UFPB e de empresas de comunicação que estão engajadas no processo conferência.

Ao todo, a etapa estadual paraibana teve aproximadamente 300 inscritos entre membros da sociedade civil empresarial e não empresarial, poder público, observadores e convidados. De acordo com a distribuição de vagas à delegação nacional, a Paraíba teve direito a 36 delegados, que divididos em observância à proporcionalidade de 40% para sociedade civil empresarial, 40% para sociedade civil não empresarial e 20% para o poder público, ficaram respectivamente contemplados com 16,16 e 4.

Estiveram representados na etapa estadual da Paraíba, além da capital João Pessoa, as cidades de Campina Grande (um dos maiores pólos do estado), Patos, Tavares, Sumé, Marí, Cabedelo e Santa Luzia, que contemplam as regiões do estado que estão divididas entre Alto Sertão, Baixo Sertão, Brejo, Borborema e Litoral. Entretanto, essa regionalização não conseguiu se fazer presente plenamente na delegação eleita para representar a Paraíba na Conferência Nacional de Comunicação, que acontece de 14 a 17 de dezembro, em Brasília.

Preparatórias

Em todo o Estado da Paraíba duas etapas preparatórias municipais foram realizadas, uma em João Pessoa e outra em Campina Grande, e outras três conferências livres setoriais: Conferência Livre de Cultura e Mídia, Conferência Livre de Mulheres e Conferência Livre de Movimentos populares e sociais da comunicação.

Todas estas etapas produziram cadernos de propostas próprios que foram encaminhados à plenária da etapa estadual e foram aprovados junto com as demais propostas feitas nos grupos de discussão da Conecom-PB. Os grupos de discussão previstos na programação do encontro foram realizados de acordo com os três eixos propostos pela etapa nacional: produção de conteúdo, meios de distribuição e cidadania direitos e deveres e, como aconteceu em praticamente todas as demais etapas estaduais, os grupos de discussão tiveram um tempo pequeno para a quantidade de propostas que precisavam ser debatidas. Além de propostas, também foram aprovadas moções na plenária final.

Polarização

As principais questões que polarizaram a plenária final da Conecom-PB, principalmente entre representantes da sociedade civil empresarial e não empresarial, foram as propostas relativas à gestão dos fundos públicos como o Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) e o Fundo de Fiscalização das Telecomunicação (Fistel) e também com relação à política de banda larga a ser adotada pelo Governo Federal.

Quanto ao primeiro ponto, a sociedade civil empresarial defendeu que os conselhos de gestão dos fundos fossem paritários entre poder público, sociedade civil empresarial e não empresarial, enquanto a sociedade civil defendia maioria dos não empresários nos conselhos gestores. A argumentação vinha da questão central de que os empresários como eram diretamente tributados e partícipes da gestão, não poderiam estar com representação paritária aos usuários, que são, teoricamente, os principais beneficiários desses fundos. A defesa era que os usuários, para quem os serviços se destinam, deveriam estar em maioria para garantir a melhor alocação das verbas desses fundos.

A segunda polêmica, em torno da banda larga, teve tônica parecida. A proposta de uma banda larga com gestão de infra-estrutura estatal para garantir a universalidade foi posta em contradição com o interesse das empresas presentes em garantir participação privada na exploração dos serviços.

De acordo com as normas estabelecidas para Conferência Nacional não há eleição de propostas e os debates e votações servem tão somente para aferir e caracterizar as propostas de acordo com a maioria da plenária estabelecida. Todas elas, porém, com maior ou menor aprovação, seguem para a etapa nacional.

Eleições

As plenárias de eleição dos representantes dos três setores que compõem a delegação do estado foram feitas separadamente, como prevê o regimento nacional. Para eleição do poder público, uma votação nominal com os presentes escolheu os quatro representantes do segmento: dois do Governo da Paraíba, um da Prefeitura de Campina Grande e um representante da TV UFPB). Segundo Arimatéia França, que coordenou os trabalhos da Conecom-PB como representante do Governo do Estado, o poder público vai reivindicar mais uma vaga à Comissão Organizadora Nacional.

“Nós consideramos o número de representantes do poder público pequeno e existe a necessidade de contemplar o município de João Pessoa, por exemplo. Vamos solicitar mais uma vaga para o poder público”, comunicou Arimatéia França.

Os empresários, por sua vez, fizeram sua eleição rápida e com um acordo que alocou doze vagas para representantes das empresas de telecomunicações, uma para empresas de radiodifusão e três para pequenos provedores de internet.

Na avaliação de Frederico Siqueira Filho, representante da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), o processo foi bem tranquilo e com muita negociação. “Tínhamos a maioria, mas para haver representação de todos os setores negociamos algumas vagas”.

Um pouco mais demorado e tensionado foi o processo de eleição dos representantes da sociedade civil. Por este setor reunir uma grande quantidade de movimentos sociais de diferentes setores e também de diferentes regiões, o processo foi mais lento.

Outro problema que atrasou a plenária da sociedade civil foi a confusão que se estabeleceu durante os encaminhamentos das propostas de critérios para eleição dos delegados. A má condução da mesa gerou também posteriores problemas na compreensão de como deveria ser formada as chapas e provocou momentos de tensão na plenária.

Após ásperas discussões, uma chapa única foi formada e, apesar de não ter a pluralidade dos segmentos e das regiões do estado totalmente contemplada, foi aprovada a eleição dos dezesseis representantes da sociedade civil.

Na avaliação de Sandra Moura, representante da TV UFPB, a Conecom-PE foi muito positiva. “Termos conseguido realizar a Conferência nos municípios e também nacionalmente em todos os estados já foi uma vitória. Aqui foi uma conferência participativa. Estamos vivendo um momento muito especial que é o de poder discutir a comunicação que queremos no nosso país”. A representante da TV UFPB lembra ainda que o processo de conferência não se encerra com o a realização da etapa nacional e que “o pós-conferência deve ser encarado com um momento tão importante quanto o que estamos vivendo agora”, ressalta.

“A mídia é um dos principais reprodutores da lógica racista”

Formado em Comunicação Social pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL) e especialista em Política e Estratégia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Paulo Rogério Nunes é fundador e diretor-executivo do Instituto Mídia Étnica. O instituto é uma das primeiras e principais referências da discussão sobre a diversidade étnica na mídia do Brasil, país que, como lembra Paulo Rogério, é composto por uma maioria afro-descendente esquecida pelo “mercado” e escondida pela mídia.

Paulo Rogério é também fellow da Ashoka Empreendedores Sociais, tendo seu trabalho reconhecido nacional e internacionalmente como militante do Movimento Negro e na luta pelo Direito à Comunicação. É articulador do portal colaborativo www.correionago.com.br, gerenciado pelo Instituto Mídia Étnica.

Às vésperas da 1ª Conferência Nacional de Comunicação, Paulo Rogério ajuda a articular o movimento “Enegrecer a Confecom”, que visa “aprofundar a reflexão sobre o combate ao racismo na mídia”. Nesta entrevista, ele enumera diversas medidas que acredita importante serem defendidas pelos movimentos negro e anti-racistas na Confecom, como a criação de um órgão que fiscalize a diversidade na mídia e o estabelecimento de punições mais duras para os veículos que veiculem conteúdo racista ou que desrespeitem a representação da diversidade da população brasileira.

Atualmente, que avaliação o senhor faz acerca da veiculação de conteúdos racistas ou a violação ao direitos humanos de grupos étnicos na TV, rádio e imprensa brasileira? Algo melhorou desde a promulgação da Constituição de 1988 ?
Apesar dos avanços obtidos após a promulgação da Constituição Cidadã, a imagem dos afro-brasileiros na mídia ainda é, em geral, estereotipada ou manchada de sangue. A contribuição civilizatória dos africanos para o Brasil é constantemente negada, em nome de uma hipervalorização da estética européia. Ainda hoje, no início do século XXI, somos representados como minoria – em um país que, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), terá maioria negra até 2015. Nunca fomos e não seremos minoria no Brasil. Somente nos últimos anos que as agências de publicidade começaram a perceber que existe um público consumidor negro sub-representado nas campanhas publicitárias e que é tolice não representar a diversidade étnico-racial brasileira em seus anúncios. Mas, ainda há muito que se fazer na publicidade, no cinema e, sobretudo, no jornalismo. Na realidade, além de leis que coíbam o racismo na mídia, precisamos trabalhar na formação dos profissionais de comunicação que estão saindo das faculdades imbuídos das premissas racistas que estão arraigadas na cultura brasileira. É preciso que os cursos de Comunicação Social incorporem a questão racial como um debate necessário para a formação de comunicólogos. Sem essa formação educativa e sem uma legislação que seja incisiva na punição dos crimes de racismo na mídia a população negra do Brasil ainda sofrerá muitos anos por conta da invisibilidade e dos estereótipos.

Na sua opinião, o movimento negro brasileiro tem debatido comunicação e mídia de forma devida ou ainda estaria pouco atento à esta dimensão ? O que é preciso fazer para fortalecer este envolvimento?
O Movimento Negro sempre discutiu comunicação, pois sabemos que a mídia é um dos principais setores reprodutores da lógica racista. Se passarmos algumas horas monitorando os programas de televisão, não é difícil encontrar insinuações racistas sutis ou até mesmo explícitas. A questão é que a comunicação é tradicionalmente uma área cercada por uma aura de glamour, com seus termos técnicos pouco acessíveis aos “não iniciados”. Esse caráter hermético e “sagrado” da comunicação afasta os movimentos sociais que terminam delegando aos seus assessores de imprensa (quando possuem) toda a reflexão sobre comunicação. Nesse sentido poucos movimentos sociais incorporaram a discussão sobre comunicação como uma agenda estratégica para alcançar seus objetivos políticos. É por isso que o Movimento Negro possui historicamente uma baixa participação nas discussões sobre comunicação o que não o difere de outros movimentos sociais. Mas esse quadro está mudando, hoje várias organizações tradicionais do segmento negro estão participando das discussões sobre a Conferência Nacional de Comunicação e recentemente foi criada uma articulação chamada “Enegrecer a Confecom”, com o objetivo de aprofundar a reflexão sobre o combate ao racismo na mídia. Participam dessa articulação sindicatos de jornalistas, por meio de suas comissões por igualdade racial, organizações nacionais, ONGs e profissionais independentes de todo o país. A idéia é que antes da realização da Conferência em dezembro tenhamos uma plataforma de propostas do movimento negro para serem discutidas e que após a Conferência essa articulação continue para monitorar a implementação das políticas públicas de comunicação e criar uma rede de cooperação entre as entidades.

O sistema de cotas para grupos étnicos historicamente oprimidos (como afro-descendentes) vem sendo adotado em diversas universidades brasileiras. Isso se tornou um símbolo das políticas afirmativas no Brasil. Passado já esta primeira fase, que avaliação o senhor faz deste mecanismo, quais seriam hoje os seus efeitos reais?
O sistema de cotas é apenas um braço do que chamamos “Ações Afirmativas”. Apesar de tanta polêmica, o que mais interessa ao movimento negro e aos segmentos anti-racistas não é somente o acesso de jovens negros nas universidade, mas a permanência destes, a garantia que terão uma boa formação e, sobretudo, o acesso destes ao mercado de trabalho e/ou pós graduação. Nesse sentido, é preciso entender que ainda estamos lutando para garantir a primeira fase dessa batalha, o que significa que a sociedade brasileira é mais conservadora do que imaginávamos. Não é por acaso que grandes emissoras de TV, revistas de grandes circulação e sites de prestígio dão tanto espaço para pretensos acadêmicos condenarem o sistema de cotas, e por conseqüência, toda e qualquer ação reparatória para a população afro-brasileira. Já foi provado que o sistema de cotas tem não somente o efeito prático de garantir a eqüidade no processo seletivo do vestibular, mas que possui um efeito psicológico na vida de muitos jovens negros que acreditavam ser impossível entrar nas universidades públicas sem ao menos tentar. Além disso, o acesso de afro-brasileiro ao ensino superior tem contribuído para melhor diversificar o leque de produções acadêmicas, pois estes jovens trazem a perspectivas de suas comunidades para a sala de aula, e por conseqüência, trazem novos olhares para a produção científica nacional. Por fim, podemos dizer que, assim como o enfrentamento ao grande latifúndio midiático do Brasil, a questão da inclusão dos negros nas universidades é um desafio muito grande que precisa ser enfrentado, a despeito da reação conservadores dos que querem a manutenção do status quo e da supremacia da branquitude.

O senhor acredita que é necessário estabelecer cotas na programação do rádio e da TV voltadas especificamente para veicular conteúdo sobre as diversas culturas e etnias como os afro-descendentes ou povos indígenas nativos ? Como garantir que essa diversidade seja constante na programação radiofônica e audiovisual?
O Estatuto da Igualdade Racial – que tramita há aproximadamente dez anos no Congresso Nacional – possuía um capítulo de comunicação, no qual exigia uma quantidade não inferior a 25% de atores negros nas produções audiovisuais. Infelizmente, assim como o capítulo que trata das terras quilombolas e o que propõe ações afirmativas na educação, a questão da comunicação foi retirada por pressão dos segmentos conservadores. Essa foi uma grande perda para o Movimento Negro no Brasil. Apesar disso, sabemos que, mesmo com a legislação coibindo a invisibilidade dos negros da mídia, na prática precisamos, com urgência, de discussão com os produtores de mídia no sentido de convencê-los a mudarem prática e valores. Não é possível que nem mesmo a TV pública, conforme pesquisa do doutor Joel Zito Araújo, incorpore a questão da diversidade étnico-racial como um valor. Os números mostram que cerca de 90% dos apresentadores e jornalistas das TVs públicas são brancos. Espero que a Conferência Nacional de Comunicação possa refletir sobre essa negação de nossa identidade e busque se espelhar em modelos já adotados por outras sociedades multirraciais, como é o caso do Canadá, que possui uma agência que monitora a diversidade dos veículos; a África do Sul que, depois do apartheid, entende a eqüidade racial como um princípio; e os Estados Unidos, que já tem uma longa tradição de promover a igualdade racial na mídia. Esses são modelos disponíveis que precisam ser estudados. O mundo espera do Brasil uma resposta histórica no que diz respeito à inclusão da população negra. Todos os países que acabei de citar, por exemplo, já elegeram chefes de estado negros, até mesmo a África do Sul que teve um regime considerado o mais racista do mundo. O que estamos esperando?

Em muitos países onde existem sistemas públicos de comunicação, há canais especificamente voltados para veiculação de programação de diferentes etnias ou culturas que constituem suas populações, como é o caso da Austrália (com a SBS). O senhor acha benéfica a existência desses canais específicos ou acredita que tal especificidade é ruim por colocar tais culturas num patamar separado ?
Seja qual for o modelo que adotemos, caso a eqüidade racial e de gênero se configure como um princípio inviolável estaremos no caminho certo. Penso que canais específicos para grupos sociais e étnico-raciais são importantes, pois concentram vozes que estão na mesma sintonia. Gosto da idéia de termos uma concessão de TV para o Movimento Negro, como espero que tenhamos um canal específico para o movimento LGBTT. Não penso que um canal voltado para discutir as especificidades dos afro-brasileiros não irá colocar a cultura negra em um patamar diferenciado, pois com a nova conjuntura de convergência de mídias e a própria TV Digital, a segmentação será quase uma imposição técnica, o que pode ampliar o número de vozes no debate público. Porém, mais que tudo, penso ser muito importante que nosso novo marco regulatório possa punir, inclusive com perda da concessão, veículos que promovam o racismo em sua programação e que não possuam o número de negros condizente com a realidade racial do país. Além disso, não podemos pensar em igualdade racial na mídia sem ter em mente que isso implica em repensar as políticas de recursos humanos dessas empresas. Qual o motivo do jornalismo ser a profissão no Brasil com o menor número de negros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE)? Portanto, penso que devemos ter um órgão fiscalizador da diversidade na mídia como existe em alguns países.

Diante da 1ª Conferência Nacional de Comunicação, que acontecerá de 14 a 17 de dezembro neste ano em Brasília, o Instituto de Mídia Ética tem propostas a apresentar? Poderia nos fazer uma síntese ou nos indicar as principais diretrizes para a relação saudável entre etnias, multiculturalismo e meios de comunicação?
Estamos sistematizando e estudando uma série de propostas elaboradas pelo Movimento Negro em fóruns, encontros e até mesmo em outras conferências como a de Juventude e Igualdade Racial, nessa última, por exemplo, criamos, em 2005, um Grupo de Trabalho que tinha como principal bandeira a necessidade da realização da Conferência Nacional de Comunicação. Em geral nossas propostas são relacionadas ao fim da invisibilidade dos negros na mídia, a criação de mecanismos para punir o racismo nos meios de comunicação e a necessidade da apropriação das tecnologias de comunicação e informação pela comunidade negra tendo como meta o fim do apartheid digital. A articulação “Enegrecer a Confecom” realizará alguns encontros antes da Conferência com objetivo de criar uma plataforma comum de propostas dos vários grupos e segmentos do Movimento Negro. Nós do Instituto Mídia Étnica já apresentamos algumas na Etapa baiana da Confecom. Em geral queremos a incorporação da diversidade étnico racial em todas as políticas de comunicação seja na produção, distribuição ou regulação dos meios.

O senhor foi eleito na etapa baiana da Confecom e estará em Brasília como delegado pelo seu estado. No plano regional e nacional,o senhro acredita que esta primeira Confecom pode de fato mudar a comunicação do país? Ou terá efeitos limitados? Que saldo poderemos esperar ao fim deste processo?
Estamos diante de um momento realmente histórico. Nós que militamos no Movimento pela Democratização da Comunicação sonhamos há anos por esse tipo de conjuntura, na qual de norte a sul do país existem mobilizações em torno do tema. Isso por si só já seria um resultado positivo do processo das conferências estaduais. É claro que isso é pouco, pois esperamos que a Conferência de Comunicação possa dar as diretrizes políticas para a comunicação brasileira. É claro que sabemos que existem limitações objetivas, como o fato dessa mobilização acontecer quando as primeiras luzes do governo começam a ser apagados e que não há garantia, ao que parece, de que as propostas sejam implementadas. Mas creio que o efeito dessa discussão dentro dos movimentos sociais, ONGs, partidos políticos e demais grupos de interesse possam gerar uma atmosfera de cobrança e mobilização continuada. Além disso, creio que será difícil para os candidatos no próximo ano não tocarem nas resoluções que serão aprovadas na Conferência, o que significa que a discussão sobre comunicação não será mais um tabu. Mas para que tudo aconteça, será necessário muita articulação dos movimentos sociais e uma entendimento melhor sobre a conjuntura política na qual estamos inseridos.

Etapa alagoana da Confecom reúne mais de 340 participantes

Com 343 participantes inscritos, Alagoas realizou, entre os dias 21 e 22, a etapa estadual da I Conferência Nacional de Comunicação (Confecom). As atividades aconteceram no Centro de Convenções de Maceió, no bairro de Jaraguá, onde foram debatidos os três eixos temáticos (Produção de Conteúdo; Cidadania, Direitos e Deveres; e Meios de Distribuição), formuladas propostas e eleitos os delegados que irão representar o estado no encontro nacional em dezembro.

Apesar de um longo atraso na programação no primeiro dia, a conferência alagoana cumpriu todas as suas atividades agendadas e foi encerrada no início da tarde do domingo. O longo processo de aprovação do regimento pela plenária que abriu a Confecom-AL, que se iniciou na manhã do dia 21 e só foi finalizado no início da tarde, atrasou toda a programação, em especial os painéis de debate. As atividades previstas para acabarem às 18h só foram finalizadas às 21h.

Na mesa de abertura dos trabalhos, o secretário de Comunicação de Alagoas Nelson Ferreira respondeu às críticas de entidades civis e movimentos sociais acerca do pouco empenho e escasso apoio material que o governo estadual teria aportado ao longo de todo o processo. Para ele, o Executivo estadual tem enfrentado dificuldades financeiras e que, apesar dessas limitações, o possível foi feito para que Alagoas participasse deste debate nacional. “A compreensão da comunicação como um direito humano é essencial para consolidação da democracia. A Conferência Nacional de Comunicação vai dar, sem dúvida, uma extraordinária contribuição para a democracia brasileira. E a democracia do século XXI pede participação social”, enfatizou Ferreira.

Para a presidente do Sindicado dos Jornalistas de Alagoas (Sindjornal), Valdice Gomes da Silva, a comunicação deve ser reafirmada como um direito, a exemplo da educação, saúde e segurança e, por isso, há todas as razões para se realizar uma conferência nestes moldes. “A comunicação trata de um processo de transformação da sociedade. Por isso, não pode apenas ser debatida e decida por um ou dois segmentos em particular. Façamos um grande pacto para uma comunicação mais democrática nesse país”, ressaltou. Sobre os empecilhos e entraves durante a etapa alagoana, a jornalista avaliou que houve “dificuldades estruturais imensas”. “O governo deu sua justificativa, mas era preciso haver um esforço e isso foi o que a sociedade tentou demonstrar para o governo. Não tivemos todas as condições, mas fizemos o que poderia ser feito”, comentou.

Em relação ao lugar da iniciativa privada neste debate, o representante do segmento empresarial Manoel Barbosa da Silva, da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), falou do desenvolvimento das comunicações no país e apontou o empresariado como um de seus pilares. “As telecomunicações são causa e conseqüência do desenvolvimento. O setor de telecom experimentou extraordinário crescimento nos últimos anos. Agora,com este processo da conferência, o Brasil e Alagoas poderão experimentar um novo salto de desenvolvimento para seu povo”, acredita.

Além de autoridades governamentais, parlamentares, empresários, estudantes, entidades civis e cidadãos a conferência ainda contou com a presença de convidados e especialistas que ministraram os painéis. O primeiro foi dedicado ao eixo temático Produção de Conteúdo e contou com a participação das debatedoras Roseli Goffman (Conselho Federal de Psicologia) e Rosane Bertotti (CUT). As duas integram, também, a Comissão Organizadora Nacional da Confecom.

No segundo painel, o professor Marcos Dantas (Universidade Federal do Rio de Janeiro), José Sotter (Associação Brasileira de Rádios Comunitárias) e Caio Bruno (Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação) discutiram o eixo Cidadania, Direitos e Deveres. Por fim, José Carlos Torves (Federação Nacional dos Jornalistas), Cláudia Verde (Campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania) e Sivaldo Pereira da Silva (Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social) participaram da última mesa, sobre Meios de Distribuição. Os debates continuaram no segundo dia com os Grupos de Discussão (Gds), onde foram retomados os temas e foram formuladas as propostas a serem encaminhadas à etapa nacional.

Ao fim do processo, a plenária final aprovou 3 moções, referendou 44 propostas produzidas pelos GDs e homologou a eleição de 12 delegados da sociedade civil, 12 do segmento empresarial 3 do poder público, além dos suplentes para todas as vagas. Os 27 delegados irão representar o estado na Conferência Nacional, de 14 a 17 de dezembro, em Brasília, onde o país irá, pela primeira vez, discutir políticas públicas de Comunicação em uma fórum oficial, com participação de delegados eleitos nas diversas regiões do país.

Convergência tecnológica é tema do primeiro volume de série de especiais

"A Convergência Tecnológica e o Direito à Comunicação" é o primeiro de uma série de especiais realizados pelo Observatório do Direito à Comunicação como forma de contribuir para a reflexão sobre grandes temas do setor, em especial, no momento que antecede a realização da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom).

O especial traça um histórico do processo de convergência tecnológica e ressalta que este vai além das novas funcionalidades técnicas que a cada dia se apresentam aos usuários – produtores e consumidores – das várias mídias. O especial ressalta que a convergência envolve a reconfiguração completa das comunicações e dos processos de produção, armazenamento e circulação da informação e da cultura.

Nesta reconfiguração, abrem-se possibilidades positivas e negativas em relação à garantia do direito humano à comunicação. Por esta razão, o especial atenta às diversas facetas da convergência, da reestruturação dos grandes atores do mercado nacional e internacional às possibilidades técnicas que, bem direcionadas por novos marcos regulatórios apropriados, podem levar à democratização das mídias, tanto em relação à propriedade dos meios quanto na multiplicação dos produtores de comunicação.

Série Debates Fundamentais – Observatório do Direito à Comunicação
A Convergência Tecnológica e o Direito à Comunicação

Pesquisa e redação: Jonas Valente
Assistente de pesquisa: Luanne Batista
Revisão: Bia Barbosa
Projeto gráfico e diagramação: Henrique Costa
Novembro/2009