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MPF processa Record e Gazeta por discriminação religiosa

O MPF-SP (Ministério Público Federal em São Paulo) ajuizou uma ação civil pública contra a Rede Record e a TV Gazeta pedindo indenização no valor de, respectivamente , R$ 13.600.000,00 e R$ 2.424.300,00, pela suposta discriminação das religiões de origem afrobrasileira na programação das emissoras. De acordo com a Procuradoria, programas religiosos exibidos nas redes de TV utilizam há anos expressões que discriminam religiões como umbanda e candomblé, tais como “encosto”, "demônios", “espíritos imundos”, “feitiçaria”, além da famigerada “macumba”.

Para a procuradora regional dos Direitos do Cidadão Adriana da Silva Fernandes, autora da ação, as emissoras não estão imunes de responsabilidade sobre programas feitos por produtoras independentes. "A Record e a Gazeta são responsáveis pelas ofensas às religiões de matriz africana desferidas reiteradamente pelos programas religiosos veiculados em sua grade de programação”, ressaltou Adriana Fernandes.

Em liminar, o MPF-SP pede que as emissoras interrompam a exibição de programas que façam esse tipo de referência aos cultos de origem afro, e sugere multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento da possível decisão da Justiça. A reportagem de Última Instância procurou a Rede Record e a TV Gazeta, mas até o momento não houve resposta.

Direitos

A procuradora destaca que os referidos programas ferem direitos fundamentais, como a liberdade de crença e o “respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família”. “O abuso praticado pelas rés contraria a dignidade da pessoa humana, (…) bem como os próprios objetivos de construção de uma sociedade livre, justa e solidária, com a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”, ressalta Adriana da Silva.

Segundo o MPF, em abril de 2008, o Ministério das Comunicações aplicou multa de R$ 1.012,32 às duas emissoras por ofensas às religiões afro, mas na visão da procuradora, a sanção não foi suficiente para acabar com as discriminações praticadas. Por isso pediu indenização equivalente a 1% do faturamento das empresas, que poderá ser revertido para o Fundo de Defesa dos Direitos Difusos.

Proposta do Minicom levanta polêmica sobre multiprogramação

No último dia 25, o Ministério das Comunicações divulgou a “Norma Geral para Execução dos Serviços de Televisão Pública Digital”. Ela restringiu a multiprogramação (veiculação de mais de uma programação em um canal digital) apenas aos canais outorgados aos poderes da União ou a órgãos da Administração Indireta, proibindo a prática para o restante das emissoras, incluindo as públicas não-federais, universitárias, comunitárias e comerciais.

O ministro das comunicações, Hélio Costa, justificou a medida como forma de coibir possíveis abusos das televisões, como o aluguel de programações inteiras para terceiros. "Nós sentimos que, se não fizéssemos alguma coisa, haveria uma proliferação [de transmissões não autorizadas]. Queremos evitar os abusos dos inconseqüentes e que vão se aproveitar para fazer proselitismos de todos os tipos", disse ao noticiário Tela Viva News.

A iniciativa foi mal recebida pelos mais diversos setores. A Associação Brasileira de Radiodifusão (Abra), que reúne emissoras associadas à Bandeirantes e à RedeTV!, classificou-a de “absurda”. “A entidade [Abra] considera inadequada a medida do governo, uma vez que o padrão escolhido para a TV Digital, a partir do japonês e adaptado às necessidades do Brasil,  tem como principal característica o multicanal.  Não faz sentido proibir a utilização de uma das características principais do sistema brasileiro de TV digital”.

Interesses ‘globais’

Na avaliação de Valério Brittos, professor da Unisinos e autor de um livro sobre o tema, a publicação da Norma atende aos interesses do principal grupo de televisão do país: a Rede Globo. “Parece-me claro que a norma não interessa às grandes redes, mas especialmente à Globo. Ela não tem projeto de fazer multiprogramação e vê os possíveis novos agentes como prejudiciais ao seu negócio”. Para o professor, subordinar a regulamentação de um serviço importante como este a um grupo “é um problema sério”, pois ela responde às demandas de apenas um operador, desconsiderando os interesses da sociedade como um todo.

O acadêmico vê a reação das demais redes comerciais como algo normal, pois várias delas se beneficiariam do uso da veiculação de programações adicionais. Ele cita explicitamente a Band, que já possui o BandSports e a BandNews no cabo e poderia transmiti-los em seus canais digitais. O mesmo vale para a Record, que também oferta no cabo a RecordNews. Os regramentos instituídos pela Norma, na avaliação de Brittos, são uma forma artificial de “manter um feudo” no cenário convergente, onde deveriam ser buscados outros modelos de negócios diferentes e um ambiente com maior diversidade de agentes.

Ilegalidade e desperdício de espectro

Para Diogo Moysés, integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, a Norma tem um equívoco central: regulamentar um uso do serviço de televisão que é ilegal. Segundo a legislação atual, “uma concessão é sinônimo de uma programação”, explica. Isso porque as novas programações seriam novos serviços de radiodifusão de sons e imagens (televisão) executados sem que tenham sido autorizados pelo Estado, ente responsável pela concessão de outorgas para a exploração de canais de rádio e TV. “Não é o operador que tem que decidir isso”, endossa Valério Brittos.

Outro problema, segundo Moysés, é o fato da Norma aprofundar um grave defeito do Decreto 5.820/2006, que criou o Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre (SBTVD-T): o desperdício de espaço no espectro de radiofreqüências. “O fato de os concessionários terem recebido 6 MHz para a exploração do canal digital promove um brutal desperdício deste bem público e finito. Hoje, as emissoras que estão transmitindo o sinal digital não ocupam nem 20% da capacidade de transporte do canal. Mesmo que o sinal seja em alta definição, há desperdício de espectro, já que caberiam pelo menos mais duas programações”, critica.

Limitações às emissoras públicas

Além de receber críticas de radiodifusores, ativistas e acadêmicos, a Norma também foi considerada limitada por parte dos dirigentes de TVs públicas. “Não concordo com a exclusão [da possibilidade de realizar multiprogramacão] das TVs públicas de natureza estadual e universitária que estejam efetivamente subordinadas ao controle social e não aos empresários de educação”, afirma a presidente da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Tereza Cruvinel.

A Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec) também viu com reticências a iniciativa. As TVs afiliadas à associação, em sua maioria estaduais, serão as principais prejudicadas com a restrição trazida pela Norma, pois, diferentemente dos veículos federais, não poderão construir parcerias parar transmitir em multiprogramação. No Rio Grande do Sul, já havia negociações para lançar um canal digital com a TVE-RS e a TV da Assembléia Legislativa do estado.

Gustavo Gindre, integrante do Comitê Gestor da Internet e pesquisador sobre o tema, alerta que a limitação da Norma ocorre até mesmo no nível federal. “Ela não cita a inclusão da NBr [o canal do governo federal] e do Canal Saúde [mantido pela FioCruz, fundação ligada ao Ministério da Saúde], que são, como os demais, explorados diretamente pela União”.

Segundo Tereza Cruvinel, o texto não foi negociado com as emissoras públicas e sua publicação repentina é estranha, pois não há urgência deste campo na normatização da possibilidade de veicular programações adicionais. “Não sei a que urgência ela [a Norma] estava respondendo, sem dúvida não era a das TVs públicas. Queremos a multiprogramação, mas não estamos preparados para praticá-la neste momento”, diz.

Novas regras

A presidente da EBC disse ao Observatório do Direito à Comunicação que já está em curso uma articulação entre as TVs públicas para que a norma seja revista e contemple também as emissoras estaduais. O mesmo movimento foi patrocinado pelos radiodifusores comerciais, que cobraram do ministro Hélio Costa mudanças radicais nas regras sobre multiprogramação.

As pressões levaram o titular do Ministério das Comunicações a anunciar, no último dia 2, que o órgão deverá apresentar uma nova proposta de regulamento em até 90 dias. Para os entrevistados pelo Observatório, no entanto, ajustes pontuais não irão resolver a questão.

Isso porque, sendo a multiprogramação ilegal, apenas uma nova lei poderia regulamentar este tipo de serviço. “O fato é que a introdução da TV digital deveria ser tratada com mais seriedade do ponto de vista legislativo, pois na prática se trata de um novo serviço, com especificidades inimagináveis no ambiente analógico”, analisa Diogo Moysés. Para Tereza Cruvinel, os novos diplomas legais sobre o tema precisam de fato regulamentar a multiprogramação nas emissoras públicas, firmando princípios, limites e obrigações para seu uso.

Para Gustavo Gindre, uma nova legislação precisaria estender a noção de operador de rede a todo o sistema. “A Norma publicada pelo Minicom demonstra que o operador de rede é importante para otimizar o uso do espectro e poupar recursos públicos (permitindo construir apenas uma única infra-estrutura de transmissão). Ora, por que o mesmo raciocínio não se aplica às emissoras privadas, que também usarão o bem público e finito do espectro e recursos públicos para construir suas antenas de trnasmissão (através do Pro-TVD do BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social])?”, questiona.

Valério Brittos vai ainda mais longe. Na opinião do acadêmico, não basta uma lei para a TV digital, mas deve ser discutida uma nova legislação para a comunicação social eletrônica incluindo não só a TV e o rádio digitais como a relação destes serviços com as novas plataformas convergentes.

Walter Pinheiro defende versão enxuta de projeto sobre TV por assinatura

O deputado Walter Pinheiro (PT-SP), que deixa hoje a presidência da Comissão de Ciência e Tecnologia (CCTCI) da Câmara, defendeu, em entrevista à Agência Estado, uma versão mais enxuta do projeto de lei que estabelece regras para o setor de TV por assinatura (PL 29/2007). Para o deputado, somente depois da mudança da lei é que a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deve realizar novas licitações de licenças no setor.

A Anatel vem estudando realizar neste ano uma licitação para a venda de licenças. Segundo Pinheiro, não adiantaria muito colocar novas licenças à venda antes da mudança na legislação, porque a participação das concessionárias de telefonia continuaria restrita. Pela lei atual, as concessionárias de telefonia fixa não podem ter mais de 20% de participação em empresas de TV a cabo em suas áreas de concessão. O projeto de lei acaba com essa restrição.

Para viabilizar a aprovação do projeto, na opinião de Pinheiro, seria mais indicado tratar apenas da abertura do mercado de distribuição de conteúdos para as empresas de telefonia, deixando as regras de produção de programas de TV para outro momento. No ano passado, a Comissão de Ciência e Tecnologia tentou votar o substitutivo do deputado Jorge Bittar (PT-RJ), mas esbarrou em fortes divergências sobre a proposta apresentada pelo relator de se criar um sistema de cotas para incentivar a produção nacional.

A proposta desagradou principalmente às emissoras de televisão. O projeto acabou seguindo prioritariamente para a Comissão de Defesa do Consumidor sem ser votado na Comissão de Ciência e Tecnologia. "Vamos discutir o mínimo, tirar as pressões e liberar o caminho para fazer outros ajustes", disse o deputado.

Além da licitação de licenças de TV a cabo, a Anatel estuda o destino das frequências de 2,5 giga-hertz, utilizadas pelas empresas de TV por assinatura que usam a tecnologia de micro-ondas terrestres (MMDS). A definição do uso dessa frequência e das faixas que seriam destinadas à banda larga sem fio pela tecnologia Wimax deveriam vir em conjunto, na opinião de Pinheiro, depois de um estudo que definisse as prioridades de utilização.

O objetivo das licitações, de acordo com o deputado, deveria ser o de massificar a banda larga, além de criar condições para baixar o valor dos serviços e dos aparelhos. Para isso, o deputado insiste na necessidade de se criar um Plano Nacional de Banda Larga, com envolvimento de outros setores do governo, que trace diretrizes e metas para a expansão do serviço. Pinheiro deverá ser substituído na presidência da Comissão pelo deputado Eduardo Gomes (PSDB/TO).

Minicom fala em destinar faixas de UHF para TV móvel por celular

As perspectivas de revisão na destinação de faixas usadas por serviços de TV paga não está restrita aos estudos sobre as frequências em 2,5 GHz, usadas pelas empresas de MMDS. O Ministério das Comunicações tem analisado o uso das frequências utilizadas pelas operadoras de TVA (serviço especial de TV por assinatura via UHF) para a destinação de canais digitais às operadoras celulares.

O projeto já vinha sendo estudado pela Anatel há algum tempo e voltou a chamar a atenção do Minicom neste início de 2009. As TVAs (que não se confundem com a operadora homônima) são licenças criadas em 1988 para a oferta de TV por assinatura em um único canal UHF. Existem cerca de 25 licenças de TVA, espalhadas pelas principais capitais brasileiras e em nome de grandes grupos de mídia, incluindo Globo, Abril, RBS e Band.

A oportunidade de dar nova destinação às faixas de TVA está no seu potencial para a distribuição por operadoras móveis de conteúdos em TV via celular. O cálculo é que, para cada canal destinado a uma empresa de TVA (de 6 MHz), seria possível criar 13 canais para as empresas celulares. Para o ministro das Comunicações, Hélio Costa, essa alteração poderia dar melhor uso a faixas que hoje nem sempre tem uma exploração plena por parte das empresas.

Mesmo com a vontade de rever a destinação dessas faixas, o Minicom não deve tomar, por enquanto, nenhuma medida efetiva. "Não tem como eliminar as empresas. Elas têm direito adquirido. Mas é importante analisar o que pode ser feito com o espectro nesse setor", ponderou o ministro Hélio Costa.

A Qualcomm e a Nokia-Siemens já analisaram a possibilidade de utilizar estas faixas para distribuir conteúdos móveis para celular na plataforma MediaFlo e DVB-H, respectivamente. Alguns empresários brasileiros já se movimentaram nesse sentido, mas a incerteza regulatória em relação à manutenção das licenças é um forte complicador para a viabilização dos projetos.

Entidades criticam cobertura da mídia sobre ações do movimento

Não é de agora que os veículos de comunicação direcionam sua cobertura para atacar os movimentos de luta pela terra, em especial o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Nas páginas de jornais e nas telas de TV, a cobertura destes veículos sobre os casos de conflitos envolvendo estes movimentos sociais é descontextualizada, criminaliza estas organizações e questiona sua legitimidade.

Nas últimas semanas, este comportamento se repetiu. No episódio chamado pela grande mídia comercial de “carnaval vermelho”, em referência à quantidade de ações de ocupação de terras durante essa época do ano (mesmo sem nenhuma relação aparente entre elas), os movimentos sociais foram novamente condenados pelas iniciativas de luta contra os grupos que se beneficiam da concentração de terra no campo.

O estopim da ofensiva dos meios de comunicação foi o conflito, ocorrido entre dos dias 20 e 24 de fevereiro, em Pernambuco, que resultou na morte de quatro seguranças de uma fazenda. Segundo o MST, as vítimas eram pistoleiros contratados pelo dono da Fazendo Consulta e Jabuticaba, localizadas no município de São Joaquim do Monte, distante 137 do Recife.

A cobertura apoiou-se nas declarações do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, que se utilizou do caso para questionar a destinação de verbas públicas a projetos de movimentos que, ainda segundo ele, “cometem ilícitos e são ilegais”. Afirmações como estas têm se tornado munições cada vez mais usadas para subsidiar a grande mídia comercial na ofensiva contra os movimentos sociais.

Críticas

A dobradinha Gilmar Mendes-veículos de comunicação recebeu pesadas críticas de entidades, acadêmicos e profissionais da comunicação. “Desta vez, Gilmar Mendes abandonou seu papel jurídico para emitir opinião política e criminalizar um movimento social que luta pela reforma agrária. Ágil, antecipou-se à análise dos fatos e já emitiu seu julgamento. Seu parecer ideologizado foi prontamente reverberado e potencializado pelo conjunto dos meios de comunicação, que afirmam-se cada vez mais como o grande partido da direita em nosso país”, afirma o secretário-geral da CUT, Quintino Severo, em artigo publicado no portal da Central nesta quarta-feira (4).

O jornalista Leonardo Sakamoto, em mensagem publicada em seu blog [veja aqui ], considerou a postura de Mendes questionável por tratar o MST de maneira muito mais dura do que o setor empresarial também acusado de crimes e ilegalidades.

“Por que ele não veio a público dizer o mesmo nas centenas de vezes em que ocorreu o contrário, quando grandes empresas e fazendeiros, que receberam recursos públicos do BNDES, Banco da Amazônia, Banco do Nordeste, Caixa Econômica Federal, Banco do Brasil, entre outros, estiveram envolvidos direta ou indiretamente com a morte de centenas de trabalhadores rurais, sindicalistas e missionários, com a contaminação e destruição do meio ambiente, o trabalho escravo e o infantil, a expulsão de comunidades tradicionais de suas terras, a grilagem de terras, a corrupção de políticos e de funcionários públicos?”, questiona o jornalista, coordenador de projetos premiados pela denúncia contra o trabalho escravo em propriedades rurais.

Para Mayrá Lima, integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social, “este episódio é um exemplo de como a cobertura da grande mídia dos conflitos envolvendo os movimentos sociais, bem como de qualquer pauta que diga respeito a estas organizações, busca desqualificar suas bandeiras de luta e suas ações, além de não fazer o real debate com a população sobre os problemas da concentrada estrutura agrária brasileira”.

A forma como o Ministro se pronunciou, ao convocar uma coletiva para falar publicamente sobre o caso, também é criticada. Na avaliação de Fernando Prioste, advogado da ONG Terra de Direitos, além das acusações de Mendes sobre o recebimento de verbas estatais por parte do MST não serem verídicas, é preocupante que o Presidente do Supremo Tribunal Federal tenha convocado a imprensa para dar sua versão do caso sem sequer ter sido provocado para isso.

Na opinião de Rodolfo Cabral, professor da Faculdade de Direito da UFPE e pesquisador sobre o tema agrário, a ação combinada entre judiciário e meios de comunicação comerciais acaba por fazer estourar a corda do lado mais fraco.  “Muitas vezes, a imprensa se utiliza do judiciário e de declarações conservadoras, como as de Gilmar Mendes, para respaldar a sua posição também refratária à ação dos movimentos. Da mesma forma, o judiciário se apóia mais no que vê, ouve ou lê na imprensa do que na versão dos trabalhadores rurais para darem as suas decisões. Há casos de decisões em que o juiz utiliza como fundamento matérias de jornais, na maioria das vezes contrárias aos sem-terra. Na relação de retroalimentação entre duas instituições conhecidamente conservadoras e que pautam a esfera pública, quem sai perdendo são os movimentos sociais”, alerta.

Acusações equivocadas

Fernando Prioste contesta a acusação de que o MST, como organização, recebe verbas públicas. “O que acontece é que o Estado, impossibilitado ou por opção, resolveu terceirizar a outras organizações, que não o MST, serviços, dentre eles, alguns ligados ao desenvolvimento de assentamentos e acampamentos”. Entre estas atividades estão a “assessoria técnica relativa à produção e também à educação”, diz. Estas últimas ocorrem em razão de muitos assentamentos ficarem distantes das escolas, o que impossibilita e/ou desestimular as crianças a freqüentar as escolas públicas tradicionais.

Em entrevista ao jornalista Paulo Henrique Amorim em seu Blog, Conversa Afiada, o Coordenador do MST, João Pedro Stédile, lembrou que ao final do Governo Fernando Henrique Cardoso as contas de entidades ligadas ao MST foram exaustivamente analisadas e nenhuma irregularidade foi encontrada. A versão do MST, assim como as contra-argumentações ao ataque de Gilmar Mendes, foram solenemente ignoradas pelos veículos comerciais.

Tratamento igual receberam as notas de repúdio divulgadas por movimentos sociais contra as declarações de Mendes desde o início da repercussão da sua fala. A única voz dissonante publicada foi a do Procurador-Geral da República, Antônio Fernando de Souza, que se limitou a falar da ação do Ministério Público Federal, cobrada pelo Ministro do Supremo, na fiscalização das ações do MST. Segundo Souza, o MPF investiga há muito tempo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, sendo que não costuma fazer pronunciamentos antes das investigações chegarem aos resultados finais.

Um peso, duas medidas

Enquanto a mídia comercial volta-se contra os movimentos sociais, especialmente o MST, os crimes contra os trabalhadores rurais não merecem a mesma abordagem. Números apresentados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) – que desde 1997 publica anualmente o Caderno Conflitos no Campo Brasil e traz dados sobre a questão agrária no país – revelam que, de 1997 a 2007, 363 trabalhadores rurais sem terra foram assassinados por questões relacionadas às suas atividades políticas.

A cobertura desses crimes pela imprensa, com exceção do caso da missionária Dorothy Stang, são superficiais e quase nunca trazem consigo indicações no sentido de cobrar a apuração e a condenação dos responsáveis, como aconteceu no caso dos assassinatos em Pernambuco.

Enquanto questionam os repasses de recursos para projetos nos assentamentos, os meios comerciais não investigam o dinheiro público investido em operações empresariais que promovem ações ilegais como queimadas, desmatamentos e trabalho escravo, dentre outras ilicitudes.

Nem mesmo os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe) que denunciam o desmatamento de 754 quilômetros quadrados de Floresta Amazônica nos últimos três meses, divulgados pelos jornais O Globo e Folha de São Paulo no dia 4 de março, foram suficientes para instigar o conjunto dos meios de comunicação comerciais para o questionamento do subsídio público direcionado aos investimentos de empresários que promovem estes tipos de prática.

Perseguição

O episódio das críticas de Gilmar Mendes é mais um dentre os ataques patrocinados pela ação articulada entre mídia comercial e Judiciário. No ano de 2007, o Conselho Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul aprovou um relatório que propôs designar promotores de justiça em ações para declarar a ilegalidade do MST.

Partiu do mesmo órgão de justiça, em conjunto com o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, no início de 2009, a ação de fechamento das escolas do MST nos assentamentos, iniciativa que deixou mais de 600 crianças sem acesso ao direito básico à educação.

Nos dois casos, o tratamento da grande mídia foi pontual, sem que fossem problematizadas questões primárias como as atribuições do ministério público para propor, por exemplo, a extinção de um movimento social ou as conseqüências do fechamento das escolas e a dificuldade do acesso aos equipamentos tradicionais de educação por parte da população rural. 

A sucessão de episódios como estes assustam os movimentos sociais e seus aliados. O aumento do tom da ofensiva contra estas forças indica um recrudescimento de posições conservadoras na sociedade e no Estado, daninho à democracia e à justiça social do país.