Arquivo da categoria: Notícias

Para especialista, país deve pensar desde já sobre o uso dos 700 Mhz

O setor de radiodifusão e a academia já estão preocupados com qual será o destino para a faixa de 700 MHz que "sobrará" após a transição do sistema analógico de televisão para o modelo digital. Em debate nesta terça-feira, 20, na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados, o assunto foi apresentado como um dos mais importantes na pauta do setor para os próximos anos. Para o professor do Instituto Mackenzie e especialista na área Gunnar Bedicks, o Brasil deve encarar o debate sobre o "dividendo digital" desta migração o mais rápido possível uma vez que outros países já estão nesta fase de debate.

"Qual o destino que nós podemos dar para estes canais? Acho que esta é uma pergunta importante a ser respondida de acordo com objetivos traçados para o país", declarou. As recentes demandas das operadoras de telefonia móvel para que esta faixa seja destinada a eles foi lembrada pelo especialista. "Há um pseudo risco de que esta faixa, destinada à radiodifusão, destinada a um serviço público, seja redestinada para as telecomunicações", ressaltou, frisando que esta "parte Premium" do espectro tem sido cobiçada pelas móveis como uma ferramenta de garantia da "sobrevivência" dos serviços celulares.

Bedicks também citou as recentes polêmicas envolvendo a mudança de destinação da faixa de 2,5 GHz como parâmetro para que o governo fique atento ao futuro dos 700 MHz. "É preciso se olhar muito bem se é isso que queremos para o país. Mesmo com uma recomendação da ITU (sigla em inglês da União Internacional de Telecomunicações), o Brasil não é obrigado a seguir essa destinação", comentou, fazendo referência ao principal argumento utilizado pela Anatel para justificar a alteração na faixa de 2,5 GHz para a entrada das empresas móveis.

Com a migração das emissoras para o sistema digital, o cálculo é que "sobrem" oito canais em VHF, totalizando uma sobra de 48 MHz, e 28 no UHF, correspondente a 168 MHz.

Intervozes alerta para necessidade de atualizar regras frente à digitalização

Desde a escolha do padrão para a digitalização da televisão brasileira, há três anos, um dos principais desafios da mudança do sistema ainda não foi resolvido: a atualização da regulamentação do setor para que as regras estejam em compasso com a nova realidade. Essa pendência continua preocupando entidades envolvidas com o setor, como é o caso do Coletivo Brasil de Comunicação Social (Intervozes). Em debate realizado nesta terça-feira, 20, na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados, o coordenador do Intervozes, Bráulio Ribeiro, alertou que a falta de regulamentação pode gerar efeitos mais nocivos do que um simples descompasso com o mercado.

A iminente escolha de um padrão de digitalização para o rádio já preocupa as pequenas emissoras. Segundo Ribeiro, sem a atualização das regras, emissoras comunitárias de rádio correm o risco de serem obrigadas a parar de funcionar quando a migração for feita. Isso porque o efeito inicialmente positivo da digitalização, que permite a cobertura de áreas maiores com menos potência, aniquilaria as transmissões das comunitárias, que já trabalham com potências baixas. "Testes mostram que a transmissão das comunitárias pode se igualar ao ruído das grandes cidades", alertou o representante do Intervozes.

A proposta da entidade para evitar este problema é que o Ministério das Comunicações altere os parâmetros utilizados para o funcionamento dessas rádios, retirando o limite de potência e se pautando pela área de abrangência da comunidade. Assim, essas rádios poderiam utilizar a potência necessária para cobrir a área da comunidade-alvo, mesmo que a transmissão seja em taxas mais altas do que o permitido atualmente.

Outra preocupação é com a transferência das emissoras de televisão do VHF para o UHF no processo de digitalização. As regras em vigor prevêem a existência de 10 canais em cada uma dessas modulações. E apenas a soma das emissoras comerciais e dos oito canais públicos criados pelo governo – entre eles os da cidadania, educação e cultura – já excederia o limite regulatório atual. "Desde o início nós alertamos que há uma inversão da discussão. Falta uma regulamentação que considere a entrada de novos players, a oferta de novos serviços e outras realidades que estão surgindo com a digitalização".

Democratização

Além de solucionar problemas concretos, o debate sobre a regulamentação e, até mesmo, de uma atualização das leis em vigor tem como alvo maior uma democratização da comunicação. A bandeira levantada pelo Intervozes também foi empunhada pela deputada Luiza Erundina (PSB/SP) autora do requerimento de realização da audiência pública de hoje. Para a deputada, a legislação do setor está "obsoleta" e a discussão ainda não foi feita com a profundidade necessária. "Os avanços tem sido muito lentos, muito reticentes", declarou, lembrando que a democratização dos meios é uma tendência mundial.

Na percepção de Bráulio Ribeiro, o país precisa tomar uma decisão sobre qual rumo pretende tomar nas comunicações a partir de agora. "A questão não é tecnológica; é política. E, na nossa visão, ele (o modelo adotado até o momento) está a serviço da manutenção do atual perfil de concentração da radiodifusão no país."

Da parte da Anatel, a postura é proteger as emissoras de interferências que poderiam inviabilizar a transmissão de TV. Para isso, a agência fez opções fortemente técnicas como impedir a entrada de novas empresas durante os nove anos de transição do modelo analógico para o digital, conforme explicou o superintendente de Serviços de Comunicação de Massa da Anatel, Ara Apkar Minassian.

Consignação X concessão

Outra polêmica que ainda atiça o segmento de radiodifusão é a ação movida pelo Psol questionando a constitucionalidade do decreto nº 5820/2006, que implantou o sistema de televisão digital no Brasil. O assunto também foi discutido na audiência e o presidente do Fórum do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), Frederico Nogueira, aproveitou a ocasião para reforçar a defesa do decreto.

"Não há nenhum tipo de infração à lei por parte do decreto. Ele está totalmente de acordo com a legislação porque não se deu uma nova concessão, mas apenas um aditivo à concessão existente, uma consignação de um canal necessário para a transição", argumentou Nogueira. A disputa judicial que está sendo travada no Supremo Tribunal Federal (STF) coloca em dúvida se a consignação de mais um canal, mesmo que para a transição, para as emissoras não fere o Código Brasileiro de Telecomunicações (CBT) que determina que cada empresa só pode ter um canal em cada cidade.

Nogueira argumenta ainda que, como haverá um switch off em 2016, está configurado que, na verdade, a emissora detém a concessão plena dos dois canais. Mas, para o Intervozes, a devolução dos canais analógicos no fim da migração não é garantia de cumprimento da lei. "Este pode ser o maior problema do decreto porque ele faz toda a migração lastreado em cima de um serviço que vai deixar de existir", analisa Bráulio Ribeiro, fazendo referência ao modelo analógico.

O assunto ainda está longe de ser pacificado. A Procuradoria Geral da República (PGR) já emitiu parecer apoiando as dúvidas levantadas pelo Psol de que seria necessária uma nova licitação para conceder novos canais às emissoras. Para a PGR, o decreto está permitindo às empresas explorarem um novo serviço sem a devida autorização do Congresso Nacional. O caso ainda não tem data para julgamento no STF.

SEAE defende a criação de um mercado secundário de freqüências

Em sua contribuição à consulta pública que propõe novos usos à faixa de 2,5 GHz, a Secretaria de Acompanhamento Econômico, órgão do Ministério da Fazenda, apóia a proposta da Anatel de destinar parte do espectro ao Serviço Móvel Pessoal (SMP). O órgão reconhece que a medida pode limitar a competição na TV paga, mas enfatiza que o MMDS não é significativo em termos de número de assinantes. Além disso, pondera que já há considerável rivalidade entre o cabo e o satélite na oferta de TV por assinatura.

A SEAE destaca que nada impede que os atuais operadores de MMDS se candidatem aos leilões de radiofreqüência para oferecer o serviço de acesso à internet, o que poderá beneficiar a competição na banda larga móvel. “O uso dessa faixa de espectro para esse serviço (TV paga) não gera o direito adquirido para prestação de outros serviços”, acredita a secretaria. O órgão, no entanto, ressalta a importância de a Anatel editar o regulamento voltado à fixação do uso eficiente do espectro para mitigar eventuais conflitos. Sem o regulamento não é possível lidar com questões como a flexibilização/liberalização no uso do espectro; criação de um mercado secundário de freqüências (arrendamento e transferências); aproveitamento das freqüências não-licenciadas; e inovações tecnológicas que permitem o compartilhamento de freqüências.

A SEAE defende que o modelo brasileiro de gestão do espectro migre gradualmente para um modelo que permita transações com faixas de espectro, o chamado spectrum trading. Mas enfatiza que a atuação do órgão regulador é extremamente necessária para intervir em direitos de propriedade sobre o espectro radioelétrico. “A evolução tecnológica torna necessária a redefinição periódica de como estabelecer separações no uso do espectro e nos seus direitos de propriedade. Por isso, é que não é aconselhável estabelecer direitos de propriedade permanentes sobre o uso das radiofreqüências do espectro radioelétrico”, diz a SEAE em sua contribuição à consulta pública.

Minicom pede aceleração do PGR no Plano Nacional de Banda Larga

Embora a Anatel tenha representantes nos grupos de trabalho, liderados pela Casa Civil, que estão discutindo o Plano Nacional de Banda Larga, o consultor jurídico do Ministério das Comunicações acredita que as ações planejadas pela Anatel, notadamente, o PGR, precisam ser consideradas no plano. "É importante envolver a agência nesse processo. Precisa haver um plano de aceleração do PGR. O PGR pode ser uma base interessante para algumas ações desse plano", sugere Bechara.

Consultor voltou a defender a posição do Minicom sobre a participação das empresas no projeto, mas reconhece que a maneira como elas participariam ainda precisa ser discutida. Bechara considera que a troca de metas dos PSTs pelo backhaul e a implantação da banda larga nas escolas são exemplos importantes de como as empresas podem ser inseridas nesse processo. "Não estamos começando nada do zero. Fazer o isolamento da discussão da banda larga na infraestrutura é um grande erro", ressalta. O consultor jurídico também recorreu ao "espírito" da LGT para sustentar a participação das empresas. Para ele, o espírito da lei geral é a competição, motivo pelo qual as empresas não podem ficar fora do projeto. "A rede pública é uma questão que pode e deve ser analisada. A questão é de que forma, como e quem vai operá-la", acrescenta.

Em pouco menos de um mês o Ministério das Comunicações apresenta ao presidente Lula seu projeto para o Plano Nacional de Banda Larga. Esse também é o prazo que o outro lado do governo, do qual participam o Ministério do Planejamento e Casa Civil, tem para apresentar o seu plano. Bechara sustenta que não existe "um plano alternativo". "Não existe nenhum tipo de divergência competitiva entre as propostas. As divergências que existem no governo não são de propostas excludentes. Temos que colocar as cartas na mesa e discuti-las", considera ele.

Anatel fecha consulta sobre 2,5 GHz com expressivo protesto dos consumidores

Desde que os debates sobre uma mudança de destinação da faixa de 2,5 GHz, utilizada hoje pelas empresas de MMDS e SCM, tiveram início, a polêmica sempre esteve presente. Mas o fechamento da consulta pública feita pela Anatel sobre o assunto surpreendeu com relação ao tamanho da polêmica, que ultrapassou as fronteiras do debate técnico entre as empresas afetadas pela medida. A consulta pública, concluída à meia noite da última sexta, 16, recebeu 584 contribuições ao todo. E, desse montante, mais de 450 comentários foram feitos por usuários de serviços de MMDS e cidadãos protestando francamente contra a alteração da destinação da faixa.

A mudança proposta pela Anatel transfere a maior parte dessa fatia do espectro às operadoras de SMP, que passam a operar em caráter primário em quase toda a faixa. Para as empresas de MMDS, sobrariam apenas 50 MHz, dos 190 MHz compreendidos na faixa, para operação prioritária a partir de 2015. Para os clientes, a medida enfraquece a competição, pode gerar desemprego e não beneficia o consumidor que hoje tem acesso a serviços de TV por assinatura mais baratos por meio das empresas de MMDS.

Muitas mensagens se repetem, sugerindo que possa ter havido uma provocação por parte das empresas para que seus clientes se manifestassem contra a proposta de mudança no espectro. Caso isso tenho ocorrido, a iniciativa teria partido individualmente de algumas empresas, já que as grandes associações do ramo de TV por assinatura, ABTA e Neotec, negaram ter estimulado qualquer campanha de boicote à consulta e seus representantes mostraram-se surpresos com a grande participação dos consumidores.

É impossível dizer se a enorme quantidade de contribuições contrárias afetará a decisão final da agência reguladora, que ainda não tem data para bater o martelo sobre a mudança na faixa de 2,5 GHz. Mesmo que a agência não se abale com os protestos e mantenha a linha técnica de análise, a consulta pública nº 31 já entrou para a história do setor com a maior participação de cidadãos alinhados a uma mesma visão contrária a uma proposta da Anatel.

Defesas técnicas

Nos últimos dias de consulta, as empresas e fabricantes favoráveis à alteração na faixa de 2,5 GHz se mobilizaram para apresentar longas análises técnicas em defesa da destinação para o SMP. Os argumentos apresentados são conhecidos: a crescente expansão da telefonia móvel e a tendência mundial de usar essa faixa para a 4ª geração deste serviço, basicamente. A sinalização dada pela União Internacional de Telecomunicações (UIT) sugerindo que essa faixa seja prioritariamente utilizada por tecnologias UMTS é citada em praticamente todas as contribuições favoráveis à consulta e está em sintonia com os argumentos utilizados pela própria Anatel na elaboração da proposta.

Todas as empresas de telefonia móvel que participaram da consulta foram, obviamente, favoráveis à mudança, assim como a associação deste segmento. Entre os fabricantes, apenas a Motorola não se posicionou francamente a favor da destinação sugerida pela Anatel, propondo que 110 MHz fiquem com o MMDS e o restante, com o SMP. Os demais fabricantes de equipamentos apoiam a proposta por conta dos ganhos de escala com o uso do LTE pelas móveis nessa faixa.