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Desigualdade exclui mais meninas que meninos do mundo digital

A investigação para o informativo “Porque sou uma Menina” (Because I am a Girl) de 2010, da ONG Plan, estudou a relação das meninas com a internet no mundo, tomando como pano de fundo “ambientes em trasformação”, como cidades de países em desenvolvimento que recebem grande quantidade de migrantes das zonas rurais. O estudo elegeu os principais fatores que fazem com que as meninas subaproveitem a tecnologia, e a maior parte das razões surge da desigualdade com que os dois gêneros são tratados no mundo. Desde questões financeiras até a liberdade dispensada pelas famílias exclui as futuras mulheres de um instrumento essencial para a comunicação e trabalho hoje, que é o caso da internet.

Faz parte do estudo a pesquisa realizada no Brasil com 44 meninas e mais de 400 entrevistadas online entre 10 e 14 anos. Na pesquisa de grupo focal com mães e filhas, ficou evidente que é dada menos liberdade às meninas devido aos temores de seus pais pela sua segurança.

As meninas comentaram: "queremos aprender um curso profissionalizante… nossas mães não nos deixam ir a um curso fora da comunidade… elas têm medo da perseguição sexual." O relatório afirma que o desejo de proteger as meninas retarda-as de frequentar a escola, ir a um cyber café, à Universidade, prejudicando o desenvolvimento do potencial delas. Ele foi realizado pelo Instituto Internacional para os Direitos e Desenvolvimento da Criança e Adolescente (International Institute for Child Rights and Development), por meio da Parceria para a Proteção da Criança e Adolescente (Child Protection Partnership).

Uma das principais questões que o relatório trata, além do acesso de meninas à tecnologia, é a sua segurança, tanto na cidade, quanto no mundo digital. Entre as brasileiras, 79% disseram não se sentir seguras online e metade disse que seus pais não sabem que possuem acesso à rede. Quase metade afirma que gostaria de conhecer pessoalmente alguém que conheceu no mundo virtual, mas apenas um terço delas sabe como relatar um perigo ou algo que as faça sentirem-se mal quando estão conectadas.

A preocupação é que as tecnologias estão expondo as adolescentes a imagens de violência, exploração e degradação de mulheres em um momento frágil de suas vidas quando estão se desenvolvendo sexualmente. Mundialmente, mais meninas são afetadas pela exploração sexual do que meninos, e uma em cada cinco mulheres foi abusada sexualmente antes dos 15 anos.

A Internet fomenta intimidade com pessoas estranhas que parecem ser confiáveis, e as adolescentes tornam-se alvo de abuso, incluindo o tráfico via internet, telefone móvel ou outras tecnologias da comunicação. É possível, por exemplo, que alguém tire uma foto degradante de uma menina pequena e a espalhe em segundos.

A publicação faz um chamado para a ação aos países e sociedades civil. Entre as medidas sugeridas para ensinar as meninas a se protegerem estão aumentar o acesso e o controle das meninas sobre as tecnologias da informação, sobre as ciências exatas; além de expandir e melhorar mecanismos de proteção online.

 

 

Algumas constatações do relatório

Discriminação – As meninas ainda são consideradas como cidadãs de segunda classe em muitas sociedades.

Quantidade – Os meninos superam em número as meninas e tendem a dominar o acesso aos computadores.

Confiança – Devido a não terem o mesmo acesso à escola, as meninas se sentem menos confiantes que os meninos quando têm que se envolver em trabalhos de tecnologia porque não sentem que possuem as mesmas habilidades e conhecimentos que os homens jovens que competem pelos mesmos cargos.

Idioma – Para utilizar estas tecnologias, geralmente se requer o inglês, e para as meninas com alfabetização básica em seu próprio idioma, esta é uma barreira importante.

Tempo – As tarefas domésticas das meninas ainda em uma idade precoce significam que têm menos tempo que os meninos para explorar e experimentar as novas tecnologias.

Dinheiro – As meninas têm menos probabilidades que seus irmãos de obterem recursos financeiros para pagar, por exemplo, por um telefone celular e seus custos operacionais, ou para ter acesso à web em um cyber café.

Liberdade – Os meninos também possuem mais probabilidades de que lhes seja permitido usar o cyber café porque os pais se preocupam quando suas filhas saem sozinhas.

 

Leia o resumo da pesquisa em português ou o relatório completo em inglês.

 

‘Aqui é um faroeste’, diz especialista; debate deve retornar após as eleições

No Brasil, a discussão sobre a regulação da mídia esquentou no ano passado, depois que o Supremo Tribunal Federal extinguiu a Lei de Imprensa elaborada no Congresso e promulgada durante o regime militar, em 1967. Hoje o país tem uma série de leis, normas e órgãos que regulam as empresas de comunicação, mas não há uma política nacional que considere todos os aspectos da comunicação nem uma lei geral.

O Código Brasileiro de Telecomunicações (lei 4.117) é de 1962; em 1996, a parte que tratava do setor das chamadas "teles" passou a ser regida pela lei 9.295, que permitiu a privatização do setor. O mesmo código voltou a ser modificado em 2002, para permitir a entrada de capital estrangeiro nas empresas de comunicação (até 30%). Outras leis específicas regulam a Empresa Brasileira de Televisão, a TV digital, a radiodifusão comunitária e outros aspectos.

Para o professor Murilo César Ramos, da UnB (Universidade de Brasília), é essa “miríade” de leis e normas que dintingue o Brasil do resto do mundo.

“Aqui é um faroeste. Não há uma lei efetiva para regulação de rádio e TV. A lei que existe é totalmente inaplicável, superada no tempo. Só para se ter uma ideia, ela antecede a radiodifusão em FM! Além disso, os dispositivos de propriedade cruzada, controle por grupos econômicos e regulação de programação regional previstos na constituição nunca foram regulamentados”, afirma Murilo César.

Um exemplo da falta de aplicação da lei é o artigo 220, que proíbe oligopólios e monópolios no setor e institui a complementariedade entre os três sistemas – público, privado e estatal – de rádio e TV. O artigo 221, que trata das finalidades educativas e culturais da programação e garante a regionalização e a presença da produção independente, é outro que nunca foi regulamentado.

Debate

É exatamente isso que está em pauta no debate sobre uma nova lei. Para Murilo César, o Brasil está ficando para trás em relação a outros países sul-americanos, como Argentina e Venezuela.

“Não estou entrando no mérito de se as leis desses países são boas ou ruins. O importante é que há leis novas. Essa que é a grande novidade. E por isso existe hoje no Brasil uma grande demanda por um marco regulatório novo, atual”, comenta.

O debate deve pegar fogo depois das eleições. Em novembro, haverá em Brasília um novo evento para discutir o marco regulatório para a indústria de mídia. Será o passo seguinte à Confecom (Conferência Nacional da Comunicação), que aconteceu em dezembro do ano passado e terminou com 633 propostas aprovadas.

Entre elas, havia novos critérios para concessões de frequência da rádio e TV; a criação do Conselho Nacional de Comunicação (órgão independente para criar políticas públicas e regular sua aplicação); a criação de mecanismos de fiscalização para punir rádios e TVs que veiculem conteúdos depreciativos; uma nova lei de imprensa que garanta direito de resposta e assegure a pluralidade de opiniões; cotas para programas educacionais, culturais e informativos; reserva de 50% para programação nacional nas emissoras; restrições à propriedade cruzada; e limite à formação de redes nacionais por emissoras de TV, reduzindo o número permitido de afiliadas.

Para João Brant, do Coletivo Intervozes, uma das medidas mais importantes seria criar um espaço de participação popular para discutir os rumos das políticas públicas. “A organização do sistema de comunicação protege grandes interesses comerciais, mantém a concentração e não institui a pluralidade e diversidade de conteúdo. Isso é grave porque os meios de comunicação têm um papel central na circulação de ideias e valores, é dessa fonte que a sociedade bebe. Quanto maior o acesso a esse espaço, mais democrático”, defende.

Mudanças tecnológicas e políticas aceleram nova regulamentação da mídia em vários países

No domingo passado, três dos principais veículos impressos do país voltaram destacar suas opiniões sobre um o que consideram restrições à liberdade de imprensa, depois das críticas do presidente Luís Inácio Lula da Silva à cobertura eleitoral. Para o presidente, a imprensa estaria se comportando “como um partido” de oposição.

Em um gesto pouco comum, o jornal O Estado de São Paulo assumiu seu apoio ao candidato da oposição, acusando o governo de “perder a compostura” com as críticas. O editorial da Folha de S.Paulo, publicado na capa, afirma: “Fiquem advertidos de que tentativas de controle das imprensa serão repudiadas – e qualquer governo terá de violar cláusulas pétreas da Constituição na aventura temerária de implantá-lo”.

A revista Veja trouxe na capa texto sobre o artigo V da Constituição, que garante o direito à livre expressão, sob a manchete “liberdade sob ataque”. A matéria acusa o presidente de censurar a imprensa. “Nos países democráticos, a liberdade de imprensa não é assunto discutível, mas um dado da realidade”, diz o texto.

O debate acalorado pode fazer parecer que a regulação da mídia é uma criação da agenda eleitoral do país, resultado de um embate entre governistas e opositores. Mas ela está longe de ser uma questão apenas brasileira. No mundo todo, tem avançado a discussão sobre como regular o setor e como balancear isso com a garantia da liberdade de expressão.

Para o pesquisador em políticas de comunicação Gustavo Gindre, ligado ao Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura (Indecs), é natural que isso aconteça. “O cenário da comunicação está mudando muito velozmente. A lei dos EUA já está antiga, e só tem 14 anos. Mesmo assim, ela sofre revisões periódicas. É quase uma obrigação dos países mudar as leis que não acompanham essas mudanças”.

Debates sobre a regulação mídia tem avançado em especial na América Latina, e não apenas nos países governados por partidos à esquerda. Nos últimos anos, México, Argentina, Equador e Venezuela propuseram novas leis.

A nova lei do audiovisual argentina foi regulamentada em setembro depois de muita polêmica – ela criou um Conselho Federal de Comunicação Audiovisual e endureceu os critérios para concessões, contrariando os interesses do poderoso grupo de comunicação Clarín.

Em agosto, a Venezuela voltou ao centro do debate sobre a imprensa depois de a Justiça proibir dois jornais de publicarem matérias e imagens sobre violência. A proibição foi instituída após uma crítica do presidente Hugo Chávez a um jornal que estampou na primeira página uma foto estourada de cadáveres num necrotério.

Para a Sociedade Interamericana de Imprensa, que representa as grandes empresas de comunicação do continente, a proibição fazia parte de uma “torpe política de Estado a favor da censura prévia”. A mesma SIP aponta na Argentina uma “escalada governamental contra a liberdade de expressão” e acha que que nem mesmo o governo brasileiro pode ser considerado democrático no seu trato com a mídia.

Os governos, por sua vez, argumentam que enfrentam poderosos interesses privados dos grupos de comunicação.

No Brasil, o debate sobre a regulação do setor de comunicação tem esquentado desde 2009, quando foi realizada a Conferência Nacional de Comunicação. Tudo indica que a discussão deve pegar fogo depois das eleições. Está previsto para novembro um evento nacional para delinear um novo marco regulatório para o setor.

A “regra” é ter regra

O papel das leis de imprensa e das leis de mídia é regular as atividades dos meios de comunicação e balancear os limites entre o direito à livre expressão e à informação e os interesses individuais e coletivos de pessoas, empresas e grupos sociais.

Segundo o pesquisador Murilo César Oliveira Ramos, professor da Universidade de Brasília e conselheiro da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), a maior parte dos países tem regras para estabelecer o que pode e o que não pode no setor audiovisual, o que não significa prejuízo da liberdade de expressão.

“Tem várias maneira de decidir o que deve ir ao ar ou não. Quando os EUA e o Canadá dizem que não pode ter propaganda comercial no meio de programas infantis, é um limite. Quando a legislação francesa estabelece que tem que ter programas feitos na França, é um tipo de regulação de conteúdo. No Brasil temos limites para propaganda de cigarro, por exemplo”, diz ele. “Mas se você falar em imprensa a situação é diferente. Como os jornais e revistas não dependem de frequências públicas, têm uma ação regulamentar muito mais frouxa, com mecanismos mais próximos da auto-regulação no mundo todo, com raras exceções”.

França

A Lei de Imprensa mais antiga em vigor é a da França, de 29 de julho de 1881, que influenciou países como Itália, Espanha e Portugal.

Ela garante a liberdade de expressão, com a livre circulação de jornais sem regulação governamental. O mesmo vale para a internet. Mas a mesma lei coloca limites como a possibilidade de ações judiciais em casos de infâmia ou difamação (ou seja, a publicação de informações prejudiciais à reputação de alguém sem base em fatos reais).

Também é proibido o incitamento a cometer crimes, discriminação, ódio ou violência. Em casos de discriminação, a multa pode chegar até a 45 mil euros ou detenção. E pela lei nenhum grupo de mídia pode controlar mais de 30% da mídia impressa diária.

A rédea na França é ainda mais curta no caso dos meios audiovisuais. O país tem uma agência reguladora independente, o Conselho Superior do Audiovisual, que aponta diretores para os canais públicos e outorga licenças para o setor privado (de 5 anos para rádio e 10 para canais de tevê). Também monitora o cumprimento de obrigações pela mídia como a função educativa e a proteção aos direitos autorais, podendo aplicar multa. Dos nove conselheiros, três são indicados pelo presidente, três pelo Senado e três pela Câmara dos Deputados.

O CSA tem a missão de garantir que a mídia audiovisual reflita a diversidade da cultura francesa. Ele garante, por exemplo, que as outorgas de TV e rádio sigam o pluralismo político – há rádios anarquistas, socialistas e até de extrema-direita – e que representem os grupos minoritários. Outra frente é a preservação da língua francesa. Há uma cota de músicas francesas que têm que ser transmitidas pelas rádios e, pela lei, 60% da programação de TV tem de ser europeia, sendo 40% de origem francesa.

Gustavo Gindre, que atualmente trabalha na Ancine (Agência Nacional de Cinema), acha a regra positiva. “Com a reserva de conteúdo os canais têm que se abastecer de produtores pequenos, médios e grandes. Isso estimula a produção independente, mas também incentiva a produção de grandes grupos de comunicação, como o Canal Plus, que produz conteúdo francês para vender no exterior, garantindo uma expressão da cultura francesa no cenário global”.

Portugal

Há cinco anos Portugal instituiu sua própria agência reguladora, ainda mais poderosa que a francesa, a Entidade Reguladora para a Comunicação Social. Além de ajudar da elaboração de políticas públicas para o setor, ela concede e fiscaliza concessões de rádio e tevê, telefonia e telecomunicações em geral, mas também regula jornais impressos, blogs e sites independentes.

Ao mesmo tempo, atende e dá encaminhamento a queixas vindas da população. Seus conselheiros são indicados pelos congressistas e aprovados pelo presidente da República. Em particular a entidade cuida de assegurar rigor, isenção e transparência no conteúdo, o pluralismo cultural e a diversidade de expressão, além de proteger o público mais jovem e minorias contra conteúdos considerados ofensivos.

Reino Unido

O pesquisador Murilo Ramos explica que esse modelo, de órgãos de regulação fortes, é uma característica dos países europeus. Ao mesmo tempo, prevalece um modelo de exploração público estatal, cujos conteúdo é pensado em termos estratégicos para o país. “O grande exemplo é a BBC inglesa”, diz.

A BBC é uma empresa pública independente financiada por uma licença de TV que cada domicílio tem de pagar. A BBC controla a maioria da audiência do país com 14 canais de TV, cinco rádios nacionais, dezenas de rádios locais e serviços internacionais em 32 línguas – esses, essenciais para a influência britânica no cenário mundial.

Mas, apesar do domínio da BBC, o Reino Unido também incentiva o pluralismo. Em 2005, para fomentar as rádios comunitárias, o governo britânico começou a oferecer licenças de cinco anos para as rádios não legalizadas, além de uma verba inicial para que elas se legalizassem, com grande adesão.

Quanto à imprensa, o país não tem uma lei específica. A liberdade de expressão é protegida pela Lei de Direitos Humanos, de 1998, que também introduziu a privacidade como um direito essencial. A liberdade tem de ser compensada também com a proteção da reputação de pessoas contra difamação. Mas o principal limite, de acordo com a cultura jurídica britânica, é a necessidade de preservar a inviolabilidade de julgamentos. Assim, a principal preocupação é evitar qualquer interferência externa nos processos judiciais – por exemplo, os jornalistas não podem publicar detalhes sobre um criminoso ou sobre provas de um crime.

Em 2003, criou-se uma agência reguladora para o setor de mídia, o Ofcom (Office of Communications; em inglês, Departamento de Comunicações). Outro órgão importante é a PCC (Press Complaints Comission), uma comissão independente que recebe reclamações sobre a imprensa e negocia retratações fora do âmbito judicial. Os jornais, voluntariamente, aderem ao código de procedimentos da PCC, que foi aprovado pelo Parlamento.

Itália

Na Itália, a legislação tem cada vez mais influência do governo, ou melhor, do primeiro-ministro.

Em junho, protestos se seguiram à aprovação da "lei da mordaça" proposta por Silvio Berlusconi, que limita o uso e difusão das escutas telefônicas em investigações oficiais, prevendo pena de até 30 dias de prisão e multa de até 10 mil euros. Os principais canais comerciais e agências de notícia pararam sua programação em protesto.

Dos 8 canais nacionais abertos, três são estatais e três controlados pelo grupo Mediaset, de Berlusconi. Juntos, os grupos RAI, estatal, e Mediaset controlam 85% da audiência e 90% dos anúncios. Como Berlusconi pode orientar a linha de ambos os grupos, ele controla a mídia.

De acordo com uma lei de 1997, a Itália tem um um órgão colegiado para supervisionar o setor de telecomunicações, a mídia eletrônica e a imprensa – a Autoridade pela Garantia na Comunicação. O presidente do órgão é escolhido pelo governo e o conselho de oito membros, eleito pelo parlamento. Mas seu papel é enfraquecido num cenário de forte concentração. Do mesmo modo, a Ordem dos Jornalistas reivindica o papel de monitor ético dos seus membros, mas não tem muito poder.

Estados Unidos

Nos EUA, não há uma lei de imprensa e, sim, uma série de regras contidas em diferentes legislações. Mas, segundo a tradição norte-americana, a liberdade de imprensa é garantida pela famosa primeira emenda da constituição, que garante a liberdade de expressão como um dos direitos mais fundamentais da sociedade. Todas as outras regulações da imprensa são elaboradas a partir dessa premissa.

Assim, os jornais funcionam sem qualquer regulação governamental. O mesmo se aplica à internet. Já os canais de TV e rádio são supervisionados pela FCC (em inglês, Comissão Federal de Comunicações), formada pela Lei de Comunicação de 1934 (são seis membros escolhidos pelo presidente e aprovados pelo Senado) e também por comissões no Senado e na Câmara, além de decisões da corte suprema. A legislação garante o direito de processo caso alguém se sinta vítima de difamação por parte da mídia.

O professor Murilo Ramos explica que, nos EUA, os canais públicos acabam sendo marginais em relação às grandes empresas comerciais. Mas é um erro afirmar que não há regulação.

“Há uma regulação forte e um órgão regulador ativo para o setor audiovisual. A FCC tem conflitos o tempo todo com os radiodifusores. E tem ações fortes. Alguns anos atrás, por exemplo, aplicou uma multa pesadíssima contra a CBS porque a cantora Janet Jackson mostrou um seio na final do campeonato de futebol americano”, explica.

Mesmo assim, a regulação midiática segue uma visão liberalizante: acredita-se que o mercado e a opinião pública devem ser os principais reguladores do conteúdo, com o mínimo de interferência do governo possível. Somente quando há uma percepção generalizada de abuso o FCC estuda novas legislações ou a aplicação da legislação com mais rigidez. Foi o caso do seio de Jackson. As regras vetam, por exemplo, a exibição de cenas consideradas indecentes e obrigam todos os canais a transmitir pelo menos três horas por semana de programação educativa para crianças.

“A verdade é que os limites de propriedade, que ainda são mais fortes nos EUA do que aqui no Brasil, têm sido abrandados nos últimos anos. Nos anos 1960 havia uma obrigação de ter produções independentes na TV, e isso vem sendo abrandado pelo FCC em prol dos grandes grupos de comunicação”, diz Gustavo Gindre.

Novas leis e projetos na América Latina esquentam polêmica entre mídia e governos

Muitos países latino-americanos seguem o modelo de mídia dos Estados Unidos, que privilegia a exploração comercial por grandes grupos de comunicação. Mas, com novas leis sendo propostas no continente, a tendência está mudando, segundo o professor Murilo César Ramos, pesquisador da UnB (Universidade de Brasília).

“Hoje, o Brasil ficou atrás da Argentina, do Equador, que têm novas leis”, diz.

As novas legislações desses países tentam corrigir a falta de espaço para críticas e para a participação da sociedade civil nas decisões sobre o conteúdo, problema apontado em vários modelos latino-americanos para o setor.

“Há uma busca por garantir a participação da população, dos movimentos sociais e da sociedade civil organizada por meio de um órgão regulador não só transparente, mas poroso”, diz o pesquisador Gustavo Gindre, do Indecs (Instituto de Estudos e Projetos em Comunicação e Cultura).

México

No México, um dos maiores mercados do continente, a concentração é uma realidade. A legislação é abertamente favorável à rede Televisa, que tem cerca de 70% do mercado – e detém direitos sobre os principais canais a cabo, a Editorial Televisa e a Rádio Televisa – o segundo grupo, da TV Azteca.

Em 2006, foi aprovada uma reforma na Lei Federal de Rádio e Televisão, que ficou conhecida como a “Lei Televisa-Azteca”. Com a reforma, mais frequências de rádio e TV foram outorgadas aos dois maiores grupos do país em vez de serem entregues a grupos menores, concentrando ainda mais o setor.

O governo federal regula a mídia eletrônica por meio do Ministério de Comunicação e Transporte e da Subsecretaria de Mídia do Ministério do Interior. O de Comunicação emite licenças para TVs e rádios, que podem chegar a 30 anos. Os integrantes dos dois ministérios são escolhidos pelo presidente, o que leva a muitas críticas de controle político.

Ambos fazem uma classificação dos programas que podem ser transmitidos para cada faixa etária. Todos os programas, incluindo os de sexo, violência, vícios e xingamentos, têm que passar pelo crivo da censura. Propagandas de cigarro, por exemplo, não podem ser transmitidas antes das 20h.

A lei de imprensa vigente é de 1917 e tem caráter penal. Além dela, o Código Penal de 1931 define a calúnia e difamação, delitos cometidos contra funcionários públicos, assim como a “publicação de segredos” e “ultrajes aos símbolos nacionais”.

Uma crítica frequente é o uso político dos critérios de monitoramento do conteúdo. Um dos preceitos seguidos é o “respeito às instituições”. Não é comum que os programas de TV, rádio ou jornais insultem membros do governo ou instituições, gerando ações criminais contra os jornalistas.

Argentina

A Lei de Serviços de Comunicação Audiovisuais argentina foi sancionada em outubro do ano passado para substituir a lei que havia sido promulgada durante a ditadura. Porém, devido a entraves da Justiça local, a nova lei só foi regulamentada este mês.

A legislação atual cria um Conselho Federal de Comunicação e a figura do Defensor Público de consumidores de audiovisual. Também limita a propriedade: cada empresa não pode ter mais de dez estações de rádio e televisão, nem um canal aberto e um a cabo na mesma localidade. Além disso, criou cotas de produção local e limitou a participação estrangeira nas empresas do setor a 30%.

Desde a sua aprovação, tem esquentado a briga do governo com o maior grupo do país, o Clarín – que congrega jornais, revistas, dois canais de TV, redes de TV por assinatura, rádios, portais de internet e fábricas de papel. Em agosto, o governo revogou a licença de uma das empresas de internet do grupo. A briga foi parar na Justiça.

Pouco depois, o governo publicou um relatório denunciando que os donos dos jornais Clarín e La Nación adquiriam ilegalmente ações da empresa Papel Prensa, produtora de papel-jornal, depois de apoiarem a tortura dos antigos donos na ditadura militar. Com base no dossiê, o governo prepara denúncia por homicídio e cumplicidade no sequestro e nas torturas. Os jornais negam.

Equador

No Equador, o debate sobre a lei de comunicação se arrasta desde 2009. O último avanço foi a denúncia de sete parlamentares de oposição à OEA (Organização dos Estados Americanos), no início de setembro. Para eles, o projeto de lei fere a liberdade de expressão.

O projeto propõe a criação de um Conselho de Comunicação para regulamentar os conteúdos. O governo queria ter representantes no conselho, mas desistiu diante da oposição. O conselho tampouco terá poder para sancionar os meios de comunicação. Outro ponto polêmico é que a lei exige a publicação apenas de notícias “verdadeiras”, critério que os opositores acham muito vago.

A nova lei procura adequar o setor à Constituição, aprovada em 2008. A Carta estabelece, por exemplo, que os bancos não podem ter ações em empresas de mídia. Além disso, as concessões teriam de usar critérios equitativos para o setor público, privado e comunitário.

A oposição também quer garantir uma distribuição equitativa da publicidade estatal e exige regras claras para a administração dos meios de públicos, que são minoria no país: um canal de TV, uma rádio e um jornal.

Venezuela

A constituição venezuelana garante a liberdade de expressão, mas também indica que deve haver limites. O governo de Hugo Chávez tem sido criticado pela oposição, que conta com a simpatia de vários órgãos de imprensa privados, por, supostamente, abusar do poder na aplicação desses limites. Do ponto de vista institucional, o governo investiu pesado na criação de uma rede nacional de emissoras públicas de TV e rádio e também em um canal internacional, a Telesur.

Há muitas críticas sobre como o governo tem lidado com a mídia oposicionista. Em 2007, não foi renovada a concessão da RCTV, o canal mais popular e mais antigo da Venezuela, acusado de apoiar o golpe de estado fracassado em 2002.

A Conatel (Comissão Nacional de Telecomunicações), órgão que outorga as concessões, endureceu suas ações. Em 2009, fechou 240 rádios que operavam ilegalmente e notificou 34 emissoras cujas concessões tinham expirado. Ao mesmo tempo, a Conatel determinou que os canais a cabo transmitissem mensagens do governo. O canal a cabo da RCTV descumpriu a ordem e também foi retirado do ar.

A emissora Globovisión permanece abertamente crítica ao governo. Porém, parte das suas ações devem passar ao controle estatal, já que elas pertenciam ao Banco Federal, que em junho sofreu intervenção por irregularidades financeiras. Em meados de agosto, parlamentares aprovaram uma lei para impedir os donos de bancos de controlar empresas de mídia.

Pouco depois, a Justiça proibiu dois jornais – El Nacional e Tal Cual – de publicar imagens de violência explícita, depois que publicaram fotos de corpos num necrotério. Em resposta, a imprensa nacional e internacional, com o apoio entidades como a SIP (Sociedade Interamenricana de Imprensa), acusaram o governo de querer censurar a mídia.

Uma lei rigorosa contra crimes midiáticos, proposta em agosto de 2009 e elaborada pela procuradoria-geral, foi retirada da pauta do Congresso venezuelano, em que Chávez contava com praticamente a totalidade das cadeiras, devido a críticas que sofreu. A lei estabelecia pena de prisão de 2 a 4 anos para qualquer pessoa que divulgasse notícias falsas ou manipuladas, que atentassem contra a segurança nacional, a ordem pública e os interesses do Estado.

TCU constata que Anatel não tem controle pleno dos bens reversíveis

No dia 19 de dezembro de 2008, o Conselho Diretor da Anatel aprovou a realização do maior negócio de telecomunicações no Brasil: a compra da Brasil Telecom pela Oi. Dois dias antes, no entanto, a análise da anuência prévia à fusão foi suspensa cautelarmente pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que via riscos na aprovação antes que alguns aspectos regulatórios, legais e econômicos fossem esclarecidos. Um dos pontos que gerou mais receio no órgão fiscalizador foi a falta de informações sobre os bens reversíveis usados por estas concessionárias e que, por natureza, pertencem à sociedade brasileira. A Anatel conseguiu derrubar a liminar alegando ter "controle absoluto" sobre estes itens. Mas, quase dois anos depois da decisão, o TCU constatou que isso não é verdade.

Em acórdão aprovado na última quarta-feira, 22, o tribunal concluiu que a Anatel não possui mecanismos de controle efetivo dos bens pertencentes à União e que sua atuação nessa área tem sido tímida desde que foi criada, em 1998. "Houve praticamente uma fiscalização para cada concessionária desde que a Anatel foi criada. Em alguns casos, inclusive, nem a primeira fiscalização foi completada", afirmam os técnicos da Secretaria de Fiscalização de Desestatização (Sefid), departamento responsável pelo acompanhamento realizado pelo TCU na Anatel desde a emissão da anuência prévia. O relatório foi aprovado pelo ministro-relator do caso, Raimundo Carreiro, e demais membros do Plenário do TCU resultando, inclusive, em recomendações à Anatel sobre este e outros assuntos.

Após fazer várias diligências na agência reguladora, os técnicos da Sefid constataram que as informações disponíveis são apenas as apresentadas pelas próprias concessionárias, deixando à desejar o controle público sobre os bens pertencentes à União e que devem ser devolvidos ao fim dos contratos, em 2025. "A consequência disso é que a informação que a Anatel possui é basicamente aquela apresentada por cada empresa. Assim, a Anatel não tem condições de dispor de informações tempestivas e fidedignas acerca dos bens reversíveis das empresas concessionárias dos serviços de telecomunicações." Diante deste cenário, a conclusão dos técnicos é bastante objetiva: "De fato, o controle dos bens reversíveis não é suficiente, tampouco absoluto".

Modelo de custos

Segundo informações prestadas pela própria Anatel à Sefid, o controle dos bens da União é feito pelo preenchimento de dois documentos pelas concessionárias. O primeiro é um "inventário", onde a empresa deve descrever o patrimônio que possui, prestando informações básicas como localização, grau de utilização, estado de conservação, custo histórico e, enfim, se é reversível ou não à União. O segundo documento trata-se de uma "lista de bens reversíveis" onde o patrimônio a ser devolvido à União deve estar detalhadamente discriminado. Ambos os documentos são auditados por empresas registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), segundo informações da Anatel.

A adoção desses dois mecanismos de controle dos bens, na visão da Sefid, não garante que as informações prestadas são realmente corretas, mesmo que os formulários passem por auditoria independente. Para os técnicos do TCU, a adoção de um modelo de custos é uma peça fundamental para que a Anatel tenha um controle efetivo do patrimônio público usado pelas concessionárias.

Com relação a este aspecto, o acórdão critica a demora da agência reguladora para concluir um sistema mais consistente de análise econômica e financeira do setor, apesar de o TCU já ter cobrado a autarquia inúmeras vezes. "Não existe uma evolução substancial em termos de desenvolvimento de um modelo de custos por parte da agência. Alguns trabalhos foram apresentados a esta Casa de Contas, mas sempre com postergação da confecção de um produto final, capaz de satisfazer aos objetivos almejados."

Novo regulamento

Em sua defesa, a Anatel alegou também que está em curso um projeto de revisão do Regulamento de Bens Reversíveis. Segundo apurou este noticiário, a proposta está pronta para deliberação do Conselho Diretor e tem como relator o conselheiro João Rezende. Apesar da iniciativa da agência reguladora de modernizar as regras de controle dos bens, a Sefid mostrou pouca confiança de que a mudança, sozinha, fará com que o patrimônio público seja acompanhado a contento. "Ações neste sentido são necessárias e urgentes. É imprescindível uma evolução no modo como o controle atual é feito, visto que não é capaz de garantir um acompanhamento adequado da relação desses bens. O simples aprimoramento do regulamento, entretanto, não é garantia de que o controle será mais efetivo", analisa o TCU.

Por isso, o tribunal recomendou que a Anatel passe a fiscalizar periodicamente as empresas para controle dos bens reversíveis e desenvolva novos métodos de monitoramento que assegurem que as listas apresentadas pelas concessionárias são, de fato, "fidedignas e atuais". Pelo levantamento do TCU, a Anatel concluiu fiscalizações de verificação dos bens públicos apenas nas concessionárias CTBC Telecom, Oi e Telefônica entre 1998 e 2007. Nas demais concessionárias – Sercomtel Telecom, Embratel e Brasil Telecom – as ações foram iniciadas, mas não foram concluídas segundo apuração da Sefid.