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Ministro prevê retomada de vendas de linhas de celular em 15 dias

O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, afirmou hoje (24) que a venda de novas linhas de telefonia celular das operadoras punidas na última semana pelo governo deve ser liberada na primeira quinzena de agosto. “Não vamos resolver isso em 15 dias, mas achamos que neste  prazo é possível ter um plano [plano de ação apresentado pelas operadoras] e compromissos públicos que sinalizem para a solução do problema. Aí autorizaremos a venda de novas linhas condicionada ao cumprimento desse compromisso”, disse Bernardo após reunião com a presidenta Dilma Rousseff no Palácio da Alvorada.

O ministro informou que os planos de trabalho elaborados por TIM, Claro e Oi para atender às exigências da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) serão colocados à disposição dos usuários na internet. Na última semana, a Anatel determinou a proibição das vendas a partir desta segunda (23) para as operadoras que registraram maior número de queixas em cada estado. Deste modo, a TIM está proibida de vender novas linhas em 19 estados, a Oi, em cinco, e a Claro, em três.

“Assim que os planos estiverem bem articulados, vamos autorizar a venda e fazer um acompanhamento e, mais do que isso, o público poderá acompanhar porque vamos colocar no site da Anatel os compromissos que as empresas vão assumir. Vamos fazer a liberação e vamos acompanhando”, afirmou o ministro, acrescentando que a operadora que consiga sanar os problemas antes poderá voltar a comercializar mais rapidamente que as concorrentes. Para ele, a proibição imposta às empresas é uma medida “muito forte e muito dura”, mas inevitável. Era preciso dar “um freio de arrumação” no setor, ressaltou Paulo Bernardo. Segundo ele, a presidenta Dilma Rousseff manifestou preocupação e quer a rápida solução do problema.

TIM com ressalvas

A TIM entregou hoje um documento de 800 páginas à Anatel com informações sobre seus planos de melhoria. "A TIM foi proativa, entregou um plano grande (800 páginas) e na parte técnica, ela mostrou grande alinhamento com as solicitações da agência", informou o superintendente de serviços privados da Anatel, Bruno Ramos, a jornalistas. Ele afirmou porém, que "ajustes sobre demanda, de acompanhamento de demanda e equipamentos" vão ser pedidos pela agência. Ele disse que a Anatel vai apurar se, apesar da proibição de novas habilitações de celulares das três operadoras, há chips sendo comercializados nos pontos de venda.

Ao deixar a primeira parte da reunião, o vice-presidente da TIM para assuntos regulatórios, Mario Girasole, disse que os prejuízos da empresa com a suspensão das vendas "será minimizado com uma solução rápida". A TIM informou em nota que dobrou para 451 milhões de reais a fatia do seu orçamento destinada para melhoria de qualidade. Os recursos, que seriam aplicados até 2014, vão ser injetados já em 2012, por meio de realocação dos investimentos previstos pelo grupo.

Exibição de filmes nacionais perde espaço na TV aberta

A produção brasileira de cinema enfrenta um descompasso. Enquanto os lançamentos nacionais não param de crescer nas salas de cinema do país, a participação desses longas na TV aberta caiu nos últimos quatro anos.

 Segundo o relatório divulgado pela Ancine (Agência Nacional do Cinema), apenas três das nove emissoras analisadas abrem espaços para filmes brasileiros. São elas: Globo, Cultura e TV Brasil. Na esteira da nova lei da TV paga, que determinou cotas para a produção nacional, representantes do segmento audiovisual defendem que seja criado um mecanismo parecido para os canais abertos.

Em 2011, 99 títulos nacionais chegaram às salas brasileiras –um recorde desde a retomada, em 1995, com "Carlota Joaquina – Princesa do Brasil", de Carla Camurati. Nos cinemas, a fatia de mercado dos filmes nacionais passou de 24%, em 2008, para 29%, no ano passado. Já na televisão aberta, o quinhão nacional na exibição de filmes caiu de 14,7% para 13,8%, no mesmo período.

Dificuldades

Folha questionou as TVs sobre o espaço destinado à exibição de filmes brasileiros. A dificuldade de aquisição dos longas, devido à concentração de produções sob o guarda-chuva da Globo Filmes, é apontada como uma das principais causas. "Exibir filmes nacionais faz parte do nosso DNA, mas é difícil comprar produções mais novas, pois boa parte delas pertence à Globo Filmes, que vai exibi-las primeiro no Canal Brasil e depois na Globo", afirma Walter Silveira, superintendente de programação da TV Brasil, canal que mais veiculou filmes brasileiros em 2011 (80 títulos). Detentor do pacote da Warner no Brasil, o SBT exibiu no ano passado em 272 ocasiões longas estrangeiros, mas nenhum nacional.

Segundo Zico Góes, diretor de programação da MTV, o canal não tem poder financeiro para competir com canais como a Globo. "As produções que valem a pena são caras. O que sobra é hermético e pouco televisivo." A Globo Filmes se defende e diz, por meio de sua assessoria, que contribui para a exibição de filmes nacionais. "As coproduções da Globo Filmes seguem o fluxo normal de mercado, em que o filme primeiro é lançado nas salas de cinema, depois em vídeo doméstico, na TV fechada e finalmente na aberta." Aguarda aprovação no Senado uma proposta da deputada federal Jandira Feghali (PC do B-RJ) que fixa cotas para a exibição de filmes nacionais nas TVs abertas. "O povo brasileiro financia o cinema nacional, mas não tem acesso a ele. É preciso uma cota mínima na TV aberta, como é feito em quase todos os países", diz João Baptista Pimentel Neto, do Congresso Brasileiro de Cinema.

Rodrigo Letier, da TV Zero, responsável por "Bruna Surfistinha", concorda. "Acho reserva de mercado algo perigoso, mas ajudaria o setor." "Em princípio, sou contra cotas. A produção está crescendo, mas não a de blockbusters nacionais. As TVs querem filmes competitivos", diz Sílvia Cruz, da Vitrine Filmes. A Globo Filmes diz desconhecer a proposta de cota para filmes nacionais na TV.

Estudantes e ativistas reivindicam democratização da mídia em Brasília

Cerca de 600 estudantes e militantes de movimentos sociais foram às ruas de Brasília na última quinta-feira (19) para reivindicar a democratização dos meios de comunicação no Brasil. O ato público foi organizado pela Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (Enecos) em parceria com entidades do movimento pela democratização da comunicação no Distrito Federal.

Os manifestantes criticaram a demora do governo em colocar em discussão pública a proposta de novo marco regulatório das comunicações brasileiras e exigiram que a sociedade seja ouvida na formulação desta nova legislação. Para Agatha Cristie, da Coordenação Nacional da Enecos, o ato foi importante para pressionar o governo a apresentar propostas para o marco regulatório das comunicações. "Queremos que os estudantes e os movimentos sociais participem de fato na construção de uma nova legislação que democratize a comunicação", afirma a estudante.

Na tarde da mesma quinta-feira (19), durante o ato, representantes dos manifestantes foram recebidos pelo assessor da Secretaria Executiva do Ministério das Comunicações, James Görgen, a quem entregaram uma carta de apoio à plataforma da sociedade civil para o novo marco regulatório das comunicações, que contém as 20 propostas consideradas prioritárias pela sociedade civil na definição de um marco legal para as comunicações em nosso país. Em marcha pela esplanada dos ministérios, os manifestantes ainda declararam apoio à greve geral dos servidores federais e pediram mais atenção do governo ao ensino público e às universidades brasileiras.

O ato público pela democratização ocorreu dentro da programação do 33º Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação Social (Enecom), que reuniu, de 13 a 21 de julho, na Universidade de Brasília, cerca de 500 estudantes de comunicação social de todo o país em torno do tema "A Voz do Oprimido está no ar". Além do tema central, os estudantes também discutiram questões relacionadas à qualidade da formação nas universidades, ao combate às opressões e à democratização da comunicação.

Segundo a estudante de comunicação da Universidade Federal do Pará (UFPA) Joyce Sousa, as discussões sobre democratização da comunicação foram por algum tempo deixadas de lado nos encontros da Enecos, por conta dos desgastes gerados durante a 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) e pelas mudanças que vinham ocorrendo no currículo dos cursos, que fizeram com que a Enecos focasse a sua atuação na qualidade de formação do comunicador.

“O retorno a esta bandeira (da democratização da comunicação) se dá pela necessidade da Enecos se posicionar diante das mudanças em curso na comunicação do Brasil, como por exemplo, a construção do novo marco regulatório da comunicação”, observa Joyce. Segundo Aghata, uma série de agendas estão sendo programadas pela Executiva para o ano, como a 10ª Semana Nacional pela Democratização da Comunicação e seminários sobre o novo marco regulatório nas escolas.

Além das mesas de discussão e dos debates, durante o Enecom os estudantes também realizaram os “Núcleos de Vivências”, visitando vários lugares do Distrito Federal onde a comunicação é realizada com viés popular. É a quinta vez que o Enecom acontece no Distrito Federal. Em 2001, última vez que o encontro aconteceu no DF, o tema central também foi democratização da comunicação. O próximo Enecom, em 2013, será realizado no Piauí.

Em Guaranhuns (PE), liberdade de expressão e comunicação pública são temas de debate

A luta pela democratização das comunicações teve seu espaço dentro da diversidade de temas do Festival de Inverno de Garanhuns (PE). O Fórum Pernambucano de Comunicação (Fopecom), TV Pernambuco e Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) organizaram dois debates na cidade do interior pernambucano sobre a liberdade de expressão e a comunicação pública nos dias 19 e 20 de julho.

No primeiro encontro, o representante do Intervozes Paulo Victor Melo avaliou que “o Governo Federal tem adotado uma postura de aproximação com o empresariado do setor e optado em não promover uma mudança estrutural que avance na democratização da mídia”. Para Paulo as últimas declarações do Ministro das Comunicações privilegia os setor empresarial e não mostra a intenção do governo em debate público uma nova legislação para o setor.

O membro do Intervozes apontou que a cada dia a pauta da comunicação está sendo incorporada por mais segmentos da sociedade, principalmente, “por estes grupos não se identificarem com o que é veiculado pelos meios de comunicação”. Paulo Victou afirmou que “é preciso ampliar a pauta, sensibilizar mais pessoas, dialogar com as pessoas que gostam de novela, com as pessoas que ouvem rádio, mas que ainda não vêem a comunicação como um direito”.

Para Renata Mielli, secretária geral do Barão de Itararé e membro da coordenação do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, é fundamental a sociedade compreender a comunicação como um direito. “Da mesma forma que a saúde, educação ou moradia, a comunicação é um direito, mesmo que ainda não seja percebida como tal. Em grande parte, a comunicação é vista como um serviço porque os grandes meios de comunicação sempre a trataram dessa forma”.

Por esses fatores é que, de acordo com Mielli, no dia 27 de agosto, o FNDC, em conjunto com diversas entidades da sociedade civil, lançará a Campanha Nacional pela Liberdade de Expressão. A data marca os 50 anos do Código Brasileiro de Telecomunicações, legislação que regulamenta o serviço de radiodifusão no país.

“A escolha desta data é para marcar simbolicamente que precisamos enterrar o CBT e construir um novo marco regulatório das comunicações no Brasil. Uma nova legislação que garanta a diversidade e a pluralidade de vozes existentes na sociedade, uma legislação que garanta a liberdade de expressão para todos e não somente para alguns grupos”, disse Mielli.

Conselho de Comunicação Social

A reativação do Conselho de Comunicação Social na última terça-feira, durante a última sessão do Congresso Nacional antes do recesso, foi criticada durante o evento. Paulo Victor Melo frisou que o processo de reativação do Conselho e a indicação dos membros se deu sem qualquer diálogo com a sociedade. “Esse Conselho, desativado em 2006 por ordem da Presidência do Senado, já volta com diversos problemas. Dentre os treze membros titulares não há uma mulher, a questão racial também foi esquecida. Além disso, o Congresso não ouviu a sociedade, que é mais interessada no órgão”.

Renata Mielli, do Barão de Itararé e do FNDC, concordou e disse que a indicação “foi retrógrada e antidemocrática, já que não reflete a diversidade do povo brasileiro nem dos segmentos que defendem uma comunicação plural. Por isso, o FNDC se manifestou criticando o Conselho e propondo que os parlamentares revejam a sua posição e retomem o diálogo com o movimento social”.

Comunicação Pública

Guilherme Strozy, representante dos funcionários no Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), apontou as dificuldade em se fazer uma mídia pública no Brasil.  “A EBC tem avançado para se consolidar como uma empresa pública de comunicação. Temos enormes desafios, principalmente por termos um histórico de comunicação privada, mas a expansão e a formação da rede pública têm contribuído para uma nova cultura de comunicação que atenda aos interesses reais da população”, destacou.

Para Strozy, a sociedade deve entender a EBC como um bem público e cobrar dos conselheiros. De acordo com ele, “o principal espaço de representação dos cidadãos é o Conselho Curador, que conta com 22 membros, por isso qualquer pessoa que tiver algo a dizer sobre a EBC deve se reportar aos conselheiros, que devem ser a sua voz dentro da empresa”.

Ivan Moraes Filho, representante do Fórum Pernambucano de Comunicação, ressaltou a necessidade de ampliar e popularizar o debate sobre a comunicação pública. Se referindo à Constituição Federal de 1988, que, no artigo 223 determina que as emissoras de rádio e televisão devem observar o princípio da complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal, Ivan resumiu a diferença entre os sistemas a partir de três premissas: quem faz, quem manda e quem paga.

“Na comunicação privada quem faz são profissionais contratados, quem manda é o patrão e quem paga é, essencialmente, a publicidade. Na estatal, quem faz são funcionários públicos, quem manda é o Estado e quem paga é a população, principalmente, através de impostos. Já na comunicação pública, quem faz é o povo, quem manda é o povo e quem paga é o povo”, disse Ivan Moraes.

O integrante do Fopecom cobrou também a necessidade do Governo do Estado criar a Empresa Pernambuco de Comunicação (EPC), cujo processo foi iniciado por um Grupo de Trabalho formado por entidades da sociedade civil e órgãos públicos, mas que ainda não foi finalizado. De acordo com Ivan Morares, “é consenso não só no Fopecom, mas em diversas organizações que discutem comunicação no estado, a importância da consolidação da EPC, que pode se tornar um paradigma em termos de comunicação pública em todo o país”.

Já no dia 20, a Ouvidora-Geral da EBC, Regina Lima, destacou o papel de instâncias de diálogo entre os veículos de comunicação pública e a população em geral. “É a sociedade quem deve avaliar se as mídias públicas estão cumprindo o seu objetivo e os seus princípios. Ainda para Regina Lima, “Pernambuco está fazendo um ótimo trabalho com a criação da EPC. Uma televisão pública e transparente com o diálogo aberto com a sociedade é o modelo ideal de comunicação”.

O Gerente-Geral da TV Pernambuco, Roger de Renor, ressaltou que “a presença de membros da TV Brasil e de entidades que defendem uma comunicação plural foi uma oportunidade para a apresentação das demandas da sociedade pernambucana que busca uma verdadeira comunicação democrática, além de ser um espaço de prestação de contas à sociedade”.

Ao final do debate foi encaminhado que as entidades do movimento social de Pernambuco se organizarão para participar da Audiência Pública promovida pela EBC, em Recife, na próxima quarta-feira (25) e, na oportunidade, será entregue um documento solicitando apoio na luta pela criação da Empresa Pernambuco de Comunicação.

Equador, a um voto de aprovar lei de comunicação e democratizar frequências

O Equador está prestes a entrar no seleto grupo de países sul-americanos que recentemente democratizaram seus meios de comunicação. Nos últimos anos, apenas Argentina, Uruguai e Bolívia se mobilizaram para destinar ao menos 33% das frequências de rádio e tevê a organizações sociais sem fins lucrativos, que agora dividem a programação com meios públicos e privados.

Batizada como Lei Orgânica de Comunicação, Liberdade de Expressão e Acesso à Informação Pública, o texto equatoriano foi escrito, reescrito, discutido e rediscutido durante dois anos, e desde abril está pronto para ser votado pela Assembleia Nacional. Só não foi enviado ao plenário ainda porque o governo, que patrocina a lei, não conseguiu maioria absoluta para aprová-la. A oposição tampouco arrebanhou os votos necessários para rechaçá-la. A diferença é mínima: um deputado.

O Congresso equatoriano é unicameral – não existe Senado – e conta com 124 parlamentares. Os governistas possuem 62 votos garantidos. A bancada contrária ao projeto, 61. Um parlamentar deverá definir a sorte da lei, mas não do texto integral. Após negociações, surgiu a proposta de que a votação ocorresse artigo por artigo. A assembleia aceitou, e a matéria deve ser apreciada até o fim deste mês. Ou agosto. Ou setembro: depende de quem conseguir maioria primeiro. Tudo indica que o governo está na frente.

Histórico

A lei de comunicação não nasceu da cabeça do presidente Rafael Correa ou da bancada que seu partido, Alianza País, sustenta no Legislativo. Elaborá-la foi uma proposta da sociedade equatoriana, que, por sua vez, fez por onde escrevê-la na Constituição de 2008. De anseio popular, portanto, passou a ser uma obrigação do Legislativo, reforçada por um referendo que, em 2011, dirimiu qualquer dúvida sobre a vontade do povo em ver os deputados trabalhando num novo ordenamento jurídico sobre a radiodifusão nacional.

Em teoria, o Equador deveria ter aprovado uma lei de comunicação em 2009, um ano depois de aprovada a Carta Magna. Mas não foi possível – e por várias razões. A já citada correlação de forças partidárias dentro da Assembleia Nacional é uma delas. Outra, talvez a principal, é a complexidade política que envolve toda tentativa de legislar sobre o tema nos países latino-americanos, órfãos de pluralidade midiática.

“Existe uma enorme confrontação entre o governo nacional e os meios de comunicação privados”, explica Romel Jurado, assessor do deputado Mauro Andino, presidente da Comissão Temporária de Comunicação, que escreveu o projeto de lei. “O presidente da República diz que a grande mídia está submetida a interesses empresariais, que manipula a realidade a favor de seus próprios interesses e que, por isso, não cumpre sua função social. Já os meios de comunicação reafirmam sua independência, acusam o regime de querer roubar-lhes a voz e dizem que estamos vivendo sob um governo autoritário que não gosta da imprensa.”

É uma briga entre poderes titânicos, conclui Romel Jurado. Mas o atraso da lei também se deve a outros motivos mais nobres. “É a primeira vez que um país assume o desafio de regulamentar todos os direitos e deveres relacionados à comunicação, e não apenas aos serviços de rádio e televisão”, contextualiza o assessor. “O debate ficou complexo, não apenas em termos jurídicos, mas também conceituais: primeiro, tivemos de entender o que é comunicação para só depois esboçar um projeto.”
Frequências

O projeto de lei para regulamentar a comunicação equatoriana tem 127 artigos, alguns mais controversos que outros. O que deverá causar mais impacto social é a divisão de frequências de rádio e televisão. O texto propõe que 33% dos canais fiquem para os meios privados, 33% para os públicos (nos níveis nacionais, provinciais, cantonais e paroquiais) e 34% para os comunitários. As transmissões digitais estão incluídas na divisão: a lei impedirá que os proprietários de sinais analógicos multipliquem suas concessões com a chegada das novas tecnologias.

“A divisão do espectro radioelétrico é o melhor do texto”, define José Ignacio Lopez Vigil, diretor da ONG Radialistas Apaixonadas e Apaixonados, com sede em Quito, que produz clipes radiofônicos difundidos por emissoras livres e comunitárias de toda a América Latina. “Você pode definir como quiser a liberdade de expressão e o direito à comunicação, mas a questão é quem fica com as frequências. No fim das contas, o poder midiático está com quem possui canais de rádio e televisão.”

José Ignacio foi um dos membros da comissão que, em 2009, verificou a validade das concessões midiáticas no Equador – e tirou a sujeira debaixo do tapete. No período de 13 anos analisado pela auditoria, diz, as frequências foram roubadas, traficadas e vendidas ilegalmente. Caso a lei de comunicação seja aprovada, as revelações servirão de subsídio para reverter e redistribuir os canais de rádio e tevê concedidos de maneira irregular.

A auditoria mediu ainda o tamanho do oligopólio midiático no país. “Aqui não existem empresas como Televisa, Globo ou Clarín, mas umas dez famílias que controlam mais da metade das frequências”, compara José Ignacio. “A concentração também se manifesta por setores: 97% do espectro está nas mãos dos meios privados e apenas 3% pertencem às organizações comunitárias.” Emissoras públicas só passaram a existir com a eleição de Rafael Correa.
Poder versus lei

Para distribuir, reverter e tomar qualquer decisão relativa ao espectro radioelétrico, o projeto de lei institui o Conselho de Regulação e Desenvolvimento da Comunicação. Terá seis membros, que representarão o governo nacional, os governos locais, os conselhos nacionais de igualdade, as faculdades públicas de comunicação, as organizações de direitos humanos e, claro, os povos indígenas, que por pouco não ficaram de fora.

Se fosse nomeado hoje, o conselho teria automaticamente pelo menos três votos favoráveis ao governo. E esse domínio incomoda, porque Rafael Correa controla os demais órgãos colegiados que deveriam ser independentes do Executivo. “Se o conselho de comunicação for tão manipulado como outras instâncias estatais, que perderam toda autonomia frente ao tremendo presidencialismo que temos aqui, a lei será um papel morto”, analisa José Ignacio.

Destaques da lei de comunicação

O movimento indígena equatoriano concorda. “O cumprimento das leis só será possível se garantirmos no país a independência dos poderes, que é um pilar fundamental da democracia”, opina Diana Atamaint, deputada do Pachakutik, braço político das organizações indígenas, que, apesar de serem históricos defensores da divisão de frequências, decidiram votar contra todos os artigos da lei de comunicação. “O texto é medianamente aceitável, mas nada impede que o governo passe por cima de seus artigos e impeça os cidadãos de exercerem seus direitos.”

Romel Jurado, um dos principais responsáveis pelo conteúdo do projeto, explica que já não existem contestações sérias ao texto dentro da Assembleia. De acordo com o secretário, quase todos os parlamentares já se pronunciaram direta ou indiretamente simpáticos aos artigos da lei. O problema, identifica, está na polarização política em curso no país: presidente, meios de comunicação e movimentos sociais estão em pé de guerra e simplesmente não conseguem dialogar para além dos insultos mútuos. É caldo de cultivo ideal para proliferação de pulgas atrás d'orelha.

“A lei propõe regras para que nem os poderes privados nem os poderes públicos possam fazer uso abusivo dos meios de comunicação, para que todos cumpram com certos requisitos e atendam a certos limites”, define. “O texto é o melhor que pudemos elaborar dentro de nossa cultura política e democrática, mas não posso garantir que a lei por si só brinde segurança jurídica às pessoas. A arbitrariedade e o exercício transgressor dos poderes infelizmente ainda são uma norma operante no Equador.”
Liberdade de expressão

Quem se opõe ao projeto de lei não cansa de recordar um caso em especial, que envolveu o maior diário do país. Após a rebelião policial que no dia 30 de setembro de 2010 quase resultou no assassinato de Rafael Correa, um articulista do El Universo escreveu artigo acusando o presidente – ao qual se referia como ditador – de haver cometido um crime de lesa-humanidade ao refugiar-se dentro de um hospital. Quando a poeira baixou, jornal e jornalista foram processados e condenados a pagar uma indenização de US$ 40 milhões, além de cumprir três anos de prisão por calúnia e difamação.

“Acreditamos que a lei de comunicação pode servir como ferramenta para controlar politicamente a oposição, não apenas nesta, mas em qualquer administração”, prevê a deputada Diana Atamaint, ela mesma alvo de um processo judicial após ter dado declarações à emissora de televisão Ecuavisa sobre supostos esquemas de corrupção no governo. “Quem opina diferente ou questiona o presidente e seus funcionários responde na Justiça por danos morais e é obrigado a pagar indenizações milionárias.”

A oposição acredita que, com a aprovação da lei, o presidente vai legalizar seus atropelos à liberdade de expressão. “Aí depende de como você entende a liberdade de expressão”, problematiza Romel Jurado. Para o secretário da Assembleia Nacional, o termo significa muito mais do que apenas a livre circulação de informações prontas para consumo, como se fossem mais uma mercadoria à disposição de leitores e telespectadores.

Correlação de forças políticas

“Aquela informação que tenha relevância pública deve observar algumas características: deve ser precisa, versar sobre fatos reais, oferecer dados exatos, ser produzida a partir de várias fontes, dar espaço ao contraditório e estar devidamente contextualizada”, argumenta. “A informação de qualidade sempre irá circular livremente. O problema é que os meios de comunicação costumam veicular informação enviesada, parcial, descontextualizada e não verificada, que obedece apenas a seus próprios interesses. Não posso aceitar que isso seja liberdade de expressão. É, melhor dizendo, manipulação.”

Sobretudo, o projeto de lei reconhece, em seu artigo 17, o direito de cada cidadão expressar-se livremente e, claro, responsabilizar-se pelo que diz. O vale-tudo midiático deixa de existir, ficando terminantemente proibida a veiculação de conteúdos discriminatórios, que atentem contra a honra e a reputação das pessoas ou firam sua intimidade. Também estabelece, no artigo décimo, uma série de recomendações às pessoas – jornalistas ou não – envolvidas no processo comunicacional: respeitar a presunção de inocência, não obter informação de maneira ilícita, proteger a imagem de crianças e adolescentes, distinguir claramente notícias de opiniões etc.

“Se um meio de comunicação descumpre as normas, o Conselho de Regulação analisa a falta e determina a punição, que é desculpar-se publicamente. Apenas quando o veículo reincide pela terceira vez é que começam a se aplicar multas”, explica Romel Jurado. “As sanções financeiras vão crescendo porque o Estado entende que, se alguém continua emitindo conteúdos discriminatórios apesar das multas, é porque tem um despreço absoluto pelos direitos coletivos e individuais das pessoas.”
Caminho sem volta

A lei determina ainda que a publicidade oficial deverá ser distribuída entre meios públicos, privados e comunitários, nas zonas rurais e urbanas, independentemente de seu alcance – nacional, regional ou local. Obriga que 40% da programação veiculada por canais de rádio e tevê sejam produzidas dentro do Equador, e que as emissoras reservem espaço para a música nacional e para produções culturais em línguas indígenas. No âmbito trabalhista, garante uma série de direitos aos funcionários dos meios de comunicação, que hoje em dia enfrentam um mercado laboral repleto de precarização.

“Sabemos que poderão aprovar a lei, que talvez até já tenham os votos suficientes, mas o texto que entrará em vigência não é o que buscamos com nossa luta para reivindicar mais igualdade em relação ao Estado e à sociedade”, defende Diana Atamaint, deputada do Pachakutik. “Podemos ter as melhores leis, mas o que importa é a vontade política dos governos em aplicá-las.”

Apesar de todas as desconfianças, que são compreensíveis dentro do contexto equatoriano, José Ignacio López Vigil acredita que o mais importante para o país neste momento é que haja uma lei de comunicação. Principalmente porque a legislação vigente foi elaborada em 1975, durante a ditadura militar, e reformada 20 anos depois sem grandes mudanças. “Com o novo texto, o Equador teria uma lei moderna: suscetível de manipulação, como todas as leis, mas, ainda assim, boa, inserida nos padrões internacionais.”

Romel Jurado acredita que as discussões que se desenvolvem com mais ou menos força em todos os países da América Latina sobre a função da mídia deverão apontar para uma mudança de paradigmas no uso que historicamente tem sido feito dos meios de comunicação. “Para que exista plena liberdade de expressão, devemos criar condições materiais para que todos, e não apenas aos donos das emissoras, possam exercer essa liberdade”, avalia. “Devemos estudar, debater e refletir, mas transformar a maneira como entendemos o direito à comunicação é um caminho irreversível.”