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Votação na Comissão de Defesa do Consumidor deve ficar para 2009

É cada vez mais nebuloso o futuro do Projeto de Lei 29/2007, que cria regras para o setor de TV por assinatura e para o mercado audiovisual. O relator do projeto na Comissão de Defesa do Consumidor (CDC), Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB), admitiu que é improvável que o texto seja votado na comissão ainda este ano. “Eu apresento meu relatório até dia 10, mas já existem mais de 30 sugestões de emendas e com os prazos regimentais, é complicado concluir a votação até o dia 19. Mas vamos fazer um esforço.”

Se essa previsão se concretizar, será o segundo ano em que o projeto fica pendente de votação. Em 2007, exatamente nesta época do ano, a dúvida era se a Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) conseguiria aprovar o texto, o que acabou não acontecendo.

Novo relator

Quando for aprovado, o texto volta para a CCTCI, onde precisará encontrar um relator. Duas hipóteses se desenham com maior força nesse momento: o deputado Julio Semeghini (PSDB-SP) poderia assumir a relatoria, ou o próprio deputado Walter Pinheiro (PT-BA) o faria. No caso de Pinheiro, o complicador é o fato de ele ser co-autor de um dos projetos apensados ao PL-29. A solução seria retirar esse projeto do conjunto de apensados.

Caso o deputado Julio Semeghini se torne efetivamente relator do assunto em 2009, o mais provável é que ele proponha a separação do texto, deixando em uma proposta a alteração dos dispositivos legais que colocam restrições à entrada das teles no mercado de TV por assinatura e, em outro projeto, a idéia de estabelecer cotas de conteúdo e mecanismos de estímulo à produção independente.

Sobre a hipótese colocada pelo deputado Jorge Bittar (PT/RJ) de negociar o pedido de urgência ao PL-29 para que ele seja votado em plenário, a posição de parlamentares que acompanham de perto a questão é que isso é impossível com o atual grau de divergências com o texto. Além disso, os deputados da Comissão de Defesa do Consumidor trabalhariam contra a idéia.

Outra variável importante para o PL-29 passa pela presidência das comissões em 2009. O PT dificilmente manterá a posição, já que Jorge Bittar deve deixar a Câmara para assumir a secretaria de habitação da prefeitura do Rio de Janeiro e os outros nomes do partido na comissão teriam outras prioridades. Por outro lado, nenhum partido mostrou, até agora, maior apetite pela presidência da CCTIC.

Audiência na CDC reforça cotas; relator apresenta substitutivo até dia 10

O relator do Projeto de Lei 29/07, que estabelece novas regras para o setor de TV por assinatura, deputado Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB), tentará votar a proposta até o fim do ano na Comissão de Defesa do Consumidor. Ele deve apresentar substitutivo ao projeto até o dia 10, porque a proposta já recebeu 30 emendas na comissão.

"Vamos apresentar substitutivo dentro da realidade que se expõe nas audiências públicas. O projeto é muito importante e ganhou uma dimensão muito grande com a discussão do conteúdo atrelado à convergência tecnológica", afirmou o parlamentar.

Rêgo Filho disse ainda que, levando em consideração os interesses do consumidor, aproveitará o que puder do texto aprovado pela Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio.

A comissão programou quatro audiências públicas para discutir o projeto. Nesta quinta-feira (27), foi realizado o terceiro debate sobre a produção de conteúdo da TV paga. Os profissionais convidados foram unânimes em afirmar que falta concorrência nesse mercado.

O diretor comercial dos Canais Abril, Ricardo Rhan, defendeu um limite de 30% à concentração do mercado de TV por assinatura. A medida, segundo ele, deveria ser incorporada ao Projeto de Lei 29/07.

"Hoje, Net e Sky juntas possuem 80% do total de assinantes do mercado de TV por assinatura, ambas têm um sócio em comum (a Globo)", denunciou. Ele alertou ainda para a concentração em todos os elos da cadeia produtiva do setor: produção, programação, empacotamento e distribuição.

"Um único grupo econômico domina todos os elos da cadeia. Na programação, os canais da Globosat têm a maior base de assinantes. O programador dominante, portanto, é do mesmo grupo que controla o acesso à distribuição", explicou o executivo dos Canais Abril.

O assessor do diretor-presidente da Agência Nacional do Cinema (Ancine), Alexandre Patez, afirmou que o mercado brasileiro de TV por assinatura é sub-aproveitado e muito menor do que o de países com perfil socioeconômico semelhante ao do Brasil.

"Em países como Argentina e Colômbia, a TV por assinatura chega a mais de 50% da população. Na América Latina, só perdemos para a Bolívia", informou. Hoje, o país conta com apenas 5,3 milhões de assinantes.

Patez avalia que a penetração do serviço é baixa, mesmo nas classes AB. "São 17 milhões de domicílios de classe AB", lembrou. Ele atribui a baixa adesão ao serviço aos preços altos e à pouca quantidade de produção nacional na TV paga.

Em 2007, a Ancine monitorou os 11 principais canais de filmes oferecidos nos pacotes para o assinante brasileiro. Nesse período, apenas 45 filmes – 1% de todos os longa-metragens exibidos – eram brasileiros. "Com mais programação nacional, certamente a televisão por assinatura seria mais procurada", declarou Patez.

Cotas

O PL-29 recebeu substitutivo na Comissão de Desenvolvimento Econômico, que estabelece um mínimo de 50% de conteúdo nacional nos pacotes oferecidos pelas operadoras. Deste percentual, 10% deve ser produção independente.

Um sistema de cotas mais complexo chegou a ser proposto na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática pelo relator, deputado Jorge Bittar (PT-RJ), mas o projeto foi redistribuído para a Comissão de Defesa do Consumidor e não foi votado. Bittar, inclusive, saiu do processo, uma vez que assumirá, em janeiro, a Secretaria Municipal de Habitação no Rio de Janeiro.

A cota de programação nacional nos canais pagos foi elogiada pelos participantes da audiência. O vice-presidente da Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão (ABPI-TV), Leonardo Dourado, lembrou que a União Européia garante 10% para produção independente.

"As cotas não são invenção brasileira. Elas existem e se desenvolveram em todos os países com indústria audiovisual madura, justamente para promover competição em pé de igualdade", explicou.

O vice-presidente do Grupo Bandeirantes, Walter Ceneviva, ressaltou que o conteúdo nacional é importante para o fortalecimento da identidade cultural brasileira e o exercício da cidadania. "Viabilizar a produção de conteúdo brasileiro implica em assegurar a pluralidade de visões, princípio que está na constituição brasileira", disse.

*Com Agência Câmara.

Entidades denunciam Estado e emissoras por irregularidades

Em outubro de 2007, venceram as concessões de importantes emissoras brasileiras de TV, entre as quais as cinco próprias das Organizações Globo e as "cabeças-de-rede" da Record e da Bandeirantes. O encerramento do prazo serviu de gancho para que várias entidades questionassem o sistema de outorgas no Brasil por meio da Campanha por Democracia e Transparência nas Concessões de Rádio e TV. A iniciativa reuniu movimentos sociais e organizações da área da comunicação em torno desta bandeira, mobilização que conseguiu dar aos processos um novo caráter, intervindo especialmente para evitar que as renovações fossem feitas de maneira automática e sem participação da sociedade, como historicamente tem ocorrido.

Como resultado da ação de entidades ligadas à campanha, foi realizada hoje (27) audiência pública na Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara dos Deputados para debater a renovação das concessões vencidas em 2007 e o sistema brasileiro de outorgas de rádio e TV. Entre denúncias, questionamentos e propostas, prevaleceram as críticas ao Executivo, embora por motivos diferentes. Na ótica das entidades da sociedade civil e de parlamentares, o governo federal não fiscaliza os concessionários, permitindo que estes cometam abusos em relação à legislação e aos preceitos constitucionais.

Em um documento assinado por vários movimentos sociais e entidades [veja aqui ], as organizações questionaram por que o ministério não fiscaliza as exigências legais mínimas existentes hoje, como as restrições referentes à publicidade, o índice mínimo para programas jornalísticos e educativos e os limites de propriedade constantes no marco normativo do setor. "É inadmissível que o Ministério das Comunicações não fiscalize exigências básicas", contestou Jonas Valente, do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.

José Soter, da Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária (Abraço) e do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), reforçou a crítica, evidenciando o tratamento diferenciado dispensado pelos órgãos reguladores às mídias comercial e comunitária. "Há uma fiscalização muito rígida em relação ao conteúdo das comunitárias e uma permissividade muito grande em relação as comerciais", disparou o ativista. "A área de fiscalização ainda está muito débil", reforçou o deputado Jorge Bittar (PT-RJ).

Empresários e ministério culpam burocracia

Os concessionários também criticaram o Executivo Federal, mas pelo excesso de burocracia. "As empresas por força de lei são obrigadas a entregar uma série de documentos e atender as exigências legais. Isso nem sempre é fácil, mas temos um prazo para cumprir", disse Deniz Munhoz, da Rede TV e representante da Associação Brasileira de Radiodifusores (Abra). "Desde os primeiros debates, citamos a demora nos processos de renovação e outorgas. Há necessidade de uma norma que se estabeleça um prazo para as autoridades responsáveis pela renovação", sugeriu Marcelo Cordeiro, da Rede Record.

O Consultor Jurídico do Ministério das Comunicações, Marcelo Bechara, concordou com os empresários. "O processo de renovação é extremamente burocrático. Ninguém tem dúvidas com relação a isso. Já passou da hora de termos uma uniformização dos procedimentos", afirmou. Para o representante do Minicom, a razão é a falta de estrutura do órgão. "O fechamento de delegacias no governo passado ainda pesa sobre os servidores. Todos os processos se concentram em Brasília", apontou.

“Falta vontade política”

José Soter contestou a justificativa de Bechara, indicando que a alegação da falta de estrutura seria uma desculpa para a fiscalização deficiente. "Por trás das causas alegadas, de falta de infra-estrutura, está escondida uma falta de vontade política para o Estado não exercer sua função", disse. Jonas Valente, do Intervozes, questionou, sem resposta, o porquê de um governo que tem realizado tantos concursos e criado novas estruturas não ter incrementado a estrutura do Minicom e sugeriu à CCTCI que faça uma audiência pública com o Ministério do Planejamento para discutir providências emergenciais referentes aos recursos físicos e humanos da pasta das Comunicações.

Marcelo Bechara anunciou que o ministério contratou a consultoria da Fundação Getúlio Vargas para modernizar procedimentos internos e, quiçá, apresentar propostas de reforma na legislação da área. Jonas Valente destacou que as propostas de mudanças, para irem ao encontro do espírito da audiência, precisariam ser submetidas a uma consulta pública, de modo a incorporar sugestões da população para que o sistema de outorgas de radiodifusão responda melhor aos seus anseios.

O documento de organizações da sociedade civil e de movimentos sociais também questionou o ministério pelo não encaminhamento de renovações até o encerramento do prazo da nova outorga, fato que teria resultado no arquivamento de 184 processos de rádios e TVs. Valente e Sóter criticaram fortemente a falta de transparência do Executivo nos processos de outorga, citando a falta de resposta do Ministério das Comunicações a um pedido de informações do Intervozes, da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da União Nacional dos Estudantes (UNE) sobre as concessões vencidas em 2007. As entidades anunciaram que entrariam com um Mandado de Segurança para obter as informações, mas Marcelo Bechara afirmou que o órgão disponibilizará as informações.

Obrigações e compromissos das emissoras

Para além da fiscalização, as entidades participantes da audiência propuseram novas obrigações para constar nos termos aditivos ao contrato de concessão, que deve ser assinado ao final do processo de renovação [veja aqui ]. Entre as propostas estão a “proibição de arrendamento ou subconcessão total ou parcial da outorga por parte do concessionário”; o cumprimento dos incisos II e III do artigo 221 da Constituição Federal, que prevêem um percentual de produção regional e estímulo à produção independente, em termos determinados pela Câmara dos Deputados; o estabelecimento de ouvidorias e Conselhos de Programação; a classificação da programação quanto ao gênero e a garantia de acessibilidade para pessoas com deficiência.

A deputada Luiza Erundina (PSB-SP), que propôs a audiência, manifestou-se favorável ao acréscimo de cláusulas no contrato das concessionárias. "O Decreto 52.795/63 [Regulamento dos Serviços de Radiodifusão] já estabelece a necessidade de se aditar a renovação das concessões. Após 10 anos de rádio e 15 de TV coloca-se a necessidade de se rever os critérios e as exigências. O Decreto 88.066/83 traz as cláusulas atuais, que devem ser alteradas, adequando as que definem os critérios para a renovação", defendeu Erundina.

Segundo Jonas Valente, tais pontos contribuiriam para que as emissoras cumprissem sua função de serviço público. O representante do Intervozes também apresentou um Termo de Compromisso Público elaborado pelas organizações que objetiva estabelecer acordos com as emissoras em relação a princípios de atendimento do interesse público [veja aqui ].

Abert diz que emissoras não precisam atender “todo o público”

O consultor jurídico da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Alexandre Jobim, rebateu, diferenciando as responsabilidades dos três sistemas previstos na Constituição Brasileira. "Os concessionários comerciais não precisam atender todo o público, uma vez que pertencem ao sistema privado", argumentou. "Embora haja três sistemas, a radiodifusão é serviço público e, portanto, precisa haver mecanismos institucionais que permitam ao público acompanhar a programação e opinar no momento da renovação", respondeu Jonas Valente.

Além das propostas das entidades, foram apresentadas inúmeras denúncias de violações dos direitos humanos pelas emissoras, casos de desrespeito flagrante às exigências legais atuais e de negligência por parte do Ministério das Comunicações [veja aqui ]. Jobim, da Abert, alegou que não poderia respondê-las, por tê-las recebido naquele momento, mas afirmou que não compactuava com todos os desvios e distorções cometidos por emissoras de rádio e TV.

Alteração do marco legal

Os participantes não se ativeram apenas à análise do Executivo e propuseram a mudança do marco normativo da radiodifusão brasileira [veja aqui as propostas apresentadas pelas entidades ]. "A lei atual, de 1962 é de um anacronismo inútil. É um cadáver insepulcro e não se sabe exatamente o que fazer com ela. É ela que regula", enfatizou veementemente o professor da Universidade de Brasília Murilo Ramos.

Em resposta, a deputada Luiza Erundina e os deputados Walter Pinheiro (PT-BA) e Jorge Bittar (PT-RJ) defenderam a realização da Conferência Nacional de Comunicação. "A Conferência Nacional de Comunicação pode dar ao governo o respaldo popular para promover a iniciativa legal que pode criar esse novo aspecto legislativo que permita botar o dedo na ferida", defendeu Pinheiro, presidente da CCTCI. "Este debate deve apontar algo que precisa culminar com uma Conferência Nacional, que aponte para um marco legal que possibilite a democratização dos meios e o controle social para que o patrimônio público seja apropriado pelo povo", acrescentou Luiza Erundina.

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VEJA TAMBÉM:

– Comissão aprova propostas de modernização da legislação
– Dossiê reúne denúncias sobre violações de direitos humanos na TV
– Arrendamento de tempo de programação evidencia uso indevido de outorgas de TV
– Deputados querem novas cláusulas em contratos de outorga de rádio e TV

Ministério diz que vai revisar ritual de concessões

O Ministério das Comunicações vai rever no próximo ano os procedimentos de outorga e renovação de concessão do setor de radiodifusão e também uma série de normas legislativas sobre o assunto, algumas com mais de 40 anos. O consultor jurídico do ministério Marcelo Bechara informou nesta quinta-feira (27), na Câmara, que o órgão contratará um serviço de consultoria para fazer o estudo. Se as mudanças dependerem de alterações na legislação, será enviado projeto de lei ao Congresso.

Marcelo Bechara participou, na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática, de audiência que discutiu processo de concessão da radiodifusão. O objetivo da revisão, segundo o consultor, é desburocratizar o processo. Pela Constituição, compete ao Poder Executivo outorgar e renovar concessão. O Congresso também deve analisar o ato; e o cancelamento da concessão, antes do término do prazo, depende de decisão judicial. "Concessão é um ato complexo, que nasce no Executivo, cresce no Legislativo e morre no Judiciário. Já passou da hora de uniformizar o procedimento, dando a ele agilidade e transparência. Ganhará o serviço público e a sociedade", afirmou Bechara.

Na audiência, o consultor jurídico da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) Alexandre Kruel Jobim classificou o rito de concessões como um "processo de canonização". Em sua opinião, a atual burocracia torna ineficiente o Ministério das Comunicações.

Informações sobre outorgas

Já o diretor do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social Jonas Valente denunciou a falta de transparência e a recusa do ministério em disponibilizar informações sobre outorgas. Ele disse ainda que a renovação de concessão no Brasil é automática, sem que se faça uma pesquisa para saber se a população está satisfeita com a emissora. Alexandre Jobim respondeu que não se pode chamar de automático um processo tão burocrático.

Participação popular

Jonas Valente entregou à Comissão de Ciência e Tecnologia um termo de compromisso público, elaborado pela Intervozes, com regras a serem seguidas pelas emissoras de rádio e TV. Entre outras medidas, a entidade sugere a proibição do arrendamento de espaço em emissoras, para que terceiros veiculem seus próprios programas, e o estabelecimento de ouvidorias e conselhos de reclamação.

Os deputados que sugeriram a audiência – Walter Pinheiro (PT-BA), Luiza Erundina (PSB-SP) e Fernando Ferro (PT-PE) – defenderam a realização de uma conferência nacional para discutir os assuntos relacionados à comunicação social. "Precisamos abrir a caixa fechada das comunicações. As concessões chegam à Câmara e são votadas em conjunto. A gente tem se permitido ousar e é aí que enxergamos o papel da sociedade em uma conferência. Mas não temos visto, por parte das emissoras, disposição de usar seu espaço de debate para discutir o cenário da comunicação", afirmou Walter Pinheiro.

Luiza Erundina defendeu ainda a aprovação do relatório final da Subcomissão Especial de Outorgas de Serviço de Radiodifusão de sons e imagens, que funcionou em 2007. Os pontos mais polêmicos do documento são a proibição de propriedade de emissoras de TV e rádio para qualquer detentor de cargo eletivo e o fim da exigência de decisão judicial para cancelamento ou cassação de outorga das emissoras.

Participaram também da audiência representantes do Tribunal de Contas da União (TCU), do meio acadêmico e de associações de comunicação.

Projeto deve sofrer novas alterações na CDC

O relator do Projeto de Lei 29/07, que estabelece novas regras para o setor de TV por assinatura, deputado Vital do Rêgo Filho (PMDB-PB), tentará votar a proposta até o fim do ano na Comissão de Defesa do Consumidor. Ele deve apresentar substitutivo ao projeto até o dia 10, porque a proposta já recebeu 30 emendas na comissão. "Vamos apresentar substitutivo dentro da realidade que se expõe nas audiências públicas. O projeto é muito importante e ganhou uma dimensão muito grande com a discussão do conteúdo atrelado à convergência tecnológica." Rêgo Filho disse que, levando em consideração os interesses do consumidor, aproveitará o que puder do texto aprovado pela Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio.

A comissão programou quatro audiências públicas para discutir o projeto. Nesta quinta-feira, foi realizado o terceiro debate sobre a produção de conteúdo da TV paga. Os profissionais convidados foram unânimes em afirmar que falta concorrência nesse mercado. O diretor comercial dos Canais Abril, Ricardo Rhan, defendeu um limite de 30% à concentração do mercado de TV por assinatura. A medida, segundo ele, deveria ser incorporada ao Projeto de Lei 29/07. "Hoje, Net e Sky juntas possuem 80% do total de assinantes do mercado de TV por assinatura, ambas têm um sócio em comum (a Globo)", denunciou.

Ele alertou ainda para a concentração em todos os elos da cadeia produtiva do setor: produção, programação, empacotamento e distribuição. "Um único grupo econômico domina todos os elos da cadeia. Na programação, os canais da Globosat têm a maior base de assinantes. O programador dominante, portanto, é do mesmo grupo que controla o acesso à distribuição", explicou.

O assessor do diretor-presidente da Agência Nacional do Cinema (Ancine), Alexandre Patez, afirmou que o mercado brasileiro de TV por assinatura é sub-aproveitado e muito menor do que o de países com perfil socioeconômico semelhante ao do Brasil. "Em países como Argentina e Colômbia, a TV por assinatura chega a mais de 50% da população. Na América Latina, só perdemos para a Bolívia", informou. Hoje, o País conta com apenas 5,3 milhões de assinantes.

Patez avalia que a penetração do serviço é baixa, mesmo nas classes AB. "São 17 milhões de domicílios de classe AB", lembrou. Ele atribui a baixa adesão ao serviço aos preços altos e à pouca quantidade de produção nacional na TV paga. Em 2007, a Ancine monitorou os 11 principais canais de filmes oferecidos nos pacotes para o assinante brasileiro. Nesse período, apenas 45 filmes – 1% de todos os longa-metragens exibidos – eram brasileiros. "Com mais programação nacional, certamente a televisão por assinatura seria mais procurada", declarou Patez.

Cotas

O PL 29/07 recebeu substitutivo na Comissão de Desenvolvimento Econômico, que estabelece um mínimo de 50% de conteúdo nacional nos pacotes oferecidos pelas operadoras. Deste percentual, 10% deve ser produção independente. Um sistema de cotas mais complexo chegou a ser proposto na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática pelo relator, deputado Jorge Bittar (PT-RJ), mas o projeto foi redistribuído para a Comissão de Defesa do Consumidor e não foi votado.

A cota de programação nacional nos canais pagos foi elogiada pelos participantes da audiência. O vice-presidente da Associação Brasileira de Produtoras Independentes de Televisão (ABPI-TV), Leonardo Dourado, lembrou que a União Européia garante 10% para produção independente. "As cotas não são invenção brasileira. Elas existem e se desenvolveram em todos os países com indústria audiovisual madura, justamente para promover competição em pé de igualdade", explicou.

O vice-presidente do Grupo Bandeirantes, Walter Ceneviva, ressaltou que o conteúdo nacional é importante para o fortalecimento da identidade cultural brasileira e o exercício da cidadania. "Viabilizar a produção de conteúdo brasileiro implica em assegurar a pluralidade de visões, princípio que está na constituição brasileira", disse.