O fato, a notícia e o pedigree: mídia pernambucana vive dias de censura

Dia 3 de maio. Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Há tempos a data é festejada pela Associação Nacional dos Jornais, que abriga proprietários de veículos impressos. Faz parte da agenda do empresariado fazer com que a população brasileira acredite que neste país existe realmente um ambiente propício a tal liberdade.

 

Dia 4 de maio. Logo cedo, antes de os noticiários da tevê entrarem no ar, uma ação da Polícia Federal paraibana prendeu vários homens em Pernambuco, acusados de crime contra a ordem econômica e formação de quadrilha. Entre eles estava Marcelo Tavares de Melo, presidente do grupo Tavares de Melo. O empresário era (e é) suspeito de ser líder de um cartel que controlava os preços da maior parte dos postos de gasolina em João Pessoa. 

 

Só que Tavares de Melo também é genro de João Carlos Paes Mendonça, dono do sistema de comunicação que envolve o Jornal do Commercio, JCOnline, TV Jornal, Rádio Jornal e Rádio CBN/Recife. Tido como um grande empreendedor e orgulho para o estado, Paes Mendonça conquistou fama e fortuna à frente da rede de supermercados Bompreço – recentemente vendida ao grupo Wall Mart.

 

O telejornal matutino Bom Dia Pernambuco, transmitido pela TV Globo, não perdeu tempo. Deu a notícia da prisão, disse o nome dos envolvidos e mostrou o momento em que, escondendo o rosto, o empresário era levado de seu apartamento, na avenida Boa Viagem, beira-mar, o metro quadrado mais caro da Região Metropolitana do Recife. Já o TV Jornal Manhã, da TV que pertence a JCPM, foi mais comedido. Não se furtou de dar a notícia, mas omitiu os nomes dos envolvidos, como também fez, em princípio, a CBN.

 

As demais empresas de comunicação, de capital local, ficaram atordoadas. Como preservar o interesse público sem ferir o interesse comercial de um grande empresário, dono de empresas de comunicação, investidor do mercado imobiliário? Não faltaram reuniões em tudo o que é de redação. Mesmo os blogs que pertencem às empresas, normalmente menos regulados comercialmente, foram impedidos de publicar coisa alguma num primeiro momento. Pior: até comentários referentes ao fato, postados por leitores de alguns sites, acabaram sendo apagados por seus moderadores.


Jornalistas se coçavam para apurar o fato, mesmo sem saber se conseguiriam publicar alguma coisa. Enquanto os jornais discutiam o que fazer, alguns sites como o PE360graus (www.pe360graus.com), da Globo e o blog independente Acerto as Contas (www.acertodecontas.blog.br), continuaram em cima do fato. Dos sites ligados a jornais, apenas o Pernambuco.com, dos Diarios Associados, publicou alguma coisa.

Até o início da noite, não se sabia quem ia (ou se ia) publicar o quê. Tanta era a confusão nas redações que, ouvindo suas – muitas – fontes na imprensa pernambucana, o jornalista Ricardo Noblat publicou em seu blog:

“Está no site da TV Globo Nordeste o que ficará de fora das edições de amanhã dos jornais de Pernambuco – e o que foi proibido de ser divulgado pelos blogs abrigados nos portais desses mesmos jornais: "Agentes da Polícia Federal prenderam, nesta sexta-feira (4), sete empresários pernambucanos acusados de montar, na Paraíba, um esquema para vender combustível a preço único. A atividade, que caracterizaria formação de cartel, é ilegal pelas leis brasileiras”. link: http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?cod_Post=57009

 

Sábado, dia 5. Cada jornal decidiu por um encaminhamento. O Diario de Pernambuco deu destaque ao caso, colocando-o na primeira página e dando, num quadro, o nome de todos os envolvidos. O Jornal do Commercio, de JCPM, foi mais comedido. Chamada pequena na primeira página, matéria escondida quase num rodapé – sendo que 40% do texto é a fala do advogado de Tavares de Melo, negando as acusações. A Folha de Pernambuco omitiu-se completamente. Para os editores do jornal, nada aconteceu.

 

O curioso é que, desde o domingo, dia 6, já não se fala mais no assunto. Com a exceção das empresas ligadas à Rede Globo e aos blogs independentes, nenhum grande veículo de comunicação parece acompanhar o caso. Como andam as investigações da polícia? Como foram os depoimentos? Quem permanece preso? Quem foi solto? Alguém deu alguma declaração? Alguém foi convidado a dar alguma declaração? O dinheiro encontrado no escritório da empresa era de origem legal?

 

É assunto demais para apuração de menos.

 

Na última segunda-feira, dia 7, a Folha de Pernambuco (www.folhape.com.br) publicou um artigo bem escrito e assinado pelo renomado jurista José Paulo Cavalcanti Filho. Intitulado “Algemas do autoritarismo”, o advogado, sem citar nomes, critica a ação da polícia – com bons argumentos. No final, um parágrafo interessante:


P.S. A Folha de Pernambuco segundo fui informado, como ato de resistência a esse arbítrio, decidiu nesse caso de agora preservar a vida privada dos acusados. E deixou de publicar fatos que, em seu entender, foram apenas manifestações de arbítrio.  Como um gesto de advertência. Mas estará atenta ao desenvolver do processo, até seu fim. Se os acusados forem julgados e condenados, a matéria será publicada com destaque. Expondo o nome dos criminosos e seus delitos. Na primeira página, claro. Mas, se nada vier a ser provado, e então não terá contribuído para arranhar (ainda mais) a vida de pessoas inocentes e de suas famílias. Tudo como deveria ocorrer, sempre, nas boas democracias”. 

Jornal notório por publicar textos e fotos quando pessoas de baixa renda são presas sob suspeita de qualquer crime, seria fantástico se a Folha de Pernambuco adotasse, de uma vez, esse novo critério em sua linha editorial. O mesmo artigo foi publicado na mesma semana pelo Jornal do Commercio.

Um caso raríssimo em que um texto de opinião aparece em dois veículos “concorrentes” em dias diferentes e próximos. Um detalhe: até o ano passado, José Paulo era colaborador freqüente do JC. Deixou de escrever para o jornal de JCPM depois que o periódico publicou uma reportagem especial sobre trabalho escravo em que a fazenda de um parente seu foi incluída como sendo um dos destinos de trabalhadores que sofriam maus tratos. 

À NOITINHA – Sem muito alarde, Marcelo Tavares de Melo foi solto no último final de semana. A investigação, porém, continua. O empresário continua respondendo em liberdade pelos crimes de que é suspeito. Mas se você quiser saber o que está acontecendo, esqueça os jornais.


* Jornalista, integrante do Centro de Cultura Luiz Freire, editor do site Ombuds PE (www.ombudspe.org.br) e articulador estadual do Movimento Nacional de Direitos Humanos.

 

 

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