{"id":29956,"date":"2017-07-12T18:18:54","date_gmt":"2017-07-12T18:18:54","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29956"},"modified":"2017-08-03T18:22:20","modified_gmt":"2017-08-03T18:22:20","slug":"uma-doenca-duas-noticias-a-febre-amarela-nos-governos-lula-e-temer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29956","title":{"rendered":"Uma doen\u00e7a, duas not\u00edcias: a febre amarela nos governos Lula e Temer"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 2008, um surto foi transformado em epidemia grave pela imprensa. Nesse ano, com 17 vezes mais casos, a abordagem da m\u00eddia foi s\u00f3bria e discreta<\/em><\/p>\n<p><em>Por Claudia Malinverni*<\/em><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos nove anos, dois ciclos de intensifica\u00e7\u00e3o da\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/sociedade\/febre-amarela-a-crueldade-e-a-ignorancia-andam-juntas\" target=\"_blank\">febre amarela silvestre<\/a>\u00a0(na gram\u00e1tica epidemiol\u00f3gica, epizootia), fen\u00f4meno recorrente no cen\u00e1rio brasileiro, chamaram a aten\u00e7\u00e3o do jornalismo de massa. O primeiro, no ver\u00e3o de 2008, foi alvo de uma intensa e controversa cobertura, que mobilizou a imprensa nacional e acabou por configurar a doen\u00e7a como uma epidemia midi\u00e1tica.<\/p>\n<p>O segundo, no in\u00edcio deste ano, a despeito de ter provocado um surto entre seres humanos de dimens\u00f5es in\u00e9ditas e com potencial para a espetaculariza\u00e7\u00e3o, recebeu um tratamento jornal\u00edstico oposto, centrado na objetividade da informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entender as diferen\u00e7as entre as duas narrativas \u00e9 o foco deste artigo, que toma como exemplo o jornal\u00a0<em>Folha de S.Paulo<\/em>. Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, o n\u00famero de casos confirmados em 2017 \u00e9 nove vezes maior do que o registrado em 2000 \u2013 que, com 85 casos, era, at\u00e9 ent\u00e3o, o maior da s\u00e9rie hist\u00f3rica, iniciada em 1980 \u2013, e quase 17 vezes o contabilizado em 2008, quando foram confirmados apenas 46 casos.<\/p>\n<p>Essa compara\u00e7\u00e3o num\u00e9rica dos dois momentos de dissemina\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a suscita um primeiro questionamento: por que o mais \u201cbrando\u201d, de 2008, se transformou jornalisticamente em uma epidemia de\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/saude\/o-mosquito-nao-respeita-fronteiras-diz-especialista-em-febre-amarela\" target=\"_blank\">febre amarela<\/a>\u00a0e o segundo, de 2017, mereceu da imprensa uma abordagem cautelosa, assentada no que poder\u00edamos nomear como bom jornalismo?<\/p>\n<p>A epidemia midi\u00e1tica teve como pano de fundo o in\u00edcio do segundo mandato presidencial do petista Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que, em mar\u00e7o de 2007, havia nomeado o sanitarista Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o ministro da Sa\u00fade. No campo da sa\u00fade p\u00fablica, parlamentares governistas e da oposi\u00e7\u00e3o travavam uma acirrada disputa pela renova\u00e7\u00e3o da CPMF.<\/p>\n<p>Pouco antes de detectada a febre amarela silvestre pelo sistema nacional de monitoramento, em meados de dezembro de 2007, o Senado Federal havia rejeitado a prorroga\u00e7\u00e3o da contribui\u00e7\u00e3o. Importante complementa\u00e7\u00e3o ao or\u00e7amento do SUS, a defesa da CPMF foi conduzida pessoalmente por Tempor\u00e3o, que rejeitava o vi\u00e9s tecnocr\u00e1tico das a\u00e7\u00f5es ministeriais.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2017, a cobertura se desenrolou sob o governo do peemedebista Michel Temer. Controverso desde o in\u00edcio, o processo parlamentar que desaguou no impedimento de Dilma Rousseff teve amplo e expl\u00edcito apoio das principais corpora\u00e7\u00f5es de m\u00eddia do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por outro lado, o ministro da Sa\u00fade do Governo Temer \u00e9\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/saude\/quem-lucra-quando-a-saude-e-tratada-como-bem-de-consumo\" target=\"_blank\">Ricardo Barros<\/a>, eleito deputado federal no Paran\u00e1 pelo Partido Progressista tendo como maior doador individual de sua campanha, em 2014,\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/revista\/916\/ricardo-barros-o-ministro-dos-planos-de-saude\" target=\"_blank\">Elon Gomes de Almeida<\/a>, s\u00f3cio do Grupo Alian\u00e7a, administradora de planos de sa\u00fade. Engenheiro e empres\u00e1rio, o atual ministro defende o fim da universalidade do SUS e a cria\u00e7\u00e3o de planos populares de sa\u00fade, que representam uma amea\u00e7a ao sistema p\u00fablico de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Em 2008, a febre amarela silvestre \u2013 ent\u00e3o concentrada na regi\u00e3o Centro-Oeste, com destaque para o Distrito Federal \u2013 foi classificada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade e boa parte de t\u00e9cnicos e pesquisadores como dentro da normalidade epidemiol\u00f3gica, logo, evoluindo segundo as expectativas t\u00e9cnico-cient\u00edficas. A imprensa de massa discordou.<\/p>\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o, com destaque, pelo jornal\u00a0<em>Correio Braziliense<\/em>, do primeiro caso suspeito registrado em Bras\u00edlia (um funcion\u00e1rio do alto escal\u00e3o do Minist\u00e9rio da Cultura) foi a senha para o agendamento jornal\u00edstico da febre amarela em escala nacional por diferentes meios de comunica\u00e7\u00e3o. A partir da\u00ed, entre o final de dezembro de 2007 e o in\u00edcio de fevereiro de 2008, o aparato midi\u00e1tico generalista manteve uma cobertura intensa do evento, que foi marcada pelo excesso de exposi\u00e7\u00e3o do tema e pela sele\u00e7\u00e3o de repert\u00f3rios de risco que salientavam a tese de urbaniza\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a.<\/p>\n<p>No primeiro recorte temporal, de 21\/12\/2007 a 29\/02\/2008, que compreende a publica\u00e7\u00e3o da primeira e da \u00faltima mat\u00e9ria circunscrita ao fen\u00f4meno da febre amarela midi\u00e1tica, foram localizadas 120 mat\u00e9rias, das quais 118 foram analisadas (veiculadas em 47 edi\u00e7\u00f5es).<\/p>\n<p>Utilizando exatamente o mesmo recorte (21\/12\/2016 a 28\/02\/2017), na cobertura deste ano foram localizados 75 textos, tendo sido analisados 71, publicados em 21 edi\u00e7\u00f5es. Ou seja, embora do ponto de vista epidemiol\u00f3gico o evento de 2017 tenha sido consistentemente mais intenso, o volume de mat\u00e9rias publicadas pelo jornal foi cerca de 40% menor do que em 2008.<\/p>\n<dl class=\"image-inline captioned\">\n<dt><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" lazyloaded\" title=\"Febre amarela\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/uma-doenca-duas-noticias-a-febre-amarela-nos-governos-lula-e-temer\/febre-amarela\/image\" alt=\"Febre amarela\" width=\"1200\" height=\"950\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/intervozes\/uma-doenca-duas-noticias-a-febre-amarela-nos-governos-lula-e-temer\/febre-amarela\/image\" \/><\/dt>\n<dd class=\"image-caption\">Em 2008, o t\u00edtulo destaca que morte pode ser decorrente de febre amarela. Cobertura alarmista fez o Brasil passar de exportador a importador de vacinas antiamar\u00edlicas. Neste ano, jornal pede cautelaCr\u00e9ditos: reprodu\u00e7\u00e3o Folha de S. Paulo<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Outro aspecto relevante desta an\u00e1lise \u00e9 da ordem dos sentidos. H\u00e1 nove anos, a constru\u00e7\u00e3o da narrativa envolveu tr\u00eas grandes estrat\u00e9gias discursivas epid\u00eamicas: &#8220;a doen\u00e7a fora de controle&#8221;, com foco no &#8220;crescimento progressivo&#8221; do n\u00famero de casos suspeitos; &#8220;o inimigo letal&#8221;, centrada nas taxas de letalidade e na sintomatologia\/tratamento da doen\u00e7a; e a tese da urbaniza\u00e7\u00e3o, dada pela &#8220;transmiss\u00e3o generalizada&#8221;, sentido produzido a partir da omiss\u00e3o da \u00e1rea de transmiss\u00e3o, que no caso da febre amarela silvestre \u00e9 rural, dificultando a demarca\u00e7\u00e3o territorial do evento para o p\u00fablico leitor (na edi\u00e7\u00e3o analisada em 2008, concentrado na capital paulista e na Grande S\u00e3o Paulo, portanto, \u00e1reas urbanas). Sobre essa \u00faltima estrat\u00e9gia, \u00e9 importante ressaltar que a omiss\u00e3o do termo \u201csilvestre\u201d tornou discursivamente as duas formas (silvestre e urbana) um mesmo e \u00fanico evento.<\/p>\n<p>Em 2017, ao contr\u00e1rio, a demarca\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica do ciclo em curso foi constante. Desde a primeira mat\u00e9ria (\u201cSuspeitas de febre amarela crescem em MG\u201d, 12\/01\/2017), sobretudo quando a not\u00edcia remetia ao n\u00famero de casos, o local de sua ocorr\u00eancia foi constantemente demarcado.<\/p>\n<p>Ainda no \u00e2mbito da estrat\u00e9gia &#8220;transmiss\u00e3o generalizada&#8221;, a palavra-chave da cobertura de 2008 foi \u201cepidemia\u201d, que se caracteriza pela ocorr\u00eancia de surtos de uma doen\u00e7a de modo simult\u00e2neo em diferentes regi\u00f5es, quando, na verdade, tratava-se de um surto, aumento repentino do n\u00famero de casos de uma doen\u00e7a em uma regi\u00e3o espec\u00edfica.<\/p>\n<p>Na edi\u00e7\u00e3o tomada como \u00e1pice do enquadramento epid\u00eamico de 2008, a de 14 de janeiro, a febre amarela foi manchete de capa (\u201cMinistro vai \u00e0 TV e nega epidemia de febre amarela\u201d) e destaque principal da editoria Cotidiano, com seis textos. No dia seguinte, 15 de janeiro, a\u00a0<em>Folha<\/em>\u00a0publicou seu primeiro editorial acerca do evento, indicando a relev\u00e2ncia do tema para os donos do jornal. Nesse pequeno recorte do corpus de 2008 a palavra &#8220;epidemia&#8221; (e duas vari\u00e1veis, \u201cepidemias\u201d e \u201cn\u00e3o-epidemia\u201d) aparecem dez vezes, enquanto &#8220;surto&#8221;, que era o que de fato estava em curso, apenas uma.<\/p>\n<p>Em contrapartida, na totalidade do corpus de 2017 (71 mat\u00e9rias) a palavra \u201cepidemia\u201d aparece apenas quatro vezes, duas delas no editorial \u201cFebre de vacinas\u201d (27\/01). Exatamente para afastar a tese de evolu\u00e7\u00e3o epid\u00eamica da doen\u00e7a, o texto \u00e9 perempt\u00f3rio: \u201cN\u00e3o se pode falar de epidemia no caso da febre amarela\u201d. Em todos os textos em que havia caracteriza\u00e7\u00e3o do evento, o jornal empregou o termo \u201csurto\u201d.<\/p>\n<p>Em 2008, os eixos narrativos \u201ccrescimento progressivo\u201d e \u201cinimigo letal\u201d eram frequentemente articulados, inclusive nas 15 chamadas de capa sobre a febre amarela, 12 das quais publicadas quase consecutivamente, em que se destacam repert\u00f3rios que explicitavam sentidos de descontrole e letalidade da febre amarela (\u201cprimeira morte\u201d; \u201c2\u00aa morte\u201d; \u201c5\u00aa morte\u201d; \u201c7 mortes\u201d; \u201c8 o total de mortes\u201d; \u201c9\u00aa morte\u201d).<\/p>\n<p>Em 2017, foram oito capas, mas em apenas duas o n\u00famero de \u00f3bitos foi destacado: \u201cMinist\u00e9rio admite, ap\u00f3s 8 mortes, surto de febre amarela\u201d (19\/01) e \u201cCidades paulistas t\u00eam tr\u00eas mortes por febre amarela\u201d (24\/01).<br \/>\n<strong>\u201cVacine-se\u201d: orienta\u00e7\u00e3o da imprensa gera esgotamento de estoque antiamar\u00edlico no pa\u00eds<\/strong><\/p>\n<p>\u201cCom sua licen\u00e7a, vou usar este espa\u00e7o para fazer um apelo para voc\u00ea que mora no Brasil, n\u00e3o importa onde: vacine-se contra a febre amarela! N\u00e3o deixe para amanh\u00e3, depois, semana que vem&#8230; Vacine-se logo! A febre amarela \u00e9 uma doen\u00e7a infecciosa causada por v\u00edrus e pode ser fatal. Hoje mesmo (ter\u00e7a, 08\/01\/2008), morreu um homem de 38 anos em Bras\u00edlia, plena capital da Rep\u00fablica, com febre alta, dores musculares, n\u00e1useas e v\u00f4mitos. Possivelmente, foi v\u00edtima da doen\u00e7a. O alerta nem \u00e9 mais amarelo, j\u00e1 \u00e9 vermelho. E a vacina \u00e9 altamente eficaz. Tomou, est\u00e1 livre da doen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>O trecho acima, do artigo \u201cAlerta amarelo!\u201d, \u00e9 um dos exemplos mais emblem\u00e1ticos do\u00a0<span class=\"external-link\">discurso a favor da\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/saude\/febre-amarela-oms-envia-3-5-milhoes-de-vacinas-ao-brasil\" target=\"_blank\">vacina\u00e7\u00e3o<\/a><\/span>. Publicado por Eliane Cantanh\u00eade, apresentada ent\u00e3o como uma das jornalistas de pol\u00edtica mais influentes do jornal, na coluna Pensata, exclusiva da Folha Online, ele resume bem a autoridade da qual a imprensa se imbuiu \u2013 e que gerou uma crise no estoque de vacinas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em 2008, uma narrativa em forma de f\u00e1bula al\u00e7ou a vacina \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u201cpo\u00e7\u00e3o m\u00e1gica\u201d, apresentada como um dispositivo capaz de proteger a popula\u00e7\u00e3o do \u201cinimigo letal\u201d de modo \u201cinfal\u00edvel\u201d. Nessa perspectiva, a imprensa passou a atuar como porta-voz do uso irrestrito da vacina, de modo geral sem destacar seus potenciais efeitos adversos. Ent\u00e3o, a demanda explodiu, inclusive naquelas regi\u00f5es que estavam fora das \u00e1reas de ocorr\u00eancia da doen\u00e7a, cl\u00e1ssicas e\/ou de transmiss\u00e3o viral.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia do impacto desse sentido, entre o final de dezembro de 2007 (primeiras not\u00edcias) e 22 de fevereiro de 2008 (esgotamento da pauta) foram distribu\u00eddas em todo Pa\u00eds mais de 13 milh\u00f5es de doses da vacina. Desse total, 7,6 milh\u00f5es de doses foram aplicadas em pouco menos de dois meses, 6,8 milh\u00f5es s\u00f3 em janeiro.<\/p>\n<p>Um dos tr\u00eas fabricantes mundiais pr\u00e9-qualificados pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS), no per\u00edodo, o Brasil n\u00e3o s\u00f3 suspendeu a exporta\u00e7\u00e3o do antiamar\u00edlico, como tamb\u00e9m apresentou um pedido de empr\u00e9stimo de quatro milh\u00f5es de doses do estoque de emerg\u00eancia global.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, que at\u00e9 2008 tinha mais da metade do seu territ\u00f3rio livre da circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, foi vice-campe\u00e3o de doses aplicadas (mais de 2,4 milh\u00f5es), atr\u00e1s apenas de Goi\u00e1s (quase 2,8 milh\u00f5es), end\u00eamico desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000. S\u00f3 na capital paulista, foram aplicadas 428.337 doses, mais de cinco vezes do que em 2007 (79.666). Os casos de efeitos adversos aumentaram exponencialmente, chegando a mais do que o dobro daqueles transmitidos pelo mosquito. Ent\u00e3o, veio o desfecho mais grave: quatro mortes por febre amarela vacinal, todas no estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Em contraposi\u00e7\u00e3o, na cobertura de 2017, o enquadramento da vacina pode ser classificado como cauteloso. J\u00e1 na segunda mat\u00e9ria, \u201cVacina contra a febre amarela requer cautela\u201d, destacada em chamada de capa (13\/01), depois de demonstrar os\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/saude\/drauzio-varella-201co-mais-importante-e-isolar-o-foco-da-febre-amarela201d\" target=\"_blank\">riscos da vacina\u00e7\u00e3o indiscriminada<\/a>, o texto alerta: \u201cPor isso, \u00e9 preciso seguir \u00e0 risca as orienta\u00e7\u00f5es das autoridades sanit\u00e1rias sobre quais regi\u00f5es e grupos populacionais devem ser vacinados\u201d.<\/p>\n<p>No editorial j\u00e1 citado (&#8220;Febre de vacinas&#8221;, 27\/01), a preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 com o aumento da demanda vacinal em regi\u00f5es sem recomenda\u00e7\u00e3o: \u201cCompete ao poder p\u00fablico distribuir doses de maneira eficiente aos locais que de fato necessitam delas. Precisa ainda esmerar-se mais na comunica\u00e7\u00e3o sobre quem deve vacinar-se e onde, para prevenir uma epidemia de p\u00e2nico e a desorganiza\u00e7\u00e3o geral do sistema\u201d.<\/p>\n<p>Antes, em outro editorial (\u201cAlerta amarelo\u201d, 18\/01), o jornal j\u00e1 apontara o risco da vacina\u00e7\u00e3o sem recomenda\u00e7\u00e3o: \u201cEm meio a uma corrida indiscriminada por vacinas em 2007 e 2008, houve oito casos de rea\u00e7\u00e3o adversa grave \u00e0 vacina, com seis mortes\u201d. Al\u00e9m dos dois editoriais, diferentes mat\u00e9rias e edi\u00e7\u00f5es trouxeram informa\u00e7\u00f5es sobre a popula\u00e7\u00e3o-alvo da vacina e os riscos de efeitos adversos.<\/p>\n<p>Este ano, embora tenha pairado um eventual desabastecimento \u2013 chegando mesmo a ser detectada a\u00a0<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/cartacapital.com.br\/saude\/descuido-na-vacinacao-pode-ser-causa-de-surto-de-febre-amarela\" target=\"_blank\">falta pontual da vacina em algumas regi\u00f5es do Pa\u00eds<\/a>, sobretudo naquelas em que o surto j\u00e1 tinha sido confirmado (Minas Gerais, Esp\u00edrito Santo e S\u00e3o Paulo) ou nas quais surgiram casos inesperados, como no Rio de Janeiro, em mar\u00e7o \u2013, n\u00e3o houve uma \u201ccorrida pela vacina\u201d, como a registrada em 2008. Ao longo de 2017, o aumento da demanda vacinal esteve atrelado \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es do minist\u00e9rio e das secretarias estaduais e municipais de Sa\u00fade, a reboque das a\u00e7\u00f5es de conten\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, e n\u00e3o do notici\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o tivesse se desenrolado em contexto pol\u00edtico-institucional t\u00e3o diverso, talvez fosse poss\u00edvel deduzir que a n\u00e3o epidemia midi\u00e1tica de 2017 foi resultado de um aprendizado advindo das consequ\u00eancias da epidemia midi\u00e1tica de 2008, capaz de mudar as pr\u00e1ticas do jornalismo de massa na abordagem sobre o tema.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00e3o sendo esse o quadro geral, restar\u00e1 sempre uma d\u00favida: se fosse a petista Dilma Rousseff e n\u00e3o o peemedebista Michel Temer a presidir o pa\u00eds, ter\u00edamos em 2017 uma febre amarela midi\u00e1tica?<br \/>\n<em>*Claudia Malinverni \u00e9 jornalista e doutora pela Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP). O artigo completo sobre o tema foi publicado no n\u00b0 2 da revista Reciis (Icict\/Fiocruz) deste ano<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2008, um surto foi transformado em epidemia grave pela imprensa. Nesse ano, com 17 vezes mais casos, a abordagem da m\u00eddia foi s\u00f3bria e discreta Por Claudia Malinverni* Nos \u00faltimos nove anos, dois ciclos de intensifica\u00e7\u00e3o da\u00a0febre amarela silvestre\u00a0(na gram\u00e1tica epidemiol\u00f3gica, epizootia), fen\u00f4meno recorrente no cen\u00e1rio brasileiro, chamaram a aten\u00e7\u00e3o do jornalismo de massa. &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29956\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Uma doen\u00e7a, duas not\u00edcias: a febre amarela nos governos Lula e Temer<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[327],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29956"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=29956"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29956\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29957,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29956\/revisions\/29957"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=29956"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=29956"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=29956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}