{"id":29847,"date":"2017-05-18T14:59:57","date_gmt":"2017-05-18T14:59:57","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29847"},"modified":"2017-05-19T15:03:25","modified_gmt":"2017-05-19T15:03:25","slug":"representacao-de-lgbts-na-midia-entre-o-silencio-e-o-estereotipo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29847","title":{"rendered":"Representa\u00e7\u00e3o de LGBTs na m\u00eddia: entre o sil\u00eancio e o estere\u00f3tipo"},"content":{"rendered":"<p><em>Na semana do Dia Internacional contra a Homofobia, questionamos a aus\u00eancia dos LGBT e o imagin\u00e1rio constru\u00eddo sobre o grupo nos meios de comunica\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>Por<em> Gyssele Mendes*<\/em><\/p>\n<p>As no\u00e7\u00f5es de representa\u00e7\u00e3o e representatividade s\u00e3o complexas e caras aos movimentos e minorias sociais. No regime da visibilidade em que vivemos, \u201cser visto\u201d \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de pressionar inst\u00e2ncias governamentais por mais direitos e pol\u00edticas de igualdade, a fim de garantir a dignidade humana de grupos sociais cotidianamente vilipendiados. Da\u00ed um dos pap\u00e9is fundamentais da m\u00eddia na contemporaneidade: \u00e9 o espa\u00e7o da visibilidade por excel\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a aglomera\u00e7\u00e3o de identidades e sexualidades distintas sob o mesmo guarda-chuva, como \u00e9 o caso da sigla LGBT, \u00e9 um indicativo de disputas. O movimento de l\u00e9sbicas possui pautas que nem sempre ser\u00e3o observadas pelo movimento gay, assim como as travestis e pessoas trans possuem reivindica\u00e7\u00f5es espec\u00edficas relativas \u00e0s identidades de g\u00eanero. J\u00e1 temos a\u00ed a ponta do iceberg da representa\u00e7\u00e3o: o seu limite em retratar e (re)criar o outro.<\/p>\n<p>H\u00e1 43 anos, o primeiro personagem gay surgia na televis\u00e3o brasileira, na novela \u201cO Rebu\u201d, da TV Globo. A trama girava em torno de um misterioso assassinato. O pesquisador Luiz Eduardo Peret destaca que \u201cat\u00e9 o fim da primeira metade da novela, o p\u00fablico n\u00e3o sabia quem havia morrido, nem se era homem ou mulher. S\u00f3 no \u00faltimo cap\u00edtulo se revelava que o rico Conrad Mahler matara a jovem S\u00edlvia por ci\u00fames dela com seu \u2018protegido\u2019 Cau\u00ea. <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.contemporanea.uerj.br\/pdf\/ed_05\/contemporanea_n05_04_eduardo.pdf\" target=\"_blank\">A homossexualidade estreou na telenovela<\/a> atrav\u00e9s do crime \u2018passional\u2019 e da depend\u00eancia financeira de um jovem por um homem mais velho\u201d.<\/p>\n<p>Nesse mesmo per\u00edodo, tivemos a primeira \u201conda\u201d de movimentos LGBTs no Brasil, formados majoritariamente por gays e travestis, como resposta ao silenciamento imposto pela \u201cmoral e bons costumes\u201d da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, muita coisa mudou, outras nem tanto. \u00c9 fato que, nos \u00faltimos anos, a popula\u00e7\u00e3o LGBT tem conquistado cada vez mais espa\u00e7o na m\u00eddia brasileira, seja nas telenovelas, em reportagens pedag\u00f3gicas da m\u00eddia impressa e online ou programas humor\u00edsticos e de variedades. Mas quando pensamos nisso, quais personagens LGBTs v\u00eam \u00e0 mente?<\/p>\n<p>Em um breve esfor\u00e7o, lembramos de Rafaela e Leila, o casal de l\u00e9sbicas mortas na explos\u00e3o de um shopping, em Torre de Babel (1997); Clara e Rafaela, de Mulheres Apaixonadas (2003), cujo final contava com uma apresenta\u00e7\u00e3o teatral do tr\u00e1gico \u201cRomeu e Julieta\u201d; um personagem ou outro interpretando o \u201cgay afeminado\u201d e \u201cafetado\u201d em programas de humor; a travesti Sarita, integrante do n\u00facleo c\u00f4mico de Explode Cora\u00e7\u00e3o (1995); J\u00fanior e Zeca, de Am\u00e9rica (2005), que tiveram o beijo censurado no \u00faltimo cap\u00edtulo; o casal Niko e F\u00e9lix, de Amor \u00e0 Vida (2013), cujo beijo no final da novela rendeu in\u00fameras discuss\u00f5es, e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o vem \u00e0 tona, al\u00e9m de como s\u00e3o representados os personagens LGBTs: entre eles, quantos s\u00e3o interpretados por pessoas LGBTs? Quantas travestis est\u00e3o no elenco da Globo, do SBT, da Band ou da Record? Quantos homens trans ocupam espa\u00e7os de poder na m\u00eddia? Quantas l\u00e9sbicas participaram da produ\u00e7\u00e3o do roteiro das telenovelas em que s\u00e3o representadas? Provavelmente, a resposta n\u00e3o se distanciar\u00e1 muito do zero.<\/p>\n<p>Recentemente, a nova produ\u00e7\u00e3o de Gl\u00f3ria Perez para a TV Globo ocupou os notici\u00e1rios com uma pol\u00eamica que tocava exatamente nesse ponto. \u201cA For\u00e7a do Querer\u201d, que estreou no m\u00eas passado, buscar\u00e1 representar o processo de transi\u00e7\u00e3o de um homem trans, interpretado por uma atriz cisg\u00eanero (pessoas cujo g\u00eanero \u00e9 o mesmo que o designado em seu nascimento).<\/p>\n<p><a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/ego.globo.com\/famosos\/noticia\/2016\/09\/gloria-perez-explica-escolha-de-uma-mulher-para-viver-transexual-em-flor-da-pele.html\" target=\"_blank\">Ao anunciar isso, a autora e a emissora foram bombardeadas com cr\u00edticas do movimento LGBT<\/a>, que alertava para a import\u00e2ncia de um homem trans ocupar esse espa\u00e7o. Apesar de n\u00e3o conseguirem reverter a situa\u00e7\u00e3o, a milit\u00e2ncia LGBT deixou um recado: \u201cqueremos falar, ocupar, e n\u00e3o ficaremos calados diante do uso das nossas viv\u00eancias como \u00e1libi para responsabilidade social da emissora\u201d.<\/p>\n<p>Democratizar a m\u00eddia n\u00e3o implica somente em ampliar o acesso e buscar a pluralidade nas representa\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, n\u00e3o se trata apenas de democratizar o produto, mas tamb\u00e9m o processo de constru\u00e7\u00e3o dessas representa\u00e7\u00f5es, que servem como um mapa social de leituras e condutas sociais, indicando quem deve ter sua exist\u00eancia respeitada e quem simboliza uma amea\u00e7a ao status quo.<\/p>\n<p>De acordo com <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"https:\/\/homofobiamata.files.wordpress.com\/2017\/01\/relatc3b3rio-2016-ps.pdf\" target=\"_blank\">o relat\u00f3rio anual do Grupo Gay da Bahia (GGB)<\/a>, em 2016 foram mortas 347 pessoas v\u00edtimas de LGBTfobia, quase uma por dia. Para chegar a esse n\u00famero, o GGB realizou um levantamento a partir da m\u00eddia e de informa\u00e7\u00f5es que recebeu de familiares e amigos das v\u00edtimas. Nota-se, portanto, que esse dado reflete apenas uma parcela dos atos de viol\u00eancia motivados por homofobia, lesbofobia, bifobia ou transfobia.<\/p>\n<p>Maria Clara Ara\u00fajo, figura importante do movimento recente de mulheres trans no Brasil, ressalta que \u201cquando se fala em representar, \u00e9 sobre existir, de fato, em uma sociedade em que <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/pontoeletronico.me\/2015\/midia-pessoas-trans\/\" target=\"_blank\">90% das mulheres trans e travestis est\u00e3o na prostitui\u00e7\u00e3o como um lugar condicionado<\/a>\u201d. A representa\u00e7\u00e3o nas telas pode ser parte de uma fic\u00e7\u00e3o, mas as consequ\u00eancias nas vidas dos grupos representados irresponsavelmente s\u00e3o reais.<\/p>\n<p>Carlo Ginzburg, no ensaio \u201cRepresenta\u00e7\u00e3o: a palavra, a ideia, a coisa\u201d, sublinha a dupla fun\u00e7\u00e3o de representar uma aus\u00eancia e continuar uma exist\u00eancia, destacando uma ruptura e uma continuidade. Ginzburg nota que \u201ca substitui\u00e7\u00e3o precede a inten\u00e7\u00e3o de fazer um retrato, e a cria\u00e7\u00e3o, a de comunicar\u201d, mostrando que as representa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o apenas constitu\u00eddas da \u201cimita\u00e7\u00e3o\u201d de algo ou algu\u00e9m, mas do duplo processo de substitui\u00e7\u00e3o e (re)cria\u00e7\u00e3o daquilo ou daquele que se representa, de figura\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de sentidos, de simboliza\u00e7\u00e3o e significa\u00e7\u00e3o. Logo, representar \u00e9 o processo de criar e substituir.<\/p>\n<p>Imaginem quantas vidas seriam poupadas ou quantas pessoas n\u00e3o poderiam ter suas vis\u00f5es de mundo ampliadas se a m\u00eddia optasse por representa\u00e7\u00f5es mais humanizadas, inclusivas, focadas na constru\u00e7\u00e3o de empatia entre os diferentes e n\u00e3o em publicidade ou lucro? Essa pode n\u00e3o ser a solu\u00e7\u00e3o, mas certamente \u00e9 um caminho que a grande m\u00eddia brasileira poderia tomar, caso estivesse interessada em erguer uma sociedade que saiba reconhecer e conviver com as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p><em>*Gyssele Mendes \u00e9 jornalista, mestra em Comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal Fluminense e militante LGBT<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana do Dia Internacional contra a Homofobia, questionamos a aus\u00eancia dos LGBT e o imagin\u00e1rio constru\u00eddo sobre o grupo nos meios de comunica\u00e7\u00e3o Por Gyssele Mendes* As no\u00e7\u00f5es de representa\u00e7\u00e3o e representatividade s\u00e3o complexas e caras aos movimentos e minorias sociais. 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