{"id":29739,"date":"2016-09-01T10:00:49","date_gmt":"2016-09-01T10:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29739"},"modified":"2017-04-04T16:49:28","modified_gmt":"2017-04-04T16:49:28","slug":"na-sintonia-do-golpe-o-papel-da-midia-na-crise-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29739","title":{"rendered":"Na sintonia do golpe: o papel da m\u00eddia na crise pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>Em 2016, as gera\u00e7\u00f5es nascidas nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000 defrontaram-se, talvez pela primeira vez de forma mais aberta, com a a\u00e7\u00e3o incisiva e determinada dos grandes conglomerados midi\u00e1ticos, no sentido de moldarem, \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, o sistema pol\u00edtico do pa\u00eds.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Texto: Helena Martins | Colaboraram: Iara Moura, M\u00f4nica Mour\u00e3o e Eliz\u00e2ngela Ar<\/em>a\u00fajo<\/p>\n<p>O afastamento da presidenta Dilma Rousseff, por meio de um golpe que envolveu decididamente o Legislativo, o Judici\u00e1rio e os meios de comunica\u00e7\u00e3o, trouxe \u00e0 tona e exigiu que fosse inclu\u00edda na agenda de debates da sociedade a problem\u00e1tica do papel da m\u00eddia para a constru\u00e7\u00e3o \u2013 ou o desmonte \u2013 da democracia. Na mem\u00f3ria de um pa\u00eds que n\u00e3o enfrentou abertamente a hist\u00f3ria da ditadura civil-militar (1964-1985), restavam quase apagados casos de como o esc\u00e2ndalo Proconsult, uma tentativa de fraude, encobertada pela Rede Globo, que objetivava impossibilitar a vit\u00f3ria de Leonel Brizola, em 1982, ao governo do Rio de Janeiro. A apresenta\u00e7\u00e3o pela emissora do maior com\u00edcio das Diretas J\u00e1, em S\u00e3o Paulo, em 1984, como uma festa em comemora\u00e7\u00e3o ao anivers\u00e1rio da capital paulista, ou a determinante edi\u00e7\u00e3o debate televisivo entre Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Fernando Collor de Melo, candidatos \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica em 1989, \u00e0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o, pareciam fatos datados e cuja repeti\u00e7\u00e3o seria improv\u00e1vel no tempo presente, dada a possibilidade de circula\u00e7\u00e3o de narrativas diferentes daquelas apresentadas pelos oligop\u00f3lios.<\/p>\n<p>Muito embora a criminaliza\u00e7\u00e3o, o silenciamento e a distor\u00e7\u00e3o de fatos envolvendo movimentos sociais e outros grupos progressistas sejam uma constante na hist\u00f3ria do sistema de comunica\u00e7\u00e3o brasileiro, a sociedade acostumou-se a ver uma m\u00eddia complacente com o poder central e seu projeto, ao longo dos governos de Fernando Henrique Cardoso, nos anos 1990. No campo acad\u00eamico, vimos o deslocamento do olhar sobre o poder dos conglomerados para as pr\u00e1ticas de resist\u00eancia e reelabora\u00e7\u00e3o de significados pelos receptores, bem como a difus\u00e3o de entusiasmados estudos que decretaram o fim da comunica\u00e7\u00e3o massiva com o advento da internet.<\/p>\n<p>No in\u00edcio dos anos 2000, ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de Lula, apesar da aus\u00eancia de enfrentamento do poder midi\u00e1tico por parte do governo, os oligop\u00f3lios mudaram de postura. No contexto da A\u00e7\u00e3o Penal 470, apelidada pela pr\u00f3pria m\u00eddia como \u201cmensal\u00e3o\u201d, em 2005, eles passaram ao que a professora da Faculdade de Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade de Bras\u00edlia, Liziane Guazina, afirma ser uma postura advers\u00e1ria aos pol\u00edticos e \u00e0 pol\u00edtica, conforme demonstrou na tese de doutorado \u201cJornalismo em Busca da Credibilidade: a cobertura advers\u00e1ria do Jornal Nacional no Esc\u00e2ndalo do Mensal\u00e3o\u201d. Professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), Lu\u00eds Felipe Miguel aponta que, a partir de ent\u00e3o, houve \u201cum processo de regress\u00e3o da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da m\u00eddia brasileira\u201d. Ele avalia que, do fim do per\u00edodo ditatorial at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2002, a grande imprensa parecia ter aprendido a conviver com o pluripartidarismo. Ela \u201cparou de agir t\u00e3o ostensivamente em favor de tal ou qual candidato e passou mais a exigir, de todos, compromissos b\u00e1sicos com certos interesses, o que se alinha \u00e0s formas dominantes de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da m\u00eddia nas democracias liberais. N\u00e3o \u00e9 aus\u00eancia de interfer\u00eancia, \u00e9 uma interfer\u00eancia que se d\u00e1 mais em termos de limita\u00e7\u00e3o do debate leg\u00edtimo e menos como tentativa de induzir a op\u00e7\u00e3o eleitoral. Como o PT havia abandonado as partes de seu programa que podiam ser consideradas antissist\u00eamicas, parecia poss\u00edvel uma acomoda\u00e7\u00e3o dentro desse modelo\u201d, explica.<\/p>\n<p><strong>A defesa aberta do golpe contra a democracia<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_29741\" aria-describedby=\"caption-attachment-29741\" style=\"width: 4104px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/globo-golpe.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-29741 size-full\" src=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/globo-golpe.jpg\" alt=\"globo golpe\" width=\"4104\" height=\"2736\" srcset=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/globo-golpe.jpg 4104w, https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/globo-golpe-300x200.jpg 300w, https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/globo-golpe-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/globo-golpe-320x213.jpg 320w, https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/globo-golpe-1000x667.jpg 1000w, https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/globo-golpe-500x333.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 4104px) 100vw, 4104px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-29741\" class=\"wp-caption-text\">Manifestantes contr\u00e1rios ao impeachment da presidenta Dilma denunciam estrat\u00e9gia golpista da Rede Globo. Imagem: M\u00eddia Ninja<\/figcaption><\/figure>\n<p>No dia 13 de ar\u00e7o de 2016, o regresso tornou-se n\u00edtido. Se, em 1964, O Globo usou seu editorial do dia 2 de abril para proclamar que a na\u00e7\u00e3o vivia \u201cdias gloriosos\u201d, porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vincula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, simpatias ou opini\u00e3o sobre problemas isolados, para salvar o que \u00e9 essencial: a<\/p>\n<p>democracia, a lei e a ordem\u201d, e saudou o golpe como um movimento n\u00e3o partid\u00e1rio, do qual participaram \u201ctodos os setores conscientes da vida pol\u00edtica brasileira, pois a ningu\u00e9m escapava o significado das manobras presidenciais\u201d, em 2016, foi a vez do Estado de S. Paulo usar o principal espa\u00e7o de opini\u00e3o do jornal para inflamar as milhares de pessoas que sa\u00edram \u00e0s ruas, naquele dia de domingo, para protestar contra a presidenta Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s afirmar que \u201ca maioria dos brasileiros, conforme atestam h\u00e1 tempos as pesquisas de opini\u00e3o, exige que a petista Dilma Rousseff deixe a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica\u201d, dispara: \u201ca oportunidade de expressar concretamente essa demanda e, assim, impulsionar a m\u00e1quina institucional respons\u00e1vel por destitu\u00ed-la, conforme prev\u00ea a Constitui\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 oferecida hoje, nas manifesta\u00e7\u00f5es populares programadas Brasil afora. Chegou a hora de os brasileiros de bem, exaustos diante de uma presidente que n\u00e3o honra o cargo que ocupa e que hoje \u00e9 o principal entrave para a recupera\u00e7\u00e3o nacional, dizerem em uma s\u00f3 voz, em alto e bom som: basta! Que as fam\u00edlias indignadas com a crise moral representada por esse desgoverno n\u00e3o se deixem intimidar pelo rosnar da matilha de petistas e agregados, cujo \u00fanico interesse na manuten\u00e7\u00e3o de Dilma na Presid\u00eancia \u00e9 preservar a boquinha \u00e0 qual se habituaram desde que o PT chegou ao poder\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Nos dois textos, h\u00e1 o apelo \u00e0s fam\u00edlias \u201cindignadas com a crise moral\u201d; o tom odioso com que trata o PT e a esquerda, em sentido amplo; a apresenta\u00e7\u00e3o dos cr\u00edticos \u00e0 presidenta como n\u00e3o partid\u00e1rios e leg\u00edtimos representantes da maioria dos brasileiros, al\u00e9m da ado\u00e7\u00e3o de uma postura convocat\u00f3ria por parte do jornal, justificada pela suposta defesa da democracia. Do mesmo modo, assim como no contexto do golpe de 1964, essa postura abertamente golpista foi combinada com a constru\u00e7\u00e3o cotidiana de percep\u00e7\u00f5es sobre a crise pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Lu\u00eds Felipe Miguel, \u201ca m\u00eddia foi crucial para produzir o clima de opini\u00e3o favor\u00e1vel ao golpe. Produziu-se uma narrativa manipulada e unilateral, de criminaliza\u00e7\u00e3o do governo, do PT e da esquerda em geral. Al\u00e9m disso, a m\u00eddia tem colaborado num processo mais de longo prazo, de desconstru\u00e7\u00e3o do discurso dos direitos e produ\u00e7\u00e3o de uma representa\u00e7\u00e3o do mundo social focada na competi\u00e7\u00e3o e sem espa\u00e7o para a solidariedade, isto \u00e9, de esvaziamento dos pressupostos da narrativa da esquerda\u201d.<\/p>\n<p>Se a constru\u00e7\u00e3o da hegemonia depende, como detalhou o fil\u00f3sofo italiano Antonio Gramsci, da combina\u00e7\u00e3o entre coer\u00e7\u00e3o, portanto uso da for\u00e7a, e consenso, era \u2013 e tem sido \u2013 fundamental produzir sentidos comuns sobre os fatos e, inclusive, acerca das poss\u00edveis sa\u00eddas que deveriam ser adotadas. Isso foi feito atrav\u00e9s de enquadramentos favor\u00e1veis aos protestos em defesa do impeachment; exclus\u00e3o do contradit\u00f3rio da cobertura jornal\u00edstica dos principais ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o; repeti\u00e7\u00e3o incessante de argumentos e outros mecanismos de manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Desequil\u00edbrio: a gente v\u00ea por aqui<\/strong><\/p>\n<figure id=\"attachment_29743\" aria-describedby=\"caption-attachment-29743\" style=\"width: 168px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/O-GLOBO-14.3.16.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-29743 size-full\" src=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/O-GLOBO-14.3.16.jpg\" alt=\"O GLOBO 14.3.16\" width=\"168\" height=\"298\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-29743\" class=\"wp-caption-text\">Manchete de capa de O Globo no dia 14 de mar\u00e7o de 2015. Imagem: site O Globo<\/figcaption><\/figure>\n<p>Em mar\u00e7o, m\u00eas decisivo para a defini\u00e7\u00e3o dos rumos da crise pol\u00edtica, diversas an\u00e1lises produzidas pelo Intervozes buscaram captar o posicionamento dos ve\u00edculos vinculados<\/p>\n<p>\u00e0s grandes corpora\u00e7\u00f5es, bem como a rela\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es que deveriam zelar pela democracia. Os textos mostram que, desde o in\u00edcio daquele m\u00eas, uma sucess\u00e3o de epis\u00f3dios que revelaram a articula\u00e7\u00e3o \u00edntima entre m\u00eddia e Judici\u00e1rio foi, aos poucos, convencendo parte expressiva dos brasileiros a apoiar o impeachment de Dilma como uma solu\u00e7\u00e3o final \u00e0 crise pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o especial do Jornal Nacional sobre a Opera\u00e7\u00e3o Aletheia (fase da Lava Jato que culminou com a condu\u00e7\u00e3o coercitiva do ex-presidente Lula) foi praticamente toda dedicada ao fato de, de relev\u00e2ncia ineg\u00e1vel. Os n\u00fameros, por\u00e9m, mostram a aus\u00eancia de equil\u00edbrio. Nos primeiros quatro blocos do jornal do dia 4 de mar\u00e7o, embora tenham sido veiculados 21 minutos de mat\u00e9rias sobre o tema, apenas 50 segundos foram ocupados com a posi\u00e7\u00e3o da defesa. No segundo, novos 15 minutos de reportagens e apenas 20 segundos com a posi\u00e7\u00e3o do ex-presidente e outros 20 segundos com fala de Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula. A defesa dos empres\u00e1rios envolvidos no caso foi lida pelos apresentadores na bancada, totalizando pouco mais de um minuto e meio. Na mat\u00e9ria sobre o tr\u00edplex do Guaruj\u00e1, foram sete segundos para citar a nota do Instituto Lula em 2 minutos e 50 segundos de reportagem.<\/p>\n<p>Lula falou a primeira vez quando j\u00e1 haviam se passado 40 minutos de jornal. Dilma entrou na sequ\u00eancia, com fala de 1 minuto e 15 segundos. Rui Falc\u00e3o, presidente do Partido dos Trabalhadores, teve direito a 16 segundos. Na mat\u00e9ria sobre as repercuss\u00f5es no Congresso, a oposi\u00e7\u00e3o ocupou 1 minuto, ao passo que o PT, 30 segundos. No v\u00eddeo, o rep\u00f3rter divulgou, por 2 minutos, informa\u00e7\u00f5es de como a direita pretendia paralisar o Parlamento at\u00e9 o impeachment sair.<\/p>\n<p>Quando promotores de S\u00e3o Paulo pediram a pris\u00e3o preventiva de Lula, no dia 10, o Jornal Nacional apresentou os fatos sem citar as cr\u00edticas feitas por juristas, especialistas e in\u00fameros membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico \u00e0 pe\u00e7a jur\u00eddica. No s\u00e1bado 12, o principal telejornal do pa\u00eds destinou sete minutos para negar o pedido de direito de resposta do Instituto Lula em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cobertura daquele fato. A emissora se disse \u201csurpreendida\u201d por ser chamada a cumprir uma lei em vigor no Brasil \u2013 que tem o objetivo, exatamente, de garantir o princ\u00edpio constitucional do equil\u00edbrio jornal\u00edstico e o direito de n\u00e3o ser ofendido nos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Em vez de atender o pedido, veiculou editorial defendendo-se e reiterando as acusa\u00e7\u00f5es. Invertendo a l\u00f3gica das coisas, a empresa utilizou-se do discurso de defesa da liberdade de imprensa para seguir sua atua\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria, avessa \u00e0 pluralidade de pensamento no pa\u00eds.<\/p>\n<p>No dia 13 de mar\u00e7o, quando foi registrado o maior n\u00famero de protestos favor\u00e1veis ao impeachment, a Globo-News cobriu, por mais de 12 horas, as manifesta\u00e7\u00f5es. Ao longo do dia, rep\u00f3rteres e comentaristas se revezaram para enaltecer os protestos, repetir \u00e0 exaust\u00e3o, a cada cidade noticiada, os motivos que j\u00e1 estavam claros para os telespectadores, e jogar sobre os atos um peso decisivo sobre o processo de mudan\u00e7as no comando do governo federal. Duas frases sintetizam a narrativa hegem\u00f4nica: \u201cum desfecho com a Dilma n\u00e3o agrega\u2026 O Brasil est\u00e1 perdendo o bonde da hist\u00f3ria\u201d, afirmou a jornalista Cristiana L\u00f4bo. J\u00e1 Renata Lo Prete asseverou: \u201cpodemos chegar ao final do dia sem a ideia de que o pa\u00eds est\u00e1 dividido\u201d.<\/p>\n<p>Na Globo, o tradicional filme das tardes de domingo foi suspenso para dar espa\u00e7o \u00e0 cobertura ao vivo do que se passava na Avenida Paulista, em S\u00e3o Paulo. \u201cAgora h\u00e1 pouco a gente presenciou o momento mais emocionante das manifesta\u00e7\u00f5es. A FIESP jogou bal\u00f5es verdes e amarelos contra o n\u00famero de impostos que os brasileiros pagam. Foi um movimento muito forte, as pessoas aplaudiram, foi uma emo\u00e7\u00e3o aqui\u201d, declarou um rep\u00f3rter. Outra jornalista n\u00e3o conteve o entusiasmo e arrematou: \u201cest\u00e1 linda a festa\u201d.<\/p>\n<p>O mesmo enquadramento foi repetido no programa nobre do domingo, o Fant\u00e1stico. Em trinta e cinco minutos de programa, coube ao PT apenas 45 segundos de fala; \u00e0 secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, 30 segundos; e, aos protestos pr\u00f3-governo, que tamb\u00e9m haviam sido realizados, menos de 2,5 minutos. A reportagem de abertura do programa, que teve 17 minutos de giro nacional e internacional sobre os atos, n\u00e3o teve qualquer contraponto.<\/p>\n<p>O bloco sobre as manifesta\u00e7\u00f5es foi encerrado com mais de 6 minutos sobre novas t\u00e1ticas e descobertas da opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, selando um domingo nada plural \u2013 e triste \u2013 para o jornalismo brasileiro. Nos dias seguintes, vazamento de conversas envolvendo Lula e, inclusive, a presidenta da Rep\u00fablica, que bem poderiam ser compreendidas como ataques \u00e0 Seguran\u00e7a Nacional, ganharam destaque. Os apresentadores do JN, William Bonner e Renata Vasconcelos, chegaram a protagonizar uma vergonhosa leitura teatral das conversas \u2013 grampos ilegais que tiveram o sigilo derrubado pelo juiz S\u00e9rgio Moro. Buscando ocultar a parcialidade, o jornal apresentou respostas de Dilma, bem como protestos contr\u00e1rios ao afastamento \u2013 al\u00e9m, claro, daqueles favor\u00e1veis que se multiplicaram enquanto o JN ainda estava no ar.<\/p>\n<p>Postura diversa foi adotada na cobertura dos atos em defesa da democracia, com destaque para aqueles realizados no dia 18 de mar\u00e7o. Repetidos \u00e0 exaust\u00e3o, os n\u00fameros inferiores destes protestos em rela\u00e7\u00e3o aos marcados pelo verde e amarelo passado foram tamb\u00e9m um elemento central para deslegitim\u00e1-los. Reiterando o argumento, o Jornal Nacional apresentou, no dia seguinte, uma reportagem somente sobre o comparativo das presen\u00e7as. Outras duas diferen\u00e7as foram not\u00f3rias: a menor intensidade da cobertura e a presen\u00e7a do contradit\u00f3rio. A frase de Eliane Catanhede dispensa grandes explica\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>\u201ca manifesta\u00e7\u00e3o de hoje mostra que quem est\u00e1 indo pra rua \u00e9 a milit\u00e2ncia. N\u00e3o \u00e9 o conjunto do povo brasileiro\u201d, disse a comentarista. Assim, a Globo buscou levar o telespectador a n\u00e3o se enxergar naquelas pessoas \u201cde vermelho\u201d e \u201cpetistas\u201d, como tantas vezes foram tachadas, numa oculta\u00e7\u00e3o de toda a diversidade de posicionamentos pol\u00edticos de pessoas e grupos que denunciaram o golpe.<\/p>\n<p>Capas do O Globo n\u00e3o deixam d\u00favidas acerca dessa estrat\u00e9gia. \u201cBrasil vai \u00e0s ruas contra Dilma e Lula e a favor de Moro\u201d, estampou o peri\u00f3dico no dia 13 de mar\u00e7o. \u201cAliados de Dilma e Lula fazem manifesta\u00e7\u00e3o em todos os estados\u201d, resumiu no dia 18.<\/p>\n<p>Os casos deixaram n\u00edtida a midiatiza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e das a\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio Judici\u00e1rio, bem como as estrat\u00e9gias de manipula\u00e7\u00e3o adotadas pela Globo, no que foi seguida por boa parte da imprensa brasileira. A seletividade das acusa\u00e7\u00f5es, especialmente das den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o; a confirma\u00e7\u00e3o da relev\u00e2ncia de determinados fatos e posicionamentos, aos quais foi atribu\u00eddo car\u00e1ter nacional; a utiliza\u00e7\u00e3o de n\u00fameros e imagens que conferiam legitimidade \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o e a fixa\u00e7\u00e3o de argumentos por meio da repeti\u00e7\u00e3o e da elimina\u00e7\u00e3o do contradit\u00f3rio foram os elementos da estrat\u00e9gia. Para n\u00e3o correr riscos, a Globo, especialmente, valeu-se de falas editorializadas ao longo de toda a cobertura, ao passo que a emissora praticamente dispensou a presen\u00e7a de comentaristas externos. A opini\u00e3o p\u00fablica era, afinal, a opini\u00e3o dos pr\u00f3prios jornalistas do grupo.<\/p>\n<p>Diante desse quadro e garantido o enraizamento social de tal posicionamento, n\u00e3o foi preciso abusar da intelig\u00eancia dos analistas de m\u00eddia durante a cobertura da aprova\u00e7\u00e3o do afastamento, acompanhada, ao vivo, em todo o Brasil. Registros dos atos e de declara\u00e7\u00f5es de deputados foram abundantes. N\u00e3o se viu, contudo, apura\u00e7\u00e3o, investiga\u00e7\u00e3o, contextualiza\u00e7\u00e3o e problematiza\u00e7\u00e3o do processo em curso. Os argumentos que embasam o pedido de impeachment n\u00e3o foram apresentados, muito menos os de sua defesa. Nenhum convidado externo \u2013 nem mesmo um \u201cespecialista\u201d alinhado ao posicionamento da Globo \u2013 foi convidado a discutir a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A postura motivou diversas cr\u00edticas por parte da imprensa internacional, que denunciou o papel de pol\u00edticos como Eduardo Cunha em todo o processo, as fragilidades jur\u00eddicas e mesmo os riscos \u00e0 democracia. A cr\u00edtica tamb\u00e9m foi direcionada aos conglomerados midi\u00e1ticos. A tentativa de imprimir outras leituras \u00e0 crise pol\u00edtica e de denunciar as artimanhas que levariam ao impeachment coube aos ve\u00edculos alternativos e tamb\u00e9m \u00e0s emissoras p\u00fablicas, em especial \u00e0 TV Brasil. Tamb\u00e9m, por isso, apontam jornalistas da casa, a empresa sofreu forte retalia\u00e7\u00e3o logo que Temer assumiu.<\/p>\n<p>Quando do epis\u00f3dio de demiss\u00e3o do diretor-presidente da EBC, o Relator Especial para a Liberdade de Express\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos, Edson Lanza, destacou que \u201co desenvolvimento de um sistema de meios de comunica\u00e7\u00e3o p\u00fablico em n\u00edvel nacional, com garantias de independ\u00eancia em sua gest\u00e3o e mecanismos de participa\u00e7\u00e3o para a sociedade civil constitui um esfor\u00e7o positivo para a promo\u00e7\u00e3o do pluralismo de vozes nos meios de comunica\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d.<\/p>\n<p><strong>Os fundamentos da ataque da m\u00eddia \u00e0 democracia <\/strong><\/p>\n<p>Pesquisador da rela\u00e7\u00e3o entre m\u00eddia e democracia, o professor aposentado da UnB, Ven\u00edcio Lima, critica a postura adotada pela grande m\u00eddia no contexto da atual crise pol\u00edtica. Para ele, ela expressa \u201ccontinuidades hist\u00f3ricas no comportamento da m\u00eddia que s\u00e3o fundamentalmente antidemocr\u00e1ticas e que s\u00e3o construtoras de uma cultura pol\u00edtica que acaba sendo a cultura pol\u00edtica dominante, independente de, por exemplo, uma nova gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o necessariamente se utiliza de uma velha m\u00eddia\u201d.<\/p>\n<p>A partir da leitura de diversos estudos sobre o tema, Lima aponta tr\u00eas elementos-chave desse comportamento dos meios de comunica\u00e7\u00e3o. O primeiro \u00e9 a ado\u00e7\u00e3o de um conceito de opini\u00e3o p\u00fablica \u201cpublicista\u201d. Exemplificando o termo a partir da a\u00e7\u00e3o da m\u00eddia contra o presidente Jo\u00e3o Goulart, ele explica que os meios \u201cassumiam que o papel da m\u00eddia era um papel de forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, mas ao mesmo tempo era um papel de representa\u00e7\u00e3o e express\u00e3o dessa opini\u00e3o p\u00fablica\u201d, o que era feito tamb\u00e9m com a desqualifica\u00e7\u00e3o de outras institui\u00e7\u00f5es, como partidos, sindicatos e o pr\u00f3prio Congresso.<\/p>\n<p>Em sentido semelhante, outra continuidade que pode ser percebida \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de um discurso advers\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia, que \u00e9 expresso na cr\u00edtica permanente \u00e0 pol\u00edtica e aos pol\u00edticos. Um olhar sobre as consequ\u00eancias dessa argumenta\u00e7\u00e3o, para o professor, pode ajudar a explicar a elei\u00e7\u00e3o de candidatos que se apresentam como \u201capol\u00edticos\u201d nas elei\u00e7\u00f5es deste ano.<\/p>\n<p>O perfil conservador desses pol\u00edticos pode estar associado ao terceiro elemento destacado por Lima: o fato de a grande m\u00eddia ter adotado o discurso da vulgata neoliberal e, obviamente, refrat\u00e1rio \u00e0 esquerda. \u201cSe voc\u00ea analisar o conjunto de palavras que fazem parte de um l\u00e9xico neoliberal que v\u00e3o sendo introduzidas no cotidiano das<\/p>\n<p>pessoas, e como a m\u00eddia passou a criar uma linguagem p\u00fablica usando esse l\u00e9xico, \u00e9 impressionante. E, no contexto dessa vulgata neoliberal, h\u00e1 tamb\u00e9m uma linguagem que favorece a intoler\u00e2ncia e o \u00f3dio\u201d, opina.<\/p>\n<p><strong>A cobertura oficialesca das medidas de Temer<\/strong><\/p>\n<p>O programa neoliberal adotado sem media\u00e7\u00f5es por Michel Temer encontra na m\u00eddia um grande aliado. Medidas como a Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) 55, que prop\u00f5e o congelamento dos gastos p\u00fablicos por vinte anos, ou a Reforma da Previd\u00eancia t\u00eam sido apresentadas como a\u00e7\u00f5es imprescind\u00edveis para que o pa\u00eds obtenha melhoras em seus \u00edndices econ\u00f4micos. O discurso sobre a PEC, repetido \u00e0 exaust\u00e3o, buscava simplificar o problema e ocultar propostas concretas de sa\u00eddas para a crise que n\u00e3o apenem os trabalhadores, como a auditoria da d\u00edvida p\u00fablica e a taxa\u00e7\u00e3o das grandes fortunas. No dia 30 de novembro, data da vota\u00e7\u00e3o da Proposta no Senado, milhares de pessoas de todo o pa\u00eds foram a Bras\u00edlia protestar contra a aprova\u00e7\u00e3o da medida que \u00e9 considerada como um marco do fim do pacto constitucional firmado em 1988. O objetivo delas era chamar a aten\u00e7\u00e3o da sociedade e pressionar os parlamentares. N\u00e3o obstante, a agenda midi\u00e1tica foi alterada devido ao acidente a\u00e9reo que vitimou 71 pessoas na Col\u00f4mbia, a maior parte formada por integrantes do clube Chapecoense e profissionais da imprensa.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia ocupou todos os notici\u00e1rios, de forma praticamente ininterrupta e sensacionalista. Enquanto os movimentos protestavam na Esplanada dos Minist\u00e9rios, \u00e0s casas de milhares de pessoas n\u00e3o chegavam informa\u00e7\u00f5es sobre o que ocorria em Bras\u00edlia. O sil\u00eancio fora rompido apenas quando o conflito j\u00e1 estava instaurado no local. Ent\u00e3o, era \u00fatil \u00e0 imprensa defensora da PEC apontar os atos de \u201cvandalismo\u201d \u2013 sem criticar, claro, a viol\u00eancia policial. Na madrugada, a C\u00e2mara dos Deputados tamb\u00e9m aproveitou o envolvimento dos brasileiros com a trag\u00e9dia para alterar e votar o pacote de medidas contra a corrup\u00e7\u00e3o. Nos dias que se seguiram, enquanto a PEC n\u00e3o ganhava destaque em jornais como o Bom Dia Brasil e o Jornal Nacional, duas das principais fontes de informa\u00e7\u00e3o de milhares de pessoas, a cobertura sobre o Chapecoense dava lugar apenas \u00e0 discuss\u00e3o sobre as medidas de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes, as pol\u00edticas propostas pelo governo Temer continuaram a ter o apoio da grande m\u00eddia, mas o discurso em rela\u00e7\u00e3o ao presidente ganhou inflex\u00f5es. Ap\u00f3s oan\u00fancio do acordo firmado pela c\u00fapula da Odebrecht com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), reportagens cr\u00edticas passaram a ser mais recorrentes. No dia 9 de dezembro, o Jornal Nacional revelou o acordo de Cl\u00e1udio Melo Filho, ex-diretor da empreiteira. Na abertura, citou o nome de Temer ap\u00f3s destacar os de v\u00e1rios pol\u00edticos da c\u00fapula do governo. Na sequ\u00eancia, foi feito o an\u00fancio de den\u00fancia contra o ex-presidente Lula e seu filho e, em seguida, da redu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o \u2013 \u201ca menor do m\u00eas de novembro em 18 anos\u201d. A primeira not\u00edcia do jornal foi exatamente sobre a pauta positiva do dia: a redu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o. A segunda tratou da pris\u00e3o do prefeito de Embu das Artes, na Grande S\u00e3o Paulo. A terceira, da identifica\u00e7\u00e3o de suspeitos de matar um turista italiano, no Rio de Janeiro. A quarta, do an\u00fancio do novo t\u00e9cnico da Chapecoense. Uma mat\u00e9ria sobre a situa\u00e7\u00e3o dos sobreviventes do acidente foi apresentada na sequ\u00eancia.<\/p>\n<p>Do acidente, o JN passou a um tema internacional, o relat\u00f3rio do Unicef sobre crian\u00e7as que vivem em \u00e1reas de conflito ou s\u00e3o afetadas por desastres naturais. No segundo bloco, ganhou espa\u00e7o a reforma da previd\u00eancia, tema de duas reportagens seguidas. At\u00e9 mesmo a previs\u00e3o do tempo j\u00e1 havia sido anunciada quando, aos 25 minutos e 30 segundos, foi ao ar a mat\u00e9ria sobre a dela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O destaque dado foi \u00e0 den\u00fancia contra Geraldo Alckmin. Embora o nome de Temer tenha sido pronunciado nas chamadas do jornal, inclusive na escalada, o caso envolvendo o presidente s\u00f3 foi detalhado aos 43 minutos e 10 segundos, por meio de link com um jornalista posicionado em Bras\u00edlia. Isso \u00e9, n\u00e3o precisou de edi\u00e7\u00e3o ou algo mais complexo do ponto de vista t\u00e9cnico. O texto passou longe de ser personalista. O nome de Temer foi apresentado em meio a muitos outros. E mais. Foi um dos \u00faltimos a ser citado. A \u201catua\u00e7\u00e3o indireta\u201d de Temer, que teria pedido doa\u00e7\u00f5es pessoalmente em uma ocasi\u00e3o, foi explicitada. No dia 10, o depoimento dele veio \u00e0 tona. Na lista de 51 pol\u00edticos, o pr\u00f3prio Temer \u2013 citado 43 vezes na dela\u00e7\u00e3o premiada. O tom advers\u00e1rio verificado em momentos anteriores, contudo, n\u00e3o foi reprisado.<\/p>\n<p>Na longa chamada inicial do Jornal Nacional, o nome do presidente sequer foi citado. A mat\u00e9ria sobre o cap\u00edtulo dedicado por Cl\u00e1udio Melo Filho a Temer come\u00e7ou assim: \u201cas dela\u00e7\u00f5es da Lava Jato, que j\u00e1 tinham atingido em cheio o grupo pol\u00edtico do PT, e que ainda podem atingir mais nas pr\u00f3ximas revela\u00e7\u00f5es, voltam-se agora contra para o n\u00facleo do PMDB e pol\u00edticos do PSDB\u201d. O nome de Temer \u00e9 citado quando a reportagem alcan\u00e7a o primeiro minuto. Destaca trecho da dela\u00e7\u00e3o em que o empres\u00e1rio diz que Temer atuava de \u201cmaneira muito mais indireta\u201d. O tratamento da den\u00fancia de pedido de R$ 10 milh\u00f5es foi bastante sutil, sobretudo se compararmos com a postura adotada em dela\u00e7\u00f5es que envolveram Dilma Rousseff. No Jornal das 10, na Globo News, o tradicionalmente \u00e1cido Merval Pereira teve que fazer uma gin\u00e1stica argumentativa para criticar o vazamento das dela\u00e7\u00f5es. Merval chegou a concordar com a postura da Procuradoria- Geral da Rep\u00fablica, que decidiu abrir investiga\u00e7\u00e3o para apurar o vazamento do conte\u00fado de dela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A fragilidade do governo abriu espa\u00e7o para a disputa entre setores da burguesia, que se reflete tamb\u00e9m no comportamento da m\u00eddia. Os jornais impressos deram destaque ao envolvimento do atual presidente, inclusive O Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo, que deram exclusividade, na chamada principal, \u00e0 refer\u00eancia a Temer. A disputa pela ocupa\u00e7\u00e3o do poder depender\u00e1 do resultado da press\u00e3o popular diante das novas den\u00fancias e do avan\u00e7o das propostas conservadoras, como a PEC 55 e a reforma da previd\u00eancia. Este cap\u00edtulo da hist\u00f3ria est\u00e1 aberto. E a posi\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, mais uma vez, poder\u00e1 ser definidora. Conforme visto, embora os canais privados resguardassem entre si algumas diverg\u00eancias editoriais e formais, a narrativa geral que culminou no estabelecimento do impeachment de Dilma e com a chegada ao poder de Temer seguiu um caminho coerente e un\u00edssono em seu objetivo geral. O governo Temer encontra na grande m\u00eddia uma aliada no que diz respeito ao apoio \u00e0s medidas neoliberais mais pol\u00eamicas.<\/p>\n<p>A falta de pluralidade de opini\u00f5es remonta \u00e0 pr\u00f3pria estrutura que organiza os meios de comunica\u00e7\u00e3o no Brasil regidos por uma l\u00f3gica estritamente comercial. Al\u00e9m disso, a posse dos canais de r\u00e1dio e TV por grupos religiosos e\/ou pol\u00edticos, conforme veremos, tamb\u00e9m garante a resson\u00e2ncia de um discurso hegem\u00f4nico condizente com os interesses das elites pol\u00edticas nacionais.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>Fonte: opiniao.estadao.com.br\/noticias\/geral,chegou-a-hora-de-dizer-basta,10000020896<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2016, as gera\u00e7\u00f5es nascidas nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000 defrontaram-se, talvez pela primeira vez de forma mais aberta, com a a\u00e7\u00e3o incisiva e determinada dos grandes conglomerados midi\u00e1ticos, no sentido de moldarem, \u00e0 sua imagem e semelhan\u00e7a, o sistema pol\u00edtico do pa\u00eds. Texto: Helena Martins | Colaboraram: Iara Moura, M\u00f4nica Mour\u00e3o e Eliz\u00e2ngela &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29739\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Na sintonia do golpe: o papel da m\u00eddia na crise pol\u00edtica<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":29741,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1843,1830],"tags":[703,1597,717,323,90,830,1833],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29739"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=29739"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29739\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29744,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29739\/revisions\/29744"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/29741"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=29739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=29739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=29739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}