{"id":29478,"date":"2016-04-28T15:05:06","date_gmt":"2016-04-28T15:05:06","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29478"},"modified":"2016-06-14T12:39:46","modified_gmt":"2016-06-14T12:39:46","slug":"o-olhar-da-imprensa-internacional-sobre-o-impeachment-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29478","title":{"rendered":"O olhar da imprensa internacional sobre o impeachment no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>Enquanto a m\u00eddia tradicional brasileira mant\u00e9m discurso de legitima\u00e7\u00e3o do impeachment, ve\u00edculos internacionais d\u00e3o visibilidade ao risco \u00e0 democracia.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Por Camila N\u00f3brega*<\/strong><\/p>\n<p>Diversidade de narrativas e an\u00e1lises sobre a crise pol\u00edtica n\u00e3o faltam no Brasil, mas ela segue engolida pelo monop\u00f3lio dos ve\u00edculos tradicionais. Em tom bastante conservador e politicamente localizada \u00e0 direita, a narrativa que pauta o notici\u00e1rio do pa\u00eds faz desaparecer boa parte das nuances e oculta personagens e fatos importantes da crise. Neste contexto, a cobertura internacional ganha holofotes e acende o alerta sobre o perigo da concentra\u00e7\u00e3o da chamada grande m\u00eddia brasileira. Protegidos pelo distanciamento e pautados por analistas pol\u00edticos, pela m\u00eddia alternativa nacional e por movimentos sociais, alguns ve\u00edculos estrangeiros t\u00eam chamado aten\u00e7\u00e3o por terem mudado seu pr\u00f3prio discurso. Se inicialmente a imprensa internacional acompanhava a ode aos protestos pr\u00f3-impeachment criada pelos grandes conglomerados da imprensa nacional, houve uma meia-volta significativa. A mudan\u00e7a, que marcou a cobertura da vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara no dia 17 de abril, tem repercutido.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cO deputado votou \u2018sim\u2019 pela abertura do processo de impeachment e disse que fez a escolha pelo futuro do Brasil e por sua esposa e filhos\u201d, traduzia um rep\u00f3rter da BBC Internacional, em flash com imagens diretas da C\u00e2mara dos Deputados <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/politica\/o-impeachment-na-camara\" target=\"_blank\">no domingo 17 de abril<\/a>, seguido de uma an\u00e1lise sobre a aus\u00eancia de argumentos relacionados \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es feitas \u00e0 presidenta nos discursos dos parlamentares.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cO presidente da C\u00e2mara brasileira, Eduardo Cunha, que conduz a vota\u00e7\u00e3o no dia de hoje, \u00e9 acusado de corrup\u00e7\u00e3o e alvo da Lava Jato\u201d, explicava o canal Euronews. \u201cMilhares de pessoas est\u00e3o nas ruas, divididas; enquanto h\u00e1 quem comemore, s\u00e3o muitos os brasileiros e brasileiras que denunciam um golpe em curso\u201d, esclarecia a jornalista da Al Jazeera ao vivo, apenas alguns minutos antes da confirma\u00e7\u00e3o da abertura do processo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Durante as <a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/politica\/votos-da-camara-caracterizam-acerto-de-contas-com-o-governo\" target=\"_blank\">cerca de oito horas de vota\u00e7\u00e3o<\/a>, o Brasil esteve nas not\u00edcias mais importantes (\u201cbreaking news\u201d) de centenas de canais de televis\u00e3o, jornais, r\u00e1dios e sites de todo o mundo.<\/p>\n<p align=\"justify\">E, durante todo este tempo, jornalistas enfrentavam em diferentes sotaques o desafio de explicar o emaranhado de rela\u00e7\u00f5es de poder e alian\u00e7as no Congresso brasileiro e a constru\u00e7\u00e3o de um discurso conservador e autorit\u00e1rio, no caminho que levou \u00e0 abertura de processo para julgamento de um poss\u00edvel impeachment da presidenta Dilma Rousseff.<\/p>\n<p align=\"justify\">Entre os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o que adotaram uma linha mais cr\u00edtica e apostaram na apura\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica pr\u00f3pria, especialmente com correspondentes enviados ao Brasil ou at\u00e9 mesmo a partir de escrit\u00f3rios instalados no Pa\u00eds, os obst\u00e1culos n\u00e3o eram menores.<\/p>\n<p align=\"justify\">Afinal, imagine o desafio de explicar que v\u00e1rios dos parlamentares que tinham direito ao voto naquele momento figuravam na lista da opera\u00e7\u00e3o Lava Jato sob graves acusa\u00e7\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o, incluindo o presidente da Casa.<\/p>\n<p align=\"justify\">Se a tarefa de esclarecer a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00e1rdua entre brasileiros, imagine o fardo de quem precisa fazer isso para pessoas que n\u00e3o est\u00e3o sequer familiarizadas com o contexto pol\u00edtico do Pa\u00eds, apresentando a biografia extensa desses parlamentares que ali vociferavam contra a \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Some a isso a necessidade de traduzir, al\u00e9m de centenas de dedicat\u00f3rias a filhos e esposas, declara\u00e7\u00f5es como a do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que homenageou Brilhante Ustra, primeiro militar reconhecido pela Justi\u00e7a Brasileira como torturador.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em meio \u00e0s dificuldades \u2013 e tamb\u00e9m \u00e0s facilidades, \u00e9 bom lembrar \u2013 impostas pelo distanciamento, a cobertura internacional de um dos principais momentos na hist\u00f3ria recente brasileira marcou grandes diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao que figurou na m\u00eddia tradicional nacional. E, acima de tudo, marcou uma virada.<\/p>\n<p align=\"justify\">Onde, apenas um m\u00eas atr\u00e1s, ve\u00edculos descreviam os protestos nas ruas com um certo glamour de luta contra a corrup\u00e7\u00e3o, os espa\u00e7os de questionamento cresceram. Veio \u00e0 tona o fato de que os motivos para a abertura de um processo de impeachment s\u00e3o, no melhor dos casos, duvidosos, assim como a credibilidade e idoneidade dos deputados que estavam \u00e0 frente do processo.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>A narrativa na imprensa internacional<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Enquanto a imprensa brasileira seguiu retratando a vota\u00e7\u00e3o do impeachment como um jogo de futebol, ficou a cargo da m\u00eddia internacional o chamado a reflex\u00f5es e \u00e0 garantia de princ\u00edpios jornal\u00edsticos de apura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ganharam espa\u00e7o detalhamentos sobre o processo da vota\u00e7\u00e3o em si, o que aconteceria daqui para frente e o fato de que a crise pol\u00edtica n\u00e3o se encerraria na vota\u00e7\u00e3o, independentemente do resultado.<\/p>\n<p align=\"justify\">Foram \u00f3rg\u00e3os de m\u00eddia internacionais tamb\u00e9m os respons\u00e1veis por pautarem e explicarem os motivos que levam uma grande parcela da popula\u00e7\u00e3o brasileira a denunciar um golpe em curso.<\/p>\n<p align=\"justify\">Assim seguiu a semana com uma cobertura mais equilibrada vinda dos meios de comunica\u00e7\u00e3o estrangeiros. Entre os impressos, o jornal brit\u00e2nico <em>The Guardian<\/em>, ap\u00f3s o resultado da vota\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara, optou por reportar a situa\u00e7\u00e3o dando espa\u00e7o \u00e0 fala do l\u00edder do governo na C\u00e2mara, Jos\u00e9 Guimar\u00e3es, que pediu aos brasileiros e brasileiras contr\u00e1rios ao golpe que permane\u00e7am mobilizados.<\/p>\n<p align=\"justify\">O jornal \u00e9 um dos poucos a dar nome e sobrenome ao processo. Afirmou abertamente que h\u00e1 uma ansiedade da oposi\u00e7\u00e3o em conseguir o impeachment de Dilma Rousseff a fim de instalar no Brasil o primeiro governo de centro-direita em 13 anos.<\/p>\n<p align=\"justify\">O peri\u00f3dico \u00e9 um dos que tamb\u00e9m tem feito quest\u00e3o de ressaltar as acusa\u00e7\u00f5es nas costas do presidente da C\u00e2mara.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ali\u00e1s, se a ficha de Cunha est\u00e1 longe de ganhar destaque no Brasil, ela \u00e9 considerada elemento central por muitos ve\u00edculos da m\u00eddia internacional. A vers\u00e3o brasileira do jornal <em>El Pa\u00eds<\/em> tamb\u00e9m ressaltou na \u00faltima semana o pre\u00e7o que a oposi\u00e7\u00e3o aceitou pagar para que o impeachment passasse, em refer\u00eancia \u00e0 alian\u00e7a com Cunha e \u00e0 oculta\u00e7\u00e3o de seus milh\u00f5es n\u00e3o declarados no discurso que passou a apontar apenas a presidenta e o ex-presidente Lula como focos dos esc\u00e2ndalos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os mesmos questionamentos tamb\u00e9m ganham espa\u00e7o nos tr\u00eas principais jornais norte-americanos, de linha liberal: <em>The New York Times<\/em>,\u00a0<em>The Wall Street Journal<\/em>\u00a0e\u00a0<em>The Washington Post<\/em>, que t\u00eam destacado as suspeitas de corrup\u00e7\u00e3o contra v\u00e1rios parlamentares \u00e0 frente do impeachment.<\/p>\n<p align=\"justify\">J\u00e1 a revista alem\u00e3 <em>Der Spiegel<\/em>, apesar de manter em seu site um v\u00eddeo da vota\u00e7\u00e3o mostrando apenas as manifesta\u00e7\u00f5es verde-amarelas, descreveu o processo de vota\u00e7\u00e3o como \u201c<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/cartacapital.com.br\/internacional\/imprensa-europeia-ve-insurreicao-de-hipocritas-no-impeachment\" target=\"_blank\">a insurrei\u00e7\u00e3o dos hip\u00f3critas<\/a>\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na Am\u00e9rica Latina, a cobertura dos jornais <em>hermanos<\/em> tamb\u00e9m t\u00eam tido um papel importante. O colombiano <em>El Espectador<\/em> ressaltou a falta de argumentos dos deputados durante a vota\u00e7\u00e3o, apontando que falas com cunho religioso e at\u00e9 mesmo contra \u201co comunismo\u201d foram feitas de forma absolutamente descontextualizada.<\/p>\n<p align=\"justify\">O <em>La Naci\u00f3n<\/em>, da Argentina, afirmou que a crise pol\u00edtica est\u00e1 longe de acabar e apontou que o Pa\u00eds tem uma presid\u00eancia \u201cna porta da sa\u00edda de emerg\u00eancia, um Congresso que festeja com euforia a crise pol\u00edtica que divide o Pa\u00eds e um novo eventual mandat\u00e1rio tamb\u00e9m suspeito de corrup\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ag\u00eancias independentes de not\u00edcias como a <em>Pressenza<\/em> \u2013 <em>International Press Agency<\/em>, que tem foco na Am\u00e9rica Latina \u2013 ficam a cargo de an\u00e1lises mais aprofundadas e questionamentos que posicionam a crise pol\u00edtica no cen\u00e1rio e de interesses econ\u00f4micos internacionais.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>A cr\u00edtica internacional \u00e0 m\u00eddia brasileira<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">A emissora do Catar Al Jazeera trouxe como alvo de questionamentos a pr\u00f3pria m\u00eddia brasileira, fazendo crescer a discuss\u00e3o sobre o cen\u00e1rio de concentra\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o no Brasil e tocando no calcanhar de Aquiles dos principais ve\u00edculos do Pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"justify\">A Al Jazeera foi uma das primeiras a utilizar com mais clareza a palavra \u201cgolpe\u201d, explicitando o posicionamento cr\u00edtico de grande parcela da popula\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tentativa da oposi\u00e7\u00e3o de centralizar acusa\u00e7\u00f5es e investiga\u00e7\u00f5es sobre o Partido dos Trabalhadores e sobre a presidenta, passando por cima de processos e institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e protegendo um n\u00famero consider\u00e1vel de parlamentares envolvidos nos esc\u00e2ndalos da Lava Jato.<\/p>\n<p align=\"justify\">A publica\u00e7\u00e3o online norte-americana <em>The Intercept<\/em>\u00a0tamb\u00e9m t\u00eam colocado a m\u00eddia nacional em xeque, principalmente por meio das reportagens do jornalista Glenn Greenwald, que mora no Brasil e se tornou conhecido ap\u00f3s publicar reportagens sobre os documentos revelados por Edward Snowden.<\/p>\n<p align=\"justify\">No \u00faltimo m\u00eas, Greenwald publicou textos no <em>The Intercept<\/em>\u00a0sobre a concentra\u00e7\u00e3o da m\u00eddia brasileira e o papel dos ve\u00edculos do Pa\u00eds na constru\u00e7\u00e3o do discurso conservador contra a corrup\u00e7\u00e3o e a favor da retirada de Dilma Rousseff.<\/p>\n<p align=\"justify\">O <em>The Intercept<\/em> tamb\u00e9m apontou, na \u00faltima semana, a poss\u00edvel investida do vice-presidente Michel Temer em angariar apoios de setores nos Estados Unidos, por meio de uma viagem de um senador Aloysio Ferreira Nunces (PSDB-SP) ao Pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por esses exemplos e outros mais, a cobertura internacional tem desempenhado um papel importante nesse momento da hist\u00f3ria brasileira e tem ganhado status de mais equilibrada, contundente e aprofundada.<\/p>\n<p align=\"justify\">A situa\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, est\u00e1 longe de ser ideal. Os casos relatados acima ganharam repercuss\u00e3o aqui no Brasil exatamente por conterem informa\u00e7\u00f5es ocultadas pela m\u00eddia brasileira. No entanto, a maior parte do que \u00e9 divulgado sobre a crise pol\u00edtica no Pa\u00eds ainda se limita a reproduzir fragmentos de ag\u00eancias internacionais e a superficialidade da cobertura dos canais nacionais.<\/p>\n<p align=\"justify\">A ag\u00eancia <em>Press Trust of India<\/em>, principal daquele pa\u00eds, limitou-se, por exemplo, a falar da vota\u00e7\u00e3o. A leitura descontextualizada n\u00e3o d\u00e1 sequer a dimens\u00e3o da divis\u00e3o de opini\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"justify\">A cobertura restrita se repete tamb\u00e9m nas ag\u00eancias de not\u00edcia russas, que s\u00f3 agora come\u00e7aram a falar do tema, ap\u00f3s semanas de sil\u00eancio. A <em>Russian Information Agency<\/em> s\u00f3 deu espa\u00e7o ao caso no Brasil ap\u00f3s a vota\u00e7\u00e3o do impeachment na C\u00e2mara.<\/p>\n<p align=\"justify\">Logo ap\u00f3s, o jornal <em>Russia Today<\/em> publicou uma mat\u00e9ria intitulada \u201cAs Olimp\u00edadas ser\u00e3o um sucesso, independentemente do impeachment\u201d, tentando apaziguar os \u00e2nimos para os jogos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Alguns russos t\u00eam interpretado o sil\u00eancio da imprensa local sobre o que se passa no Brasil como uma tentativa de n\u00e3o trazer ao debate p\u00fablico um caso de impeachment em um dos BRICS \u2013 e assim n\u00e3o inspirar cr\u00edticos de Putin.<\/p>\n<p align=\"justify\"><strong>Fugindo das armadilhas<\/strong><\/p>\n<p align=\"justify\">Nessa an\u00e1lise sobre cobertura internacional, \u00e9 importante n\u00e3o cair em algumas armadilhas. Os elogios \u00e0 cobertura internacional devem ser ponderados, para n\u00e3o resultar em mais retrocessos. Uma coisa \u00e9 sabida por todo correspondente internacional: \u00e9 sempre mais f\u00e1cil falar dos problemas alheios.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u00c9 natural que a m\u00eddia local tenha mais dificuldades de falar de problemas do pr\u00f3prio territ\u00f3rio. Com menos rela\u00e7\u00f5es diretas com poderes locais, \u00e0s m\u00eddias estrangeiras sobra mais liberdade.<\/p>\n<p align=\"justify\">Isso n\u00e3o significa, entretanto, que essas mesmas m\u00eddias poder\u00e3o chegar a fazer associa\u00e7\u00f5es mais amplas, questionando as rela\u00e7\u00f5es de seus pa\u00edses de origem com esc\u00e2ndalos em outras na\u00e7\u00f5es, como o que ocorre no Brasil, por exemplo.<\/p>\n<p align=\"justify\">Segundo ponto: n\u00e3o faltam exemplos de como a globaliza\u00e7\u00e3o no campo da comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m traz preju\u00edzos \u00e0s narrativas. Nesse olhar geral de contexto mundial faltam, entre outros aspectos, espa\u00e7o para o esclarecimento sobre o que aconteceu com o Brasil nas d\u00e9cadas que sucederam a ditadura militar e que mantiveram no poder parlamentares que l\u00e1 est\u00e3o desde ent\u00e3o, assim como as caracter\u00edsticas de coronelismo, que permanecem.<\/p>\n<p align=\"justify\">A falta dessas perspectivas a partir de uma m\u00eddia brasileira n\u00e3o ser\u00e1 suprida por ve\u00edculos e jornalistas internacionais. N\u00e3o nos iludamos.<\/p>\n<p align=\"justify\">Por fim, um dos maiores erros \u00e9 olhar para a cobertura internacional como uma idealiza\u00e7\u00e3o em termos de t\u00e9cnica jornal\u00edstica. As m\u00eddias independentes que t\u00eam surgido no Brasil s\u00e3o uma boa imagem disso. Se aqui n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para uma boa cobertura, isso nada tem a ver com um padr\u00e3o de jornalismo. Colocar as coisas nesses termos seria aceitar um enquadramento realizado de fora para dentro, fazendo com que nosso olhar acabe se rendendo a uma an\u00e1lise euroc\u00eantrica.<\/p>\n<p>O que falta no Brasil nesse sentido \u00e9 uma mudan\u00e7a pol\u00edtica, que vem sendo pautada h\u00e1 muito tempo pelos movimentos pela democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o. O desafio \u00e9 a altera\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio atual, que viola o direito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o e aos diferentes lugares de fala, absolutamente necess\u00e1rios em um pa\u00eds como o nosso, onde a m\u00eddia atribui aos discursos pesos pol\u00edticos absolutamente desiguais e desproporcionais \u00e0 composi\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\"><em>* Camila N\u00f3brega \u00e9 jornalista e integrante do Intervozes.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Enquanto a m\u00eddia tradicional brasileira mant\u00e9m discurso de legitima\u00e7\u00e3o do impeachment, ve\u00edculos internacionais d\u00e3o visibilidade ao risco \u00e0 democracia. Por Camila N\u00f3brega* Diversidade de narrativas e an\u00e1lises sobre a crise pol\u00edtica n\u00e3o faltam no Brasil, mas ela segue engolida pelo monop\u00f3lio dos ve\u00edculos tradicionais. 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