{"id":29468,"date":"2016-06-03T18:45:06","date_gmt":"2016-06-03T18:45:06","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29468"},"modified":"2016-06-14T11:50:53","modified_gmt":"2016-06-14T11:50:53","slug":"mulheres-se-mobilizam-pelas-redes-para-denunciar-a-cultura-do-estupro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29468","title":{"rendered":"Mulheres se mobilizam pelas redes para denunciar a cultura do estupro"},"content":{"rendered":"<p>As redes sociais t\u00eam exercido o duplo papel de denunciar casos de machismo e viol\u00eancia contra mulher e de fazer o contraponto aos grandes meios<\/p>\n<p><strong>Por Camila Nobrega e Cinthya Paiva*<\/strong><\/p>\n<p>A not\u00edcia do estupro coletivo sofrido por uma adolescente de 16 anos, no fim de maio, em uma favela da Zona Oeste do Rio de Janeiro, com envolvimento de mais de 30 homens, ser\u00e1 imposs\u00edvel de ser esquecida. O caso ficar\u00e1 eternizado por ter sido publicizado pelas redes sociais, com a divulga\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo por parte dos autores do crime, e tamb\u00e9m pelas respostas que recebeu dentro das pr\u00f3prias redes, principalmente aquelas protagonizadas por mulheres, que ao denunciarem o caso e pedirem puni\u00e7\u00e3o aos envolvidos, criaram eco e provocaram amplo debate p\u00fablico sobre a cultura do estupro no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo em que foi o meio virtual que empoderou a jovem e a sensibilizou para que ela denunciasse oficialmente o crime ocorrido, foi nele tamb\u00e9m onde a imagem dela foi exaustivamente exposta, sendo sua vida virtual e f\u00edsica amea\u00e7ada diretamente por um forte discurso de responsabilidade, legitimado pela cultura patriarcal e olig\u00e1rquica do estupro. Ou seja, a situa\u00e7\u00e3o nas redes foi marcada por esta dualidade, o que nos leva a refletir sobre os usos que atualmente s\u00e3o feitos da internet.<\/p>\n<p>Por outro lado, em um pa\u00eds com grande penetra\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o tradicionais (principalmente a televis\u00e3o e o r\u00e1dio), \u00e9 improdutivo realizar qualquer an\u00e1lise sobre a batalha dos discursos travada nas redes sociais, sem que seja feito um paralelo sobre os discursos produzidos nestes meios tradicionais. Em outros termos, analisar como a m\u00eddia tradicional se posiciona ou como reporta os fatos torna-se essencial para compreender a forma\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica exposta nas redes e os diversos pesos dados \u00e0s diferentes narrativas que tomam a internet.<\/p>\n<p>No fato em debate, vale recordar que antes das manifesta\u00e7\u00f5es de milhares de mulheres em torno do tema, o jornal Folha de S. Paulo, no dia 26 de maio, noticiava a seguinte manchete, em seu caderno Cotidiano: \u201c\u2018Chorei quando vi o v\u00eddeo\u2019, diz av\u00f3 de garota que diz ter sido estuprada\u201d. Ao colocar que a v\u00edtima \u201cdiz ter sido estuprada\u201d, o jornal assume um posicionamento de p\u00f4r em d\u00favida a afirma\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, apesar das evid\u00eancias de que houve o crime por ela relatado.<\/p>\n<p>Em reportagem da Globonews no mesmo dia, o advogado de Ra\u00ed de Souza confirmou que o cliente dele foi o respons\u00e1vel por filmar a jovem nua (desacordada, como mostravam os videos, impossibilitada de qualquer rea\u00e7\u00e3o) e sangrando e compartilhar com outras pessoas por celular, que em seguida teriam disponibilizado na internet. Se os jovens admitiram responsabilidade na grava\u00e7\u00e3o e divulga\u00e7\u00e3o das imagens isso por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 crime. Caberia, portanto, \u00e0 reportagem questionar \u201cpor que os mandados de pris\u00e3o demoraram tanto para serem expedidos?\u201d ou \u201cpor que o caso continuava sendo tratado como suspeita a ser investigada?\u201d. Nada disso foi feito, o que mostra certa neglig\u00eancia da m\u00eddia quanto \u00e0 apura\u00e7\u00e3o do que realmente importava ao fato e demonstra a dificuldade de se reconhecer como v\u00edtima a mulher que sofreu estupro.<\/p>\n<p>Em outros ve\u00edculos, a jovem foi, a todo tempo, levada a provar sua condi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima, cabendo exclusivamente \u00e0s pessoas da fam\u00edlia, advogados de defesa e pessoas diretamente envolvidas com a jovem o papel de defend\u00ea-la de acusa\u00e7\u00f5es sobre seu comportamento, como se isto fosse o que estivesse em jogo. O mesmo peso acusat\u00f3rio n\u00e3o recaiu sobre os jovens acusados do crime \u2013 que apareceram rindo na televis\u00e3o \u2013 o que permite relacionar a responsabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima \u00e0 cultura de viol\u00eancia e estupro contra as mulheres que segue incrustada em nosso pa\u00eds. Por isso, vale sempre lembrar que estupro \u00e9 crime previsto no C\u00f3digo Penal Brasileiro (Lei 2848\/1940), sendo classificado como ato de \u201cconstranger algu\u00e9m, mediante viol\u00eancia ou grave amea\u00e7a, a ter conjun\u00e7\u00e3o carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso\u201d (art.213).<\/p>\n<p>Gerar d\u00favidas em relatos de v\u00edtima de estupro \u00e9 o padr\u00e3o no sistema de Justi\u00e7a brasileiro, principalmente quando os receptores da den\u00fancia s\u00e3o homens. N\u00e3o por acaso, as delegacias especiais de prote\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres foram criadas para minimizar o constrangimento da v\u00edtima, exposta primeiramente ao crime e, depois, aos que tentam imput\u00e1-la alguma responsabilidade. As not\u00edcias nos grandes jornais seguiram, portanto, com este mesmo tom, reproduzindo a viol\u00eancia simb\u00f3lica operada nas salas de delegacias e hospitais brasileiros.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso, o mesmo tom de d\u00favida exposto nos grandes jornais e TVs foram amplamente reproduzidos nas redes sociais, ou seja, a partir do discurso de responsabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima ou mesmo de divulga\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es sobre sua vida \u2013 irrelevantes ao caso \u2013 feitos nos ve\u00edculos tradicionais, emergem e crescem na internet posts e coment\u00e1rios de relativiza\u00e7\u00e3o do estupro, que refor\u00e7am a narrativa da culpa da v\u00edtima. Quest\u00f5es como \u201cmas por onde ela andava e com quem?\u201d e \u201cque tipo de roupas ela usava\u201d foram comuns, al\u00e9m dos memes que expunham a v\u00edtima.<\/p>\n<p>Estupro e recorr\u00eancia na m\u00eddia<\/p>\n<p>No Brasil, uma mulher \u00e9 estuprada a cada tr\u00eas horas, e isto est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 cultura machista e patriarcal que coloca as mulheres como objeto sexual do homem. O corpo feminino, ao inv\u00e9s de ser de pertencimento das mulheres, \u00e9 tido como propriedade do masculino, podendo este fazer uso quando bem entender. Infelizmente, a m\u00eddia brasileira n\u00e3o tem atuado na desconstru\u00e7\u00e3o desta cultura. Ao contr\u00e1rio, s\u00e3o in\u00fameros os casos em que h\u00e1 a naturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia sexual contra as mulheres em programas de r\u00e1dio e TV.<\/p>\n<p>No Programa Agora \u00e9 Tarde, da BAND, apresentado por Rafinha Bastos, que foi ao ar no dia 25 de fevereiro de 2015, o ator Alexandre Frota revelou \u2013 em tom de goza\u00e7\u00e3o e deboche \u2013 que teria praticado sexo com uma m\u00e3e de santo contra vontade dela enquanto ela estaria desmaiada, ou seja, que a teria estuprado. \u00c0 \u00e9poca, <a href=\"http:\/\/intervozes.org.br\/intervozes-apresenta-representacao-ao-ministerio-das-comunicacoes-pedindo-suspensao-do-programa-agora-e-tarde\/\" target=\"_blank\">o Intervozes acionou o Departamento de Acompanhamento e Avalia\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio das Comunica\u00e7\u00f5es e o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF)<\/a>. Em uma materializa\u00e7\u00e3o da neglig\u00eancia sobre a viol\u00eancia, nunca houve puni\u00e7\u00e3o para o caso. Ao contr\u00e1rio, o ator transformou-se em figura p\u00fablica digna de ser recebida para apresentar propostas ao Minist\u00e9rio de Educa\u00e7\u00e3o, em Bras\u00edlia, no atual governo interino de Michel Temer.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda o estupro ocorrido no programa Big Brother Brasil, na edi\u00e7\u00e3o de 2012, na TV Globo, em que Daniel, um dos participantes da casa, foi expulso ap\u00f3s a participante Monique ter dito que: \u201cS\u00f3 se ele foi muito mau car\u00e1ter de ter feito sexo comigo dormindo\u201d, caso que contou, inclusive, com investiga\u00e7\u00e3o criminal. E, no in\u00edcio deste ano, muitas foram as den\u00fancias ap\u00f3s a exibi\u00e7\u00e3o de uma cena de estupro em uma miniss\u00e9rie da TV Globo, Liga\u00e7\u00f5es Perigosas.<\/p>\n<p>Na internet, o debate sobre a cultura do estupro tinha sido levantado no final de 2015, em fun\u00e7\u00e3o da multiplica\u00e7\u00e3o de coment\u00e1rios absolutamente lascivos e agressivos em rela\u00e7\u00e3o a uma menina de apenas 12 anos, participante do reality show Masterchef.<\/p>\n<p>O poder mobilizador da internet, por\u00e9m, por vezes acaba por expor v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual. Por falta de informa\u00e7\u00f5es sobre o funcionamento das redes sociais, muitas pessoas ajudaram a perpetuar o crime cometido no fim de maio ao enviar mensagens, mesmo que em tom de rep\u00fadio. Assim, embora as redes sociais possam cumprir um papel de produ\u00e7\u00e3o da diversidade de discursos \u2013 para al\u00e9m do produzido na m\u00eddia convencional \u2013 neste caso, cumpriu tamb\u00e9m um papel de violador de direitos humanos, ao expor, pela segunda vez, a v\u00edtima \u00e0 viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O que se deve fazer, nesses casos, n\u00e3o \u00e9 denunciar o perfil do divulgador do material pela timeline ou reproduzir o seu conte\u00fado. As den\u00fancias devem ser feitas de forma privada, copiando o endere\u00e7o das postagens nos locais espec\u00edficos para isso dos sites das redes onde foram feitas as publica\u00e7\u00f5es. Deve-se lembrar que tamb\u00e9m \u00e9 crime a publica\u00e7\u00e3o de fotos com cenas pornogr\u00e1ficas de sexo envolvendo crian\u00e7as ou adolescentes, de acordo com o artigo 240 do Estatuto da Crian\u00e7a e Adolescente (Lei 8060\/1990).<\/p>\n<p>As formas de viol\u00eancia simb\u00f3lica impostas \u00e0s mulheres s\u00e3o muitas. E a tentativa de entend\u00ea-las \u00e9 essencial para enxergar as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, culturais e linguisticamente constru\u00eddas. A narrativa que exp\u00f5e essa viol\u00eancia e se contrap\u00f5e a ela precisa de uma for\u00e7a ainda maior para romper o discurso que figura na ordem do que \u00e9 natural, radical, irredut\u00edvel e universal dentro de um conjunto de valores e apontar diferentes poderes que mant\u00eam essa din\u00e2mica funcionando.<\/p>\n<p>\u00c9 muito mais f\u00e1cil manter-se no di\u00e1logo com a ordem do dia, reafirmando preconceitos e assimetrias de discursos do que jogar luz nas entrelinhas. E, nas redes sociais, vale lembrar, isto ocorre porque elas n\u00e3o s\u00e3o espa\u00e7os neutros \u2013 como muitos acreditam ser. Ao contr\u00e1rio, elas tamb\u00e9m est\u00e3o imersas em rela\u00e7\u00f5es de poder e podem (re)produzir narrativas j\u00e1 estruturadas que operam na disputa destes poderes. A boa not\u00edcia, no entanto, \u00e9 que, se por um lado o discurso conservador parece avassalador nas m\u00eddias tradicionais e nas redes, olhando por outro ponto de vista, \u00e9 essencial apontar a for\u00e7a de um contradiscurso protagonizado por mulheres que cresceu por conta pr\u00f3pria e se imp\u00f4s, influenciando at\u00e9 mesmo a grande m\u00eddia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas na internet de milhares de mulheres e a organiza\u00e7\u00e3o de atos como a Marcha das Flores, o tom da imprensa se modificou. A pr\u00f3pria Folha de S. Paulo e a TV Globo mudaram a forma de noticiar o fato, tratando-o como crime. E, mesmo com bastante atraso, os movimentos sociais de mulheres ganharam voz dentro das reportagens, uma vez que o fato n\u00e3o poderia mais se manter invisibilizado. Em outros termos, o cen\u00e1rio mostra que os ataques \u00e0s mulheres \u2013 somos constantemente submetidas ao julgamento do patriarcado \u2013 n\u00e3o ser\u00e3o superados sem que haja forte mobiliza\u00e7\u00e3o nas redes e tamb\u00e9m nas ruas. Os crimes n\u00e3o ser\u00e3o esquecidos, nem silenciados.<\/p>\n<p>*Camila Nobrega \u00e9 jornalista e pesquisadora visitante do departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Freie Universit\u00e4t Berlin e Cinthya Paiva \u00e9 advogada; ambas integram o Coletivo Intervozes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As redes sociais t\u00eam exercido o duplo papel de denunciar casos de machismo e viol\u00eancia contra mulher e de fazer o contraponto aos grandes meios Por Camila Nobrega e Cinthya Paiva* A not\u00edcia do estupro coletivo sofrido por uma adolescente de 16 anos, no fim de maio, em uma favela da Zona Oeste do Rio &hellip; <a href=\"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=29468\" class=\"more-link\">Continue lendo <span class=\"screen-reader-text\">Mulheres se mobilizam pelas redes para denunciar a cultura do estupro<\/span> <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1834],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29468"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=29468"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29468\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29469,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/29468\/revisions\/29469"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=29468"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=29468"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=29468"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}