{"id":28879,"date":"2015-05-19T03:50:05","date_gmt":"2015-05-19T03:50:05","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28879"},"modified":"2015-08-31T02:08:54","modified_gmt":"2015-08-31T02:08:54","slug":"na-teve-e-nas-ruas-gatilho-contra-jovens-negros-e-disparado-todo-dia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28879","title":{"rendered":"Na tev\u00ea e nas ruas, gatilho contra jovens negros \u00e9 disparado todo dia"},"content":{"rendered":"<div>\n<p class=\" \"><em>Por Ana Carolina Westrup*<\/em><\/p>\n<p class=\" \">Neste momento em que se discute o aumento da viol\u00eancia e poss\u00edveis solu\u00e7\u00f5es para enfrentar esse cen\u00e1rio, uma importante publica\u00e7\u00e3o traz \u00e0 tona informa\u00e7\u00f5es que elucidam quem s\u00e3o as reais vitimas das mortes violentas e em quais circunst\u00e2ncias esses fatos ocorrem.<\/p>\n<p class=\" \">Lan\u00e7ado na \u00faltima quinta-feira (14), o <i><a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/jovens-sao-59-dos-mortos-por-arma-de-fogo-no-brasil-8240.html\" target=\"_blank\">Mapa da Viol\u00eancia no Brasil 2015<\/a>: mortes matadas por armas de fogo\u00a0<\/i>traduz a cruel realidade escondida como migalha embaixo do tapete, longe das reuni\u00f5es de pauta dos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o: o crescimento do n\u00famero de mortes por armas de fogo na popula\u00e7\u00e3o em geral e, de forma alarmante, da<a class=\"external-link\" title=\"\" href=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/violencia-brasil-mata-82-jovens-por-dia-5716.html\" target=\"_blank\"> juventude brasileira<\/a> entre 15 a 29 anos, sobretudo quando se trata de pessoas negras.<\/p>\n<p class=\" \">Segundo a pesquisa, a arma de fogo mata quase cinco pessoas por hora, no Brasil. Apenas em 2012, foram 42,4 mil pessoas v\u00edtimas de homic\u00eddios, suic\u00eddios ou acidentes.\u00a0Coordenado pelas Secretarias da Juventude da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e da Igualdade Racial, em coopera\u00e7\u00e3o com a Unesco e com apoio da Faculdade Latino Americana de Ci\u00eancias Sociais (Flacso) e do Centro Brasileiro de Estudos Latino Americanos (Cebela), o mapa \u00e9 desenvolvido desde 1998 com o objetivo de contribuir com dados sobre as formas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p class=\" \">Atualizado, ela agora disponibiliza um panorama geral sobre a incid\u00eancia de morte violenta nas diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds, com recortes de g\u00eanero, ra\u00e7a e faixa et\u00e1ria, at\u00e9 o ano de 2012.<\/p>\n<p class=\" \">O estudo aponta o crescimento de 556% no n\u00famero de homic\u00eddios provocados por arma de fogo na popula\u00e7\u00e3o total, entre 1980 a 2012, sendo a juventude a maior v\u00edtima desse aumento. passando de 4,5 mil v\u00edtimas no ano de 1980 para 24.882 em 2012.<\/p>\n<p class=\" \">Outra situa\u00e7\u00e3o reveladora est\u00e1 relacionada \u00e0s taxas de mortalidade por arma de fogo, quando analisado a faixa et\u00e1ria entre 0 a 70 anos. O maior n\u00famero de vitimiza\u00e7\u00e3o se d\u00e1, justamente, nas idades de 17, 18, 19 e 20 anos, tendo como pico os 19 anos de idade, com quase 63 mortes para 100 mil jovens, sendo 95% do sexo masculino.<\/p>\n<p class=\" \">Aterrorizadores, os n\u00fameros destacam a exist\u00eancia de um recorte racial claro. Enquanto as taxas de homic\u00eddios de brancos por armas de fogo ca\u00edram de 14,5 para 11,8 em 100 mil brancos no per\u00edodo analisado, as taxas de homic\u00eddios de negros aumentaram de 24,9 para 28,5.<\/p>\n<p class=\" \">O mesmo ocorre com o p\u00fablico feminino, em que as taxas de mulheres brancas v\u00edtimas caem 18,7% e as negras aumentam 14,1%. Tamb\u00e9m no caso das mulheres, a incid\u00eancia de 95% dos casos recai sobre as jovens.<\/p>\n<p class=\" \">Em s\u00edntese, os n\u00fameros relatados no Mapa da Viol\u00eancia 2015 s\u00e3o claros no diagn\u00f3stico: a popula\u00e7\u00e3o jovem e negra \u00e9 a maior v\u00edtima das mortes por armas de fogo, um cen\u00e1rio que n\u00e3o coincide com o que vemos, de forma sistem\u00e1tica, nos programas \u201cpolicialescos\u201d na grade de programa\u00e7\u00e3o da TV aberta de todo o Brasil.<\/p>\n<p class=\" \">Basta assistirmos a cinco minutos de qualquer tipo de programa deste calibre \u2013 sem ser redundante &#8211; para termos a defini\u00e7\u00e3o de cor, classe e faixa et\u00e1ria daqueles apontados como marginais e assassinos.<\/p>\n<p class=\" \">N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil ouvir um discurso como o propagado por um programa em Fortaleza, capital do Cear\u00e1, ainda em 2011: <i>\u201ctr\u00eas bandidos armados, entre eles um pivete com um 38, mataram um policial rodovi\u00e1rio que ia ser pai dentro de poucos dias. O que fazer com esses bandidos? Hotel e tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es por dia? N\u00e3o precisa prender, \u00e9 s\u00f3 cegar, principalmente o menor. Duvido que ele mate mais algu\u00e9m<\/i>\u201d.<\/p>\n<p class=\" \">Ou mesmo o conhecido caso da rep\u00f3rter do Brasil Urgente, veiculado na TV Bandeirante da Bahia, em 2014, que, entre outras coisas, constrange um jovem negro, acusado de ter praticado estupro, que \u00e9 condenado, ao vivo, sem direito a julgamento, e ainda por cima, em meio a uma s\u00e9rie de humilha\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\" \">S\u00e3o os programas policialescos respons\u00e1veis por reproduzir os jarg\u00f5es mais preconceituosos que acabam entrando no gosto popular, virando piadas e formas de abordagem que n\u00e3o s\u00f3 reproduzem o preconceito, mas, de forma proposital, distorcem a realidade de viol\u00eancia que jovens negros e negras vivenciam diariamente.<\/p>\n<p class=\" \">S\u00e3o tamb\u00e9m os programas policialescos a mercadoria cada vez mais interessante para as empresas de comunica\u00e7\u00f5es, dado o n\u00edvel de audi\u00eancia alimentado pela abordagem sensacionalista. Isso, por si s\u00f3, j\u00e1 explica a prolifera\u00e7\u00e3o deste tipo de programa\u00e7\u00e3o em todas as regi\u00f5es do Brasil, com formato e hor\u00e1rios praticamente iguais. A f\u00f3rmula est\u00e1 pronta, basta aplicar e lucrar com ela.<\/p>\n<p class=\" \">Diante desse cen\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil termos, como fruto de programas \u201cpolicialescos\u201d e da media\u00e7\u00e3o que constroem com o p\u00fablico, a pauta da redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal como uma das principais discuss\u00f5es envolvendo a juventude brasileira, ao inv\u00e9s de estarmos discutindo como aplacar a n\u00edtida seletividade de promo\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia no Brasil. Ou seja, na televis\u00e3o e nas ruas, a arma j\u00e1 est\u00e1 apontada para os jovens negros brasileiros. E o gatilho \u00e9 disparado todo dia.<\/p>\n<p class=\" \"><em>* Ana Carolina Westrup \u00e9 integrante do Intervozes, jornalista e mestranda em Comunica\u00e7\u00e3o Social pela UFS.<\/em><\/p>\n<p class=\" \"><em>Texto originalmente publicado no Blog do Intervozes na Carta Capital.<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mapa da Viol\u00eancia 2015 mostra que a maior parte da popula\u00e7\u00e3o assassinada no Brasil \u00e9 jovem e negra, enquanto a televis\u00e3o traz esses setores como promotores da viol\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1834],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28879"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=28879"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28879\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29098,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28879\/revisions\/29098"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=28879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=28879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=28879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}