{"id":28858,"date":"2015-03-16T03:28:19","date_gmt":"2015-03-16T03:28:19","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28858"},"modified":"2015-08-30T21:28:33","modified_gmt":"2015-08-30T21:28:33","slug":"midia-e-democracia-na-encruzilhada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28858","title":{"rendered":"M\u00eddia e democracia na encruzilhada"},"content":{"rendered":"<div>\n<p><strong>Por Helena Martins* <\/strong><\/p>\n<p>\u200bAo que a sociedade brasileira assistiu nos \u00faltimos dias certamente precisar\u00e1 de tempo, debate e matura\u00e7\u00e3o para ser compreendido em toda a sua complexidade. \u00c9 dif\u00edcil, por meio de an\u00e1lises r\u00e1pidas, muitas vezes absolutamente polarizadas e impregnadas pelo calor dos acontecimentos, analisar a indigna\u00e7\u00e3o e o direcionamento que tem sido dado a ela. Esquerdas e direitas se defrontam agora com o desafio de disputar os rumos do que est\u00e1 posto, testando sua capacidade convocat\u00f3ria e a ades\u00e3o aos diferentes programas e alternativas societ\u00e1rias.<\/p>\n<p>No entanto, uma quest\u00e3o que sem d\u00favida salta aos olhos \u00e9 a centralidade que os meios de comunica\u00e7\u00e3o ocupam neste momento. Centralidade que est\u00e1 na internet e nas possibilidades que se abrem de constitui\u00e7\u00e3o de diferentes formas de fazer pol\u00edtica; nos meios tradicionais de comunica\u00e7\u00e3o, em especial a televis\u00e3o, que mais uma vez mostraram capacidade de influ\u00eancia na leitura dos processos em curso, ao produzirem e divulgarem um discurso hegem\u00f4nico; ou mesmo nas novas ferramentas como o <i>whatsapp<\/i>, que tornaram massivas mensagens muitas vezes an\u00f4nimas e conte\u00fados que dispensam o contradit\u00f3rio. S\u00e3o as formas de se organizar, conhecer, debater e pensar que est\u00e3o mudando. E a configura\u00e7\u00e3o atual das m\u00eddias est\u00e1 estreitamente vinculada a isso, com impactos ainda dif\u00edceis de precisar.<\/p>\n<p>Diriam os funcionalistas que um dos papeis que a m\u00eddia cumpre na sociedade \u00e9 exatamente buscar apresentar respostas comuns aos problemas sociais. Por mais que essa seja uma perspectiva incapaz de apreender toda a complexidade do processo comunicacional, certamente ainda \u00e9 orientadora das a\u00e7\u00f5es de empresas de comunica\u00e7\u00e3o que buscam, devido aos seus pr\u00f3prios interesses, influenciar as respostas que a sociedade dever\u00e1 dar a esses problemas. \u00c9 o que tentam fazer agora diante da profunda crise pol\u00edtica que o pa\u00eds vivencia.<\/p>\n<p>Durante a cobertura dos protestos do 15 de mar\u00e7o, a repeti\u00e7\u00e3o do argumento, por exemplo, buscou eliminar as diversas possibilidades de leitura dos fatos. Passamos todo o domingo ouvindo um mantra que tinha como in\u00edcio a afirma\u00e7\u00e3o de que as manifesta\u00e7\u00f5es foram espont\u00e2neas e n\u00e3o contaram com a presen\u00e7a de partidos, embora algumas das agremia\u00e7\u00f5es mais conservadoras da sociedade tenham ido inclusive \u00e0 m\u00eddia convocar os protestos. Passava pela garantia de que os atos eram pac\u00edficos, afinal a cobertura das jornadas de junho e de seus desdobramentos mostrou como o destaque \u00e0 viol\u00eancia serve para esvaziar as mobiliza\u00e7\u00f5es. E terminava com a afirma\u00e7\u00e3o de que se tratou de um conjunto de atos em defesa da democracia.<\/p>\n<p>Se todo o exposto carece de outras abordagens, este \u00faltimo ponto, de cara, carece \u00e9 de indigna\u00e7\u00e3o. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel reduzir o que aconteceu a um ato em defesa da democracia. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorar as manifesta\u00e7\u00f5es explicitamente contr\u00e1rias ao regime atual e que pediam o\u00a0<i>impeachment<\/i>, uma interven\u00e7\u00e3o militar, o fim do Supremo Tribunal Federal (STF) e outras sa\u00eddas absolutamente conservadoras e certamente danosas para a sociedade. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel silenciar diante das defesas do fim da diversidade de pensamento, das quais n\u00e3o escaparam Karl Marx ou Paulo Freire, muito menos ignorar as agress\u00f5es \u00e0s mulheres e aos homossexuais, atingidos por palavras de ordem que, se n\u00e3o quebram vidra\u00e7as, certamente violentam profundamente esses grupos e todos e todas n\u00f3s que nos solidarizamos e juntamos a eles.<\/p>\n<p>No dia em que registramos os 30 anos da volta ao regime democr\u00e1tico em nosso pa\u00eds, a hist\u00f3ria foi esquecida. As torturas, a aus\u00eancia at\u00e9 da possibilidade de protestar, o distanciamento da popula\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtica do pa\u00eds e toda a luta para a conquista da democracia foram ignorados. O presente foi apresentado como totalidade diante de um passado que se nega e um futuro que n\u00e3o se questiona. Seria preciso ao menos recordar, palavra que, como certa vez lembrou Eduardo Galeano, significa voltar a passar pelo cora\u00e7\u00e3o. Por qu\u00ea? Porque n\u00e3o deixa de assustar que os sombrios anos ditatoriais sejam agora exaltados por uma parcela da popula\u00e7\u00e3o, muitos jovens inclusive, que deveria querer viver, se expressar livremente e nutrir amor pelo outro, pela humanidade.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, na cobertura de domingo n\u00e3o houve espa\u00e7o para fazer do passado um elemento central para a problematiza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o presente, da crise mundial ao desgaste da pol\u00edtica institucional. Perdeu-se a oportunidade de negar as sa\u00eddas golpistas que est\u00e3o sendo apresentadas, contextualizar a origem dos problemas, apresentar outras sa\u00eddas e tamb\u00e9m de gerar a pergunta que deveria ser feita tanto por quem saiu \u00e0s ruas no dia 13 quanto no dia 15: o que devemos fazer com a indigna\u00e7\u00e3o que nos atravessa, seja pelos cortes nos direitos, a corrup\u00e7\u00e3o ou pela fal\u00eancia do sistema pol\u00edtico atual?<\/p>\n<p>\u00c0 m\u00eddia hegem\u00f4nica nada disso interessa. Irrespons\u00e1vel, tomada pelo desejo de sangrar o governo e com isso ampliar sua centralidade pol\u00edtica e a barganha, fez de sua programa\u00e7\u00e3o dominical um efetivo instrumento de convoca\u00e7\u00e3o \u00e0s ruas. E come\u00e7ou logo cedo, ao vivo, com helic\u00f3pteros, plant\u00f5es ao longo da programa\u00e7\u00e3o e o que mais fosse necess\u00e1rio para garantir ares grandiosos aos protestos, mesmo quando a quantidade de pessoas ainda n\u00e3o justificava tamanha cobertura. Esta, ali\u00e1s, foi por todo o dia animada por comentaristas e pelos tais especialistas que compartilhavam essencialmente das mesmas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Se os exemplos do passado, como o golpe de 1964 e as Diretas J\u00e1, n\u00e3o deixavam esquecer a centralidade da m\u00eddia na pol\u00edtica, o que vimos nos \u00faltimos dias e o que veremos nos pr\u00f3ximos devem ser lidos \u00e0 luz de uma quest\u00e3o: qual o papel atual da m\u00eddia na democracia brasileira? Isso est\u00e1 em jogo e pode ser determinante. Seja para garantir a vit\u00f3ria de uma rea\u00e7\u00e3o mais conservadora ou para alargar os horizontes da nossa pobre democracia, carente de participa\u00e7\u00e3o direta, de controle popular sobre os mandatos, de transpar\u00eancia e de espa\u00e7os para que as diversas opini\u00f5es sejam conhecidas e problematizadas de fato.<\/p>\n<p>Vivemos em uma sociedade mediada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. Meios \u2013 ou melhor, institui\u00e7\u00f5es \u2013 que s\u00e3o detentores de interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos. Essa media\u00e7\u00e3o tanto interfere na agenda pol\u00edtica quanto no pr\u00f3prio fazer pol\u00edtico, hoje indissoci\u00e1vel da comunica\u00e7\u00e3o. Por isso, quando defendemos e lutamos pela democratiza\u00e7\u00e3o das comunica\u00e7\u00f5es, temos em vista exatamente a necessidade de que m\u00faltiplas vozes circulem nos espa\u00e7os de socializa\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de sentidos. Temos em vista a necessidade desses meios, sobretudo dos que usam uma concess\u00e3o p\u00fablica para chegar aos nossos lares, serem debatidos, acompanhados e regulados pelo Estado, tomado aqui em seu sentido ampliado. Tudo isso para que, por exemplo, n\u00e3o sejam usados para atentar contra direitos, como vemos cotidianamente, e a pr\u00f3pria democracia.<\/p>\n<p>Se a sociedade em geral e as esquerdas, em particular, n\u00e3o entenderam a import\u00e2ncia dessa pauta, o 15 de mar\u00e7o n\u00e3o deixa d\u00favidas. Os setores mais conservadores se valeram da m\u00eddia e certamente aprovaram os resultados de termos, ainda hoje, um sistema de comunica\u00e7\u00e3o marcado pelo oligop\u00f3lio midi\u00e1tico e pelo atrelamento aos hist\u00f3ricos donos do poder.<\/p>\n<p><i>* Helena Martins \u00e9 doutoranda em Comunica\u00e7\u00e3o Social pela UnB, integrante do Intervozes e representante do coletivo no Conselho Nacional de Direitos Humanos.<\/i><\/p>\n<p><em>Texto originalmente publicado no Blog do Intervozes na Carta Capital.<\/em><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cobertura dos protestos mostrou a capacidade da m\u00eddia de produzir um discurso hegem\u00f4nico e influenciar a pol\u00edtica. Por isso, um sistema de comunica\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico \u00e9 essencial para a democracia.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1597],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28858"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=28858"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28858\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29111,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28858\/revisions\/29111"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=28858"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=28858"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=28858"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}