{"id":28782,"date":"2014-08-04T01:44:48","date_gmt":"2014-08-04T01:44:48","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28782"},"modified":"2015-08-30T22:00:43","modified_gmt":"2015-08-30T22:00:43","slug":"palestina-e-a-batalha-pela-informacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28782","title":{"rendered":"Palestina e a batalha pela informa\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Soraya Misleh*<\/strong><\/p>\n<p>A depender de como os jornalistas que est\u00e3o cobrindo o massacre israelense em Gaza (Palestina ocupada) transmitam a informa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o demitidos ou transferidos para outras regi\u00f5es. A den\u00fancia consta de reportagem da jornalista Rita Freire, publicada em 18 de julho \u00faltimo no <i>site<\/i> da <i><a href=\"http:\/\/www.ciranda.net\/article7540.html?lang=pt_br\" target=\"_blank\">Ciranda Internacional de Comunica\u00e7\u00e3o Compartilhada<\/a>.<\/i> Corrobora o que o movimento global pela democratiza\u00e7\u00e3o das comunica\u00e7\u00f5es tem apontado h\u00e1 tempos: a informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 longe de ser livre. O espectro p\u00fablico da m\u00eddia permanece ocupado e a servi\u00e7o das grandes corpora\u00e7\u00f5es transnacionais, que reproduzem e atendem aos interesses dos \u201cdonos do poder\u201d. Nesse caso, Israel e seus aliados.<\/p>\n<p>Fato \u00e9 que, a despeito desse cerceamento \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, o genoc\u00eddio em Gaza assume propor\u00e7\u00f5es que t\u00eam abalado profundamente a imagem de Israel junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica mundial. N\u00e3o obstante as mais de 1.800 v\u00edtimas fatais, 9 mil feridos e 450 mil deslocados internamente de suas casas em menos de um m\u00eas, politicamente, sair\u00e1 derrotado. Seu isolamento deve aumentar, e o Brasil \u00e9 chave para intensificar esse movimento na Am\u00e9rica Latina. Assim, precisa urgentemente ouvir as vozes das ruas e romper rela\u00e7\u00f5es comerciais, militares e diplom\u00e1ticas com Israel. N\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel, diante das novas tecnologias, omitir o massacre do povo palestino em andamento. Imagens chocantes s\u00e3o postadas diretamente de Gaza nas redes sociais, furando o tradicional bloqueio midi\u00e1tico.<\/p>\n<p>Manuel Castells, em seu <i>O poder da identidade<\/i> (<i>A era da informa\u00e7\u00e3o: economia sociedade e cultura<\/i> \u2013 Volume 2, Ed. Paz e Terra: 2008), elucida as transforma\u00e7\u00f5es e influ\u00eancia advindas das novas tecnologias da informa\u00e7\u00e3o sobre os meios hegem\u00f4nicos. Para ele, \u201ca m\u00eddia eletr\u00f4nica (n\u00e3o s\u00f3 o r\u00e1dio e a televis\u00e3o, mas todas as formas de comunica\u00e7\u00e3o, tais como o jornal e a Internet) passou a se tornar o espa\u00e7o privilegiado da pol\u00edtica. N\u00e3o que toda a pol\u00edtica possa ser reduzida a imagens, sons ou manipula\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas. Contudo, sem a m\u00eddia, n\u00e3o h\u00e1 meios de adquirir ou exercer poder\u201d.<\/p>\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos buscam formas de noticiar o que \u00e9 imposs\u00edvel de ser omitido, sem deixar de servir aos seus senhores. \u00c9 o que vemos no Brasil inclusive. Aqui, as poucas fam\u00edlias que controlam o espectro midi\u00e1tico iniciaram a cobertura de Gaza com um discurso simp\u00e1tico \u00e0 ofensiva israelense, comprando a velha ideia de defesa. Haviam sido capturados e, 18 dias depois, em final de junho, mortos tr\u00eas jovens colonos judeus. A resposta israelense eram os ataques ao Hamas, que controla a faixa de Gaza. A costumeira forma fragmentada de noticiar deixou, como de praxe, a contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de fora e passou longe dos c\u00e1lculos pol\u00edticos do governo israelense, diante de uma crise interna.<\/p>\n<p>Embora as reportagens apontassem que o Hamas n\u00e3o havia assumido a autoria das mortes \u2013 que se deram em circunst\u00e2ncias ainda hoje n\u00e3o esclarecidas \u2013, em nenhum momento informaram que os colonos circulavam entre assentamentos ilegais na Cisjord\u00e2nia (Palestina ocupada), ali colocados por Israel para dar cabo a sua pol\u00edtica de coloniza\u00e7\u00e3o e apartheid. Tamb\u00e9m n\u00e3o noticiaram que, nessa ocupa\u00e7\u00e3o, um dos instrumentos tem sido a cultura do \u00f3dio. Na \u00e1rea onde foram mortos os colonos, Hebron (Al Khalil), encontram-se extremistas israelenses que agridem cotidianamente os palestinos. Nas paredes, escrevem o que propagam aos quatro ventos: \u201cMorte aos \u00e1rabes!\u201d. Portanto, a responsabilidade pelo que ocorreu com os tr\u00eas jovens \u00e9 de Israel.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, como \u00e9 regra, os meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o reportaram que, em 15 de maio, nas manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas para lembrar a <i>nakba<\/i> \u2013 cat\u00e1strofe, como os \u00e1rabes se referem \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Estado de Israel, naquela data, h\u00e1 66 anos \u2013 , dois jovens palestinos foram assassinados a sangue frio pelo ex\u00e9rcito de Israel. A opress\u00e3o cotidiana, pris\u00f5es pol\u00edticas, demoli\u00e7\u00e3o de casas, tudo isso ficou e continua ausente do notici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Iniciada a ofensiva em Gaza, o m\u00e1ximo que se ousava dizer era que a a\u00e7\u00e3o por parte de Israel era \u201cdesproporcional\u201d \u2013 discurso que ainda prevalece, mas agora tamb\u00e9m aparece o termo \u201cmassacre\u201d, quando \u00e9 imposs\u00edvel neg\u00e1-lo, frente a bombardeios at\u00e9 de escolas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), repletas de crian\u00e7as, e hospitais. Nos telejornais e na grande m\u00eddia impressa, contudo, insiste-se em falar em guerra entre Israel e Hamas, e n\u00e3o em genoc\u00eddio do povo palestino. A afirma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o raro, \u00e9 que n\u00e3o se tem um cessar-fogo definitivo por intransig\u00eancia m\u00fatua.<\/p>\n<p>Mas guerra pressup\u00f5e dois lados iguais, o que \u00e9 desmentido pelas baixas de um lado e de outro (em Israel, cerca de 60, quase a totalidade de soldados). Tamb\u00e9m ignora-se o fato de que o argumento israelense de defesa n\u00e3o se aplica, j\u00e1 que se trata de territ\u00f3rio ocupado ilegalmente \u2013 situa\u00e7\u00e3o em que a resist\u00eancia \u00e9 leg\u00edtima, inclusive face ao direito internacional.<\/p>\n<p>Guerra sugere um evento isolado, quando na realidade trata-se de mais um cap\u00edtulo da limpeza \u00e9tnica do povo palestino. Essa se iniciou ap\u00f3s a recomenda\u00e7\u00e3o da Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, em 29 de novembro de 1947, de partilha da Palestina em um Estado judeu e um \u00e1rabe, sem consulta aos habitantes locais. A recomenda\u00e7\u00e3o dava sinal verde ao movimento sionista \u2013 que visava criar um estado homog\u00eaneo exclusivamente judeu em terras palestinas \u2013 para colocar em pr\u00e1tica seu plano de limpeza \u00e9tnica.<\/p>\n<p>Ondas de imigra\u00e7\u00e3o de judeus, sobretudo da Europa do leste, para a conquista da terra e do trabalho, n\u00e3o foram suficientes para garantir a coloniza\u00e7\u00e3o da Palestina. A maioria da popula\u00e7\u00e3o (70%) continuava sendo n\u00e3o judia, e a \u00fanica maneira de se criar um Estado homog\u00eaneo, com essa caracter\u00edstica, era promover a limpeza \u00e9tnica. O resultado foi a expuls\u00e3o de 800 mil palestinos de suas terras e propriedades e a destrui\u00e7\u00e3o de cerca de 500 aldeias. Assim, na sua cria\u00e7\u00e3o, em 15 de maio de 1948, Israel passava a ocupar 78% da Palestina hist\u00f3rica. Dava-se in\u00edcio a uma das maiores injusti\u00e7as da era contempor\u00e2nea, aprofundada em 1967, quando o restante do territ\u00f3rio foi ocupado (Cisjord\u00e2nia, Gaza e Jerusal\u00e9m Oriental).<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de contextualiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica na grande m\u00eddia mant\u00e9m a quest\u00e3o palestina como ilustre desconhecida. Tamb\u00e9m quase n\u00e3o se fala da resist\u00eancia heroica que tem se dado agora nas ruas da Cisjord\u00e2nia e das mobiliza\u00e7\u00f5es onde hoje \u00e9 Israel, capitaneadas pelos palestinos que vivem ali \u2013 1,5 milh\u00e3o no total (20% da popula\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Esse quadro mostra que \u00e9 preciso fortalecer a batalha pela informa\u00e7\u00e3o. A m\u00eddia hegem\u00f4nica, alimentada pelas poucas ag\u00eancias de not\u00edcias internacionais, foi e continua sendo c\u00famplice da coloniza\u00e7\u00e3o e apartheid a que est\u00e3o submetidos os palestinos. Democratizar as comunica\u00e7\u00f5es \u00e9 parte crucial da luta pela transforma\u00e7\u00e3o dessa realidade.<\/p>\n<p><i>* Soraya Misleh, jornalista palestino-brasileira, da Ciranda Internacional de Comunica\u00e7\u00e3o Compartilhada e Frente em Defesa do Povo Palestino.<\/i><\/p>\n<p><em>Texto originalmente publicado no Blog do Intervozes na Carta Capital.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A m\u00eddia hegem\u00f4nica, alimentada por poucas ag\u00eancias de not\u00edcias internacionais, continua sendo c\u00famplice da coloniza\u00e7\u00e3o a que est\u00e3o submetidos os palestinos. 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