{"id":28778,"date":"2014-07-29T01:38:54","date_gmt":"2014-07-29T01:38:54","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28778"},"modified":"2015-08-30T22:07:21","modified_gmt":"2015-08-30T22:07:21","slug":"racismo-na-midia-entre-a-negacao-e-o-reconhecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=28778","title":{"rendered":"Racismo na m\u00eddia: entre a nega\u00e7\u00e3o e o reconhecimento"},"content":{"rendered":"<div id=\"_mcePaste\"><strong>Por Cec\u00edlia Bizerra Sousa*<\/p>\n<p><\/strong><\/div>\n<p>\u201cSempre que venho ao Brasil, assisto \u00e0 TV para ver como o pa\u00eds se representa. Pela TV brasileira, nunca seria poss\u00edvel imaginar que sua popula\u00e7\u00e3o \u00e9 majoritariamente negra\u201d. Esta observa\u00e7\u00e3o, entre tantas outras acerca dos desafios que ainda cabem \u00e0 luta pela igualdade racial no Brasil e no mundo, foi feita pela ativista estadunidense Angela Davis, em confer\u00eancia em Bras\u00edlia na noite de 25 de julho, na 7\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Latinidades \u2013 Festival da Mulher Afro Latino Americana e Caribenha. \u201cN\u00e3o posso falar com autoridade no Brasil, mas \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 preciso ser especialista para perceber que alguma coisa est\u00e1 errada se a cara p\u00fablica deste pa\u00eds, majoritariamente negro, \u00e9 branca\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia mundial na luta contra o racismo e autora de v\u00e1rios livros e pesquisas na \u00e1rea, Angela Davis, hoje com 70 anos de idade e mais de 40 dedicados \u00e0 milit\u00e2ncia e \u00e0 pesquisa da tem\u00e1tica, fala com a autoridade de quem tem uma vida dedicada ao tema. E acerta em cheio. Para al\u00e9m da invisibilidade dos negros e negras na m\u00eddia brasileira, o racismo midi\u00e1tico se evidencia pela pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o do racismo (recordemos o livro do diretor de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel, <i>N\u00e3o somos racistas<\/i>, lan\u00e7ado em 2006) e pela afirma\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos a partir do ponto de vista hegem\u00f4nico, que colaboram para refor\u00e7ar uma atitude e um sentimento de auto-desvaloriza\u00e7\u00e3o nos negros e negras, assim como o desinteresse dos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o por suas causas e a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Como bem cita o pesquisador brasileiro Muniz Sodr\u00e9, no livro <i>Claros e escuros: identidade, povo e m\u00eddia no Brasil<\/i>, \u201ca m\u00eddia funciona, no n\u00edvel macro, como um g\u00eanero discursivo capaz de catalisar express\u00f5es pol\u00edticas e institucionais sobre as rela\u00e7\u00f5es inter-raciais, (&#8230;) que, de uma maneira ou de outra, legitima a desigualdade social pela cor da pele.\u201d (SODR\u00c9, 1999, p.243). Ou seja, \u00e9 no espa\u00e7o midi\u00e1tico que ocorrem grande parte das rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais brasileiras.<\/p>\n<p>Mas, se este espa\u00e7o \u00e9 um dos principais reprodutores da l\u00f3gica racista, pode tamb\u00e9m servir para promover a igualdade racial num pa\u00eds plural como o Brasil. Apesar de ainda haver muito por se construir at\u00e9 que a \u201ccara p\u00fablica\u201d do nosso pa\u00eds \u2013 sobretudo aquela que se apresenta na televis\u00e3o aberta \u2013 seja de fato a representa\u00e7\u00e3o da nossa diversidade, h\u00e1 que se considerar alguns aspectos positivos e mudan\u00e7as neste sentido. E dois exemplos recentes puderam ser vistos, em menos de 15 dias, na Rede Globo. A emissora dispensou, em dois momentos de sua programa\u00e7\u00e3o (o programa <i>Na Moral<\/i> e a novela <i>Gera\u00e7\u00e3o Brasil<\/i>), espa\u00e7os significativos para a abordagem do racismo. E, no que se refere \u00e0 terminologia, por exemplo, o assunto foi tratado sem eufemismos ou por\u00e9ns, com este nome mesmo: racismo.<\/p>\n<p>No programa <i>Na Moral<\/i> do dia 17 de julho, artistas e estudiosos negros falaram sobre o racismo na TV e suas experi\u00eancias, a maioria dolorosas. Entre eles estava o cantor Thiaguinho, as atrizes Ta\u00eds Ara\u00fajo e Zez\u00e9 Mota, o ator A\u00edlton Gra\u00e7a e o cineasta e pesquisador Joel Zito Ara\u00fajo. Negros e negras falando sobre o racismo na TV. A \u00fanica exce\u00e7\u00e3o foi o diretor Daniel Filho, que estava l\u00e1 porque, no final da d\u00e9cada de 1960, dirigiu a novela <i>A Cabana do Pai Tom\u00e1s<\/i>, cujo protagonista era um escravo negro vivido por um ator branco (S\u00e9rgio Cardoso), que pintava o corpo, usava peruca e rolhas no nariz para compor o personagem. Daniel foi ao programa explicar esta escolha absurda que, obviamente, gerou pol\u00eamica, pois havia bons atores negros consagrados na \u00e9poca (a esposa de Pai Tom\u00e1s, inclusive, era a atriz negra Ruth de Souza).<\/p>\n<p>Outro exemplo recente e que merece destaque foi a cena da novela <i>Gera\u00e7\u00e3o Brasil<\/i>, exibida ao final do cap\u00edtulo do dia 22 de julho, exatamente antes do in\u00edcio do <i>Jornal Nacional<\/i>. Foi uma cena longa (pouco mais de 12 minutos de dura\u00e7\u00e3o), que teve como centro uma conversa entre o personagem Brian Benson (vivido por L\u00e1zaro Ramos) e Matias (vivido pelo jovem ator Danilo Santos Ferreira). A cena se passa em um <i>reality show<\/i> chamado \u201cGera\u00e7\u00e3o Nem-Nem\u201d e <a class=\"external-link\" href=\"http:\/\/gshow.globo.com\/novelas\/geracao-brasil\/videos\/t\/cenas\/v\/brian-comeca-a-reprogramacao-de-matias\/3515051\/\" target=\"_blank\">trata do racismo<\/a> que o jovem Matias sofreu na inf\u00e2ncia, o que contribuiu significativamente para que ele se tornasse mais um jovem nem-nem (nem trabalha, nem estuda).<\/p>\n<p>Nesse momento, a novela falou abertamente sobre o racismo sofrido por crian\u00e7as negras na inf\u00e2ncia, sendo qualificado nitidamente como viol\u00eancia. No palco do programa de audit\u00f3rio que exibe a cena do reality show, onde est\u00e3o a namorada e os pais de Matias (ele negro, ela branca), a m\u00e3e de Matias (a pedagoga Rita de C\u00e1ssia), ao receb\u00ea-lo, pede desculpas ao filho por n\u00e3o ter observado isso, apesar da sua profiss\u00e3o. E a apresentadora, Pamela Parker-Marra (vivida pela atriz Cl\u00e1udia Abreu), apresenta estat\u00edsticas sobre a desmotiva\u00e7\u00e3o escolar de crian\u00e7as negras, expondo o papel do racismo nesses \u00edndices e relacionando a quest\u00e3o ao seu sucesso nos estudos.<\/p>\n<p>\u00c9 positivo perceber, em 2014, a luta pela igualdade racial nos meios de comunica\u00e7\u00e3o, que vem sendo travada com mais intensidade a partir de meados d\u00e9cada de 90, dando retornos positivos. A visibilidade dada \u00e0s discuss\u00f5es sobre o racismo, sem a utiliza\u00e7\u00e3o de termos para \u201csuavizar\u201d a express\u00e3o, e seu reconhecimento como viol\u00eancia pela principal emissora do pa\u00eds n\u00e3o s\u00e3o pouca coisa. Isso nos inspira e nos faz sentir que a luta \u00e9 v\u00e1lida porque, como j\u00e1 disse o dramaturgo e poeta alem\u00e3o Bertold Brecht, &#8220;nada deve parecer imposs\u00edvel de mudar&#8221;. Muito menos o racismo.<\/p>\n<p><i>* Cec\u00edlia Bizerra Sousa \u00e9 jornalista negra, mestra em Comunica\u00e7\u00e3o pela Universidade de Bras\u00edlia (UnB), integrante do Coletivo Intervozes e do Coletivo de Mulheres Negras Pretas Candangas.<\/i><\/p>\n<p><em>Texto originalmente publicado no Blog do Intervozes na Carta Capital.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A visibilidade \u00e0s discuss\u00f5es sobre o racismo dada pela TV Globo e o reconhecimento da viol\u00eancia decorrente dele s\u00e3o uma vit\u00f3ria para a luta por igualdade racial.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1564],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28778"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=28778"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28778\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29178,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/28778\/revisions\/29178"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=28778"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=28778"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=28778"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}