{"id":27685,"date":"2014-04-02T10:58:45","date_gmt":"2014-04-02T10:58:45","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27685"},"modified":"2015-08-30T22:32:53","modified_gmt":"2015-08-30T22:32:53","slug":"apoio-a-ditadura-o-pedido-de-perdao-que-nunca-veio-dos-jornais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27685","title":{"rendered":"Apoio \u00e0 ditadura: o pedido de perd\u00e3o que nunca veio dos jornais"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por M\u00f4nica Mour\u00e3o*<\/strong><\/p>\n<p>Desculpem. Apoiamos o golpe de 1964. Apoiamos o regime instalado a partir dele. Fomos al\u00e9m do acatamento \u00e0 censura: publicamos mat\u00e9rias e editoriais que deram suporte ideol\u00f3gico aos governos que prenderam, torturaram, mataram e n\u00e3o devolveram os corpos para que fossem velados e enterrados. Desculpem, deixamos que matassem seus filhos e irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Esse poderia ser o texto do editorial da Folha de S. Paulo e d&#8217;O Estado de S. Paulo nos \u00faltimos dias 30 e 31 de mar\u00e7o. Poderia ser tamb\u00e9m do jornal O Globo de 31 de agosto de 2013, apenas para ficar como exemplo ve\u00edculos que fizeram algum mea culpa recentemente por terem apoiado a ditadura militar (1964-1985). O que fizeram, no entanto, n\u00e3o foi um verdadeiro pedido de desculpas ou uma radical revis\u00e3o do seu posicionamento durante os anos de exce\u00e7\u00e3o. Em resposta a uma demanda p\u00fablica, sem ter como esconder o que tanto foi gritado nas ruas em 2013 (\u201cA verdade \u00e9 dura! A Rede Globo apoiou a ditadura \u2013 ainda apoia!\u201d), resolveram assumir a responsabilidade de forma a minimiz\u00e1-la.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas casos aqui colocados apresentam suas diferen\u00e7as. A Globo, \u00fanica citada mais diretamente nas palavras de ordem das manifesta\u00e7\u00f5es do ano passado, assumiu o que chamou de \u201cerro\u201d ainda em agosto. J\u00e1 a Folha e o Estad\u00e3o n\u00e3o pedem desculpa, nem pedem perd\u00e3o. Aproveitam o cinquenten\u00e1rio do golpe para fazer uma avalia\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica que justifica sua posi\u00e7\u00e3o. Em linhas gerais (e deixando de lado aqui as especificidades), lan\u00e7am um olhar para o passado que coloca o golpe como a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para salvar o pa\u00eds do caos janguista e amenizam a viol\u00eancia do fim da democracia com a cren\u00e7a corrente em setores da \u00e9poca de que seria uma interven\u00e7\u00e3o breve e cir\u00fargica. Buscam, assim, afastar-se do per\u00edodo de recrudescimento p\u00f3s AI-5, a partir de dezembro de 1968, a aproximar-se do clamor das parcelas conservadoras da sociedade civil no pr\u00e9-64.<\/p>\n<p>E por que ent\u00e3o essa necessidade de tomar posi\u00e7\u00e3o? As mobiliza\u00e7\u00f5es de 2013 e a capacidade de difus\u00e3o \u2013 via internet \u2013 de ideias e contrapontos colocaram os ve\u00edculos tradicionais numa situa\u00e7\u00e3o de impossibilidade de calar diante dos argumentos que os contestam. Por outro lado, as respostas n\u00e3o significam uma verdadeira considera\u00e7\u00e3o do outro, um colocar-se no lugar dele, ou uma revisita\u00e7\u00e3o profunda de posicionamentos pol\u00edticos de outrora. At\u00e9 porque tais posicionamentos pol\u00edticos continuam os mesmos, apenas atualizados pelo jogo democr\u00e1tico. Tais respostas constituem mais uma estrat\u00e9gia de cuidado com a pr\u00f3pria imagem. Os trechos que fazem contraponto \u00e0 ideia de que \u201cn\u00e3o t\u00ednhamos como ter outra posi\u00e7\u00e3o naquele momento\u201d s\u00e3o apenas isso: contrapontos. Contrapontos que visam a \u201cequilibrar\u201d o texto e dar o aspecto de neutralidade, isen\u00e7\u00e3o e interesse p\u00fablico em que o jornalismo se autorreferencia.<\/p>\n<p>O tom geral dos textos \u00e9 o de \u201cerramos, mas precisamos ver o passado com os olhos do passado; n\u00e3o se pode julgar nossa atitude com o conhecimento hist\u00f3rico posterior\u201d. Sim, uma das maiores dificuldades de se analisar o passado \u00e9 justamente porque compreend\u00ea-lo exige mais do que conhec\u00ea-lo; exige que se esque\u00e7a o que se soube a posteriori. Talvez n\u00e3o fosse mesmo poss\u00edvel prever que o golpe levaria a tenebrosas duas d\u00e9cadas de restri\u00e7\u00e3o de liberdade. Mas certamente j\u00e1 se sabia que a derrubada, pela for\u00e7a, de um governo democraticamente eleito n\u00e3o poderia ser a \u00fanica alternativa poss\u00edvel para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>A restri\u00e7\u00e3o de liberdade atingiu, inclusive, os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. Muitos jornalistas que resistiram foram torturados e desapareceram. Mas, hoje, nos olhares da imprensa tradicional para o passado \u2013 e no olhar tamb\u00e9m de parte da historiografia do jornalismo brasileiro \u2013, valoriza-se a censura e se suaviza o colaboracionismo. Quem nunca ouviu as hist\u00f3rias das receitas de bolo e dos poemas de Cam\u00f5es no lugar das mat\u00e9rias censuradas? O que se opta por esquecer \u00e9 que havia dois tipos de censura. A censura pr\u00e9via, mais dura, significava que todo o material era passado em revista por censores antes da impress\u00e3o do material. Apenas sete ve\u00edculos, de acordo com a historiadora Annie Marie Smith, sofreram essa restri\u00e7\u00e3o (entre eles, o alternativo Pasquim; o jornal cat\u00f3lico O S\u00e3o Paulo; a Tribuna da Imprensa e \u2013 mostrando que a ditadura n\u00e3o era monol\u00edtica e havia eventuais rusgas mesmo com apoiadores \u2013 O Estado de S. Paulo). A outra, equivocadamente chamada de autocensura, atingiu toda a imprensa, e consistia no acatamento das proibi\u00e7\u00f5es enviadas pelo regime por telefone ou bilhetinho. N\u00e3o falamos aqui da responsabilidade de cada jornalista, muitas vezes acossados pelas determina\u00e7\u00f5es da chefia e temerosos com a viol\u00eancia sofrida por colegas. N\u00e3o queremos afirmar que a censura foi suave, at\u00e9 porque se apenas um ve\u00edculo fosse posto sob censura pr\u00e9via j\u00e1 seria suficiente para que esse tipo de restri\u00e7\u00e3o estivesse no horizonte de possibilidades de todos os demais. Contudo, \u00e9 preciso avaliar com cuidado o quanto de combatividade e de colaboracionismo (ou, pelo menos, falta de enfrentamento) permeou nossa imprensa durante os anos de chumbo.<\/p>\n<p>Um exerc\u00edcio simples, por\u00e9m significativo, para que se entenda a postura dos ve\u00edculos conservadores no Brasil de ontem e de hoje \u00e9 observar quais sobreviveram ao regima militar. Os grandes jornais que, desde o in\u00edcio ou logo ap\u00f3s o golpe, foram cr\u00edticos \u00e0 ditadura n\u00e3o chegaram aos dias atuais, como \u00daltima Hora e Correio da Manh\u00e3. A imprensa alternativa tamb\u00e9m n\u00e3o sobreviveu \u00e0 redemocratiza\u00e7\u00e3o. As raz\u00f5es para os processos hist\u00f3ricos nunca s\u00e3o simples, mas \u00e9 ineg\u00e1vel que foi estrat\u00e9gico para a ditadura sufocar seus opositores mais ferrenhos \u2013 inclusive com estrat\u00e9gias de estrangulamento econ\u00f4mico, em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ajuda financeira para os aliados \u2013 antes de realizar a abertura pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A imprensa conservadora que existe hoje no Brasil \u00e9, sem d\u00favida, um dos entulhos da ditadura, assim como se identifica facilmente na pol\u00edcia militar uma continuidade desse regime. O pedido de desculpas honesto, verdadeiro, que assuma a culpa por criar um ambiente de medo que deu legitimidade ao golpe, por circular ideias que levaram \u00e0 condena\u00e7\u00e3o sem julgamento, \u00e0 tortura e \u00e0 morte de brasileiras e brasileiros cujo \u00fanico crime foi discordar da ideologia reacion\u00e1ria, n\u00e3o veio no anivers\u00e1rio de cinquenta anos. O melhor pedido de desculpas \u2013 uma cobertura que desconfie da \u201cpaz\u201d imposta aos moradores das favelas \u201cpacificadas\u201d no Rio de Janeiro, que d\u00ea voz a manifestantes que denunciam a viol\u00eancia policial, que mostre a diversidade humana com respeito \u2013 ainda n\u00e3o conseguiu subir no bonde da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><em>* M\u00f4nica Mour\u00e3o \u00e9 pesquisadora e integrante do Intervozes.<\/em><\/p>\n<p><em>Texto originalmente publicado no Blog do Intervozes na Carta Capital.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os jornal&otilde;es resolvem assumir sua responsabilidade no apoio ao golpe. 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