{"id":27682,"date":"2014-03-31T12:35:54","date_gmt":"2014-03-31T12:35:54","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27682"},"modified":"2015-08-30T22:35:34","modified_gmt":"2015-08-30T22:35:34","slug":"mulheres-de-vitimas-a-algozes-o-que-a-midia-tem-a-ver-com-isso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27682","title":{"rendered":"Mulheres: de v\u00edtimas a algozes, o que a m\u00eddia tem a ver com isso?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Mariana Martins*<\/strong><\/p>\n<p>O Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (IPEA) divulgou, no dia 27 de mar\u00e7o, a pesquisa \u201cSistema de Indicadores de Percep\u00e7\u00e3o Social (SIPS)\u201d, que revela o entendimento de brasileiros e brasileiras sobre a viol\u00eancia contra a mulher. De acordo com o estudo, 58% dos quase 4 mil entrevistados responderam que \u201cse as mulheres soubessem se comportar, haveria menos estupros\u201d. J\u00e1 82% disseram que \u201cem briga de marido e mulher n\u00e3o se mete a colher\u201d.<\/p>\n<p>A pesquisa comprovou quest\u00f5es latentes do dia a dia dos brasileiros e das brasileiras. Feita no meio do ano passado, n\u00e3o poderia ter sido divulgada em momento t\u00e3o oportuno. Na semana passada, not\u00edcias alertaram para homens presos em metr\u00f4s de grandes cidades brasileiras por estarem \u201cencoxando\u201d mulheres nos transportes p\u00fablicos. Desde adolescente, sei e senti na pele o horror do ambiente machista e opressor que se tornou o transporte p\u00fablico. Seja aqui ou na \u00cdndia, mulheres foram e continuam sendo estupradas nos coletivos, n\u00e3o podem andar sozinhas \u00e0 noite, n\u00e3o podem, n\u00e3o podem e n\u00e3o podem. Somos socializadas na nega\u00e7\u00e3o das nossas vontades e da nossa autonomia. Com medo de um imagin\u00e1rio social e de uma viol\u00eancia f\u00edsica e simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Uma pequena amostra do qu\u00e3o esta pesquisa do IPEA \u00e9 um claro reflexo do pensamento majorit\u00e1rio da sociedade brasileira me ocorreu tamb\u00e9m esta semana. Estava em um congresso acad\u00eamico quando fui abordada por uma professora que se revoltara ao ver algumas das estudantes volunt\u00e1rias do congresso acuadas atr\u00e1s de uma bancada e transtornadas pelos coment\u00e1rios da pessoa que as havia mandado para aquele lugar. Eram universit\u00e1rias de vinte e poucos anos que estavam no congresso usando \u201cshorts\u201d e que, por isso, \u201cn\u00e3o poderiam ficar circulando\u201d pelas \u00e1reas do evento \u201cpara n\u00e3o provocar os professores estrangeiros\u201d. E, no caso, quem deveria se esconder? As meninas, \u201cl\u00f3gico\u201d, afinal elas estavam \u201cprovocando\u201d os estrangeiros com suas roupas.<\/p>\n<p>Aquele relato me deixou revoltada e, no dia seguinte, acabei lendo a pesquisa do IPEA. Pela primeira vez, concordei com a frase: \u201cimagina na Copa!\u201d. Tive um medo tremendo de como as mulheres brasileiras, j\u00e1 culpabilizadas por tudo que fazem contra elas, podem ser mais uma vez consideradas \u201calgozes\u201d das viol\u00eancias que sofrem. \u201cMas o que a Copa tem a ver com isso?\u201d, devem pensar os mais inocentes. Respondo: tudo! Infelizmente, a imagem da mulher brasileira foi historicamente ostentada no exterior como objeto de desejo sexual, inclusive por campanhas institucionais que apresentavam mulatas seminuas e faziam convites ao turismo sexual. Esse imagin\u00e1rio, sabemos, n\u00e3o se desfaz da noite para o dia e, muito menos, sem uma imprensa e um poder p\u00fablico imbu\u00eddos da responsabilidade de combater o machismo em todas as suas formas.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito pouco tempo, alguns aspectos da viol\u00eancia de g\u00eanero v\u00eam se tornando alvo de pol\u00edticas p\u00fablicas importantes como a Lei Maria da Penha, mas precisamos ainda da revolu\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica e simb\u00f3lica do lugar e da autonomia da mulher. Para isso, dependemos sim de uma m\u00eddia respons\u00e1vel, n\u00e3o de uma imprensa que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o se posiciona contra o machismo e todas as formas de viol\u00eancia e opress\u00e3o, como tamb\u00e9m n\u00e3o se sente respons\u00e1vel pelo combate a todo e qualquer tipo de viola\u00e7\u00e3o de direitos.<\/p>\n<p>Ainda hoje, assistimos, cotidianamente, a mulher ser objetificada pela publicidade, ser estereotipada nas novelas, nas bancadas dos telejornais, nas previs\u00f5es do tempo, nos programas de humor. Vemos tamb\u00e9m as dores de mulheres estupradas, agredidas, violentadas serem expostas e usadas para alavancar audi\u00eancia. O Big Brother Brasil, por exemplo, al\u00e9m de objetificar e estereotipar as mulheres, foi capaz de negar o abuso sofrido por uma participante alcoolizada. Na ocasi\u00e3o, tamb\u00e9m veio \u00e0 tona a responsabiliza\u00e7\u00e3o da mulher, que \u201cbebeu mais do que deveria\u201d. O apresentador Pedro Bial e a pr\u00f3pria rede de TV negaram a gravidade do fato, que teve apenas na internet um espa\u00e7o para amplo debate.<\/p>\n<p>Esses ve\u00edculos s\u00e3o os mesmos que negam a exist\u00eancia do racismo no Brasil e insistem em defender que o machismo tamb\u00e9m \u00e9 cria\u00e7\u00e3o das \u201cfeminazes\u201d, do PT, do governo. Resta questionar: a quem interessa negar a exist\u00eancia do machismo? De certo, aos que acham que podem comparar a culpabilidade de um estupro a de um roubo, como fez o blogueiro da Revista Veja, Felipe Moura Brasil. Pasmem, mas, nas palavras do blogueiro, \u201c(&#8230;) \u00e9 perfeitamente compreens\u00edvel o racioc\u00ednio de que se elas [as mulheres brasileiras] n\u00e3o usassem roupas t\u00e3o provocantes atrairiam menos a aten\u00e7\u00e3o dos estupradores, assim como, se os homens n\u00e3o passassem de Rolex ou de Ferrari em \u00e1reas perigosas, atrairiam menos a aten\u00e7\u00e3o de assaltantes. E nada disso seria culp\u00e1-los dos crimes que os demais cometeram\u201d.<\/p>\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es das palavras de Felipe se desenrolam por todo o texto, que tenta encontrar nas inten\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do governo e nas mulheres a raz\u00e3o de ser do resultado da pesquisa do Ipea. Chega a ser ir\u00f4nico que a mesma conclus\u00e3o n\u00e3o seja usada para dizer que o homem que estava na sua Ferrari ou com o seu Rolex \u00e9 culpado por ter sido roubado, l\u00f3gico! Por um acaso, quando Luciano Huck teve seu rel\u00f3gio roubado, algu\u00e9m na imprensa o culpou? Nunca vi um homem ser culpado por ser roubado, mas o blogueiro da revista de maior circula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds diz ser perfeitamente compreens\u00edvel o racioc\u00ednio de que as roupas provocantes atraem a aten\u00e7\u00e3o dos estupradores. Lament\u00e1vel.<\/p>\n<p>Essas e outras quest\u00f5es mostram, tanto de forma escancarada como de forma sutil, que o machismo no Brasil ainda \u00e9 muito forte, vai al\u00e9m das diferen\u00e7as salarias entre homens e mulheres e da qu\u00e1drupla jornada feminina (trabalho \u2013 casa \u2013 marido \u2013 filhos). O machismo no Brasil \u00e9 sim um machismo medieval, um machismo que al\u00e9m de violar os direitos e violentar as mulheres, faz com que recaia sobre elas toda a culpa e responsabilidade pelos reflexos desse machismo, que acaba sendo internalizado inclusive por muitas mulheres. Afinal, o machismo n\u00e3o escolhe g\u00eanero e tem inumer\u00e1veis meios de propaga\u00e7\u00e3o, dentre eles a m\u00eddia, que se mostra, em sua maioria, conservadora e preconceituosa, superficial e espetacularizada.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 de se registrar e valorizar os meios que insurgem no combate \u00e0 viol\u00eancia contra a mulher, mesmo que em menor medida e ainda de forma t\u00edmida. Posso citar aqui dois bons exemplos que, nesses \u00faltimos dias, encheram-me de esperan\u00e7a: o Di\u00e1rio de Pernambuco e a Empresa Brasil de Comunica\u00e7\u00e3o. Ambos publicaram em suas p\u00e1ginas eletr\u00f4nicas, e o Di\u00e1rio de Pernambuco tamb\u00e9m na sua edi\u00e7\u00e3o imprensa, declara\u00e7\u00f5es de funcion\u00e1rias e funcion\u00e1rios que repudiavam os resultados desta pesquisa, ao inv\u00e9s de utilizar orat\u00f3rias demagogas para negar o \u00f3bvio e culpar, mais uma vez, n\u00f3s, mulheres.<\/p>\n<p>E mesmo a pol\u00eamica pesquisa do Ipea nos mostra que nem tudo \u00e9 retrocesso. Rafael Osorio, diretor de Estudos e Pol\u00edticas Sociais do instituto, explicou que outras formas de viol\u00eancia est\u00e3o sendo percebidas pela popula\u00e7\u00e3o. Segundo Os\u00f3rio, \u201cExiste atualmente uma rejei\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia f\u00edsica e simb\u00f3lica \u2013 xingamentos, tortura psicol\u00f3gica\u201d. Quem sabe com uma impressa mais preocupada e respons\u00e1vel pelo fim das desigualdades e que compreenda seu papel nos processos sociais mais complexos e duradores, possamos sonhar com dias melhores, com a autonomia e a\u00e7\u00f5es simples como escolher a roupa que se quer vestir e n\u00e3o ser julgada ou estuprada por isso.<\/p>\n<p><em>*Mariana Martins \u00e9 jornalista, doutora em Comunica\u00e7\u00e3o Social pela UnB e integrante do Intervozes.<\/em><\/p>\n<p><em>Texto originalmente publicado no Blog do Intervozes na Carta Capital.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisa do Ipea mostra naturaliza&ccedil;&atilde;o da opress&atilde;o de g&ecirc;nero e traz &agrave; tona viol&ecirc;ncias sofridas em nossos cotidianos. Uma situa&ccedil;&atilde;o que tem tudo a ver com a m&iacute;dia.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1834],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27682"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27682"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27682\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29221,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27682\/revisions\/29221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27682"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27682"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27682"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}