{"id":27678,"date":"2014-03-25T08:31:53","date_gmt":"2014-03-25T08:31:53","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27678"},"modified":"2015-08-30T22:38:13","modified_gmt":"2015-08-30T22:38:13","slug":"internet-patrocinada-o-comeco-do-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27678","title":{"rendered":"Internet patrocinada: o come\u00e7o do fim"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Pedro Ekman*<\/strong><\/p>\n<p>Na semana passada, um pequeno fato foi noticiado pela imprensa especializada em tecnologia. Pela primeira vez no Brasil, uma empresa vai pagar para que um usu\u00e1rio acesse determinado conte\u00fado. O Bradesco fechou um acordo com as operadoras de telecomunica\u00e7\u00f5es para que seus clientes possam usar o internet banking (no browser ou aplicativos) sem que o volume de dados consumido nas opera\u00e7\u00f5es seja descontados dos pacotes de dados. Parece lindo, n\u00e9? Mas o pre\u00e7o que se paga \u00e9 o fim da internet como conhecemos hoje, aberta e plural.<\/p>\n<p>Em janeiro, a AT&amp;T j\u00e1 havia anunciado que passaria a trabalhar com esse modelo de neg\u00f3cio, o chamado acesso patrocinado. A partir da\u00ed, come\u00e7ou uma grande discuss\u00e3o sobre a possibilidade de a libera\u00e7\u00e3o de um conte\u00fado ser entendida como quebra de neutralidade da rede. A discuss\u00e3o se deu publicamente, mas apenas em sites especializados. A TheVerve, por exemplo, foi assertiva: disse que agora come\u00e7a a era do controle das operadoras sobre a internet. O argumento faz algum sentido.<\/p>\n<p>Vamos voltar no tempo, quando, em 2005, o YouTube foi criado por tr\u00eas pioneiros do PayPal. Nessa mesma \u00e9poca, a Google havia criado seu pr\u00f3prio servi\u00e7o de v\u00eddeo. Na competi\u00e7\u00e3o pelos usu\u00e1rios, venceu o YouTube, a inven\u00e7\u00e3o do ano, vendida para o Google em 2006. Agora, vamos imaginar que o acesso patrocinado j\u00e1 existisse. Da\u00ed ent\u00e3o, o Google, com maior poder econ\u00f4mico, poderia pagar para que os usu\u00e1rios acessassem seu servi\u00e7o e ganharia apenas com os an\u00fancios. Neste cen\u00e1rio, a competi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se daria nos par\u00e2metros \u201co que fizer maior sucesso com o consumidor\u201d, mas sim de acordo com o maior poder econ\u00f4mico: Pay to play, como os americanos est\u00e3o chamando. O mesmo pode ocorrer agora se e quando surgir uma nova rede social para concorrer com o Facebook. Ela ter\u00e1 que desbancar uma aplica\u00e7\u00e3o que permite o acesso sem desconto no pacote, j\u00e1 que, no Brasil, a Claro, a Oi e o Facebook mant\u00eam um acordo de &#8216;acesso patrocinado&#8217;.<\/p>\n<p>O acesso patrocinado basicamente cria uma nova barreira ao acesso \u00e0 internet como meio de veicula\u00e7\u00e3o. O capitalismo informacional derrubou um conjunto de barreiras \u00e0 replica\u00e7\u00e3o dos produtos, mas, para proteger os investimentos, esse processo pode estar sendo revertido e as barreiras de entrada reerguidas, conforme tem apontado an\u00e1lises do professor da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o da UFRJ Dr. Marcos Dantas. Isso significa que o n\u00edvel de inova\u00e7\u00e3o tende a cair, pois os empreendedores n\u00e3o precisar\u00e3o apenas criar um aplicativo que valha a pena e que possa se tornar popular, precisar\u00e3o garantir que uma concorrente de peso e que possa patrocinar o acesso n\u00e3o o fa\u00e7a.<\/p>\n<p>Obviamente, dizer que a nova forma que as teles arrumaram de ganhar dinheiro, sugando um pouco as empresas que est\u00e3o bem da vida como o Facebook, o Google e outras, n\u00e3o \u00e9 algo que vai lhe trazer a simpatia das poderosas corpora\u00e7\u00f5es. Mas esse debate pode ser ainda mais importante de ser travado por aqui. Este \u00e9 um pa\u00eds onde ainda apenas 40% da popula\u00e7\u00e3o tem internet em casa. 20% desses acessos \u00e9 feito via modem, conforme pesquisa do IPEA Sistema de Indicadores de Percep\u00e7\u00e3o Social dos Servi\u00e7os de Telecomunica\u00e7\u00f5es 2014, um servi\u00e7o tradicionalmente vendido com limita\u00e7\u00e3o de franquia de dados. Ainda, 38% dos domic\u00edlios brasileiros t\u00eam, ao menos, uma pessoa que acessa a internet pelo celular, servi\u00e7o que tamb\u00e9m conta com limite de franquia. Ou seja, h\u00e1 muito mais apelo ao modelo de acesso patrocinado e muita gente pode passar a acessar apenas a internet sob o controle das corpora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por hora, apenas o Bradesco avan\u00e7ou neste sentido. Para as institui\u00e7\u00f5es financeiras, esse tipo de contrato com as teles faz sentido porque reduz custos com call center, ag\u00eancias e etc, uma vez que mais gente pode fazer as transa\u00e7\u00f5es online sem apoio de um funcion\u00e1rio. Ou seja, compensa financeiramente. Mas as pr\u00f3prias operadoras j\u00e1 veem o modelo sendo replicado em outras \u00e1reas: lojas de e-commerce j\u00e1 se interessaram, por exemplo. H\u00e1 rumores de que o Netflix negociaria um acordo com as operadoras para que ofere\u00e7am os streamings de v\u00eddeo com melhor qualidade.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica pode chegar at\u00e9 a imprensa. Um dos profissionais de uma grande operadora, que negociou o acordo com o Bradesco, afirma que v\u00ea muito potencial em um modelo de venda de assinatura de conte\u00fado j\u00e1 atrelado ao acesso. Na pr\u00e1tica, seria a Folha de S. Paulo ou as Organiza\u00e7\u00f5es Globo pagarem \u00e0s teles para que os assinantes n\u00e3o precisem ter pacotes de dados. H\u00e1 a\u00ed o potencial para a nova verticaliza\u00e7\u00e3o do modelo de neg\u00f3cio do jornalismo, que desde o surgimento da internet viu a concorr\u00eancia com blogs e conte\u00fados independentes crescer rapidamente. O que a internet fez foi diminuir a barreira de entrada (n\u00e3o precisava mais de prensa, ou de sistema de complexos e caros sistemas de distribui\u00e7\u00e3o para divulgar um texto). Agora, isso pode mudar.<\/p>\n<p>Para as teles, \u00e9 o sonho realizado. H\u00e1 anos elas reclamam que todo o lucro da internet ficava com as empresas que trabalham na camada de aplica\u00e7\u00f5es e que estava cada vez mais dif\u00edcil continuar investindo na infraestrutura. Na verdade, muitas avan\u00e7aram para a camada de conte\u00fado e tentam a sorte com o lan\u00e7amento de redes sociais, servi\u00e7os de mensagem instant\u00e2nea Over-The-Top e at\u00e9 sistemas de seguran\u00e7a. Agora, os \u00e2nimos apaziguaram e empresas que atuam na camada de conte\u00fado e operadoras come\u00e7am a se olhar com menos desconfian\u00e7a. Todo mundo vai poder ficar com uma parte desse bolo de dinheiro criado com a internet.<\/p>\n<p>Resta saber o que acontece com a diversidade de informa\u00e7\u00e3o, com a inova\u00e7\u00e3o e o empreendedorismo. Alguns dizem que a porta est\u00e1 se fechando. Os Estados Unidos criaram as suas megacorpora\u00e7\u00f5es da internet. A Europa conta com as remessas de lucros das teles, que dependem muito dos neg\u00f3cios na Am\u00e9rica Latina. Mas o governo brasileiro, assim como boa parte dos pa\u00edses da regi\u00e3o, engatinha em uma pol\u00edtica de est\u00edmulo ao desenvolvimento de aplicativos e de empresas de tecnologia. Em breve, ricos e pobres ter\u00e3o acesso \u00e0 internet \u2013 o que \u00e9 um belo slogan de campanha \u2013 resta saber a qual internet. O apartheid digital, antes disfar\u00e7ado pelas promessas de democratiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 o come\u00e7o do fim.<\/p>\n<p><em>* Pedro Ekman \u00e9 coordenador do Intervozes.<\/em><\/p>\n<p><em>Texto originalmente publicado no Blog do Intervozes na Carta Capital.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Novas pr&aacute;ticas do mercado caminham rumo ao fim da inova&ccedil;&atilde;o, do empreendedorismo e da diversidade na internet.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[542],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27678"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27678"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27678\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29224,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27678\/revisions\/29224"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27678"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}