{"id":27647,"date":"2014-01-27T09:34:03","date_gmt":"2014-01-27T09:34:03","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27647"},"modified":"2015-08-30T22:54:35","modified_gmt":"2015-08-30T22:54:35","slug":"governo-abandona-ginga-sistema-de-interatividade-para-tv-digital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27647","title":{"rendered":"Governo abandona Ginga, sistema de interatividade para TV digital"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Gustavo Gindre*<\/strong><\/p>\n<p>O Decreto 4901\/2003 permitiu que recursos do Fundo para o Desenvolvimento Tecnol\u00f3gico das Telecomunica\u00e7\u00f5es (Funttel) fossem usados para financiar cons\u00f3rcios de universidades brasileiras que fizessem pesquisas ligadas \u00e0 digitaliza\u00e7\u00e3o da TV aberta. Foram listados temas como transmiss\u00e3o e recep\u00e7\u00e3o, modula\u00e7\u00e3o, interatividade, middleware, servi\u00e7os, aplica\u00e7\u00f5es e conte\u00fado e investidos cerca de R$ 100 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas, quando o governo decidiu pela implanta\u00e7\u00e3o do Sistema Brasileiro de Televis\u00e3o Digital Terrestre (SBTVD-T), atrav\u00e9s do Decreto 5820\/2006, uma \u00fanica tecnologia brasileira foi aproveitada: o middleware Ginga. No restante, a TV digital brasileira usaria as tecnologias do sistema japon\u00eas, o ISDB-T (Integrated Services Digital Broadcasting Terrestrial). A essa combina\u00e7\u00e3o, de uma \u00fanica tecnologia brasileira com um sistema inteiro japon\u00eas, o governo chamou de nipo-brasileira (sic).<\/p>\n<p>Middleware \u00e9 um software base, que se posiciona entre o hardware e as diferentes aplica\u00e7\u00f5es que rodam naquela m\u00e1quina. No caso do Ginga, ele nasceu vocacionado para lidar com interatividade, e sua parte principal (Ginga-NCL) foi escrita em c\u00f3digo-fonte aberto. Ao longo dos anos, o Ginga se tornou um padr\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Normas T\u00e9cnicas (ABNT) e da Uni\u00e3o Internacional de Telecomunica\u00e7\u00f5es (UIT).<\/p>\n<p>Embora o decreto que decidiu por sua utiliza\u00e7\u00e3o na TV aberta seja de junho de 2006, o Ginga s\u00f3 se tornou obrigat\u00f3rio em 2013, mesmo assim para 75% das TVs fabricadas no Brasil. A instala\u00e7\u00e3o em todas as TVs est\u00e1 prevista apenas para 2015. Com isso, \u00e9 poss\u00edvel dizer que o Ginga fracassou na TV aberta e com ele morreu a \u00fanica tecnologia nacional de um sistema dito \u201cnipo-brasileiro\u201d.<\/p>\n<p><strong>Oracle<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro problema enfrentado pelo Ginga foi a op\u00e7\u00e3o por usar a tecnologia Java, de propriedade da Oracle. Com isso, viveu-se uma longa batalha em torno da possibilidade de pagamento de royalties que tornariam proibitivo o uso do Ginga. Mas a Oracle n\u00e3o foi nem de perto o principal advers\u00e1rio do Ginga.<\/p>\n<p><strong>Radiodifusores<\/strong><\/p>\n<p>Ainda \u00e9 poss\u00edvel lembrar de representantes dos radiodifusores no Conselho Consultivo do SBTVD-T afirmando que interatividade na TV n\u00e3o passava de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e que TV e internet sempre seriam coisas totalmente diferentes.<\/p>\n<p>Obviamente n\u00e3o se trata de ignor\u00e2ncia, mas da determina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos radiodifusores de evitar ao m\u00e1ximo poss\u00edvel qualquer mudan\u00e7a no modelo de neg\u00f3cios da TV aberta. E quanto maior a interatividade, maior o risco de evas\u00e3o de audi\u00eancia. Por isso, os radiodifusores tentaram evitar qualquer tecnologia que integrasse a TV com outras m\u00eddias. E entre elas estava o Ginga, combatido desde o in\u00edcio. Naquela altura, por\u00e9m, mal sabiam os radiodifusores que a interatividade chegaria \u00e0 TV e que seu maior problema n\u00e3o estava no Ginga.<\/p>\n<p><strong>Samsung, LG, Sony, Google e Apple<\/strong><\/p>\n<p>A venda de aparelhos de TV tem uma pequena margem de lucro. O neg\u00f3cio, portanto, s\u00f3 \u00e9 sustent\u00e1vel para aqueles que operam em grande escala. \u00c9 justamente por isso que fabricantes v\u00eam abandonando o setor, que se concentra em poucas empresas, como Samsung, LG e Sony.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, essas empresas t\u00eam procurado agregar valor \u00e0s TVs, atrav\u00e9s de novas e maiores telas (LED e Oled), do aumento da defini\u00e7\u00e3o (com o nov\u00edssimo 4K), mas, principalmente, da introdu\u00e7\u00e3o das smarTVs, integradas \u00e0 internet. Esses aparelhos s\u00e3o a porta de entrada para os fabricantes criarem lojas de aplicativos. Tamb\u00e9m Google e Apple j\u00e1 perceberam o potencial de conectar as TVs \u00e0 internet e apostam em seus pr\u00f3prios aparelhos e, claro, nas suas lojas de aplicativos.<\/p>\n<p>Esse modelo de neg\u00f3cio contraria o interesse dos radiodufusores e faz do Ginga um concorrente indesejado. Qual fabricante gostaria de ter uma loja de aplicativos em c\u00f3digo-fonte aberto concorrendo com sua pr\u00f3pria loja de aplicativos?<\/p>\n<p><strong>Governo<\/strong><\/p>\n<p>Diante de tantos advers\u00e1rios, o Ginga teria, em tese, um \u00fanico, mas poderoso, aliado: o governo. Justamente a\u00ed \u00e9 que as coisas parecem n\u00e3o ter dado certo. O governo aceitou press\u00f5es para adiar ao m\u00e1ximo a obrigatoriedade do Ginga. Somente nove anos ap\u00f3s a edi\u00e7\u00e3o do decreto que criou o SBTVD-T todos os aparelhos ter\u00e3o que trazer o Ginga.<\/p>\n<p>Mas o principal problema \u00e9 a incapacidade de gerar uma loja de aplicativos. E sem aplicativos, nenhum sistema operacional (ou middleware) consegue sobreviver. Poucas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas desenvolveram aplicativos, e a quantidade \u00e9 ainda menor na iniciativa privada. Com o Ginga, morre a ideia de termos uma TV com software livre, com aplicativos de interesse social, feitos a partir de tecnologia brasileira. No seu lugar fica uma TV conectada \u00e0 internet atrav\u00e9s de \u201cjardins murados\u201d, fortemente controlados pelos interesses comerciais de fabricantes estrangeiros, com tecnologia importada.<\/p>\n<p>Sem o Ginga, a TV digital brasileira \u00e9 a primeira do mundo a ser \u201cnipo-japonesa\u201d.<\/p>\n<p><em>*Gustavo Gindre \u00e9 jornalista formado pela UFF, p\u00f3s-graduado em Teoria e Pr\u00e1xis do Meio Ambiente (ISER) e mestre em Comunica\u00e7\u00e3o e Cultura (UFRJ). Foi membro eleito do Comit\u00ea Gestor da Internet (CGI.br) por dois mandatos (2004-2007 e 2007-2010). Integrante do Coletivo Intervozes. Fellow da Ashoka Society. \u00c9 servidor p\u00fablico concursado, especialista em regula\u00e7\u00e3o da atividade cinematogr\u00e1fica e audiovisual.\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Texto originalmente publicado no Blog do Intervozes na Carta Capital.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A instala&ccedil;&atilde;o em todas as TVs est&aacute; prevista apenas para 2015. Com isso, &eacute;  poss&iacute;vel dizer que o Ginga fracassou na TV aberta. 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