{"id":27588,"date":"2013-10-30T09:32:46","date_gmt":"2013-10-30T09:32:46","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27588"},"modified":"2013-10-30T09:32:46","modified_gmt":"2013-10-30T09:32:46","slug":"a-ley-de-medios-e-constitucional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27588","title":{"rendered":"A Ley de Medios \u00e9 constitucional"},"content":{"rendered":"<p>Ap&oacute;s d&eacute;cadas de lutas e quatro anos de batalhas judiciais, hoje, a Suprema Corte da Argentina colocou um ponto final na disputa que adiava a aplica&ccedil;&atilde;o integral da chamada Ley de Medios, ao declarar constitucionais quatro artigos da lei &ndash; 41, 45, 48 e 161 &ndash; que vinham sendo questionados pelo setor empresarial.<\/p>\n<p>Ao contr&aacute;rio do que pleiteava, sobretudo, o Grupo Clar&iacute;n, um dos maiores da Am&eacute;rica Latina na &aacute;rea das comunica&ccedil;&otilde;es, a Justi&ccedil;a argentina considerou que o direito &agrave; liberdade de express&atilde;o n&atilde;o &eacute; afetado pela Ley de Medios e que o regime de licen&ccedil;as estabelecido pela norma n&atilde;o coloca em risco a sustentabilidade econ&ocirc;mica do grupo. A decis&atilde;o era o passo que faltava para que a lei pudesse contribuir, efetivamente, com a democratiza&ccedil;&atilde;o dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o da Argentina. Na pr&aacute;tica, a democracia venceu as corpora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O artigo 161 consiste em um dos principais instrumentos no combate ao monop&oacute;lio, pois estabelece que cada grupo deve ter at&eacute; 24 licen&ccedil;as de TV &agrave; cabo e 10 licen&ccedil;as de servi&ccedil;os abertos (TV aberta, r&aacute;dios AM e FM). Diz ainda que, caso os titulares das licen&ccedil;as de servi&ccedil;os n&atilde;o atendam &agrave; lei no prazo estabelecido, elas podem ser transferidas. Significa, portanto, que as empresas dever&atilde;o devolver o excesso de concess&otilde;es que possuem, uma adequa&ccedil;&atilde;o que dever&aacute; ser feita, de acordo com a resolu&ccedil;&atilde;o aprovada hoje, no prazo de um ano.<\/p>\n<p>A&nbsp;Ley de Medios j&aacute; promove medidas importantes. Por meio da legisla&ccedil;&atilde;o, foi poss&iacute;vel instalar 152 r&aacute;dios em escolas de primeiro e segundo graus, 45 TVs e 53 r&aacute;dios FM universit&aacute;rias, al&eacute;m de criar o primeiro canal na TV aberta e de 33 canais de r&aacute;dio vinculados aos povos origin&aacute;rios. Agora, as mudan&ccedil;as poder&atilde;o ser mais profundas, estruturais. O Clar&iacute;n, tomado como exemplo pela dimens&atilde;o que possui, n&atilde;o poder&aacute; mais ter a posse de jornais, revistas e editora; emissoras de r&aacute;dio; televis&atilde;o aberta (o Canal 13, vinculado ao grupo, disputa a lideran&ccedil;a do mercado com Telefe, este ligado &agrave; Telef&oacute;nica) e de televis&atilde;o por assinatura, servi&ccedil;o que abrange mais de 70% dos lares daquele pa&iacute;s.<\/p>\n<p>A decis&atilde;o firmada hoje &eacute; o reconhecimento de reivindica&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas dos movimentos sociais da Argentina. Vale ressaltar que a proposta foi produzida a partir de di&aacute;logos com regramentos internacionais sobre direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, fixados pelas Organiza&ccedil;&otilde;es das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, pela Organiza&ccedil;&atilde;o Internacional do Trabalho e por leis antimonop&oacute;licas existentes em diversos pa&iacute;ses. Mas mais que isso: ela &eacute; fruto de ampla mobiliza&ccedil;&atilde;o popular, que teve como marco a funda&ccedil;&atilde;o, em 2004, da Coalici&oacute;n por uma Radiodifusi&oacute;n Democr&aacute;tica, f&oacute;rum que reuniu centenas de personalidades e organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, dentre as quais centrais sindicais, universidades, sindicatos e movimentos sociais.<\/p>\n<p>O caminho para esta conquista foi longo. Ainda em 2004, a Coalici&oacute;n apresentou 21 propostas para democratizar a radiodifus&atilde;o no pa&iacute;s. A escolha do n&uacute;mero &lsquo;vinte e um&rsquo; n&atilde;o foi por acaso: era o mesmo n&uacute;mero de anos passados desde o fim da Ditadura Militar, regime que havia sancionado a Lei 22.285, que at&eacute; 2009, organizou o sistema de comunica&ccedil;&atilde;o no pa&iacute;s. Dentre os pontos da proposta popular, estava a concep&ccedil;&atilde;o norteadora da comunica&ccedil;&atilde;o como um direito humano: &ldquo;Toda persona tiene derecho a investigar, buscar, recibir y difundir informaciones, opiniones e ideas, sin censura previa, a trav&eacute;s de la radio y la televisi&oacute;n, en el marco del respecto al Estado de derecho democr&aacute;tico y los derechos humanos.&rdquo; (COALICI&Oacute;N&#8230;, 21 Puntos B&aacute;sicos por el derecho a la Comunicaci&oacute;n, 2004).<\/p>\n<p>Essa n&atilde;o foi a &uacute;nica inova&ccedil;&atilde;o. De forma corajosa, os movimentos inscreveram na norma a divis&atilde;o, de forma equ&acirc;nime, do espectro eletromagn&eacute;tico entre tr&ecirc;s prestadores &ndash; p&uacute;blico, comercial e de gest&atilde;o privada sem fins de lucro &ndash; deixando, portanto, resguardados 33% do espa&ccedil;o para entidades sem fins de lucro. H&aacute;, ainda, reservas para o Estado nacional; entes da federa&ccedil;&atilde;o; poder municipal; canais universit&aacute;rios, etc. No fundo, est&aacute; a concep&ccedil;&atilde;o da comunica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o como um neg&oacute;cio, mas como um servi&ccedil;o que deve ser voltado ao interesse p&uacute;blico.<\/p>\n<p>A partir de hoje, o continente latinoamericano passa a discutir comunica&ccedil;&atilde;o a partir de outro patamar. N&atilde;o mais tendo como refer&ecirc;ncia apenas a concentra&ccedil;&atilde;o e o controle dos meios por parte das elites pol&iacute;ticas locais. Trata-se de uma ruptura hist&oacute;rica que pode abrir caminhos para que o direito &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o sejam exercidos, na pr&aacute;tica, por um n&uacute;mero muito maior de sujeitos, em compara&ccedil;&atilde;o com o que hoje vemos. Ao ser considerada constitucional, a Ley de Medios passa a ser, mais que nunca, uma refer&ecirc;ncia normativa para a democratiza&ccedil;&atilde;o das comunica&ccedil;&otilde;es e para a garantia da liberdade de express&atilde;o em todo o mundo.<\/p>\n<p><em>* Helena Martins &eacute; jornalista, mestra em Comunica&ccedil;&atilde;o Social pela UFC e integrante do Conselho Diretor do Intervozes<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Suprema Corte da Argentina declarou a constitucionalidade da Lei de Servi&ccedil;os de Comunica&ccedil;&atilde;o Audiovisual, aprovada em 2009. Na pr&aacute;tica, a democracia venceu as corpora&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1772],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27588"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27588"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27588\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27588"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27588"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27588"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}