{"id":27586,"date":"2013-10-28T17:22:00","date_gmt":"2013-10-28T17:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/wordpress\/?p=27586"},"modified":"2013-10-28T17:22:00","modified_gmt":"2013-10-28T17:22:00","slug":"a-infancia-roubada-na-publicidade-da-couro-fino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/?p=27586","title":{"rendered":"A inf\u00e2ncia roubada na publicidade da Couro Fino"},"content":{"rendered":"<p>A garota-propaganda tem as unhas pintadas de vermelho, sombra nos olhos, r&iacute;mel, batom e blush. Ela leva as pr&oacute;prias roupas para o ensaio fotogr&aacute;fico, mas o produtor sugere que ela fique s&oacute; de calcinha. Ficaria mais condizente com a mensagem da campanha publicit&aacute;ria. O cen&aacute;rio est&aacute; preparado. Ela finge se maquiar em frente ao espelho, coloca colares e pulseiras de p&eacute;rola. Ela manda beijo, faz movimento com o corpo para os cabelos voarem e faz pose sensual em cima de salto alto. Se o caso j&aacute; n&atilde;o fosse conhecido, dificilmente se pensaria que a descri&ccedil;&atilde;o &eacute; de uma menina de apenas tr&ecirc;s anos. As pe&ccedil;as publicit&aacute;rias que comp&otilde;em a campanha da marca cearense de sapatos Couro Fino foram lan&ccedil;adas nas redes sociais este m&ecirc;s em refer&ecirc;ncia ao Dia das Crian&ccedil;as. O conte&uacute;do incomodou logo de cara, o que motivou centenas de cr&iacute;ticas, feitas tamb&eacute;m pelos pr&oacute;prios consumidores da marca, al&eacute;m de 70 notifica&ccedil;&otilde;es em apenas dois dias no Conselho Nacional de Autorregulamenta&ccedil;&atilde;o Publicit&aacute;ria, o CONAR. Segundo nota de esclarecimento da Couro Fino, a rea&ccedil;&atilde;o foi provocada por &quot;interpreta&ccedil;&atilde;o equivocada da arte veiculada&quot;.<\/p>\n<p>Erro de interpreta&ccedil;&atilde;o em grande quantidade representa, no m&iacute;nimo, uma falha dos c&oacute;digos utilizados. Levando em conta o uso de uma crian&ccedil;a para comunicar algo que n&atilde;o diz respeito ao universo infantil, interpretando uma mulher adulta e na qual o alvo do consumo s&atilde;o as pr&oacute;prias adultas, a ag&ecirc;ncia publicit&aacute;ria Salto Alto pecou frente aos princ&iacute;pios estabelecidos pelo CONAR e &agrave;s normas do Estatuto da Crian&ccedil;a e do Adolescente (ECA). Segundo artigo 37 do C&oacute;digo Nacional de Autorregulamenta&ccedil;&atilde;o Publicit&aacute;ria, &quot;crian&ccedil;as e adolescentes n&atilde;o dever&atilde;o figurar como modelos em an&uacute;ncio de servi&ccedil;o incompat&iacute;vel com sua condi&ccedil;&atilde;o&quot;. J&aacute; o ECA deixa claro em seus artigos 17 e 18 o respeito &agrave; inviolabilidade da integridade f&iacute;sica, ps&iacute;quica e moral da crian&ccedil;a e do adolescente, abrangendo a preserva&ccedil;&atilde;o da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, ideias e cren&ccedil;as, dos espa&ccedil;os e objetos pessoais.<\/p>\n<p>O maior problema em quest&atilde;o &eacute; a naturaliza&ccedil;&atilde;o do tipo de conte&uacute;do e o entendimento ing&ecirc;nuo e preocupante de que uma brincadeira de crian&ccedil;a (brincar de ser gente grande), como declarou a marca, n&atilde;o justificaria esse olhar negativo &agrave;s pe&ccedil;as. A pr&oacute;pria m&atilde;e da menina, que chegou a dizer que a repercuss&atilde;o foi uma grande &quot;tempestade em copo d&#39;&aacute;gua&quot;, se preocupou s&oacute; agora com a imagem da filha, que &quot;n&atilde;o merecia passar por isso&quot;.<\/p>\n<p>O problema n&atilde;o &eacute; a brincadeira, mas o est&iacute;mulo a um comportamento que suspende desde cedo o interesse da crian&ccedil;a em ser apenas crian&ccedil;a. A&ccedil;&otilde;es do g&ecirc;nero n&atilde;o podem mais ser somente interpretadas como brincadeira, porque ultrapassam esse limite. Falam de um comportamento que extrapola a fantasia e que interfere diretamente na forma&ccedil;&atilde;o de nossas crian&ccedil;as. Cada vez mais cedo e com mais frequ&ecirc;ncia, meninos e meninas revelam um processo acelerado do que ficou chamado de adultiza&ccedil;&atilde;o. Quando os pequenos passam a se preocupar mais com a apar&ecirc;ncia do que com as brincadeiras, o universo infantil j&aacute; n&atilde;o tem mais espa&ccedil;o. E uma inf&acirc;ncia mal vivida desencadeia uma s&eacute;rie de problemas quando essa crian&ccedil;a, enfim, se torna uma pessoa adulta.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vidas de que a m&iacute;dia &eacute; um dos grandes respons&aacute;veis por esse fen&ocirc;meno, ao comunicar, o tempo todo, valores, comportamentos e necessidades que, se impactam os adultos, atingem com muito mais facilidade as crian&ccedil;as, em processo de forma&ccedil;&atilde;o de identidade e de compreens&atilde;o dos c&oacute;digos sociais. Basta uma breve an&aacute;lise do conte&uacute;do midi&aacute;tico que chega &agrave;s nossas casas e &eacute; consequentemente consumido pelo segmento infanto-juvenil para identificar uma s&eacute;rie de est&iacute;mulos que tem grande chance de interferir negativamente no comportamento de crian&ccedil;as e adolescentes: apelo er&oacute;tico, imposi&ccedil;&atilde;o de padr&otilde;es de beleza que n&atilde;o condizem com nossa pluralidade est&eacute;tica, est&iacute;mulo ao consumismo, ridiculariza&ccedil;&atilde;o dos que s&atilde;o tidos como diferentes dos padr&otilde;es pr&eacute;-estabelecidos, viol&ecirc;ncia, intoler&acirc;ncia, preconceitos de todos os tipos.<\/p>\n<p>Tanto do ponto de vista individual, no que se refere &agrave; exposi&ccedil;&atilde;o indevida da crian&ccedil;a pela m&iacute;dia e a viola&ccedil;&atilde;o de seu direito, quanto do ponto de vista da imagem de crian&ccedil;as e adolescentes em nossa sociedade &#8211; muitas vezes representadas de forma apelativa e estigmatizante pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o de massa -, o caso da campanha da Couro Fino &eacute; emblem&aacute;tico. E nos aponta a necessidade de amplia&ccedil;&atilde;o de mecanismos de fiscaliza&ccedil;&atilde;o e controle social das produ&ccedil;&otilde;es midi&aacute;ticas, incluindo a&iacute; as campanhas publicit&aacute;rias.<\/p>\n<p>Assim como os meios precisam ser regulados sobre a qualidade do servi&ccedil;o que prestam, a publicidade necessita de regras claras de produ&ccedil;&atilde;o e veicula&ccedil;&atilde;o. Debates sobre a publicidade infantil se arrastam hoje no campo jur&iacute;dico e legislativo, ao mesmo tempo em que a autorregulamenta&ccedil;&atilde;o, de forma isolada, j&aacute; se mostrou insuficiente para garantir a prote&ccedil;&atilde;o dos consumidores e cidad&atilde;os. Da&iacute; a import&acirc;ncia do monitoramento permanente da sociedade civil.<\/p>\n<p>A propaganda da Couro Fino n&atilde;o foi a primeira, nem ser&aacute; a &uacute;ltima a violar direitos fundamentais. Mas o impacto negativo na campanha da marca cearense, por meio das cr&iacute;ticas que circularam nas redes sociais e das den&uacute;ncias junto ao CONAR, deixa claro que a popula&ccedil;&atilde;o est&aacute; atenta, se posicionando e cobrando, exigindo uma comunica&ccedil;&atilde;o &#8211; seja no notici&aacute;rio da manh&atilde; ou na campanha publicit&aacute;ria -, que esteja comprometida com o interesse p&uacute;blico e a efetiva&ccedil;&atilde;o de uma sociedade verdadeiramente democr&aacute;tica.<\/p>\n<p>* Natasha Cruz e Raquel Dantas s&atilde;o jornalistas e integrantes do Intervozes no Cear&aacute;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Campanha da marca cearense &eacute; mais uma a mostrar como a publicidade tem distorcido valores e contribu&iacute;do culturalmente para uma inf&acirc;ncia com cara adulta<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[42],"tags":[1772],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27586"}],"collection":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=27586"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/27586\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=27586"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=27586"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obscom.intervozes.org.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=27586"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}